domingo, 28 de março de 2010

Dimenstein: retrato de uma triste decadência

Gilberto Dimenstein ocupa hoje a escala mais baixa do jornalismo nacional – foi acometido dessa certeza que cheguei ao final do artigo “Professores dão aula de baderna”, por ele assinado. Não é vã a paráfrase das palavras que celebrizaram Boris Casoy, outro jornalista outrora respeitado e que hoje é um lame duck da imprensa, visto, justa ou injustamente, como um mero ventríloquo da direita mais retrógrada.


Blogosfera política e ética
Quem acompanha o blog sabe que evito ao máximo ataques pessoais e não gosto de generalizações nem de maniqueísmos; tento não ver tudo branco ou preto. Embora o tempo tenha me ensinado que os artigos mais equilibrados, que criticam os podres de A sem deixar de citar as vaciladas de B, são os que despertam menos reação (e comentários), tenho preferido, quando o sentimento de revolta o permite, produzir análises o mais ponderadas possível.

Assim, embora considere central no tipo de atividade blogueira por mim e por outros exercida a crítica de mídia e a produção de discursos contra-hegemônicos, nunca utilizo a denominação PIG (Partido da Imprensa Golpista) para me referir à mídia corporativa nem me furto a apontar o que considero pontos falhos do governo Lula, embora reconheça suas qualidades (e a prevalência destas sobre aqueles, no cômputo geral).

Perdão se soo cabotino: a intenção é sublinhar que um número enorme e crescente de blogueiros compartilha de critérios éticos, se não iguais, equivalentes, que propiciem um exame o mais justo possível de seus objetos de análise e incentivem diálogos críticos civilizados com seus leitores.

A despeito das acusações que reiteradamente sofremos da mídia corporativa, segundo a qual seríamos “blogueiros amestrados”, escrevendo numa blogosfera que equivaleria a “terra de ninguém”, estando “a soldo do governo” e daí pra baixo, o fato, diariamente constatado, é que o rumo que setores majoritários da imprensa vêm tomando, notadamente após o convescote do Insituto Millenium, demonstra cada vez de forma mais explícita (embora, é claro, não assumida) que quem não está nem aí para buscar o equilíbrio e a defesa do interesse público demandados pelo bom jornalismo – o qual alardeiam praticar - são os principais jornais e revistas do país. Pior: têm ultimamente agido de forma mancomunada, como um partido, com evidentes objetivos eleitorais.


Era uma vez um jornalismo inovador...
Mas confesso que por um tempo alimentei a ilusão de que pelo menos um número reduzido de personalidades jornalísticas de destaque resistiria – se não por razões propriamente éticas, ao menos como forma de manter a credibilidade, bem maior do profissional de imprensa - à guinada à direita e ao jornalismo descriterioso empreendida pela Folha nos últimos anos. Ledo engano. Após o outrora promissor Fernando de Barros e Silva, com seu inegável talento para a escrita e para a crítica, ter se tornado mero burilador do discurso de defesa dos interesses corporativos do grupo Folha, e na mesma semana que o outrora intocável Janio de Freitas publica um artigo de um maniqueísmo pobre, Dimenstein abre mão dos poucos pudores que alimentava e parte para um ataque injusto e sem a mínima sustentação na realidade contra os professores estaduais em greve.

Não que surpreenda. Mas não deixa de ser paradoxal constatar que, enquanto a blogosfera procura elevar o padrão do debate, Dimenstein sucumba à bajulação servil aos interesses dos Frias de forma tão manipuladora e anti-ética. Afinal, a partir dos anos 80 e por mais de uma década, ele foi um dos representantes de um jornalismo inovador, que tirou o cheiro de naftalina da impensa nacional, onde tornou-se um dos principais representantes da “sensibilidade social” – seja através de suas colunas, em que privilegiava temáticas educacionais e ações inovadoras do chamado terceiro setor, seja por meio de livros que focaram em temas como a prostituição infantil e a infância marginalizada.

