domingo, 5 de dezembro de 2010

Alemão: a panacéia ilusória

O Brasil e sua mídia vivem um daqueles momentos de hipnose coletiva em que a razão dá lugar a sentimentos longamente represados e a catarse se dá nos dedos engatilhados do Exército de Libertação Nacional que ora ocupa o Complexo do Alemão.

Trata-se de um filme já visto e seu final, com a continuação de um estado de coisas estrutural, que não se restringe à “comunidade” x ou ao morro y e portanto não pode ser debelado com a ocupação de um desses lugares, é por demais conhecido. Ainda assim, como convém ao totalitarismo das turbas, que não suportam o contraditório ou o dissonante, aos que ousam desvelar a falsa panacéia cabe o rótulo de defensor de traficantes ou a indefectível acusação de apologia dos “direitos humanos de bandidos”. Nada de novo sob o sol.

Dessa fúria vingativa de “cidadãos inteiramente loucos, com carradas de razão” brota a disposição risonha – mais um “silêncio sorridente” – ante a suspensão temporária dos direitos humanos – para os pobres, como sempre. E exultam ante a “conquista” do Alemão como se da Normandia se tratasse, mas se mantêm calados frente às denúncias cada vez mais frequentes de violência e desmandos policiais contra aqueles cujo único crime é morar, com todo o conforto, nas faixas de Gaza fluminenses: "pobres são como podres".


Política e mídia
A essa visão "customizada" dos direitos humanos, variável conforme estrato social e CEP, acrescenta-se, como hoje em dia não poderia deixar de ser, uma pitada de maniqueísmo político, em que os que ousam criticar a violência policial ou a inutilidade da operação a médio prazo são colocados no index como inimigos da sacrossanta tríade UPP-Sérgio Cabral-Lula.

Nesse cenário, é confortador saber que setores da própria Justiça têm vindo a público protestar contra a violação sistemática da lei que, tal como perpetrada, a invasão do Alemão representa. É o caso da Associação Juízes para a Democracia, que divulgou uma nota significativamente intitulada "À margem da lei todos são marginais".

À mídia (idealmente) caberia – convém sempre lembrar – trazer racionalidade ao debate. Mas, a imprensa que ora temos no Brasil trata-se, sabemos, de um caso perdido. Aliás, o que havia para ser dito sobre seu comportamento no episódio o foi, com brilho, por Sylvia Moretzsohn, no Observatório da Imprensa – e, de qualquer forma, não são tais questões que queremos neste post debater, e sim os processos de manipulação ideológica que nos trouxeram a este estado de coisas.


A culpa do usuário
Um dos discursos mais bem-sucedidos em relação às drogas nos últimos tempos – encampado pela publicidade oficial do Ministério da Saúde durante o governo FHC – é o que afirma serem os usuários os culpados pela violência urbana, já que, com seu hedonismo aloprado, “financiam” o tráfico de drogas. Essa lenga-lenga “pegou”. Só ficou faltando explicar como é que cidades que têm um consumo de drogas per capita muito mais alto do que o Rio de Janeiro - como Londres, Nova Iorque ou mesmo Roma e Paris – não apresentam o cenário deflagrado da Cidade Maravilhosa.

Trata-se de uma amnésia conveniente, da qual a mídia se vale de forma recorrente quando se trata de questões sociais: levar tais fatores em conta significa atentar para o detalhe de que há um enorme contingente de miseráveis – um exército de reserva permanente - pronto para ser cooptado por qualquer migalha para atividades ilegais, sejam o tráfico de drogas, de arma, seqüestros, roubos e/ou que mais der na telha dos elias malucos da vida. - “É a economia, estúpido” -, já decretara um filósofo marqueteiro.

É claro que no mundo colorido das pollyannas tupiniquins não haveria consumo de drogas e, não havendo consumo de drogas, não haveria violência urbana. Só que no mundo real nem uma coisa nem outra vai acontecer. Primeiro, porque seres humanos comprovadamente tomam drogas ao menos desde o Antigo Egito e, ainda mais depois delas terem sido, a partir dos anos 60, incorporadas como elementos da vida contemporânea, não é agora, na sociedade da insatisfação administrada, que vão parar de tomá-las.

Segundo – e certamente mais grave -, porque mesmo na hipótese excêntrica de o sonho poliânico se realizar e ninguém mais fumar maconha ou cheirar cocaína, é pouco provável que o pessoal do tráfico, armado até os dentes, desista do comércio de entorpecentes e passe a ganhar a vida honestamente, vendendo maçãs-do-amor e algodão doce nas ensolaradas praças cariocas – aí é que vão barbarizar para valer, valendo-se de seu arsenal de fuzis e granadas.


Sem panacéias
Isso significa que se deve abdicar do combate ao tráfico de drogas? De forma alguma, pelo contrário. Só que esse é, inescapavelmente, um combate de longo prazo, que requer a combinação articulada e multitudinal de estratégias de conquista de território, de aumento da presença do Estado em áreas periféricas, de dissolução de redes e vínculos criminais, de combate à corrupção policial e de um encaminhamento mais maduro e contemporâneo - e menos moralista e irreal - à questão das drogas, que, no que concerne ao usuário, deve ser tratada como questão de saúde pública.

Mas ilude-se quem quer. A fé sobre-humana na invasão do Alemão como momento redentor da cidadania, não obstante patética, chega a ser comovente como manifestação de neurose coletiva. Porém, como apontou o impoluto Paulo Sérgio Pinheiro em artigo para colecionar, “A batalha no Alemão não vai vencer o crime organizado”. É uma pena. Mas para que isso ocorra é preciso que a razão se sobreponha ao fanatismo.


(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Mariana disse...

"a imprensa que ora temos no Brasil trata-se, sabemos, de um caso perdido". é preciso descriminalizar o uso das drogas e seu comércio. todos sabemos dos muitos e variados interesses em manter determinadas drogas proibidas, enquanto a indústria farmacêutica lucra com outras tantas liberadas, ainda quando vendidas sob controle médico. isso tudo é muito complexo, embora o nome "complexo do alemão" não esteja sugerindo muito coisa ao fanatismo de plantão.

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