domingo, 26 de dezembro de 2010

Governo Dilma: o machismo como arma da mídia

Um dos principais desafios do governo Dilma Rousseff será resistir à artilharia de preconceitos machistas que, com certeza e de forma intermitente, a velha mídia disparará contra a primeira Presidenta eleita do país.

Há dois exemplos próximos que nos permitem dar como certa a adoção de tal estratégia para o jogo de derruba-presidente rotineiramente adotado por nossa partidarizada imprensa: o modo como a própria Dilma foi tratada no período eleitoral (com direito até a um texto tragicômico, de tonalidades lombrosianas, de uma colunista de Época) e, como previu Rodrigo Vianna, o “machismo macabro” que vem sendo praticado pelos jornais argentinos contra Cristina Kichner, notadamente após a morte de seu marido Nestor.

Nesse sentido – e sem entrar no mérito de quem tem ou não razão na briga – é notório que o acirramento da oposição, a níveis aparentemente irreconciliáveis, entre a chamada blogosfera progressista e a blogosfera feminista atende, em última análise, aos interesses da mídia golpista e da direita.

Esta, convém sempre lembrar, ao protagonizar uma das campanhas eleitorais mais baixas de nossa história não desagradou apenas, por razões óbvias, a “blogosfera progressista”, mas, ao não demonstrar o mínimo pudor em apelar para a mistificação religiosa do aborto negligenciou a discussão efetiva de um tema central do feminismo contemporâneo.

Ainda que o tom dos presentes enfrentamentos de parte a parte desautorize, no curto prazo, o vislumbre de uma paz efetiva e da união entre esses setores altamente relevantes da blogosfera, não se pode deixar de apontar que a cisão entre eles tende a ser particularmente deletéria neste momento, pois a batalha pelos corações e mentes da arena pública tende a ser ainda mais intensa no governo Dilma do que no de seu predecessor - até mesmo pela urgência que têm os setores conservadores de desestabilizar o país e evitar o eventual retorno de Lula em 2014.

Em termos institucionais, espera-se que a competente e antenada Helena Chagas à frente da Secretaria de Comunicação seja capaz de interagir melhor com a opinião pública e tornar mais efetiva a difusão das posições governistas, em comparação com o governo anterior.

Mas no âmbito da arena virtual - que tende a se expandir aceleradamente nos próximos anos, com a difusão da banda larga - a busca da convergência e dos pontos em comum entre a blogosfera feminista e os chamados "progressistas", respeitadas as diferenças de visão e de estratégias de ação, seria altamente desejável para elevar o nível das discussões e evitar que confluência entre questões de gênero e política, que deve marcar a proxima Presidência, fique à mercê das manipulações machistas da velha mídia - e da direita à qual ora serve.

3 comentários:

LEN disse...

pessoalmente acho muito difícil se manter uma unidade fora do período eleitoral quando os adversários não estão bem definidos. A blogosfera é um universo muito heterogêneo e em determinados momentos as diferenças ficam mais evidentes. Dentro desse universo temos os geradores de conteúdo que geralmente tem seus pontos de vista formados e os multiplicadores que em situações controversas costumam se posicionar junto daqueles geradores de conteúdo que mais admiram e isso acaba gerando fraturas e insatisfeitos.
Nesse episódio o que mais me assustou foi a intolerância ao contraditório mostrada por algumas pessoas que eu via com outros olhos e infelizmente apareceu mais gente para colocar lenha na fogueira do que para tentar apaziguar. Frustração é a palavra que uso para definir tudo que aconteceu. Bom, essa é a minha opinião. Abração Caleiro.

Silvana disse...

Maurício, é evidente que vamos ter uma mídia falando, em resumo, "Volta pra cozinha, Dona Dilma" pelos próximos quatro anos, mas não acho que as discussões na blogosfera progressista sejam tão prejudiciais assim para o enfrentamento da situação. Tivemos bons momentos de discussão sobre a causa feminista, mesmo em meio a tantos erros e divergências deles e delas. De saldo negativo, temos Idelber e Nassif de cara virada um pro outro, agora oficialmente - só lamento que tenha sido aproveitada uma discussão pertinente para os dois "desacertarem as contas" de vez, mas não acho que o desacerto dos dois configure "o grande cisma da blogosfera progressista, de esquerda ou qualquer coisa que o valha". No mais, foi muito deboche, oportunismo e até paranoia, além da falta de timing e tato no início do ocorrido.

E custa nada o povo se juntar no que há de consenso e procurar se acertar em relação às diferenças na medida do possível, né não? Sei que na verdade não é tão simples assim, tentar mudar o outro na marra raramente funciona, acabando numa baita perda de tempo e energia, mas também não dá pra fugir da discussão.

Por fim, foi melhor que o forfé tenha ocorrido agora, nesta espécie de recesso; durante o pega-pra-capar com a imprensa no próximo mandato poderia ser mais complicado.

Maurício Caleiro disse...

Len,
Eu também não acredito em unidade - mas poderia haver ao menos respeito e diálogo, os quais ora me parecem inviabilizados.
A mim, a decepção com certas figuras também foi profunda.
Abração.


Silvana,
Acho que tenho uma visão bem mais pessimista do que a sua em relação à briga - achei a maioria das discussões muito rasas e vi muito oportunismo - e ao cenário futuro. Mas desejo, muito, que você é que esteja com a razão nesse caso e as coisas se acertem.
Abração.