Havia desde sempre na produção de Dimenstein, é verdade, um certo ranço uspiano e, a despeito das posições aparentemente progressistas, uma pretensão proto-iluminista manca, pois com mais ênfase na forma do que na ética. Aos poucos o canastrismo elitista foi ficando evidente. Em um longo artigo acadêmico de 8 anos atrás eu já o chamava de “o principal representante do bom-mocismo voluntarista e ingênuo, apaziguando a má consciência da classe média nas páginas dominicais da Folha de São Paulo”. Era cada vez mais óbvio que os “critérios” que adotava para elogiar os projetos educacionais do terceiro setor, evidenciavam - além de interesses pessoais nem sempre legítimos – a aderência ao ideário neoliberal, com o decorrente menosprezo pela educação pública (no sentido de estatal).


Omissões e distorções a granel
Mas um certo cuidado formal e a preservação da lógica interpretativa o mantinham, até uns anos atrás, em um nível acima da média encontradiça na “grande imprensa” brasileira. Porém, no governo Lula embarcou no partidarismo deslavado da Folha, atingindo o ponto mais baixo de sua carreira no artigo opinativo de ontem, em que acusa professores covardemente espancados. Trata-se de uma peça jornalística tão medíocre que sequer condiz com uma seção chamada – reparem a pretensão proto-iluminista da Folha – “Pensata”. Nela, Dimenstein finge confundir direito à mobilização social com “baderna”. Como não fornece contextualização alguma, fica a sugestão de que os professores foram à passeata armados de paus e pedras e iniciaram o ataque contra as pacíficas forças da ordem.

Daí, tal qual um bedeu interiorano do século passado, pergunta o que os alunos vão achar de seus “professores desrespeitando a lei” (qual lei, se as constitucionais de fazer greve ou de ir e vir, ele não diz); acusa-os de “sem limites, indisciplinados”, logo eles, mestres que “devem zelar pela disciplina”. Por mil palmatórias, choquei!

Mas o chilique moralista é só cortina de fumaça. Serve para preparar o terreno, injetando indignação moral para em seguida disparar a acusação que pretensamente desqualificaria o movimento dos professores: as ligações de uma das dirigentes da Apeoesp com o PT e seu (óbvio) apoio à candidatura Dilma comprovariam tratar-se tão-somente de uma manobra política, visando atingir o coitado do José Serra. “Trata-se apenas de uma minoria organizada e motivada”, morde e assopra ao mesmo tempo o colunista.

As dezenas de milhares de participantes na manifestação? o relato fidedigno de pessoas que estavam lá? a pauta de reivindicações? a questão salarial, para uma categoria sem aumento real há 14 anos? os alunos que não têm nem carteira para sentar? o sucateamento do ensino paulista? a arrogância de um governo que se recusa a dialogar com a categoria profissional responsável pela essencial área da educação? As seriíssimas evidências de infiltração de policiais à paisana em manifestação cívica, em plena democracia? Qualquer fato jornalístico além da redundante constatação de que uma das sindicalistas pertence ao PT e apoia Dilma (o que ele esperava, um sindicato todo tucano em que todos apoiassem Serra? É essa a concepção de democracia do Dimenstein?)? Nadica de nada: o artigo do bom-moço passa ao largo de todos esses temas.


Artigo é confissão de culpa
Mas, apesar de tais omissões, o trecho proporciona o aspecto mais interessante do artigo, pois evidencia, para o leitor com um mínimo de discernimento psicoanalítico, que as acusações que Dimenstein faz aos professores não passam de uma confissão de culpa imposta por seu inconsciente. Pois não são os professores, mas ele, Dimenstein, como jornalista, quem está dando um péssimo exemplo profissional, deixando de cumprir, com padrões éticos mínimos, a tarefa que lhe cabe: analisar os fatos com equilíbrio, ponderação e atenção a todos os lados envolvidos. Também ao contrário do que afirma, não são os professores – que abraçam diferentes credos políticos – que agem por interesses partidários, mas o colunista, defendendo, com informações negligenciadas e distorcidas, o PSDB de seu patrão e do patrão de seu patrão.

