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quarta-feira, 10 de março de 2010

Ideologia versus Técnica

“Ideologia, eu quero uma pra viver” – o grito-desabafo da música de Cazuza, prenhe de desespero, é o retrato de uma época em que o ideário neoliberal, travestido de tecnificismo – alegadamente, uma não-ideologia – instaurou-se como uma panaceia que se impunha como solução "científica" para os problemas sócio-econômicos. Os receituários anteriormente a estes aplicados tornaram-se, de súbito, descartáveis, pois infestados dos a partir daquele momento supostamente inexistentes tendencionismos políticos.

Com o perdão pelo clichê e pelo sentimentalismo, só quem viveu esse período sabe da dor – intensificada pela duração aparentemente infinita da farsa,a qual tantos aderiram – que foi crescer em tal época, sem espaço para o debate, sem horizontes e ainda sob a constatação de que “meus herois morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.

Nesse contexto, um dos sucessos inegáveis da mídia conservadora, durante um longo, longo tempo, foi fazer crer que havia atingido um tal grau de profissionalização da atividade jornalística que tornara suas publicações infesas a influências ideológicas.

Tal premissa é parte essencial ao tal “padrão Globo de qualidade jornalística” e esteve na base do jornalismo de Veja muito antes dela tornar-se uma revista da direita mais hidrófoba. No livro Mil Dias, Carlos Eduardo Lins da Silva – profissional dos mais respeitáveis, que infelizmente deixou escapar o timing certo de deixar a função de ombudsman da Folha de S. Paulo e acabou respingado – descreve em detalhes a implementação da profissionalização de todas as etapas da produção da notícia no diário dos Frias.

Assim como a ascensão de Lula à Presidência aos poucos desanuviou a atmosfera ideologicamente opressiva descrita acima, a difusão da internet, com a blogosfera política e as redes sociais, a alterou substancialmente, evidenciando, para muitos, a fragilidade de seus pressupostos e o grau de ideologia por trás dessa exaltação da ténica.

Mas além de ainda não atingirem um amplo contingente populacional, as novas tecnologias da comunicação veem-se obrigadas a conviver com um fenômeno que, importado dos EUA, encontrou abrigo nos mesmos veículos de mídia acima referidos – na revista Veja, sobretudo. A partir daí, se dissemina com facilidade, sobretudo entre jovens avessos ao ideário socialista ou esquerdista, com baixa formação cultural e, portanto, ávidos por fórmulas simples que lhes permitam interagir na internet política: o jornalismo neocon.

Uma espécie de versão reificada do discurso neoliberal – mas caricaturalmente direitista -, a militância neocon, que não raro emula, nos comentários e posts na internet, a agressividade de seus gurus midiáticos, tem verdadeira alergia a tudo o que cheire ao que rotulam como ideologia esquerdista. Esse fanatismo ignorante e reducionista – que, à moda da Inquisição, inclui um index de autores malditos, de Marx a Paulo Freire, passando por Eduardo Galeano e Marilena Chaui - leva a curiosas distorções.

Segundo a cantilena neocon, o internacionalmente respeitado método de alfabetização de Paulo Freire – a quem, à falta de argumentos para denegri-lo no plano das ideias, apelaram, bem ao seu estilo, para acusações pessoais de baixíssimo nível – não passaria de um método de doutrinação subversivo, e a crítica incisiva e documentada de Eduardo Galeano ao processo de exploração colonialista da América Latina teria sido tornada obsoleta pelos rasos arrazoados do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, o qual, mesmo após a devastação social que o neoliberalismo provocou no subcontinente, continuam cultuando como a um livro sagrado.

Para eles, aqueles que ensejam uma leitura do processo histórico priorizando aspectos econômicos e classistas o fazem devido a uma sub-reptícia doutrinação marxista que perpassaria, insidiosa, a formação cultural brasileira. Desnecessário dizer que os neocons, de forma geral, leram mal Marx, o confundem com o marxismo e - o que é pior - com o comunismo, sendo incapazes de distinguir tanto a exuberância utópica do "jovem Marx" quanto o caráter a priori anti-ideológico de sua produção madura. Um exemplo da argumentação neocon se apresenta na caixa de comentários de um post do blog A Moça do Sonho, intitulado “Militância x Apatia”, que inspirou este texto.

