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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Oposição acirra truculência

O grotesco espetáculo da intolerância e do uso da polícia para reprimir manifestações pacíficas teve lugar esta semana, uma vez mais, em São Paulo; uma vez mais, em um governo do conluio demotucano.

Trata-se de algo que está se tornando rotina nas principais administrações (sic) da aliança: além do estado governado por José Serra, o Distrito Federal do cara-de-pau Arruda e o Rio Grande do Sul de Yeda têm assistido, de forma recorrente, à instrumentalização de forças policiais públicas – que deveriam, teoricamente, servir ao bem comum – para reprimir processos pacíficos que desagradam a políticos pouco afeitos à livre-manifestação democrática.


Pau na plebe
Em São Paulo, é a quarta vez em pouco mais de um ano. Eu pensei que minha indignação em relação a tais práticas – inaceitáveis num regime democrático - já tivesse atingido seu nível mais alto com a desnecessariamente violenta repressão ao protesto de estudantes em junho passado, tendo como palco um outrora intocável campus de universidade pública.

Mas estava enganado: a apreensão de saber, ainda de forma desencontrada, que pessoas queridas como Maria Frô e Tsavkko haviam sido alvo da violência policial, com consequências físicas (e certamente psicológicas) para ambos foi dilacerante, sobretudo por somar-se à revolta causada pela certeza de que ela também atingiu cidadãos e cidadãs pobres, vitimadas pelas enchentes que o misto de incompetência e desprezo que Serra e Kassab lega aos menos favorecidos (leia mais sobre a repressão no Arlesophia).

Aliás, o significado do espancamento e dos jatos abundantes de pimenta direcionados - como várias fotografias demonstram – a cidadãos pacíficos é precisamente este: “não estamos nem aí para o sofrimento dessa plebe, pau neles, essa escória que cale a boca e volte pra casa”.

Como escreveu Maria Frô, no título do mais emocionado (e emocionante) post sobre o episódio: “Para o poder público de SP o povo é lixo e deve ser tratado a porrada e gás de pimenta”. É o retrato de uma postura que reencarna, de forma real e sem um mínimo espaço para o humor, a de Justo Veríssimo, a caricatura do político brasileiro criado pela genialidade de Chico Anysio.


Movimentos sociais e ostracismo
Mas há mais, nessa marcha insensata da oposição rumo ao confronto, com o objetivo último de acirrar ao máximo os ânimos e estimular uma ruptura institucional: torna-se cada vez mais evidente que está em plena marcha em São Paulo e no Sul do país um processo, de fundo político, de criminalização dos movimentos sociais, notadamente o MST. Seus membros têm sido condenados a penas altíssimas e até associações de delegados federais têm denunciado a ilegalidade de algumas ações da PM. O movimento dos sem-terra iniciou o que chama de uma “Campanha pela litertação imediata dos presos políticos do MST”

Apesar de toda essa truculência demotucana, Fernando Henrique Cardoso volta à carga acusando Lula de, entre outras coisas, travar uma “guerra imaginária” e alimentar “o fantasma da intolerância” – o que o ex-presidente interpreta como “Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita”. Da vontade de rir, eu sei, mas na verdade é muita cara-de-pau um líder (sic) de um partido associado a tanto autoritarismo acusar um líder mundialmente respeitado por promover a democracia de fato - a qual, ao contrário do que acontecia em seu governo, inclui combate intenso à miséria.

Mas a mídia gorda exultou com o artigo e divulgou-o à exaustão, provocando intensas reações. Discordo da maioria das análises que li sobre texto, sobretudo as alegadamente esquerdistas. Considero ingênua a alegação de que FHC estaria fazendo o jogo do PT ao incentivar a comparação com Lula e, portanto, uma eleição plebiscitária como o atual presidente gostaria. Na minha opinião, o que o tucano quer - e deixa claro no artigo – é forçar comparações para acirrar conflitos e, assim, tornar a situação mais tensa e inflamada, pavimentando o caminho para a radicalização e a desestabilização.

Porém não vou, aqui, debater o amontoado de alusões fantasiosas e inverdades que FHC elenca, pois o considero um caso para a psicanálise. Em respeito a sentimentos aos quais nós, seres humanos, estamos ou estaremos um dia sujeitos – a senilidade, a amargura e a inveja - não pretendo mais gastar tinta com esse senhor, protagonista de um dos governos mais medíocres da história republicana e que desconhece a grandeza e a modéstia. O que eu tinha a dizer sobre tão triste figura já foi escrito e está aqui.


