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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Serra e Ahmadinejad

No dia da visita de Ahmadinejad ao Brasil, a Folha de São Paulo exibe chamada de capa para um artigo do governador de São Paulo, José Serra, atacando pesadamente o presidente Luís Inácio Lula da Silva por recepcionar o presidente iraniano.

Não há dúvidas de que Ahmadinejad representa posições inaceitáveis no mundo atual: repressão e condenação a homossexuais, opressão às mulheres e ao feminismo, supremacia do poder religioso sobre a esfera leiga; sob seu governo, a censura, que esteve ativa desde a Revolução Islâmica, tornou-se ainda mais intransigente, levando até cineastas consagrados à prisão.

Mas, por paradoxal que pareça, é justamente para não acirrar tais posições que a recepção que o Brasil proporciona ao presidente iraniano é importante. Pois isolá-lo, na atual conformação internacional, significa colaborar para levar o Irã a um duplo radicalismo: o da extremamente conservadora teocracia panárabe; e, como líder-mártir que ousou confrontar o Império norteamericano e como uma das principais forças políticas contrárias a Israel, ao do terrorismo internacional patrocinado pela Al-Qaeda.

É precisamente contra esse duplo perigo que se insere a estratégia da diplomacia brasileira, que de quebra ganha a simpatia de importantes setores do Oriente Médio e da Liga Árabe para postular uma vaga no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O que está em jogo, portanto, é mais um passo no realinhamento da posição do Brasil no mundo, de forma particular em relação aos Estados Unidos, país que, por razões diversas – notadamente suas relações com o grande capital judaico, neste momento delicado da economia norteamericana - não pode e não quer adotar publicamente uma política soft power em relação ao Irã.

Não há como entender o fenômeno iraniano sem recapitular as relações que os EUA mantiveram com o país. Ao patrocinar, via agentes infiltrados da CIA, a derrubada do moderado primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953 – naquele que é considerado por muitos analistas internacionais como o maior erro na história da política externa norteamericana – o, com o perdão da ironia, país-líder do “mundo livre” acirrou ódios maniqueístas no Oriente Médio, reforçando sem querer a radicalização de uma posição pró-Palestina, ao mesmo passo em que ajudou a colocar no comando do Irã a ditadura do xá Reza Pahlavi, cuja brutalidade agravou-se a partir dos anos 70, com milhares de mortos, torturados e mutilados pelo regime.

É do esgotamento desse modelo ditatorial – durante o qual o povo iraniano foi levado a aderir maciçamente a credos religiosos, pois, entre outras razões, eram essas das poucas manifestações populares então permitidas no país - que brota a Revolução Islâmica levada a cabo pelo Ayatolah Khomeini, em 1979. Caracterizada não apenas pela forma aberta com que se opôs aos EUA (em que pese o caso Irã-Contras) mas pela progressiva radicalização do conservadorismo religioso, a Revolução está nas raízes tanto do extremo conservadorismo de Ahmadinejad quanto do terrorismo de bin Laden (pois foi como forma de combatê-la que os EUA deram armas e poder a Sadam Hussein, decisão cuja consequência última foi a criação de um exército-reserva para o terrorismo).

Portanto, a diatribe eleitoreira de José Serra – a quem Luis Nassif acusa de, com o artigo em questão, ter aderido ao jornalismo neocon – é não apenas descontextualizada em termos históricos como ignorante das sutis dinâmicas da política internacional. Além de hipócrita para um governante que recebeu líderes sionistas acusados de assassinato, revela o despreparo do mandatário paulista para lidar com o sofisticado universo das relações exteriores.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

Raphael Tsavkko Garcia disse...

O mais absurdo e revoltante, no fim das contas, é a propaganda anti-Ahmadinejad - que resulta apenas em mais bloqueio e piores condições para os iranianos, mesmo os favoráveis ao canalha - sem o contraponto do lado de Israel.

Lieberman e Peres são recebidos como heróis, o discurso do segundo é transmitido ao vivo na Globonews e faz-se festa....

Legitimar e relativizar o genocídio é cruel!

Maurício Caleiro disse...

Tsavkko,

São dois pesos e duas medidas (aliás, eu ia usar esse conceito no post mas esqueci...rsss.).