domingo, 13 de março de 2011

A intolerância dos dilmistas

Espanta a intolerância para com críticas exibida, nas redes sociais, por muitos dos apoiadores incondicionais de Dilma Rousseff.

Esse é, muito provavelmente, um dos principais contra-efeitos do desenho de forças que, nos últimos três anos, dominou a blogosfera: acostumados a uma divisão maniqueísta, em que de um lado se irmanavam os defensores do lulopetismo e os críticos da mídia e de outro os adversários representados pelo tucanato e pela mídia amiga, os primeiros ressentem-se de discordâncias advindas do próprio campo da esquerda, e reagem com pedras à mão – um “método” antes quase exclusivo de trolls tucanos.

Além da agressão grosseira pura e simples, recorrente nas redes sociais, há as tentativas de desqualificação pessoal e as acusações imaginosas: esta semana, até a de “bullying virtual” foi assacada...

Há, ainda, a falsa generalização, que consiste em dizer que alguém “matou o governo Dilma” ou que escreveu o “epitáfio” deste só porque fez meia dúzia de críticas pontuais ao início da gestão.


Blindagem autoritária
Mas, por mais que os intransigentes lamentem, Dilma e seu governo não são entes sagrados, inatacáveis, que devam ser preservados, imaculados, em uma bolha à prova de criticismo.

Tampouco o fato de que a gestão apenas se inicia, e tem muito tempo para se acertar – como espera-se que o faça - equivale a um dado que desautoriza a priori qualquer crítica - a não ser que o grau de autoritarismo seja tamanho que se queira estabelecer a partir de quando é permitido fazer críticas ao governo.

Ademais, a gestão tem menos de três meses, mas tomou tantas medidas controversas, contrárias ao discurso de campanha, que tem descontentado a muitos dos que a apoiaram entusiasticamente, enquanto surpreende de forma positiva a setores conservadores e da mídia corporativa, os quais se esforça para cooptar.


Política e fé
Dentre as estratégias genéricas de desqualificação, uma repetida com frequência pela pequena parcela dos apoiadores incondicionais do governo que reconhecem um mau começo é a de que devemos dar tempo ao tempo e, como ouvi um dia desses, que “no começo todos [os críticos] são PSOL, depois se acalmam”.

Além de não concordar com a generalização indevida de enquadrar qualquer crítica como alinhada ao PSOL – estratagema que pode vir a ser entendido, a depender do interlocutor, como uma forma de desqualificação -, tal postura espanta-me não apenas pela transformação da política em uma questão de fé, de certeza nas benesses vindouras, com todo o irracionalismo e fanatismo que tal mutação acarreta, mas pela dissociação pré-estabelecida entre os atos do governo e suas imediatas conseqüências e responsabilizações.

Pois achar que tudo é apenas uma questão de tempo equivale a isentar automaticamente e a priori a atual administração de todos os eventuais erros do presente em nome de bênçãos futuras que asseguradamente virão. “Como sabem que virão?” pergunto. Porque, respondem, a despeito dos dados atuais negativos, a fé cega nos diz que isso ocorrerá. Qualquer semelhança com sistemas de crença religiosa não é mera coincidência.

Outros preferem lembrar que o governo Lula também começou mal, com cortes orçamentais e "aperto de cintos", mas terminou em alto estilo, como se a administração do país fosse uma receita de bolo, bastando segui-la para obter os mesmos resultados. Desprezam, pois, o alerta do velho Marx, segundo o qual a história só se repete como farsa.


Egos feridos
Repetida amiúde, outra estratégia de desqualificação das opiniões discordantes é tachar seu emissor de arrogante e presunçoso, que “se acha a última batata frita do pacote”. À parte o dado cômico de tal “crítica” – e o que ela revela em termos de feridas egóicas - o que chama atenção é a renúncia ao questionamento e à crítica das ideias emitidas, em prol do ataque pessoal irrespondível.

Opiniões, a princípio, são feitas para ser refletidas, eventualmente aceitas, relativizadas ou rejeitadas. Descartá-las sem sequer considerá-las, desviando a atenção para uma alegada falta de qualificação ou para imaginosos traços de caráter de quem as emite, equivale a apostar no obscurantismo. Uma das grandes conquistas da internet é justamente o fim do monopólio da opinião por experts com anel de doutor no dedo e a substituição destes por cidadãos e cidadãs cujo trabalho será julgado pela pertinência (ou falta de pertinência) intrínseca ao material que produzem. Naturalmente, o que agrada a gregos tenderá a não agradar a troianos, mas, ao final, a tendência é prevalecer uma forma mais democrática de seleção.


