sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Oportunismo e hipocrisia: o aumento dos parlamentares

O aumento de 62% que os parlamentares federais concederam a si mesmos, elevando seus salários para R$26,7 mil, tem provocado justa revolta na sociedade, não só devido aos números envolvidos, mas ao oportunismo da medida.

Soma-se a isso o fato de o reajuste beneficiar atores políticos que notoriamente trabalham pouco e desfrutam de um sem-número de regalias, enquanto, sempre sujeitos a contingências orçamentárias, os salários dos cidadãos comuns são reajustados a conta-gotas, com aumentos reais que mal cobrem o aumento do custo de vida.


Burocracia e partidos
É fato que a alta burocracia de um país deve ser remunerada de acordo - não só para desestimular a corrupção, mas como forma de atrair os melhores e mais preparados quadros. Porém tal constatação não justifica o caso em questão, e por duas razões.

Primeiro por uma peculiaridade preocupante da democracia brasileira: o custo de eleição de cada parlamentar faz não apenas que a atuação de muitos deles esteja diretamente atrelada aos grupos econômicos que financiam suas campanhas, mas que se mostrem por demais suscetíveis à atuação dos lobbies que agem no Congresso, com tudo que isso implica em corrupção potencial (a qual, por advir da esfera privada, a mídia faz vista grossa).

Segundo, porque tal aumento salarial, referente a servidores públicos e incidindo sobre o orçamento federal, teria obrigatoriamente de ser previamente discutido pela sociedade.


Oportunismo e hipocrisia
Mas nada disso foi levado em conta pela maioria de nossos parlamentares, os quais, como convêm aos dissimuladores, agem ao apagar das luzes do mandato e do ano - quando as atenções do público estão, em sua maioria, voltadas ao hedonismo consumista e ébrio das festas de final de ano.

Não se justifica, no entanto, o esforço da mídia e de setores da internet para debitar o aumento dos parlamentares exclusivamente na conta dos partidos governistas – leia-se PMDB e, sobretudo, PT. Se estes têm, evidentemente, a sua (grande) parcela de culpa - agravada, no caso do Partido dos Trabalhadores, por contrariar a sua posição histórica quanto à questão -, ela deve ser igualmente atribuída ao PSDB, DEM e demais partidos de oposição, que também votaram a favor da medida – com o agravante que a adesão ao mega-aumento contraria de maneira frontal o discurso moralista e “ético” do qual prioritária e rotineiramente se valem para fazer oposição. Não há santos nessa história.

O PSOL foi o único partido a votar contra a medida, acompanhado por parlamentares avulsos de outros partidos, totalizando os 7% de rejeição ao aumento, contra 93% a favor. Mas ninguém abdicou dos vencimentos extras. Ou seja: criticam uma medida impopular com a certeza de que esta seria aprovada por seus pares, saem bem na foto, mas na verdade desfrutam, do mesmo jeito, do aumento imoral.


Ameaças à democracia
Entretanto, o fato de o aumento ser indecente e abusivo não justifica, porém, a campanha que, deflagrada por um dublê de humorista e garoto-propaganda do DEM, se espalha por setores da internet, clamando para que se ponha fogo no Congresso. Trata-se de uma atitude perigosamente irresponsável, que atenta contra os valores da democracia.

Seria, a meu ver, desejável que o povo saísse de seu imobilismo bovino e se mobilizasse contra esse aumento salarial e o que ele significa – mas que o fizesse visando ao aprimoramento institucional da democracia brasileira. Botar fogo em congresso é escancarar a avenida política para o autoritarismo e a corrupção às escuras que promove.

O caminho para reverter os ataques acintosos do Legislativo, do Judiciário e do Executivo ao avanço republicano da democracia no Brasil não comporta atalhos. Ele só se dará através da participação ativa da sociedade na política, em época de eleição ou não. Atitudes irracionais (como defender a destruição do Congresso) ou passivas (como negar a política e votar nulo) só facilitam a ação do que há de mais nocivo e deletério na política nacional.

Um comentário:

puebla disse...

E da mesma forma com que foi feita a corrente da ficha limpa que movimentou milhões de assinaturas é hora de se fazer um novo abaixo assinado exigindo a interrupção do descalabro que nossos parlamentares nos impugnam que é legislarem em causa própria concedendo aumentos salariais aos mesmos ao seu bel prazer. A disparidade é de sessenta vezes o salário mínimo. Carai!