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domingo, 6 de dezembro de 2009

Deixa Ela Entrar: muito mais do que um "filme de vampiro"

Na profusão de hipérboles que caracterizam os dias de hoje, alguém já chamou Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, Tomas Alfredson, Suécia, 2008) de “o mais original filme de vampiros já realizado”.

Trata-se de uma afirmação questionável, em um subgênero que, além das obras-primas que o definiram – como Nosferatu, de Murnau (Alemanha, 1922) e Drácula, de Tod Browning (EUA, 1931) -, conta com as clássicas refilmagens e sequências produzidas pela produtora britânica Hammer nos anos 50, protagonizadas por Christopher Lee, e com adaptações plenas de inventividade, como o hilário Dança dos Vampiros (1967), de Roman Polanski, o Nosferatu (1979) de Werner Herzog e o Drácula (1992) de Coppola, sem esquecer bobagens deliciosas como Os Garotos Perdidos (Joel Schumacher, EUA, 1987) e o brasileiríssimo As Sete Vampiras (Ivan Cardoso, 1986).

Lançado numa era em que filmes sobre vampiros viraram modinha adolescente, Deixa Ela Entrar se destaca, no entanto, justamente pela recusa em recorrer a clichês para contar uma história de amor sui generis que é, a um tempo, uma parábola sobre os ritos de passagem para a vida adulta e uma sutil, quase imperceptível alegoria política.

Mas é justamente através do retrato de um adolescente de 12 anos, o tímido e solitário Oskar (Kåre Hedebrant), e de seu envolvimento com a vampira Eli (que também tem 12 anos, “mas há muito tempo...”) que o filme enfatiza a força avassaladora da descoberta do amor e da renovação contra o conservadorismo.

O filme opera tal dinâmica sem apelar ao esquemático e ao melodramático, construindo-a aos poucos, sem fornecer pistas fáceis ao espectador: há delicadeza e atenção aos detalhes, mas também brutalidade e atos com conseqüências perturbadoras, que não se justificam moralmente.

Para que tal empreitada tenha sucesso tanto a usual caracterização heróica do protagonista dá lugar ao retrato de um garoto frágil e vítima contumaz de bullying quanto, contrariando o arquétipo clássico do vampiro, a personagem Eli (Lina Leandersson) não é voltada prioritariamente à auto-satisfação por sangue e por eterna juventude (presa à satisfação da libido do ego, em terminologia freudiana), mas alguém que luta desesperadamente para preservar o ser que ama de sua própria necessidade hematológica.

A menção ao pai da psicanálise não é vã: Deixa Ela Entrar, um filme pleno de reflexões ora mais ora menos profundas concernentes à oposição entre pulsões de vida e pulsões de morte, é rico em leituras freudianas diversas. Mais um motivo para, como aponta Inagaki em um ótimo post, ao invés de rotulá-lo como filme de vampiro, parecer " mais adequado classificar Deixa Ela Entrar como um drama focado nos temas universais: amor e morte, desejo e destruição".

O ritmo da narrativa é descompassado, deixando ao espectador a tarefa de deduzir o que as elipses da montagem preferem não explicitar; sua decupagem combina amplos planos gerais da inóspita paisagem de inverno a planos fechados de interiores, com a fotografia explorando a brancura dominante da neve ou o tom pastel determinado pela direção de arte para as roupas e adornos – pontualmente contrastados ao vermelho vivo do sangue, como convém a filmes de vampiros.

O aspecto político da narrativa, pouco observado pelos críticos mas fundamental no livro que deu origem ao filme, busca traçar um paralelo entre a dissipação da barreira entre vampiros e seres humanos (através da relação entre Oskar e Eli) e entre comunistas e capitalistas (através da indistinção do modo de vida dos suecos do extremo norte e de seus quase-vizinhos russos). Isto se verifica tanto em relação ao grupo de adultos medíocres e alcoólatras que servirá para aplacar – literalmente - a sede de sangue de Eli quanto ao grupo de bullyers ao qual adentra o rapagão sanguinolento cujos métodos desprovidos de qualquer ética prefiguram a irrupção das máfias soviéticas.

Mas um dos aspectos superlativos de Deixa Ela Entrar é justamente sua capacidade de abarcar diferentes temáticas sem deixar de produzir, na essência, uma reflexão acerca de questões metafísicas como o tempo, a juventude, a superação do velho pelo novo. E, como que a coroar tais conquistas, culmina num clímax final com sequências antológicas.

7 comentários:

Aline disse...

Boa análise a sua. Seria realmente difícil desvendar a mensagem política do filme ou será que, no fundo, não há mensagem alguma?

Maurício Caleiro disse...

Aline,

O filme funciona muito bem sem atenção aos aspectos políticos. Mas eles estão lá - e são essenciais ao livro em que foi baseado, do mesmo autor do roteiro de Deixa Ela Entrar.

iaiá disse...

me deu vontade de ver o filme e mais ainad de ler o livro. muito interessante

Maurício Caleiro disse...

É um filme que envolve aos poucos. Eu vi cansado e de mau humor, mas ao final adorei!

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Interessante. Como eu faço para encontrar esse filme?

Maurício Caleiro disse...

Vi no cinema, Hugo.

Acho que ainda está em cartaz em SP.

Um abraço,
Maurício.

gilberto tedeia disse...

gostei da dica; quanto à pergunta do Hugo, não é difícil achá-lo para baixar, com legende embutida.