Doutrinação marxista na formação educacional brasileira? Seria cômico se não fosse trágico. Para reiterado escândalo do mundo, o Brasil, com Xuxa e congêneres, é um dos países que, há décadas, mais ostensivamente bombardeia as crianças, desde a mais tenra infância, com apelos consumistas de toda a ordem. Acompanhados de seus penduricalhos costumeiros – como o culto exagerado ao corpo e obsessão por “vencer na vida” a qualquer custo -, tais apelos têm acompanhado, diariamente, gerações de brasileiros, nas escolas particulares onde, ante a falência do ensino público, a classe média viu-se obrigada a pôr seus filhos, nas universidades particulares que não só do ponto de vista arquitetônico se assemelham a shopping centers e, de forma ininterrupta e espetacular, na produção simbólica midiática como um todo.

Mas dessa doutrinação ostensiva, feita de carros ante os quais a natureza se torna submissa e de cervejas que se confundem com louras devassas – e cujos resultados mais visíveis são consultórios psiquiátricos lotados de adolescentes com toda a sorte de desordens, para a fortuna dos laboratórios farmacêuticos - não preocupa o pensamento neocon. Afinal, a ideologia só se torna perigosa quando se anuncia contestadora ou subversiva, não é mesmo?


(Imagem retirada daqui)

11 comentários:

iaiá disse...

eu fui lendo, lendo... e aí tava achando que dava uma ótima resposta a dois dos comentários la´do meu post. e aí não é que vc citou o meu? surpresa! mas fiquei pensando que a gente acaba por escrever mais num desabafo, vc como sempre muito melhor e mais fundamentado que eu, claro. porque para o pessoal que a gente cahama de neocon e que acha normal votar em Serra, Kassab e Arruda (eu já sabia quem ele era antes de dar no que deu, era meio óbvio o que ele ia fazer mesmo)acho que o discurso que eu e vc fazemos não sei se adianta muito, foi o que me peguei pensando. mas adoro ler. bjs

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Também acho que não adianta muito, mas nutro uma esperançazinha que ao menos um neocon leio o post e reflita...

Quanto aos elogios, agradeço, mas não é verdade que meu post seja melhor que o seu: cada um tem seu estilo e eu gosto muito do teu.

Um beijo,
Maurício.

Cristian Korny disse...

é peculiar que os defensores mais ardorosos da técnica e desqualificadores da ideologia sejam os mais ideológicos e mais carentes no campo de técnica no que concerne ao virtuosismo desta.

queria só acrescentar que não são apenas os jovens que padecem nesse sistema (ou crianças), isso é visão parcial e tendenciosa, tem gente padecendo mesmo depois de maduro não só na psiquiatria como na indigência intelectual. tal o castigo que é impingido pela elite capitalista a quem não adere/introhjeta/se assujeita ao seu corpus teórico/ideológico, então fica mais evidente porque teme-se não se enquadrar nos padrões neo-conservadores para evitar viver a exclusão como ela é, que atinge não só as crianças e jovens, mas qualquer um que ouse não se alinhar. essa visão parcial, que só dá atenção à uma parcela dos "injustiçados", se alinha com o discurso e a ação neocon ao fazer aparentar que seu discurso e suas ações nem sempre são injustos, quer dizer, ser neutro, numa injustiça, é estar do lado mais forte como cúmplice, mas enfim, "a vida não é justa" mesmo... .. e muitas vezes estamos falando mesmo é de concorrência (!)

quero dizer que é capitalista e neocon a visão parcial que não contempla todo e qualquer ser humano na defesa de seus valores de justiça social.

mas talvez tenha sido apenas um discurso estilístico para causar comoção.

acho que as crianças e jovens devem ser defendidos, mas não de forma polarizada, pois alguns dos que são maduros hoje já foram jovens e já vivenciaram tais injustiças, mas sua experiência é rejeitada por coisas como "sucesso" ou "posicionamento" dentro deste pou daquele segmento ou algo assim, alguns inclusive nunca se recuperaram...

