domingo, 7 de fevereiro de 2010

Por uma nova ideologia orientadora da política nacional

A divulgação do que vem a ser, na prática, o plano de governo de Dilma Rousseff confirma o que aqueles que acompanham de perto a política nacional - com mais atenção aos blogs do que aos jornais e revistas – já sabiam: é chegada a hora de enterrar o cadáver do neoliberalismo e, assumidamente, promover a defesa de uma ideologia que apregoe maior presença econômica e gerencial do Estado e metas desenvolvimentistas de longo prazo, socialmente includentes e as quais, ao mesmo tempo, atentem para a necessidade de preservação do meio ambiente.

Pois o que está em jogo é a contraposição de um modelo de administração do país que tem promovido a inclusão de setores historicamente marginalizados e a redução da miséria em bases e ritmo antes impensáveis, e outro modelo no qual “A legitimidade política da precarização social repousa sobre o triunfo da ideologia que faz do crescimento monetário a finalidade última do desenvolvimento das sociedades”, como aludem Béatrice Appay e Annie Thébaud-Mony no verbete “Precarização social” do Dicionário Crítico do Feminismo citado no post anterior.


Muro neoliberal também caiu
A Queda do Muro de Berlim, ocorrida em 1990, foi um episódio-símbolo da derrocada do socialismo e, por associação (excessivamente generalizante), das esquerdas. A ascensão do neoliberalismo, forjado como cesta de medidas programáticas no “Consenso de Washington, antecede tal momento, com a administração de Thatcher na Inglaterra e de Reagan nos EUA e, por quase duas décadas, o supera. Para fazê-lo, ela imporia, com amplo apoio da mídia, um verdadeiro “massacre ideológico”, nas palavras de Arnobio Rocha, que publicou um ótimo post no qual elenca os mandamentos vigentes durante esse longo período outonal.

Ocorre, porém, que o neoliberalismo foi seriamente minado ou derrotado em quase todo lugar ao final da primeira década do atual século, como ocorrera antes com o socialismo. A grave crise econômica mundial que se seguiu à crise das hipotecas nos EUA é o seu Muro de Berlim. O fato de o Brasil ter sido, graças à competência administrativa do atual governo, um dos últimos países a entrar e um dos primeiros a sair da crise – de modo que, ao final, ela mal passou mesmo de “uma marolinha” – talvez não nos permita ter uma visão da gravidade do quadro econômico atual, em âmbito internacional, mas ele é desolador. Na Europa, o desemprego em dois dígitos e crescente alimenta a reemergência do radicalismo xenofóbico e a crise se alastra rizomaticamente, afetando diversos setores sociais da Zona do Euro, notadamente em sua periferia, como demonstra com propriedade Hugo Albuquerque; nos EUA, após dezenas de milhares perderem suas casas, os indicadores - da queda no consumo de energia elétrica aos déficits externos, passando pela redução acentuada na oferta de créditos e o aumento de pedidos de concordata -, apontam para a falência de um modelo.


Mídia é aliada estrutural do neoliberalismo

Não se deve, no entanto, apenas à nossa suavizada percepção da crise a resistência que a superação do ideário neoliberal encontra por aqui, em certos bolsões. Há um poder, decadente, cada vez menos influente, mas ainda preponderante por estar entranhado na própria lógica de funcionamento do que Dênis de Moraes chama de “capitalismo infotelecomunicacional” que, justamente por esta razão, teima em manter insepulto o putrefato cadáver do neoliberalismo: a mídia.

É por isso que o desenho que encima este post é espirituoso, mas inexato: não é apenas o porrete - aquele mesmo que o governador paulista vira e e mexe manda sentar no lombo de estudantes e de manifestantes pacíficos - que sustenta o neoliberalismo; a mídia corporativa, por pervasiva e dissimulada, é quem o faz de forma ininterrupta e com mais eficácia.

