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sábado, 14 de novembro de 2009

Imprensa: apagão ou desabamento ético?

Um blecaute que abrangeu dois países e 18 estados brasileiros, durando, em média, mais de três horas, é um acontecimento grave, preocupante. Tentar negar isso, como muitos entusiastas do governo de Luís Inácio Lula da Silva fazem, significa incorrer no mais potencialmente perigoso dos erros políticos: o da auto-ilusão.

O fato de o evento ser relevante não permite equipará-lo, no entanto, como a “grande mídia” em peso vem fazendo, ao chamado “apagão” que teve lugar durante a Presidência de Fernando Henrique Cardoso. Essa impossibilidade dá-se pelo caráter episódico, acidental da falta de luz da última terça-feira, que, ao contrário do que ocorrera durante o mandato do peessedebista, não se liga a um déficit estrutural no fornecimento de energia - como os dados oficiais o demonstram - nem demanda um rigoroso racionamento para evitar colapso do sistema, como o que então foi imposto à população brasileira.

Perpassado por uma euforia que mal se disfarça, o comportamento da mídia, porém, utilizando rápida e repetidamente o pregnante substantivo “apagão” para designar um episódio isolado, produzindo à mancheia manchetes que vocalizam acriticamente o pensamento da oposição, e procurando atribuir culpas a uma ministra responsável pela Casa Civil (função na qual não pode nem deve responder pela área de Energia) não condiz minimamente com a função da imprensa.


Imprensa age como partido político
Embora muitos hoje hesitem em acreditar, houve um tempo em que tal instituição preservava um certo interesse investigativo e ao menos a necessidade de aparentar neutralidade - embora, como parte do sistema capitalista tanto no âmbito estrutural quanto superestrutural, já servisse a interesses escusos os mais variados. Se agisse como em seus bons momentos de outrora. a imprensa constataria que a explicação de que o blecaute foi causado pela coincidência infeliz de três raios em áreas mais ou menos próximas umas das outras na estação de Itaberá (SP), embora não deva ser aceita acriticamente - e afigure-se, segundo o senso comum, absurda como hipótese -, tem explicações técnicas e evidências físicas consistentes a sustentá-la e que, segundo o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chipp, “Nenhum sistema do mundo é planejado e dimensionado para este tipo de ocorrência, é muito antieconômico pela baixa probabilidade de acontecer”.

Caso resolvesse cumprir seu papel e não agir como partido político, a imprensa poderia se interessar também pela hipótese de que o blecaute teria sido um ato de sabotagem com fins eleitorais e que teria ocorrido boicote na recusa em ligar o sistema anti-blecaute paulista. Por fim, se atrás da verdade dos fatos estivesse é mister constatar que a mídia teria então de se interessar até mesmo por sua própria – e suspeitíssima – mobilização pré-blecaute, curiosidade que seria, sabemos, uma impossibilidade.

Talvez o leitor possa estar agora pensando: isso tudo cheira à teoria da conspiração. Pode ser, meu caro, pode ser, mas uma das funções precípuas da imprensa é precisamente investigar os fatos para impedir a divulgação de versões falsas e tendenciosas (não que as hipóteses acima arroladas necessariamente o sejam).


Dois pesos, duas medidas
Três dias depois do blecaute, por volta das 22 horas da sexta-feira, um acidente de grandes proporções tem lugar no Rodoanel, a obra paulista que levou anos para ficar pronta e sobre a qual, segundo o Tribunal de Contas da União, pairam indícios de superfaturamento. Três vigas de 80 toneladas e 40 metros de comprimento cada uma desabam (e uma quarta fica pendente), fazendo a pista ceder, interditando por quase doze horas a rodovia Régis Bittencourt, atingindo vários carros e deixando alegadamente três pessoas feridas (número que eu coloco sob suspeita). De qualquer forma, as conseqüências foram muito menos desastrosas do que poderiam ser se o tráfico fosse intenso no trecho na hora do acidente, como é freqüente ao final da tarde e nas vésperas de feriado.

