quinta-feira, 18 de março de 2010

Inquietações sobre o virtual

É reconfortador poder viajar para os mais variados lugares do Brasil e do mundo e ter quase sempre à mão a possibilidade de interagir com o universo virtual que nos é costumeiro: há algo de quase caseiro quando voltamos, via tela do computador, ao português, aos nossos sites e blogues de costume e aos amigos virtuais (ou reais e virtuais).

Porém, ao menos para mim, há algo de assustador nisso; algo de monocórdio e claustrofóbico, que, de modo geral, tende a nivelar diferenças e a subvalorizar a peculiaridade do lugar que visitamos e das pessoas que lá habitam. Foi sob o impacto dessas sensações que me veio a reflexão abaixo:

O papel preponderante que a comunicação veio a assumir no atual estágio tecnofinanceiro do capitalismo tem suscitado, na academia e fora dela - destacadamente na internet -, uma série de indagações, reflexões e estudos acerca de sua função no mundo contemporâneo – e dos efeitos e tendências que tal posição, a um tempo meio e mensagem, acarreta.

O fenômeno que Dênis de Moraes chama de “desenvolvimento infotelecomunicacional” legou à comunicação, via aprimoramento e miniaturização dos sistemas digitais de formatação-padrão, armazenamento e transmissão de dados, um papel primordial na estruturação e circulação da informação, em que a máxima time is money torna-se, mais que um verismo, uma realidade constatável em espécie – num proceso ao qual se tem agregado um duplo valor: como bem indutor de ganho material direto (na forma de indicadores de tendência, de informação privilegiada, de dados que asseguram “fuso-ganhos” na real-time economy) e como produto-base de um cada vez mais expandido mercado de bens políticos e culturais lato sensu.

Tais mudanças impressionam não apenas pela sua velocidade, pela assimetria que, sob diversos aspectos, as caracterizam, mas por seu papel decisivo na reconfiguração da dinâmica do capitalismo e de suas conseqüências na formação, comercialização e difusão de bens imateriais capazes de interferir agudamente no imaginário coletivo (como ocorreu nos anos 90 no processo de “naturalização ideológica da economia liberal de mercado” via mídia, como alude Muniz Sodré no artigo "O globalismo como neobarbárie").

“O que os homens fazem depende do que eles pensam” – por trás de sua aparente obviedade, a máxima, grafada pelo pensador liberal Stuart Mill, desvela um mecanismo de ação-reação que, naturalizado de forma inconsciente no cotidiano, vem sofrendo, nas últimas décadas, sob os auspícios das modernas técnicas de marketing e do bombardeamento intermitente de informação, forte, “naturalizada” e não auto-evidente inflexão na constituição das concepções e dos quereres coletivos.

O Homem contemporâneo, cada vez mais subjugado pela tecnologia, parece em vias de cumprir a profecia do mais radical dos filósofos pós-marxistas: tornar-se um “Homem unidimensional”, ou seja, um ser cujas relações sociais seriam determinadas pela tecnologia, que por sua vez estaria profundamente imbricada – como de fato está - com o modo de produção capitalista, a ponto de com este se confundir (pensem, por exemplo, nos fluxos de transações financeiras virtuais).

Não é desse modo, como uma lúgubre distopia cerceadora da liberdade, que muitos dos que trafegam - por diversão, ideologia ou trabalho - nas redes sociais e no maravilhoso mundo novo da internet sentem a onipresença da tecnologia na vida contemporânea, mas como um seu oposto, pleno de interatividade e liberdade de ação. Há toda uma legião de pensadores – de Chris Anderson a Domenico Di Masi, de Michael Hardt a Pierre Lévy e a Nicholas Negroponte – a alimentar, se não tal utopia de liberdade, o anseio que um dia esta possa se tornar plena.

Mas permanece, por outro lado, uma série de inquietações: até que ponto um avanço tecnológico que nos demanda diariamente um tempo cada vez maior de dedicação – para ler emails, blogar, tuitar, conversar no MSN – é libertador? Quem lucra, afinal, com tanta atividade voluntária? E, por fim, mesmo que de liberdade de fato se trate, o que nos garante que Marcuse não estava certo, e ela só nos é aparentemente concedida para que façamos girar a roda do capitalismo tecnofinanceiro?


(Imagem retirada daqui)

3 comentários:

Eduardo Prado disse...

Maurício,

Tenho pensado muito nisso ultimamente. No meu caso, e acho que no seu também, o fato de ter uma vida profissional intensa e nada virtual, uma vida social que demanda um tempo que o trabalho quase não deixa e ainda manter (no meu caso, tentar manter) um blog faz com que essa reflexão seja diária. Nem penso tanto na questão do mercado, da incorporação de uma cultura de consumo de bens tecnológicos, mas no tempo que dedico a atividades que muitas vezes não tem relação direta com a minha vida social.

Agora, por exemplo, dedico uma parte do pouco tempo que tenho em casa escrevendo um comentário no blog de uma pessoa que não conheço pessoalmente _ embora já adimire muito. Enquanto isso deixo de ligar para amigos que não vejo a algum tempo. Enquanto escrevo meu sobrinho, que mora comigo, conversa no msn com um colega da escola. Claro que eu e meu sobrinho conversamos bastante, também ligo para meus amigos regularmente, mas é claro que esse tempo gasto em afazeres virtuais rouba tempo dos relacionamentos mais reais. O risco é não dar mos conta de nenhum dos dois.

O ideial é quando a tecnologia me permite administrar melhor a vida real. Quando, por exemplo, me ajuda a me manter informado, ou em contato com amigos distantes cuja comunicação seria difícil de outra forma, ou ainda quando a uso para desempenhar melhor o meu trabalho, de modo que me sobre tempo para gastar comigo e com as pessoas que gosto.

Acho que o grave não é quando a internet e suas tecnologias se transformam numa prisão, mas quando a vida real passa a ser considerada assim e a internet se transforma numa fuga.

Maurício Caleiro disse...

Eduardo,

Acho que na frase que encerra o seu excelente comentário você toca numa questão essencial: o quanto a internet pode se tornar um "refúgio", uma "válvula de escape", uma "droga" para suportar a vida real. Creio que esse já e - e será mais ainda - um problema recorrente nos divãs dos psicanalistas, ainda mais porque os adolescentes têm sido vítimas indefesas, afetados desde a idade mais tenra.

Quanto à admiração, você sabe, é mútua.

Um abraço,
Maurício.

Puebla disse...

Essa sensação eu tenho a tempos. Estamos encaixotados vendo o mundo pela tela, até interagindo mas pela tela. Parece que a rua não é mais lugar para as pessoas. Sabemos que só parece. Shopping não tem janela, o teclado não te beija, a planta aqui não cresce. Enquanto avanço tecnocientífico, muito bem, mas relacionamentos virtuais, me poupe.
Abraços.
Puebla