terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Dilma e o Irã

O país que Dilma Rousseff assumirá em 1º. de janeiro ocupa uma posição no mundo e tem uma relevância estratégica para a geopolítica global muito diferentes das que ostentava quando o atual presidente tomou posse, oito anos atrás.

Fatores externos - como a intensidade de uma crise financeira gerada no coração do “mundo desenvolvido” – e internos – como a descoberta de enormes reservas de petróleo em solo brasileiro – contribuem para essa nova configuração, mas o fator ativo que a moldou foi a corajosa política externa do governo Lula. Embora caracteristicamente positiva, ela trará em seu bojo grandes desafios para a presidenta eleita.


O legado de Lula
Como reconhecem as principais publicações e autoridades internacionais, uma das principais novidades trazidas pela Presidência de Lula deu-se no âmbito das relações exteriores. Tentativas tímidas de diversificar a política internacional do país para além da órbita norte-americana haviam sido feitas, amiúde, anteriormente – como na aproximação do governo Getúlio Vargas com o nazifascismo ítalo-germânico nos anos 30 ou no acordo nuclear com a Alemanha promovido por Geisel quatro décadas depois -, mas, além de episódicas e pouco efetivas, não se comparam à verdadeira reestruturação estratégica da diplomacia promovida pelo governo que ora se encerra.

Pois, ao recusar o Alca e suas condicionantes limitadoras e reforçar tanto a orientação Sul-Sul das alianças internacionais do país quanto a aproximação com a China e com a Rússia, o atual governo, além de resguardar o Brasil das piores conseqüências da crise econômica originada nos EUA (as quais o México ora amarga com graves efeitos sociais), estabeleceu um parâmetro e um norte para a ação diplomática, os quais, tudo indica, devem ser seguidos e aprofundados pela presidência Dilma.


Tricky questions
A atual configuração, embora mais condizente com um quadro internacional no qual novos atores assomam à cena principal, fazendo com que os EUA percam o protagonismo exclusivo (o que não significa necessariamente o fim do império norte-americano, como alguns precipitadamente apregoam), não deixa de apresentar contradições e situações complicadas, tricky, que não se resolvem através de binarismos definitivos, apoiar ou rejeitar, aliado ou inimigo.

O fato de não restarem dúvidas de que nossa velha mídia adota, rotineiramente, dois pesos e duas medidas para examinar tais contradições – enfatizando o desrespeito pelos direitos humanos no Irã mas fechando os olhos para o massacre israelense contra os palestinos, ou denunciando as prisões arbitrárias promovidas pelo regime cubano enquanto finge esquecer de Guantánamo -, embora reprovável como prática jornalística, não torna o cenário menos contraditório ou os problemas menos reais.

Não é de bom tom, entre setores da esquerda e da militância virtual, lembrar isso, mas a verdade se impõe - e o fato de o Irã, com sua milenar e exuberante herança estético-cultural de ex-Império da Pérsia, ter se tornado presa do autoritarismo religioso mais retrógrado em grande parte graças às barbeiragens interesseiras dos EUA via CIA (notadamente desde a deposição de Mossadegh em 1953), não obstante lamentável, não torna o atual regime dos aiatolás mais palatável.

Pois é simplesmente inaceitável que, em pleno século XXI, mulheres e homossexuais sejam não só são tratados como cidadãos de segunda classe, mas eventualmente submetidos a castigos e penas bárbaros – incluindo chicotadas e morte por apedrejamento. Os Direitos Humanos, os quais a humanidade levou séculos para consagrar na letra da lei, se sobrepõem, axiologicamente, a interesses político-ideológicos e ao anti-americanismo.


Nova diplomacia
A presidenta Dilma já deixou claro, em entrevista ao Washington Post, ser enfaticamente contra as formas repressivas adotadas atualmente no Irã:

“Eu não endosso o apedrejamento. Eu não concordo com práticas que possuem características medievais [quando se trata de] mulheres. Não há nuances; não faço concessões nesse assunto”.
Embora ressaltando a importância de atuar para a construção da paz no Oriente Médio (e criticando abertamente o belicismo norte-americano), Dilma foi além, divergindo do atual governo em relação ao Irã e demonstrando que atuará de outra forma:

“Eu me sentiria desconfortável, como mulher eleita Presidente, não dizendo nada contra o apedrejamento. Minha posição não vai mudar quando eu assumir o cargo. Eu não concordo com a forma em que o Brasil votou [se abstendo de condenar o Irã na ONU, por violação dos direitos humanos]”.
Ainda assim, e levando em conta outras declarações da presidenta eleita em relação ao tema, não parece crível – nem desejável – que a posição de Dilma resulte em uma reorientação substancial dos rumos da política externa no atual governo, mas em um ajuste fino de sintonia, o qual, se bem executado, tende a consolidar a autonomia das relações exteriores do país em relação aos EUA e a melhorar ainda mais a imagem internacional do governo brasileiro – notadamente em influentes setores do ativismo europeu -, recolocando no âmago da discussão a centralidade da questão de gêneros e do respeito aos Direitos Humanos no mundo contemporâneo.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

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