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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

De autoritarismo e ditadura


Ao acusar, com argumentação pífia, o atual governo de “autoritarismo” e comparar suas práticas às da ditadura, FHC, além de municiar seu circo de trolls amestrados - que, incapazes de pensar por si mesmos e covardemente ocultos pelo anonimato, repetem como papagaios acéfalos as palavras do mestre-bufão -, transpõe os limites da razão, do bom senso e da verdade histórica.

Como príncipe dos sociólogos, o ex-presidente sabe que não há, na teoria política, categorias que permitam pespegar no atual governo o rótulo de autoritário – muito pelo contrário. Vivemos a democracia plena. Mais do que isso: Lula tem aturado uma mídia corporativa que transgride todos os limites da ética jornalística com uma passividade que muitos consideram excessiva. E a democracia pressupõe direitos e deveres que dizem respeito a todas as instituições - inclusive à imprensa.

Assim como fingimos não notar que o Supremo Intelectual da Pátria, em seu texto-esperneio, concorda “A enxurrada” com “talvez levem” e atribui a Hamlet uma fala de Polônio, simulemos não perceber o absurdo de alguém do mesmo PSDB da lei protofascista do fumo promulgada por Serra ousar acusar outrem de autoritarismo, e de um membro do partido que elege seus candidatos com quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho francês num restaurante cinco e$trela$ acusar Lula de “dedazo” na escolha de Dilma Rousseff (como se não fosse ela a ungida pelas correntes majoritárias do PT). A senilidade pede compaixão.

Ainda assim, algumas interrogações se impõem: o que é, de fato, autoritário: nomear, como o atual presidente fez, um Advogado-Geral da União que não se deixou intimidar por eventuais pressões do partido no poder e denunciou à Justiça os envolvidos no chamado “Mensalão” ou, como FHC preferiu fazer, colocar na função uma figura que de lá saiu denominado pelo autoexplicativo apelido de “Engavetador-Geral da República”?

O que é autoritário: privatizar, “no limite da irresponsabilidade”, o patrimônio público, sem que se saiba até hoje o destino do numerário arrecadado no processo - então a alegada panaceia que nos levaria ao “Primeiro Mundo” - ou discutir caso a caso com a sociedade o destino a ser dado ao patrimônio que é dela, como ora se faz?

O que é um “pequeno assassinato”, como brada o príncipe uspiano? Procurar resguardar os dividendos do Pré-Sal através de emenda proposta ao Congresso após mais de um ano de elaboração, como fez o atual governo, ou, como nos lembra O Hermenauta, resolver a privatização das telecomunicações brasileiras - então o filet mignon do patrimônio público - atropeladamente, em quatro meses, como fez FHC?


Brutalidade da ditadura desautoriza FHC
Porém muito mais grave, do ponto de vista ético e histórico, do que essas risíveis acusações do panfleto ressentido publicado pela "grande imprensa" é a comparação das políticas em curso com “autoritarismo militar”. Pois este se traduziu em atos de extrema crueldade, como arrancar os dois olhos de Bacuri na tortura, para tentar forçar uma delação (em vão; era um bravo); a enfiar um cano na vagina de uma presa e nele colocar um rato, vedando a outra extremidade do cano, para que o animal roesse-lhe as entranhas; a torturar Stuart Angel arrastando-o com a boca amarrada ao escapamento de um jipe, matando-o por asfixia por monóxido de carbono; a assassinar "Jonas" - que chefiou o sequestro do embaixador norte-americano - aos poucos, atirando-o sucessivas vezes contra uma parede de cimento. A reduzir presos políticos indefesos a farrapos humanos, arrancando-lhes a dignidade e impondo-lhes o terror físico e psicológico – este, de longa duração, e que levaria pessoas de alma mais sensível como Frei Tito a suicidar-se anos depois das sevícias sofridas.

Isso, sim, é autoritarismo militar. E suas práticas estão muito bem atestadas em pesquisas como o projeto Brasil, Nunca Mais , internacionalmente reconhecido como a mais abrangente pesquisa sobre os porões do regime (conheça também o ótimo blog de Maria Frô - de onde tiramos a terrível foto acima -, para conhecer as histórias dos torturados e constatar, nas fotos de seus cadáveres, o grau de brutalidade empregado).