Linchamento virtual
A despeito da natureza volátil da internet, penso que o ideal seria que àqueles que expressam suas opiniões de forma equilibrada, analítica, sem agredir a ninguém, fossem reservadas reações igualmente polidas, argumentativas e não-agressivas, ainda que discordantes.

Pois reagir com pedras nas mãos a comentários educados é coisa de turbas enfurecidas, não de quem diz professar a esperança na promoção da justiça social e no desenvolvimento do país por meios democráticos.

Do contrário, acabaremos por reproduzir, no seio da esquerda, a intolerância e a truculência que tanto criticamos na militância virtual tucana.


(Imagem retirada daqui)

6 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Texto sensacional! Parabéns ao autor. Merece um banner no meu blog.

http://brasilpaisdetolos.blogspot.com

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Disse há algum tempo já:

"Muitos petistas, quando atacados com fatos, desconversam, citam coisas sem nenhuma relação ou simplesmente atacam. Se você pergunta pelas alianças, se elas não estariam fazendo o governo retroceder e abandonar bandeiras, logo te perguntam como o PSOL governaria. Mas não respondem a pergunta.

Sarney, Collor, PMDB, Kassab e até a Katia Abreu. Tudo se chama governabilidade. Votos. Só isso importa.

Se você questiona o PNBL não-estatal que vem sendo proposto, logo te cortam dizendo que o governo fez mais avanços que qualquer outro na história. Mas também não respondem nada.

Se você questiona a possibilidade de uma Ley de Medios séria mesmo com a amizade de Dilma com o chamado PIG, logo dizem que ela está usando uma estratégia maravilhosa e está dando lição na mídia.

Questionar é ser alvo. Não importa de que lado você esteja. Ou você é de direita ou "Psolista", o que, para a turba raivosa, dá no mesmo.

Enquanto isto a pressão necessária sobre o governo não existe, ele fica blindado de críticas - e agora elogiado até pela mídia!"

http://tsavkko.blogspot.com/2011/03/blogosfera-reage-aos-retrocessos-ou-o.html

Clara Gurgel disse...

Concordo contigo, Maurício! Viva a DEMOCRACIA, sempre! "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las."

Miguel do Rosário disse...

Ah, Caleiro, não seja tão melindroso... Debate é debate. Você critica, eu critico a sua crítica, você me critica de volta. Ninguém é imune. Você pode criticar a Dilma quanto você quiser. É democrático, saudável e necessário. Mas é igualmente saudável que você aceite também ser criticado pelo que falou. Desde que ninguém lhe fale um palavrão descabido ou ataque sua honra, não fiquemos com melindres excessivos, senão vira uma vitimização tola. Política é uma coisa séria, interesses nacionais estão em jogo, então a gente discute com ênfase, com fé, com paixão, mas sempre tentanto manter a objetividade e o equilíbrio (embora nem sempre conseguindo...).

Abraço, e desculpe se te "trollei" lá no twitter ou no blog. Não era minha intenção. Só quero debater, o mais tranquila e educamente possível.

Miguel

Maurício Caleiro disse...

Pois, é, Miguel, mas a questão é que HOUVE repetidos palavrões e ataques à minha honra (e à de outros e OUTRAS que ousaram questionar o dilmopetismo) - alguns dos quais ainda disponíveis nos comentários a posts anteriores.

Não há nada de vitimização nisso. Acho a crítica sempre bem-vinda - e usualmente nem respondo para que fique clara a (o)posição de quem critica.

No post, falo de procedimentos específicos, desqualificadores, e os identifico como tais.

Quanto à nossa discussão, é do jogo, não tenho o mínimo rancor - tanto que preferi mantê-lo no anonimato. Mas, registre-se, quem chamou de "bullying virtual" o que eram meras críticas educadas foi você, não eu. E isso sim é #mimimi e vitimização.

Um abraço,
maurício.

Marcelo Delfino disse...

Ah, eu edito vários blogs e nem todos contém comentários elogiosos à minha pessoa. Aceito críticas numa boa, e as publico nas áreas de comentários. Algumas até republico como postagens à parte. São poucos os que partem para a baixaria e me xingam mesmo. O pior xingamento que me fizeram foi "petralha". E olha que estou longe de ser governista ou petista. Pelo menos os governistas deixam de me encher a paciência.