Não causa estranheza, portanto, que, mesmo com pesquisas qualitativas sucessivamente demonstrando que os brasileiros, em sua maioria, repudiam bandeiras liberais como a privatização de empresas e a diminuição do papel e do tamanho do governo, o jornalismo dos grandes grupos de comunicação insista em desqualificar propostas como a de maior presença do Estado na economia, de fortalecimento de empresas estatais e de aumento de linhas de crédito dos bancos públicos para o setor produtivo, constantes no documento aludido no primeiro parágrafo do texto, e que fornece as diretrizes para um eventual governo Dilma – significativamente intitulado “A Grande Transformação”. Já há muito está claro, para cada vez mais gente, que, com o perdão do mau trocadilho, o interesse de tais empresas de comunicação é defender seus interesses, e não informar ou fomentar o debate.


Guerra de torcidas e modelos idelógicos

O que, na verdade, causa estranheza, é a apatia e/ou a forma meramente reativa como a esquerda, em sua maioria, reage a tal quadro. É significativo, nesse sentido que mesmo os blogs com ela identificados, ao se depararem com acusações de “esquerdismo’ contra o plano de Dilma, se esforcem mais por desmentir tal afirmação do que para questionar por que raios um plano “esquerdista” seria necessariamente ruim.

Ou seja, jogam o jogo da mídia conservadora, pois é esta que continua determinando os termos do debate, os quais continuam a se basear em premissas neoliberais. E é chegada a hora de esmagar a cabeça da cobra e questionar não apenas as táticas e acusações superficiais da mídia, mas as bases axiológicas e discursivas sobre as quais repousam. Trata-se de um processo longo, de um embate contínuo (lembremo-nos que mesmo no auge do triunfalismo neoliberal, pensadores visionários como Octávio Ianni, Óscar Azócar e Milton Santos já afirmavam sua derrocada); de uma necessidade de rever criticamente, como foi dito, não apenas os discursos midiáticos, mas os parâmetros valorativos que os sustentam – o que, por sua vez, acaba inexoravelmente por gerar uma necessidade de revisão da história política do pais, já que esta tende a eser reiteradamente reescrita pelas forças que, nas palavras de Carlos Nelson Coutinho, desfrutam da “intimidade à sombra do poder”. O episódio em que Lula evoca Getúlio Vargas, descrito no blog de Antonio Celso – em um post significativamente intitulado “O retorno do recalcado” -, é exemplificador da necessidade de tal revisão e da consciência que o atual presidente tem acerca de tal demanda.

Já no âmbito da militância e dos simpatizantes, tanto no universo virtual quanto no mundo real, tem-se frequentemente a impressão de que o que deveria ser um vigoroso embate político e ideológico contra as forças de um passado recente – forças estas que se encontram em plena atividade, ávidas pelo poder – tornou-se uma espécie de guerrinha de torcidas, em que uma grita “Marlene é a maior, u-hu!” e a outra berra “Emilinha já ganhou, a-ha!”; que enquanto uma se esgoela brandindo acusações contra o PIG, Serra e Kassab, a outra se inflama denunciando petralhas, ministras-terroristas, e um presidente que além de não ter dedo fala errado. Não que tais embates, com toda as tolices e exageros que comportam, não façam parte do jogo. Eles o fazem. Mas, se se quer realmente promover uma mudança das premissas orientadoras da administração do país, é preciso passar a defender, de forma coordenada e com afinco, determinação e conhecimento de causa, uma nova orientação político-ideológica para o Brasil.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

Puebla disse...

A baixaria vai ser feia, manchete no "Globo" de hoje:"FH sobe o tom contra o governo e diz que Dilma 'não inspira confiança'", Sobe o tom ou baixa o nível meu caro Maurício?

Cristian Korny disse...

mandou bem, sr. Caleiro! mas apreender esses mecanismos de mídia é muito difícil para quem foi criado neles, todos estão ainda muito influenciados e submersos, assim esse discurso segue por inércia, a sua alternativa virá naturalmente, mas nunca sem esforço. Demonizar como PIG foi um começo, agora é necessário um passo adiante.