Maurício Caleiro disse...

Cristian,

Concordo, sem dúvida, que se manter neutro ante injustiças é se colocar do lado opressor.

Mas não quis dar a impressão de me referir apenas a crianças. Como disse, os apelos consumistas "têm acompanhado gerações de brasileiros".

Quanto a ser parcial, essa é a essência do pensamento neocon, que é excludente e elitista.

Um abraço,
Maurício.

Cristian Korny disse...

sabe o que é, tem tanta gente de caráter duvidoso falando em nome dos jovens e das crianças, inclusive todos os neocons que acabo ficando chato, afinal é uma diretriz neocon que as pessoas deixem de ser crianças e jovens e fiquem por suas contas e riscos deixando tudo para trás e se enterrando no trabalho e no consumo, abandonando pensamentos, sentimentos e momentos que lhes desviem dessa rota, trabalho que, na maioria das vezes, é alienante e opressor, e ao quererem se recusar a aderir à essa ordem só pode lhes restar a miséria e a marginalização.

viver a vida é gerir a vida (!)

de qualquer forma estou tentando alinhavar um discuro que não é consensual,

:O) inté!

Paulo Morais disse...

Outro dia a revista Veja ou a Época, não me lembro com exatidão, referiu-se ao método Paulo Freire como uma ideologia comunista travestida de método de alfabetização. Nada mais retrógrado.

Criticar a postura da revista Veja virou clichê. Ela deixou de ser um informativo para tornar-se um panfleto político há anos. Neste ano, estou sinceramente assustado com a radicalização dos noticiários. Parece que vamos voltar ao pior da eleição de 1989.

Talvez os donos da mídia estejam avistando na saída de Lula do jogo eleitoral um espaço para retomar os desmandos do passado. O ano vai ser tenso.

Maurício, seu blog aprofunda cada dia mais nos temas do momento. Parabéns.

Abraço
Paulo

Claudio Costa disse...

Suas reflexões são importantes por seu conteúdo e pelos sólidos argumentos. Mais ainda por atestar que mesmo sob a avalanche crônica de cientificismo-endeusamento da técnica-consumismo-conformismo (!)ainda há gente que pensa e faça pensar. Valeu!

Maurício Caleiro disse...

Paulo,

Também estou assustado com o grau de virulência da mídia. Creio que após o convescote que reuniu os principais grupos midiáticos, fica claro que vão atuar em bloco, sem temor de violar restrições éticas e com claros objetivos políticos. A eleição tende a ser de baixíssimo nível.

Um abraço,
Maurício.

Rafael Tadeu de Matos Ribeiro disse...

Argumentação consistente. Gostei do texto. A imagem que o acompanha ilustra bem o conceito de ideologia, sobre o qual estive lendo (livros de Marilena Chauí e Paulo Ghiraldelli Jr.). Parabéns pelo blog.
Conheça meus blogs:
www.imperativocientifico.blogspot.com
(divulgação científica) e
www.petalasesepalas.blogspot.com
Abraço!

Maurício Caleiro disse...

Valeu, Claudio, obrigado!

Rafael, conheço seu blog sobre divulgação científica - muito bom! Assim que tiver um tempo, visitarei o outro.


Um abraço, moçada.

Eduardo Prado disse...

Grande Maurício!

É incrível o quanto essa história de que a educação brasileira, sobretudo a pública, deixa de lado a técnica em prol de uma ideologia esquerdista a lá anos 30 ou 40 ainda convence tanta gente.

Como eu já havia acomentado no blog da Iaiá, fosse isso verdade, nossos professores seriam os comunistas mais incompetentes do mundo, pois apesar de seus inócuos esforços, nossos jovens são cada dia mais consumistas, e não comunistas.

abração!