Trata-se do segundo desabamento de grandes proporções em uma obra do atual governo paulista (o primeiro deu-se nas obras da estação Pinheiros do metrô, resultando em ao menos 7 vítimas fatais). Como reage a imprensa? Após uma demora inexplicável para noticiar um fato sobre o qual já se conheciam detalhes nas redes sociais da internet, oferece uma ou outra manchete pouco informativa, numa cobertura incomparavelmente menos crítica e pouquíssimo curiosa se comparada àquela concedida ao blecaute três dias antes.

No início da tarde do dia seguinte, enquanto os destaques noticiosos do portal Terra fingiam desconhecer o assunto, a inacreditável manchete do portal UOL era: “Petistas usam acidente para atacar José Serra” - ou seja, além de negligenciar informações sobre um acidente em relação ao qual paira uma série de questões não respondidas, promove-se uma total reversão de valores, em que o mandatário que deveria estar sendo questionado sobre o segundo desabamento grave em seu governo passa a ser a vítima, e seus opositores os algozes. É o cúmulo da manipulação "jornalística"!

Já no portal Yahoo!,o destaque era, inicialmente, “Vítimas de desabamento passam bem e Régis é liberada”- o que poderia até ser uma manchete passável, se o padrão de velocidade de cobertura da imprensa brasileira fosse este e ela tivesse, nos dias que se seguiram ao blecaute, soltado ao menos uma manchete como “Energia elétrica é restabelecida e país volta à normalidade”. Mas o Yahoo! iria mais longe, e enquanto referências ao desabamento no Rodoanel desapareciam da sua grade com as 10 principais notícias, o portal logo substituiria a manchete quase passável por outra: “Governo trabalha para preservar Dilma após apagão”. Sobre Serra, menos de 24 horas após um grave acidente numa obra sob responsabilidade do estado em que governa, nenhuma palavra.


Mídia alimenta polarização
Como afirmei no post anterior, considero esse fla-flu Lula vs. FHC, PSDB vs. PT empobrecedor. É algo que tolhe o debate sobre as potencialidades do país e suas múltiplas possibilidades políticas, estéticas e culturais. Mas ante tamanha assimetria de tratamento de fatos pela mídia, com claros propósitos eleitorais, fica impossível abordar assunto outro além da atuação de nossa desacreditada e aparentemente incorrigível imprensa, entidade em franca decadência e que só faz açular a nefasta dicotomia referida no início do parágrafo, obrigando os cidadãos e cidadãs de bem a valerem-se da democratização da comunicação possibilitada pela internet para demonstrar que não são tontos e reagir ante tamanha manipulação de fatos.


(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Só consegui escrever um pequeno post sobre isso daí - ainda bem que o amigo é mais paciente e conseguiu produzir mais.

Essa cobertura foi de uma picaretagem que eu não consigo nem expressar o que eu sinto...Mas é de um baixeza sem tamanho a partidarização sobre o que houve - tudo isso só reforça o quanto Serra não pode ser presidente ano que vem.

Maurício Caleiro disse...

É, Hugo,

Confesso que estou preocupado, pois a desfaçatez da imprensa nese caso é algo inacreditável, mesmo para seus baixíssimos padrões...

iaiá disse...

só sei que a cada dai esta´mais difícil ler notícias, e quanto mais se aproxima de 200, mas polarizado fica. quando há um fato como esse quem não entende por exemplo do setor elétrico, tem ainda mais dificuldad de interpretar os fatos e separar o joio do trigo em tudo que é veiculado. não boto minah mão no fogo por ninguém. só isso.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

A manchete do Uol acusando so petistas de acusarem, por sua vez, os Tucanos de culpa na queda do Rodoanel - culpa indefensávle, aliás - lembra as birras de crianças que fazem merda até não poder e quando recebem o troco vão pro colo da mãe dizendo-se atacadas e abusadas....

A mídia está cada vez pior, cada vez mais burra e inconsequente.

É infantil e perigosa.