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domingo, 28 de fevereiro de 2010

O enigma do voto em Serra

Os problemas que concernem à candidatura Serra superam a questão ideológica. Como temos tentado analisar neste blog, é potencialmente danoso seu alinhamento ao ideário neoliberal que tanto sofrimento e atraso trouxe à América Latina (e no México e no Peru continua trazendo). Como sabemos, tal modelito tornou-se anacrônico não apenas por sua ineficácia como panaceia administrativa, mas por provocar uma crise econômica mundial com agudas consequências sociais na Europa e nos EUA, gerando um cenário desolador para Irlanda, Islândia, Espanha e Grécia, esta ora em convulsão.

Agrava tal quadro a constatação de que à insistência do atual governador de São Paulo em políticas econômicas recessivas, “suavizadas” pelo uso intenso do marketing, vem se somar a instrumentalização da quase totalidade da mídia corporativa – numa operação de “blindagem” do candidato que é vergonhosa para a imprensa, mas muito diz também em relação aos métodos de Serra em relação à comunicação social em uma democracia.

Não se pode, ainda, deixar de lado - sob o risco de negligenciar a análise de aspectos essenciais do serrismo -, seu retrospecto propriamente político-eleitoral nos últimos anos. Este não se limita à quebra do compromisso assumido publicamente com o eleitor de cumprir até o fim o mandato de prefeito pelos paulistanos lhe outorgado, trocando-o pela ambição eleitoral de curto prazo; nem ao patrocínio à candidatura do então virtualmente desconhecido Gilberto Kassab, que é, do ponto de vista administrativo, muito provavelmente o pior prefeito eleito da cidade no período pós-ditadura militar, e que, além de protagonizar de forma reiterada ataques agressivos contra populares, ora ostenta a honra de ter sido o primeiro alcaide cassado, em primeira instância, em São Paulo. Os estratagemas eleitorais de Serra incluem, ainda, o anúncio público da possibilidade de uma composição, para as eleições presidenciais, com José Roberto Arruda (ex-DEM–DF). O ex-governador do Distrito Federal, para quem não está ligando o nome à pessoa, é aquele político reincidente em falcatruas - e de um modo tão desabrido que, mesmo pertencendo ao andar social de cima e ao primeiro escalão político do país, conseguiu a façanha de, no Brasil, acabar atrás das grades. Diz-me com quem anda e eu te direi quem és.


A gestão Serra

Porém, para além da análise dos problemas ideológicos e metodológicos que cercam a candidatura peessedebista, é preciso escrutinar o que tem sido efetivamente a gestão Serra naqueles quesitos que, dizem os mandarins da pesquisa política, tendem a exercer maior influência sobre o voto do “eleitor médio”. A pergunta, neste caso, é: qual o legado, para o estado de São Paulo, da administração do atual governador em quesitos-chave como transportes, segurança, educação e saúde?


Transportes: O grau de deteriorização do Metrô de São Paulo nos quase quatro anos em que Serra ocupa o Palácio dos Bandeirantes é superlativo. Ele construiu a estação Sacomã, é verdade, e eu não me surpreenderia se por conta disso vier a receber uma boa votação no bairro e em suas imediações – trataria-se do reconhecimento a um político que trouxe benfeitorias à região.

Mas e o enorme contingente que, diariamente, é obrigado a encarar um serviço de transporte público que por décadas foi tido como modelar em âmbito mundial e hoje se encontra degradado a olhos vistos, ostentando, a qualquer hora, enormes filas nos poucos guichês que funcionam, escadas rolantes desativadas e vagões lotados?

Ante tais críticas, evoca-se a alegação de que São Paulo cresceu demais. Ora, o crescimento da maior metrópole do país, fato passível de previsão por técnicos especializados em demografia, não pode servir de desculpa à gestão ineficiente de um determinado governador – pelo contrário, deveria ser item contabilizado para um planejamento eficiente de como administrá-lo. Ademais, foram menos de 4 anos desde que Serra assumiu o governo. Por qualquer critério, o grau de crescimento da metrópole foi bem menor do que o de degradação do sistema metroviário.

Sair da análise da situação do transporte público da capital e passar a enfocar as condições de transporte no interior do estado é defrontar-se com outro quadro, mas que conserva intacto o desprezo pela locomoção dos estratos sociais de baixa renda: na prática, o custo dos pedágios nas rodovias estaduais paulistas cerceia o direito constitucional de ir e vir dos cidadãos menos capitalizados. O governo federal tem demonstrado, de forma cabal, que é possível construir belas estradas sem esfolar o bolso dos humildes. Nada justifica o descalabro que são os preços praticados nas praças de pedágio de São Paulo, a não ser a falta de vontade política - ditada pelo elitismo – para resolver a questão.


