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terça-feira, 2 de março de 2010

Vendo Avatar

Em se tratando de filmes obedientes à linguagem narrativa clássica, Avatar é um espetáculo cinematográfico grandioso, visualmente impactante, com um tema que fascina pelas ilações com a geopolítica internacional contemporânea e graus bem dosados de fantasia e de expertise técnica – esta realçada se se assiste ao filme em 3D.

O até agora melhor filme dirigido por James Cameron se insere na linha de frente da tradição dos blockbusters forjada por Star Wars em 1977: uma narrativa que promove um mix de gêneros cinematográficos – com incursões pelo romance, drama, buddy movie, filme de guerra, ficção científica e doses abundantes de aventura -, combinado a um autorreferente esoterismo metafísico que assopra questões existenciais e à criação de um universo ficional próprio, que alude a um mundo real, mas com este raramente se confunde de forma plena.


Alegorias políticas liberais
Chega a ser surpreendente o grau de virulência da crítica que Avatar faz das empreitadas promovidas pela joint venture entre grandes corporações e poderio bélico norte-americano e o modo evidente como alegoriza a estratégia militar – em parte baseada na imersão junto a populações locais – utilizada no Afeganistão.

O recurso à alegoria, recorrente e praticamente inescapável, prova que, mais do que uma elaboração textual própria do "terceiro mundo", como sugeriu Fredric Jameson, trata-se de um artifício para a produção de significações e de discursos político-ideológicos contra-hegemônicos que encontra terreno fértil em sociedades sujeitas à violência e ao autoritarismo simbólicos, independente de seu status geopolítico internacional.

De qualquer modo, não deixa de ser auspicioso que um filme que reproduz e amplifica o pensamento do liberalismo de esquerda dos EUA alcance estrondoso sucesso no próprio país e internacionalmente – embora eu tenha a forte impressão de que em se tratando de razões de fundo político-ideológico, os motivos pelos quais plateias norte-americanas e de países cuja população cultiva um forte sentimento anti-americano se identificam com o filme divergem substancialmente (quando não são opostos entre si).

Clichês e limitações
Não que o universo representacional do filme deva ser confundido ipsis litteris com o da vida real. Como nas boas críticas da arte à política (pensem nas canções de Chico Buarque à época da ditadura), ele também fascina por si só, de forma não alegórica. O que, por outro lado, não quer dizer que tal universo seja desprovido de problemas.

A meu ver, seu maior defeito – e o ponto fraco do filme - é a caracterização do coronel Miles Quaritch (o limitado Stephen Lang) como um vilão por demais caricato. Havia ao menos duas maneiras de contornar o problema: a primeira, mais óbvia, seria reescrever o roteiro, forjando, de forma realista, um comandante militar que se limitasse a reproduzir de forma profissional a mentalidade e as práticas das forças armadas dos EUA. Só isso já seria suficente para conceber um vilão mais efetivo e detestável.

A segunda opção seria, mesmo sem alterar uma linha do roteiro original, contratar um ator como Jack Nicholson ou Christopher Walker para representá-lo: eles certamente dotariam o personagem de uma tal dose de auto-ironia (como fizeram, respectivamente, em Marte Ataca! e em Pulp Fiction) que frases que soam tão boçais quanto forçadas em Avatar (tais como “Termine logo isso que quero jantar”, dita pelo coronel em pleno bombardeio genocida) certamente tornar-se-iam a um tempo hilárias e efetivas como indicação de vileza.

Porém, o que torna a concepção do personagem ainda mais nefasta é que ela parece se dever a uma relativização intencional, como se se tratasse de uma forma de, ao exagerar a caricatura do vilão, “descolar” o retrato do militar nas telas do dos militares de carne e osso das forças armadas dos EUA.


Roteiro impacta positivamente
Também a caracterização da cientista Gracie (Sigourney Weaver) não é desprovida de problemas: ela é apresentada como a líder da seção científica da empreitada corporativo-militar, responsável por pesquisar a fauna e a flora do planeta invadido e pelo desenvolvimento e manutenção dos avatares (corpos similares ao dos habitantes do planeta, mas comandados, à distância, pelos americanos), os quais se infiltram em meio aos nativos.

