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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Arruda: o que a mídia esconde

Pela segunda vez em sua curta carreira política, o ainda governador José Roberto Arruda (DEM/DF) é protagonista de um grave escândalo político. Desta vez envolvendo corrupção e com evidências amparadas em imagens que, se “não falam por si” – como afirmou o presidente Lula, querendo, uma vez mais, evitar qualquer condenação a priori e enfatizar a importância do trâmite legal –, são eloquentes para justificar uma condenação na Justiça.

Em 2001, Arruda, então senador pelo PSDB, fora flagrado no episódio da violação do painel eletrônico do Congresso, juntamente com Antônio Carlos Magalhães. De início refutou categoricamente as acusações, mas, ao constatar que suas negativas não surtiriam efeito, mudou de tática e, aos prantos, admitiu a culpa e implorou perdão, renunciando para não ficar inelegível por um período de até oito anos. O show de hipocrisia melodramática surtiu efeito e, para consternação das pessoas de bem, pouco mais de um ano após o grave episódio, ele era eleito deputado federal, com a maior votação proporcional do país. Senti um misto de raiva e de pena do eleitor brasiliense.

O atual escândalo põe em evidência, uma vez mais, uma personalidade política das mais abjetas: além dos escândalos em que se meteu, Arruda, segundo declarações do ex-secretário de Assuntos Institucionais do Distrito Federal Durval Barbosa (constantes do inquérito 650-DF, referente à Operação Caixa de Pandora), o teria ameaçado nos seguintes termos: "Se você apresentar essas imagens da minha pessoa, você me avise com cinco dias de antecedência que é para eu sumir ou dar um tiro na minha cabeça ou te matar”.

Desde o primeiro momento, a questão essencial que se colocou, para mim, em relação ao escândalo, foram quais eram as razões que teriam motivado tais denúncias - a quem interessa a queda e o desprestígio de Arruda? Nunca cri que elas se devessem ao medo de Durval de que as ameaças contra ele fossem cumpridas – mesmo porque, com a exibição pública dos vídeos que gravara, o ex-Secretário também seria criminalmente envolvido e, mesmo tendo costurado um acordo de delação premiada com o MP que certamente diminuirá sua pena, sua vida passaria a valer tanto quanto uma nota de R$30. Algum estímulo extra teria de estar por trás da sua decisão de delatar.

Uma fonte cujo anonimato será preservado sugeriu-me uma hipótese bem mais elaborada: a figura por trás das denúncias seria o ex-governador Joaquim Roriz, dando vazão a uma magistral vendetta contra Arruda, a quem sempre responsabilizou pelas investigações na PCDF que o forçaram a renunciar ao governo do DF. Faz sentido: o ex-mandatário sabia que Arruda teria de cumprir o acordo com Paulo Octávio pelo qual, após governar 4 anos, reeleito, passaria o poder a seu vice - não permitindo, portanto, que o "velho" Roriz almejasse voltar a dar as cartas, candidatar-se ao governo (tinha 33% contra 44% de Arruda na última pesquisa Ibope) ou impor como candidata Jaqueline Roriz (que, evidenciando o conflito, abandonou o governo Arruda há meses). Vale lembrar que, segundo a mesma fonte, Roriz – que tem um passado de enfrentamentos e reconciliações com Arruda, culminando com o rompimento do partido com as bases do ex-governador na última eleição - tinha cópia das fitas de Durval, tendo feito até sessões privadas de exibição antes do escândalo estourar. E, significadamente, os registros dos envolvidos que não trairiam Roriz não teriam sido divulgados. Trata-se de uma linha de investigação a ser seguida.

No bojo do escândalo, o PPS do catão camaleônico Roberto Freire e da volúvel Sonsinha tentou, como fazem os roedores, abandonar o barco às pressas, mas era um pouco tarde demais: além de ser altamente improvável que a mamata se restrinja ao DEM, “há gravações que implicam o presidente local do partido e subsecretário de Saúde, Fernando Antunes, acusado de cobrar dinheiro para a campanha eleitoral do partido em São Paulo”, como atesta o jornalista João Bosco Rabello, do Estadão, em seu blog corporativo.

A “grande mídia”, Globo à frente, parece ter definido uma linha de cobertura a ser seguida: queima-se o DEM (com a ressalva de que se ele expulsar Arruda, pode-se afirmar – como ontem a Globo News já ensaiava fazer - que o partido pune seus “mensaleiros”, ao contrário do PT), mas preserva-se o PSDB a qualquer custo.