Educação: Talvez a área mais problemática da gestão Serra, embora muitos não o saibam, graças ao reforço extra na blindagem midiática que a presença do sempre bem relacionado Paulo Renato de Souza à frente da Secretaria da Educação assegura.

O setor encontra-se, como veremos a seguir, atrelado a um número impressionante de denúncias de corrupção – algumas já alvo da atenção do Ministério Público -, além de ser acusado de manipular índices de desempenho (em um momento em que a educação pública paulista despencou nos rankings nacionais), de humilhar e sub-remunerar funcionários e professores e, em pleno 2010, de comprovadamente fazer alunos sentarem-se no chão por falta de... carteiras.

Comecemos pelo saco de maldades: anunciada com estardalhaço pela mídia amiga, a linha de financiamento disponibilizada a professores para que comprem um computador oferece juros anuais extorsivos: 26,4%, enquanto para empresários é de 4,5% para aquisição do mesmo bem. Já em relação aos aposentados, o governo Serra, a exemplo do que fez FHC quando presidente, os mantêm a pão e água: 5% de aumento em quase quatro anos de governo.

A aplicação do SARESP, a tal prova para avaliar professores e alagadamente melhor remunerar os com bom desempenho, foi um caos total – como demonstra esta série de posts -, com atrasos enormes, provas e gabaritos trocados e a disponibilização de uma linha telefônica para informações que, é claro, não funcionou. Os resultados, tanto da aplicação da prova quanto do desempenho global dos professores foram pífios, embora este último se deva em larga medida ao boicote que muitos professores promoveram, se recusando a responder às questões. Tal como fazia em relação ao Provão dos tempos de FHC, a mídia não registrou esse “detalhe”, preferindo desmerecer o nível educacional do professorado. No início deste ano letivo, novo caos, desta feita para a atribuição de aulas.

As denúncias de corrupção começam com casos regionais – como as acusações contra a Diretoria de Ensino de Araraquara –, passam pela libertinagem das transações cibernéticas feitas à sombra da “inexigibilidade de licitação” e chegam à teia de ligações envolvendo a gestão de Paulo Renato, editoras do setor privado e compra milionária e sem licitação de uma série de revistas e livros, que têm em comum a característica de ser produzidas por empresas da mídia amiga. E isso tudo é só parte do imbroglio, em grande parte desvendado pelo brilhante trabalho jornalístico do blog Na Maria News, onde se encontra mais, muito mais evidências perturbadoras acerca da, digamos, falta de transparência na administração da educação estadual.

O modo como o governador lida com tais denúncias? Além da cumplicidade silenciosa da imprensa amiga, espera aprovar uma “Lei da Mordaça” que impeça a gritaria.


Saúde: Como melhor ministro da Saúde da história deste país, José Serra, à frente do governo estadual, certamente está dando especial atenção à área e realizando uma gestão que não pode ser considerada menos do que marcante. O difícil é encontrar evidências que comprovem esse fato consumado – mas isso certamente se deve à omissão da imprensa, que persegue e boicota José Serra, tentando impedir que ele chegue ao Palácio do Planalto.

Devemos mencionar, no entanto, as enchentes que destruíram São Luis do Paraitinga e mantiveram alagados (e, em alguns casos, ainda mantêm) diversos bairros da região metropolitana. A água acumulada das enchentes é, como se sabe, manancial bacteriológico e fonte potencial para uma série de doenças, algumas mortais. Mas, como nos informou a sempre imparcial imprensa paulista, a enchente se deveu exclusivamente ao azar e à maldade de São Pedro para com São Paulo – nada a ver, portanto, com o desassoreamento do rio Tietê ter sido negligenciado pela administração estadual desde 2005. Seria injusto, portanto, responsabilizar o governador pelas enchentes.


Segurança Pública: Enquanto modalidades diversas de crimes, como o homicídio, campeiam no estado bandeirante – de uma forma tal que muitos cidadãos vivem em pânico ante a ameaça cotidiana de violência -, o governo estadual é reiteradamente acusado de manipular o sistema de registro de ocorrências adotado pelas forças policiais de forma a artificialmente minorar os números reais. Trata-se de um problema crônico e que, apesar das tentativas da secretaria de Segurança de barrar seu estudo, já fora detectado por pesquisa acadêmica séria quando o antecessor de Serra, o também tucano Geraldo Alckimin, estava à frente do governo. A “novidade” trazida pelo atual mandatário é o suposto agravamento de tais métodos.