Por fim, diferentemente do que escreve, não é a classe profissional em greve que, tal um bando de cordeirinhos, é manipulada por seus dirigentes: os professores que entraram em greve e decidiriam aderir à passeata o fizeram de forma autônoma, obedecendo a uma decisão de fórum íntimo e individual. Já Dimenstein não viola apenas a ética jornalística ao redigir, a soldo e a mando do patrão, um tal panfleto partidário travestido de artigo opinativo, mas os frangalhos que restam de sua própria imagem pública.

O outrora jornalista-cidadão, paladino da democracia internacionalmente premiado, não passa hoje de um pitt bull da Barão de Limeira, bem alimentado no canil da plutocracia mediática, e cuja função é latir alto e morder forte, na esperança de que a reação violenta dê pretexto para invocar um golpe de estado. Pois a vitória das forças que seu patrão apoia – as mesmas que ordenaram o covarde ataque policial aos manifestantes – está, a despeito de pesquisas “da casa” - de última hora, pra lá de suspeitas -, cada vez mais distante no horizonte. E a ordem na “grande imprensa” brasileira atual é essa: atiçar ânimos para provocar reações violentas. Um filme que já vimos em 1964, com longuíssimas e desastrosas consequências para o país.


Conclusão
Porém, mais importante do que todas essas considerações sobre mais um jornalista que sucumbiu ao poder do capital, é a serena constatação de que, ao contrário do que a diatribe partidária disfarçada de lição moralista de Dimenstein afirma, os professores, ao se munirem de paus e pedras para revidar a agressão gratuita das forças públicas (que a eles e à democracia deveriam proteger), dão sim uma grande lição a seus alunos: a de que as lutas sociais, no Brasil, ainda demandam sangue, sofrimento e capacidade de resistência em estados governados por certas forças políticas, acostumadas a reprimir manifestações pacíficas com práticas ditatoriais. Uma senhora lição de cidadania.

4 comentários:

Anônimo disse...

E a porradaria em Brasília? Também

Silvana disse...

Maurício, a questão tem também relação com dinheiro. Viu o último post da NaMaria? http://namarianews.blogspot.com/2010/03/amor-com-amor-se-paga-licao-de-um.html

Existe toda uma movimentação para desacreditar o serviço público e passá-lo a ONGs, OSCIPs, whatever, como se isto de fato melhorasse a qualidade do atendimento.

Uma experiência pessoal: no final do ano passado, cozida de gripe, fui à AMA mais próxima da minha casa, de administração terceirizada, e tomei um chá-de-cadeira de três horas!

Mais um testemunho: trabalho em uma escola da Prefeitura de São Paulo, cuja merenda é terceirizada, junto com a contratação das merendeiras. Elas cozinham muito bem, mas não podem fazer a comida nem servi-la numa quantidade adequada ao apetite dos alunos por força de contrato. E dá-lhe comida jogada fora!

O Dimenstein, infelizmente, há muito tempo sustenta um discurso favorável à transferência das responsabilidades do Estado às ONGs.

Só uma pergunta, pra terminar: se as ONGs são Organizações Não-Governamentais, elas não deveriam trabalhar com verba não-governamental também?

Thiago Beleza disse...

Seus textos são sempres fantásticos... o caráter ponderado é exatamente o diferencial, que impede que se faa uma leitura partidária...

Sobre o comentário referente a greve dos professores, é a opnião de quem estav de fora... escrevendo em sua cama, com o notebook no colo, ar condicionado ligado... nunca vai entender uma injkustiça, quem nunca foi injustiçado....

parabens pelo blog

Maurício Caleiro disse...

Muito obrigado, Thiago!
Um dos grandes males do jornalismo brasileiro das últimas décadas é exatamente esse que vc aponta: o elitismo. Vivem, tanto em casa como na redação, em aquários, com a cabeça em Miami e o cotidiano nas zonas sul da vida...


Silvana,
Seus comentários com depoimentos pessoais sempre enriquecem muito a discussão, pois vêm de alguém que vive na pele tal realidade.
Quanto à questão do dinheiro, concordo plenamente. É a ligação com o ideário neoliberal que está por trás de toda essa operação de descrédito do serviço público, terceirização, onguismos mil e por aí vai.