Enquanto seus "companheiros de luta" sofriam tais destinos, FHC, após uma temporada no melhor estilo "esquerda festiva" no Chile, alheio a tais autoritarismos de fato, se empanturrava de Veuve Clicquot e foie gras na França.

Aliás, um dos mistérios que cercam a história brasileira diz respeito à trajetória de certos soi disant esquerdistas – notadamente políticos hoje pertencentes ao PSDB paulista - que, ao conseguirem sair ilesos, sabe-se lá como, do Brasil ditatorial para o exílio, pobres, remediados, dele retornaram ricos. FHC, por exemplo, era um mero professor - que dava aula, segundo testemunhas oculares, apresentando-se com as meias furadas.

Pois esse membro remediado de uma das classes trabalhistas mais vilipendiadas, quando volta do exílio arrotando camembert, estava bem nutrido, altivo e já apresentando aquela empáfia de príncipe que tanto excita – sexualmente, inclusive - os colunistas nativos (respeitemos as parafilias alheias). Quem sustentou FHC, Serra e cia. no exterior? Às custas de quais acordos? Em troca de quê? A historiografia nacional nos deve as respostas a essas perguntas. (No Vi o Mundo, o respeitabilíssimo jornalista Altamiro Borges mostra os indícios de que, em plena ditadura, FHC era sustentado pelos dólares da CIA. Leia aqui.)

Após passar da quase-mulambagem à elite no exílio, FHC - que tem como hobbie colecionar aposentadorias, especialmente as polpudas - foi brindado com uma compensação financeira mensal devido às privações que lhe teria imposto a ditadura. Já herois como o capitão Sérgio Macaco (clique aqui para conhecer sua incrível história) sofreram por anos a fio para ser reconhecidos, e muitos dos torturados e dos que foram de fato perseguidos, como não são ricos nem dispõem de influência política, continuam na fila da merecida aposentadoria especial; alguns, como ocorreu com a viúva Cerveira, sofrem até hoje perseguições e boicotes.


A coerência do ex-presidente
Mas, a bem da verdade, devemos reconhecer: pode-se acusar FHC de muitas coisas, mas não de incoerente. O desprezo que demonstra pela democracia e pelos que sofreram na ditadura, ao atirar, sem o mínimo critério, acusações de autoritarismo a governos democratas, relaciona-se com sua própria história de vida: enquanto os esquerdistas de fato contavam seus mortos, tratavam-se das chagas da tortura ou, não suportando o trauma, se suicidavam, ele assomava à alta burocracia peemedebista (depois peessedebista).

Do mesmo modo, a raiva que manifesta em seu artigo contra a aprovação popular do governo e contra o fato da autoestima do brasileiro ter aumentado é plena de coerência. Afinal seu governo, anti-Brasil e anti-povo, sempre necessitou de uma população envergonhada de sua própria terra para que pudesse submetê-la, em posição subalterna, à ordem (sic) econômica mundial capitaneada pelos EUA.

Portanto, ao fazer tais acusações descabidas contra um governo democraticamente eleito e que mantém as liberdades plenas no país, FHC não traz à luz fato algum, exceto em relação a seu próprio caráter – ou à falta dele.

4 comentários:

iaiá disse...

clap clap clap pela brilhante texto a relembrar tantos fatos históricos esquecidos por quer gosta de falar de boca cheia do tal "príncipe" e dessa direitona que desama o apís e o vende a troco nem de banana, mas de 30 moedas ...

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Obrigado. Desamam o país e as pessoas não-ricas que nele moram.


Vendem o primeiro a troco de banana, e se pudessem, davam os pobres de lambuja.

Miguel do Rosário disse...

muito bom, rapaz. só li agora, mas é um texto que valerá por um bom tempo, pelo menos enquanto a amarga presença deste senhor ainda infestar este sofrido país.

Maurício Caleiro disse...

Valeu, Miguel, obrigado.