Outra inovação trazida pelo atual governador – esta devida a seu apreço pela democracia - é o recorrente emprego de força policial para reprimir, de forma desnecessariamente violenta, manifestações pacíficas, como ocorreu na USP e no protesto dos moradores do Jardim Romano, alagado há quatro meses. Alguns tuiteiros amigos sugerem que no Distrito Federal e no Rio Grande do Sul também é assim – e que este seria, portanto, um ranço autoritário das administrações demotucanas. Ok, a violência de forças policiais públicas contra manifestantes pacíficos ocorre também em tais paragens – e isso, é claro, é lamentável -, mas o ex-governador do DF encontra-se preso e Yeda Cruzes tornou-se um zumbi eleitoral – nenhum dos dois é, como Serra, um candidato presidencial com poucas mas efetivas chances de vitória. E isso faz toda a diferença!

Há, ainda, a chocante onda de incêndios em favelas paulistanas, com frequência e peculiaridades que sugerem tratar-se de atos criminosos. É evidente que não se deve, a princípio, responsabilizar diretamente o governador por esse inovador método de tornar os miseráveis mais miseráveis e beneficiar a exploração imobiliária. Mas é mister constatar que seus órgãos de segurança têm sido incapazes de deter o fenômeno ou de fornecer explicações convincentes sobre as razões de sua ocorrência. Por incrível que pareça, garantir a segurança dessa gente pobre e bronzeada que tem o mau hábito de morar em barracos fincados na lama também é função das forças policiais sob as ordens de Serra.

Não se pode deixar de mencionar, ainda, outra inovação serrista para a insegurança pública: a condução de obras que vêm abaixo de forma estrondosa e imprevisível, como o acidente na construção da linha Amarela-4 que matou sete pessoas ou o desabamento do Rodoanel, a megaobra que custou uma fortuna inexplicável e cujo prazo para finalização efetiva provavelmente superará o tempo de vida deste blogueiro e de você, caro(a) leitor(a). Tal “onda de desabamentos’ se deve ao emprego de material de construção vagabundo e barato, como forma de “fazer caixa” eleitoral, como sugerem as más línguas? Não creio.


Um enigma sem respostas

Nesse quadro, como entender que os índices de intenção de voto em Serra, embora em queda, ainda se mantenham em torno dos 30%? A cada vez que uma nova pesquisa é anunciada, o que mais me surpreende não é o crescimento de Dilma, mas, ante a pífia administração serrista, a queda relativamente pequena das intenções de voto no candidato tucano. Será que esses seus supostos eleitores conhecem o que é, documentadamente, o “choque de gestão” de Serra, cujos resultados práticos foram acima mencionados?

Teria a parcela expressiva do eleitorado do Sul/Sudeste que ora alimenta os sonhos eleitorais de Serra ciência de que seu candidato, além de não ter palavra e aliar-se a figuras públicas visadas pela Justiça, promove tamanho desgoverno? O que a levaria, então, a declarar votos nele? Estaria, em nome de uma luta política de cunho ideológico e, convenhamos, não desprovida de preconceitos e ódios de classe contra seus opositores, fazendo como um célebre coronel que, antes de pespegar sua assinatura no AI-5, mandou “às favas os escrúpulos”? Trataria-se, portanto, tão-somente de um voto ideológico e/ou reativo, de repulsa ao lulopetismo?

Sei que são perguntas que tendem a ficar sem respostas – ou, o que é mais provável, respondidas com a agressividade desprovida de argumentos dos trolls fanáticos. A criação de nichos na internet - alguns deles por afinidades político-ideológicas – é um fato e, com raras exceções, creio que a maioria dos poucos mas prezados leitores deste blog é de pessoas mais afinadas a um ideário que se projeta do centro à esquerda.

Eu sinceramente gostaria de obter respostas sinceras e objetivas em relação às questões acima colocadas, ao invés de meras acusações reativas que procuram desclassificar a candidata governista por conta de seu perfil ideológico, de seu suposto passado ou da alegada frouxidão ética das forças que a apoiam. A questão, aqui, não é Dilma, mas Serra: o que leva pessoas que afirmam prezar a ética e a boa administração pública a votar em tal candidato?

8 comentários:

Vera Pereira disse...

Me parece ser o antipetismo histórico, nem tanto anti-Lula, mas anti-PT, por ser um partido de origem sindical e operária. Não vejo nada de ideológico nesse antipetismo, é aversão de classe mesmo, explorada há décadas pela mídia, um antipetismo mais de classe média urbana, sulista, que de classe alta, de elite, urbana e sulista. Para a elite econômica e financeira o que importa são os lucros, as perspectivas de negócios. Não incluo nessa elite, os ruralistas, digamos assim, que são escancaradamente reacionários. Mas, no fundo, no fundo, no particular, mesmo essa elite "moderna", urbana e sulista, é visceralmente avessa à projeção política de seus "subalternos", inclusive à prosperidade de regiões "subalternas" do país. É meu palpite.

fps3000 disse...

