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domingo, 8 de novembro de 2009

Uniban e a urgência da questão de gêneros

O ensino privado superior, no Brasil, se transformou há tempos em big business. Seus prédios pós-modernos, multicoloridos, que se assemelham a shopping centers, são fachada para transações escusas: compra-se a alma ansiosa de milhões de jovens, ávidos pelo ticket de entrada na ordem dos bípedes com formação superior: um papel pintado que atende pela alcunha de diploma universitário; vende-se um ensino de qualidade risível, na forma de aulas-espetáculo. De lambuja, a confusão de matrículas trancadas, mensalidades atrasadas, bolsas de isenção y otras cositas más abre espaço para uma série de manobras contábeis, incluída, majestosa no carro-chefe, a lavagem de dinheiro.

Assim, naturalmente, esses shopping centers – digo, essas respeitosas entidades de ensino superior – estão, no mais das vezes, nas mãos de uma fauna peculiar, afeita a tais alpistes: bicheiros, mafiosos em geral, figurões da extrema-direita. Não por acaso, o elo comum entre várias dessas figuras é um certo político paulista, sempre às voltas com a Justiça, e que, segundo o dito popular, “rouba mas faz”.

Essa pouca-vergonha, que se multiplicou exponencialmente durante a desastrosa gestão de Paulo Renato no MEC, continuou a todo vapor no atual governo, e açulada então pela transferência de fundos públicos à iniciativa privada que é o ProUni. Este assunto não comporta, portanto, o fla-flu político-ideológico e a decorrente atmosfera de turba que tem empobrecido sobremaneira o debate: FHC e Lula dividem a culpa pelo desastre.

Atmosfera de turba, aliás, foi precisamente o que se verificou à entrada de Geisy Arruda, toda-toda de ultraminisaia, nos corredores da Uniban – e quem pensa que o embate político-ideológico citado acima e a reação enfurecida dos universitários não se relaciona, talvez devesse refletir melhor: são ambos manifestações de um estágio pré-fascista, em que a intolerância para com o discordante se manifesta em intransigência e agressividade.

Pela intransigência também prima a reação da mercearia de diplomas que atende pelo nome de Uniban. Com a desculpa caracteristicamente fascista de que “a educação se faz com atitude e não com complacência” (e eu que sempre pensei que se fizesse com conteúdo e ética...), pune a vítima e não os agressores, tendo o desplante de dar um puxão de orelhas na mídia por ter, segundo a universidade (sic), perdido a oportunidade de realizar um debate "sério e equilibrado". O comunicado, travestido de anúncio de decisão punitiva, em ode ao linchamento moral se torna ao afirmar que “a atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar”.

Provocativa? Reconheçamos: Geisy Arruda é gostosa. Não possui, é fato, aquele tipo de beleza física que a mídia definiu como padrão – mas, materialista como ela só, esta entidade decrépita tem uma visão muito peculiar e distanciada da realidade do que sejam sexo e amor: concebe o primeiro como uma espécie de ginástica aeróbica localizada - para a qual fornece, inclusive, mapas detalhados - e o segundo como uma trama sentimental de boas maneiras e promessas de felicidade constante. Exagera no açúcar.

Na vida real, porém, Geisy, a despeito de seus quilinhos extras - que a tornam uma espécie de Carla Perez com umas polegadas a mais -, atrai a atenção masculina, certamente muito mais do que uma modelo magérrima o faria. Tem aquele tipo de sex appeal evidente, uma carnalidade algo ostensiva, que tende a provocar manifestações e assobios quando passa por uma obra em construção (algo que, segundo um delicioso post de Camila Pavanelli, não ocorreria se ela morasse nos EUA...).

A menção à ex-dançarina do É o Tchan! não é vã: Geisy pertence a uma geração de crianças que cresceram no auge do sucesso do grupo: a “dancinha da garrafa” era um hit nos aniversários infantis do período. A classe média soi disant elite cultural e as pessoas cultas de forma geral tendem a desprezar o fenômeno da axé music não só por razões musicais, mas por este ser essencialmente popular – e, verdade seja dita, por considerá-lo lascivo e vulgar, como os estudantes da Uniban consideraram os trajes de Geisy -, mas ele tem uma dimensão bem maior do que à primeira vista sugere: não só a (duradoura) moda das “falsas loiras” foi disseminada a partir desse cadinho de cultura, como ele definiu um padrão de vestimenta, de comportamento nas pistas de dança e de exibição do corpo feminino em determinadas classes sociais. Não é preciso esforço para enxergar tal influência na persona sexual de Geisy.

Questiona-se, em uma série de textos, a alegada inadequação dos trajes de Geisy ao ambiente acadêmico (mote que rendeu a melhor análise que li sobre o caso – escrita por Raphael Neves, do blog Politikaetc), mas seria reducionista creditar a um contexto isolado tanto tal suposta inadequação quanto a assustadora reação dos estudantes (que você pode ver aqui, comentada). Significaria, implicitamente, adotar a suposição de que aquele grupo específico de alunos obedece, por alguma exótica razão, a uma ética própria, a qual não é partilhada por outros setores da sociedade. Ilude-se quem quer.

Espera-se que a descabida reação do armazém de aulas, de um moralismo arcaico, que pune a linchada e não seus linchadores, seja alvo não apenas de processo por danos morais (que o advogado de Geisy Arruda já se declarou disposto a mover), mas de investigação e punição por parte do MEC. Ainda antes do anúncio comunicando a decisão da Uniban, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) do governo federal já havia divulgado nota afirmando que o episódio fere princípios constitucionais. Seu parágrafo de abertura é definitivo:

“Justificar qualquer crime ou mesmo discriminação contra a mulher só faz propagar a cultura sexista de gênero, pois afasta a culpa dos agressores, transmitindo-a a fatores secundários como o uso inadequado de roupas, comportamento provocativo ou ainda à conduta da mulher”.
Se a reação dos alunos da Uniban já era intolerável, a decisão do mercadinho de ensino de punir Geisy Arruda demonstra, de forma cabal, que a questão de gêneros no Brasil ainda engatinha - e é tema de extrema urgência.