Pois bem. De acordo com a própria correspondência entre universo fílmico e mundo real sugerida pela representação alegórica, tal função equivaleria à desempenhada por cientistas que asseguram milhões de lucro às corporações farmacêuticas. Estas, por sua vez, têm sido reiteradamente acusadas de negligência com o sofrimento humano e, entre outras coisas, do uso de africanos como cobaias - assim como as forças armadas às quais pertencem militares como Quaritch têm sido acusadas de tortura e genocídio. O correspondente a Gracie na vida real seria, portanto, uma espécie de outro lado da moeda do militarismo predador, em roupas civis e expressado em jargão científico, mas tão afinado à sanha das grandes corporações como o primeiro.

No entanto, em Avatar, a personagem encarnada por Sigourney Weaver acaba por evoluir, a meu ver de forma pouco convincente e problemática (pois negligenciadora de sua função alegórica) para um status representacional que a transforma numa espécie de “mocinha de segundo plano" do filme.

Mas os méritos de Avatar - que incluem, entre outros itens, um cuidado com a relação entre questões de gênero e poder raras vezes visto em mega produções - se mostram capazes de superar tais deslizes. Além dos quesitos já mencionados, merece também destaque o roteiro, muito bem amarrado e capaz de impactar como há muito não ocorria com os filmes de grande orçamento de Hollywood. [Atenção: contém spoiler]. Sobretudo o momento em que, de surpresa e com a batalha praticamente perdida pelos nativos, os grandes animais da floresta atacam em bloco o exército invasor é um grande achado do roteiro. Tal solução, a um tempo, deixa de endossar uma solução bélica per se para qualquer um dos lados envolvidos e resolve uma série de problemas ét(n)icos que uma vitória do povo nativo sob o comando do infiltrado James proporcionaria. Trata-se, na minha opinião, do grande clímax do filme e de um raro momento realmente surpreendente no cinema norte-americano atual.

Essa impressão altamente positiva de Avatar diz respeito ao que o filme oferece como espetáculo e como história, no âmbito do que os acadêmicos da área de cinema costumamos chamar de diegese ou espaço intrafílmico. A análise de alguns dos principais aspectos extrafilmicos da obra propicia uma avaliação bem mais sombria.


Avatar promove invasão cruel
Ora, é uma incongruência evidente – dir-se-ia uma hipocrisia – constatar que um filme que em sua narrativa defende o direito à auto-determinação de um povo ante o opressor, sublinhando a necessidade de preservação de bens culturais e naturais do primeiro, invada de forma avassaladora, precedido por um bombardeio de peças de marketing, o setor de exibição cinematográfico de um grande número de países do mundo, restringindo brutalmente o espaço para o filme nacional e afetando a diversidade cultural proporcionada pela exibição de produções europeias, asiática e latino-americanas.

Porém é ainda pior do que isso, e não só porque um produto audiovisual cujo total monetário movimentado, em termos diretos ou indiretos, supera a dezena de bilhões de dólares, acabando inescapavelmente por financiar, via impostos, parte relevante da empreitada militar que critica. Mas porque, no mundo corporativo que teve lugar no capitalismo tecnoficanceiro neoliberal, há ligações diretas – quando não unidade - entre as corporações que ora financiam (e tomam parte das) aventuras colonialistas dos EUA e aquelas que investem na lucrativa indústria do audiovisual, a terceira maior do país. Mesmo porque guerra e cinema se confundem e se mesclam para muito além dos termos em que Paul Virilo os debateu, constituindo mesmo uma espécie de binômio estrutural e simbólico em torno do qual tem orbitado o imperialismo norte-americano.