O mesmo motivo pelo qual Serra foi eleito: 1/3 do eleitorado brasileiro detesta o PT e os movimentos sociais; esse terço votará em Serra independente dele ser ou não uma pessoa competente, mais contra o petismo e Lula do que a favor desse "novo projeto de poder" que não existe.

É importante lembrar, também, que tudo o que você citou é bobagem para a classe média conservadora - que paga mensalidade de escola e plano de saúde, acha que uma hora de carro fora da cidade é "viagem" (num "tapetão" que quase não usa) e adora repressão para se sentir mais segura nas cidades.

Quem tem que botar chapéu de burro é essa classe média ignorante, não o Serra ou os capangas dele ...

iaiá disse...

melhor análise que li até agora. como não moro em Sampa algumas coisa passei a conhecer melhor aqui, pq obviamente os jornais grandes não divulgam, outras conheço pelo twitter, blog independentes, como os incêndios nas favelas. Acredito que Serra deve manter votação expressiva na classe média das grandes cidades, aquela que comentei no post abaixo, e só. e isso, graças a Deus, não é suficiente para elegê-lo, ou seja, não se elege por sua própria ineficiência, mais que pela eficiência do governo Lula, que transfere sim uma boa parte do cacife para Dilma. vão tentar agora eleger Aecinho? acho que vai não, viu?

Bruno Dias Bento disse...

Boa noite Maurício,

Sou mineiro e moro no interior do Estado.
Digo-lhe que aqui não nos é mostrado como andam as coisas aí em SP. Sei um pouco mais por causa de familiares e que morei aí em 2006, sem saudades...
Mas é principalmente pela falta de informações de quem é Serra, sua gestão e o sucesso do plano de mídia paulista, o que não ocorreu como o nosso governador daqui.
Há mais, ainda existem nichos de reacionários e antipetistas, e concordo com a Vera que acabou de comentar este post, não é ideologia, é falta de consciência.
É bem verdade que Dilma não é boa de oratória, mas o que diria de Serra?
Bem, comentei há pouco outro post sobre o mesmo assunto, mas o que me intriga é que a postura de Serra de ficar "em cima do muro" poderá ser um desarranjo intestinal no desejo da oposição em subir novamente ao Planalto.
Espero que o PT saiba conduzir esta eleição como fez nas duas últimas eleições.
Parabéns pelo post e pelo blog!
Grande abraço.

Eduardo Prado disse...

Maurício,

Acho que parte da resposta já foi dada nos comentários acima. Você mesmo, no próprio post, já matou parte da charada: A "blindagem" do candidato Serra pela imprensa. Por pior que seja a administração tucana em São Paulo, o filtro jornalístico só deixa passar o que há de positivo no governo, mesmo que para isso a informação precise ser manipulada. Claro que algumas críticas negativas acabam passando, mas isso só acontece quando não tem mais jeito e o silêncio se torna impossível.

Fora essas explicações, ainda tenho outra: Aqueles que declaram seu voto em Serra, apesar de bem informados e se dizerem defensores da ética e da boa administração pública só podem estar mentindo. Não em relação ao seu apoio a Serra, mas em sua simpatia pela ética e pela boa administração pública.

Obrigado pelo link!

Silvana disse...

Boa análise, mas só corrigindo uma informação: o SARESP e a prova para os professores temporários são eventos distintos. O SARESP é uma avaliação externa do aluno, e realmente houve problemas de atrasos na entrega do material. A prova dos temporários mostrou-se humilhante e o corte dos temporários reprovados se mostrou inviável, já que quase metade dos professores da rede estadual é temporário. Se é pra ficar aplicando prova, por que não abre de vez uma série de concursos públicos?

Maurício Caleiro disse...

Obrigado pela correção, Silvana. De fato, cometi um erro.

Quanto a ficar aplicando provas e não abrir concursos públicos, disse tudo!

Aproveito e agradeço a todos pelos ótimos comentários, gostei muito!

Um abraço,
Maurício.

Cassio disse...

Seria beiço!? Bico!?
Isto é, o sujeito bicudo por pura implicância e alinhamento contrário às evidências, para iludir-se com o "poder" de ir contra o povo... projetando/identificando-se aos poderosos/elite, à mídia golpista...
Seria um voto bajulação?
Ou talvez voto burrice do capataz (Caetano Veloso)!?