(Imagem retirada daqui)

10 comentários:

Flávia Cera disse...

Maurício, querido. Adorei seu post, muito bom mesmo. Concordo plenamente. Existe um buraco negro que está sendo levantado pelo caso da Geisy que traz justamente esse embate ideológico que vc menciona. O discurso da tolerância e da diferença passa muito por aí. É uma faca de dois gumes, são dois temas delicados porque tolerar implica hostilizar; assumir a diferença implica marcar territórios. E isso junto implica o pré-facismo que vc menciona. Existe uma mudança cultural tremenda: o futuro da nação não são mais os burgueses sem religião, nem a geração coca-cola. E ninguém sabe como lidar com isso, ou melhor, quando tentam, é com selvageria. Então, não tem nada a ver com o retorno de métodos medievais (li muito disso ao tratarem do caso). Não é que o passado voltou, é que ele não cessa de passar. A questão, e é isso que percebo no seu post, não é se surpreender com tudo isso, não é se perguntar: como isso acontece ainda hoje? É pensar, justamente, nos dispositivos que ativam essa insanidade toda. Deparei-me (no blog do Daniel Link) esses dias com uma frase do Borges que, quando li Biblioteca de Babel, passou despercebida, mas agora faz todo sentido: “Si el honor y la sabiduría y la felicidad no son para mí, que sean para otros. Que el cielo exista, aunque mi lugar sea el infierno”. Precisamos construir um porvir, um futuro em que, pelo menos, se possa sonhar com o céu. E, realmente, ainda estamos engatinhando. Um beijo e, mais uma vez, parabéns pelo post.

Anônimo disse...

Lembrando que segundo a própria Geisy, quem teria começado toda a arruaça foram outras alunas, que tentaram obrigá-la a colocar uma roupa """mais adequada""", e que depois todo mundo entrou na onda, a maioria pra matar aula mesmo...

iaiá disse...

bom, infelizmente o assunto parece cansar. mas acho importante repassar por ele, a partir do momento em que surge o anúncio da fábrica de dinheiro (não de cérebros) de que vai afastar a moça da faculdade. ou seja, ela vai ser punida, os outros não. na minha opinião a faculdade vai perder o processo e ponto. tiro no pé na UNIbesta.
mas devemos falar do assunto porque ele toca exatamente n ponto que vc mostrou, a mercantilização do ensino, jovens que querem comprar um passaporte pro futuro, mas não aprender. E universidades que querem vender um produto, mas não se preocupem em ensinar. Aliás o que é ensinar se o exemplo é dado expulsando a aluna, e não protegendo-a de insultos? è essa a brilhante lição que fica pros jovens que estudam lá? que mulheres que se vestem como querem ou a tv mesmo pede, são putas? e podem ser enxovalhadas por uma turba e nada acontece?
A mercantilização do ensino resultou na imbecilização completa, pessoas incapazes de refletir por si mesmas, interpretarem o mundo a sua volta sem que alguém lhes diga o que è como fazer ( prato cheio para uma mídia golpista, p.ex) mas que se unem no espírito de turba por ser fácil ser anônimo nela. Eles querem o diploma, não o saber, mas não sabem, ainda, que o saber lhes fará falta na vida e no mercado de trabalho logo ali na frente.

Maurício Caleiro disse...

lávia,

Desta vez ainda mais do que nas outras, seu comentário eleva o debate a um nivel muito alto - e é recompensador saber que alguém leu o post com tanta atenção, dialogando com as ideias e as complementando de forma tão refinada.

Obrigado!

Um beijo,
Maurício.

Maurício Caleiro disse...

Anônimo,

Quem começou o que você chama de arruaça - e eu de linchamento moral - é pouco relevante. O fato é que a manifestação tomou proporções de histeria coletiva.

E matar aula é uma coisa; agredir uma mulher sozinha, urrando coletivamente "puta, puta, puta" e ameaçando-a de estupro é outra, convenhamos.

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Espero que perca, mesmo, e que tenha de pagar uma boa grana (se bem que, seja a quantia que for, para eles é ninharia...).

O pior é que, apesar da maioria querer só um diploma e pronto, tem uns desavisados - e o pessoal do ProUni, vítimas de uma enganação quando enviados a essas mercearias de diploma - que acreditam que vão obter uma formação superior de fato. É triste.

Não tinha pensado nesse paralelo entre o anonimato dos linchadores morais da Uniban e o anonimato dos trolls na internet, mas ele é sugestivo.

Um beijo,
Maurício.

Puebla disse...

Fosse eu da Unibos... proporia a todos que fossem as aulas de vestidinho vermelho ou ampliaria a proposta. TODOS/AS NA PAULISTA DE VESTIDO VERMELHO

Maurício Caleiro disse...

Tivéssemos um movimento estudantil de fato - e não um bando de pelegos - e eles proporiam que todos fossem nus. Imaginou, que beleza? Todo mundo peladão? O reitor dessa pocilga ia infartar.

Se bem que vc certamente ficaria lindo de vestidinho vermelho... (não resisti...ra, ra, ra)

Abração,
Maurício.

Puebla disse...

Um brinde a isso

Maurício Caleiro disse...

Tim-Tim!