Trata-se de uma operação hercúlea. Primeiro, porque Durval Barbosa acusa, em depoimento à Polícia Federal, o presidente do PSDB do DF e ex-Secretário de Obras de Arruda, Márcio Machado, filiado ao partido há mais de quinze anos, de ser o responsável pela coleta e distribuição de fundos do mensalão aos tucanos. Segundo porque, como tal denúncia evidencia, o que foi dito em relação ao PPS vale para o PSDB: fazia parte da coalizão governista e, nesta condição, é ilógico achar que o grotesco episódio de distribuição de pacotes de dinheiro a deputados não o beneficiasse – trata-se da Polícia Federal aprofundar as investigações nessa direção, o que certamente fará.

Terceiro, porque as ligações de Arruda com o partido em que permaneceu seis anos vêm de longe: como já mencionado, foi como senador pelo PSDB que ele foi flagrado violando o painel eletrônico a favor do amigo Luís Estevão. Mais do que isso: o governador de Minas Aécio Neves aparece ao lado de Arruda em um vídeo que o PSDB tentou tirar da internet, afirmando que “nós vamos criar um confronto político com o governo para demonstrar à população brasileira que é hora de uma renovação” [que bela renovação!].

Há, ainda, a ameaça de Arruda de "botar a boca no mundo" se vier a ser expulso do DEM, revelando os recursos que teriam saído do Distrito Federal para várias campanhas municipais do partido, incluindo nominalmente a prefeitura de São Paulo, onde o ex-vice e então pupilo de Serra, Gilberto Kassab, foi eleito com intensa ajuda do governador bandeirante.

Por fim, há a aproximação de José Serra e de Arruda, intensa nos últimos dias e documentada pelos jornais, e que como demonstra, entre outros, Altamiro Borges, incluía a perspectiva de que o governador-réu do DF viesse a ser, no ano que vem, candidato a vice-presidente na chapa do governador de São Paulo. Fato que a mídia agora se esforça para não lembrar.


(Foto retirada daqui)

7 comentários:

iaiá disse...

essa forma de fazer política e de captar recursos par campanah e pro próprio bolso é a mesma em qualquer lugar do país, basta disposição pra investigar e gravar por um longo período. pra participar de licitações até o Arruda e o Serra estão carecas de sabe que tem que fazer uma caixinha primeiro, o percentual é que é variável. A novidade do escândalo da vez éa fartura da documentação e do material. Rezo pra que não acabe em pizza, ops, panetone.

Maurício Caleiro disse...

É, tá todo mundo careca de saber que é assim que funciona - só que agora escancarou, com os vídeos todos.

Quero só vero no que vai dar...

Hugo Albuquerque disse...

Na mosca, Maurício. Agora o DEM está em maus lençóis, tirando essa aberração que aconteceu em São Paulo - um dos maiores currais eleitorais do país -, onde Kassab foi eleito, o partido está virando vapor pelo país adentro. Tanto é que esse escândalo se abate sobre o seu único Governador. Por mais que a mídia corporativa tente impedir que isso não respingue em Serra, acho que o estrago já tá feito, não há mais como insistir com a única pauta deles que é o denuncismo udenista. Lentamente, a candidatura Serra vai para o vinagre.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

O seu comentário, como sempre, ilumina um ponto-chave da questão: tornou-se insustentável o denuncismo moralista como única arma anti-esquerda. Agora o mensalão, corroborado pelo estatuto de verdade das imagens em movimento, é demo-tucano.

Um abraço,
Maurício.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

O pior de tudo, de todas as denúncias, do PIG e etc, é saber que foi o povo de brasília que colocou um criminoso no poder. Não alguém que se tornou depois do mandato ou que, pelo menos, foi descoberto já depois de eleito, mas que tinha renunciado por ser safado meses antes!

É nessas horas que é difícil falar ou fazer alguma coisa quando até mesmo um canalha confesso é eleito. E, não duvido, será outra vez assim que conseguir um partido que o aceite.

Maurício Caleiro disse...

Tsavkko,

Isso é mesmo desesperador. Na época eu fiquei completamente desgostoso com política.

Mas pelo menos agora ele tá protagonizando uma lambança que certamente vai repercutir na campanha Demo-tucana.

cirandeira disse...

É a história se repetindo, sob outro ângulo! Os falsos moralistas
pegos "com a mão na combuca"! E a "grande mídia"(!?) fazendo de tudo pra minimizar o ocorrido...!Como diziam os orientais: "Para doenças crônicas, tratamentos crônicos". Quem sabe um dia essa corrupção crônica, do tempo da colonização, desapareça.Depende de todos nós, de uma sociedade mais consciente e politizada. E de tempo também, muuiiito tempo! A caminhada é longa e cheia de percalços...