Imprensa livre?
Mas não se restringem a cenas de violência em praça pública dignas de ditadura, nem a repressão idem a movimentos sociais, tampouco a declarações tão virulentas quanto descabidas as manifestações de truculência advindas do demotucanismo.

Todo o apreço de José Serra pela imprensa livre veio à tona esta semana, ao ser indagado por uma repórter da TV Brasil, de forma polida, acerca da falta d’água que atinge, há dias, quase 800 mil pessoas. Irritado, o homem que aspira à Presidência da República disse esperar que a emissora “tenha o mesmo interesse em cada estado e município”, acusando a cobertura de ser “sempre parcial”.

Ora, quase um milhão de pessoas sem água por um longo período de tempo desperta (ou deveria despertar) o interesse da imprensa em qualquer lugar do mundo. Ademais, por questões econômicas estruturais, São Paulo sempre recebeu uma atenção desproporcional no noticiário nacional (este é, aliás, um dos graves problemas do jornalismo nacional; mas Serra nunca havia demonstrado qualquer interesse por ele antes). E, por fim, o governador do estado é pré-candidato à presidente – o que, seja em emissora pública ou privada, na Escócia ou na Nova Zelândia, faz dele - e dos problemas da área sob sua administração – um dos principais alvos do interesse jornalístico.

Serra, evidentemente, sabe de tudo isso. O que ele queria – e a meu ver conseguiu – era criar manchetes favoráveis e colocar a TV Brasil sob suspeita. Basta uma breve busca no Google para ver que seu showzinho de intransigência com a imprensa livre fez muito sucesso entre a “grande mídia” e seus blogueiros barrigueiros de sempre. Que eles apoiam o tucano todos sabemos, mas, como procurei demonstrar no post anterior, esse apoio transcende os interesses políticos imediatos e se insere numa luta pela hegemonia em termos de ideologias orientadoras da política.


Canalha de jornalistas
Tão assustador quanto a diatribe de Serra foi a (falta de) reação dos demais jornalistas presentes. Pensei ter sido o único a ficar absolutamente abismado com tal inação, mas Leandro Fortes, no Twitter, manifestou reação semelhante. Desculpe a repetição, leitor(a), mas, de novo: em qualquer lugar democrático do mundo teria havido uma reação imediata de solidariedade a uma colega de profissão aviltada no exercício honesto do dever. Como o próprio Leandro escreveu em seu ótimo Manifesto Jornalístico, "a canalha é de jornalistas" - mas eu não livro a cara dos patrões, não. No way.

Ante todos os fatos acima relatados e as constatações que eles oferecem, na aparentemente remota hipótese de o governador paulista vir a vencer as eleições presidenciais, os presságios são tenebrosos: pois, mantido esse padrão de conduta, os movimentos sociais tenderiam a ser desarticulados e esmagados; os setores da mídia que ousassem questionar ou criticar as decisões do novo presidente sofreriam repressálias ou seriam cooptados; e, ainda mais preocupante, a livre-manifestação pública estaria comprometida. Tudo isso, se mantido o padrão atual de bovinice, sob o silêncio cúmplice ou o aplauso entusiasmado da mídia amiga.


(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Cristian Korny disse...

irretocável, mas eu iria acrescentar o desmonte do estado.

iaiá disse...

excelente o post, mais uma vez. aprendo muito com vc. e embora com muito menos bagagem que a sua, noto as mesmas coisas o post da @maria_fro me emocionou, e me indignou muitíssimo, por ela e pelas pessoas humildes que protestavam por algo justo: o direito de morar.
mas o que percebo mesmo em tudo, nos trols da net, nas conversas de algmas pessoas, no jeito Serra de ser ( ede outros tb, pqa tal esqueda festiva tb é de doer), etc etc, é um clima que talvez já tenha existido e tenho até medo decolocar em palavras..mas dá receio que volte uma época em que tudo era reprimido, sabe? eu mal tinha nascido, mas sei bem como foi. Deus, queira que não.
bjs

Calbercan disse...

Sugiro mudar o slogan da campanha para: Diga SIM à democracia na internet. Diga NÃO ao projeto do senador Azeredo.

Maurício Caleiro disse...

Sugestão acatada, Calbercan. Obrigado.