Com um orçamento estimado em U$250 milhões, que saltou para meio bilhão de dólares quando computado o custo da campanha de marketing, a invasão de amplos mercados no exterior é condição sine qua non para que Avatar se pague – assim como a invasão de países petrolíferos é essencial para a obtenção da energia para manter o dispendioso american way of life. No caso do cinema, não se trata mais de uma guerra a ser travada – ela já o foi, desde meados do século XX, utilizando-se de métodos comerciais sórdidos e coercitivos e no qual o mesmo o processo de imersão na cultura nativa como forma de melhor explorar suas riquezas foi e é rotineiramente empregado.

E de uma forma tal e tão bem-sucedida que criticar o domínio do espaço cinematográfico nacional pela produção cinematográfica hollywoodiana e correcioná-lo ao imperialismo, como acima feito, soa anacrônico, ideologicamente retrógrado e demodée.

7 comentários:

Puebla disse...

O bom e velho Timothy Leary vaticinou que no futuro a droga seria cibernética.
Avatar é um alucinógino com visuais psicodélicos e um roteiro fabulista, pois mesmo com aquele tamanho e com seus dragões e suas flechas não há Nav'i que aguente uma rajada de misseis acompanhada de neonapalm e umas toneladas de bombas em fardos que mais parecem comida jogada para conter os holocaustos tectônicos dos paises irmãos. Tudo bem, o planeta inteiro se mobiliza contra o alien opressor mandando seus monstros de pele dura contra as bazucas interplanetárias, mas ao ver o êxodo terráqueo de volta para casa com as mãos algemadas já sinto o ''Avatar II a vingança dos mineiros expulsos vergonhosamente do planeta colônia'', pois eles voltarão maiores e melhores. Vi um recado, não de uma comunidade que luta para manter seus costumes e interesses, mas de um povo que explora suas conveniências até que o bagaço da laranja apareça sêco, que pode em um primeiro momento ser derrotado, mas só na ficção. Lindo, mas como bom paranóico, há controvérsias.

Maurício Caleiro disse...

Puebla,

Seu eloquente comentário me fez lembrar que eu esqueci justamente de comentar a cena da retirada dos invasores, que me pareceu brutal, reveladora do atual imaginário ianque e desnecessária.

Mas tal esquecimento acabou sendo bom, já que você matou a charada: é a deixa para "Avatar II a vingança dos mineiros expulsos vergonhosamente do planeta colônia". E tome polca!

Um abraço,
Maurício.

Cristian Korny disse...

legal, não vi Avatar, cinema tá caro, o que não quer dizer que não gosto de gastar com cinema, é que é melhor optar por uns bifes mesmo...

Anônimo disse...

fizemos uma tradução de uma crítica de um canadense, publicada no lemonde

segue o link: http://gazetilha.noblogs.org/post/2010/02/08/avatar

[]s!

Anônimo disse...

precisa mesmo bloquear os comentários? acho que o mais sensato seria deletar os que considerar não apropriados...

Maurício Caleiro disse...

Cristian,

O preço alto da entrada é um problema mesmo, ainda mais para quem não paga meia.

Anônimo,

Bacana o texto que vc lincou, legal.

Eu não bloqueio comentários, apenas faço moderação. Ela é infelizmente necessária porque o blog vive sendo atacado por manadas de trolls.
Mas os comentários são sempre bem-vindos.

Anônimo disse...

Beleza de análise! Assisti em 3D e gostei muito. Um bom passatempo, que não te dá a sensação, ao sair do cinema, de que teria sido preferível usar a grana pra comer uma pizza.
Bom filme porque permite uma série de reflexões, tais quais as que você fez com tanta maestria, no entanto fica a impressão de algo errado na história.
Exemplo? A solução, mesmo quando os vilões são americanos, sempre tem que vir através de "um herói americano?" Não poderiam os habitantes de tal planeta "se virar" sozinhos?
Pra mim o ponto mais baixo dos diálogos foi a referência à Venezuela. Numa clara insinuação de que no passado (referente ao ano em que se passa a estória) houve uma campanha na Venezuela. Essa demonização do Hugo Chavez que se faz hoje, é uma estultice.

por Luis Fraga