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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A solução para o problema da mídia

O escritor Jonathan Swift, ante a proliferação incessante de petizes relegados à miséria em sua Irlanda natal, concebeu uma fórmula simples e eficaz para, de uma só tacada, solucionar de vez a grave questão social da infância e combater o flagelo da fome. Tratava-se de "uma modesta proposta" por meio da qual as hordas de remelentos que povoavam Dublin, levadas ao forno, transformar-se-iam em tenro e nutritivo alimento para uma população vitimada pela peste e pela fome.

O que a sacada desse ironista que está entre as maiores influências de Machado de Assis nos ensina? Que a um grave problema que mentes estreitas querem resolver pelos meios convencionais não se deve, na verdade, contrapôr soluções, quase sempre de difícil aplicação e de longo prazo – ao invés disso, o problema deve ser objetiva e cirurgicamente eliminado. Ou seja, a solução para o problema, muitas vezes, não é solucioná-lo, mas eliminá-lo.

Por exemplo: no caso em questão, a solução convencional seria buscar alterar as relações capitalistas irlandesas de modo a prover alimento para essa pivetada maltrapilha que tem a mania irritante de ter fome. Trata-se de uma solução que, di$pendio$a, não interessa aos homens bons, como diria nosso irrepreensível mentor, professor Hariovaldo Almeida Prado, pois, ainda por cima, pode acostumar mal as crianças (pense em ditados como “não se deve dar o peixe, mas ensinar a pescar”, “a esmola mata de vergonha ou vicia o cidadão” e outros brandidos pelos imparciais colunistas políticos de nossa briosa imprensa quando analisam o bolsa-família, digo, bolsa-esmola).

Mas saiamos do passado daquela terra de bêbados e de religiosos se digladiando entre si e voltemos ao presente de um país que não tem nada disso e que prima pela seriedade e lisura na administração dos bens públicos e privados: o Brasil. Um problema recorrente desta terra ensolarada, salve, salve, teus risonhos lindos copos têm mais flores (apud Vanusa) tem sido, há tempos, a “grande mídia”, entidade maléfica que a tudo distorce e corrompe.

Pois bem, qual a solução que as pessoas curtas em espírito e em inteligência têm apresentado para esse problema? Perigosos radicais, como o sr. Idelber Avelar – cujas insanas declarações incluem a afirmação de que prefere ser limpador de bunda de lutador de sumô a jornalista - querem simplesmente acabar com a mídia; radicais menos perigosos – como este blogueiro e o sr. Leandro Fortes, que trabalha no pasquim marrom Carta Capital -, ingênuos que são, querem reformá-la e reconstruí-la em novas bases.

Pergunto, meus dois caros leitores, o que há de errado com essas pseudo-soluções que, à guisa de resolver o problema, só procrastinam (u-hu!) sua solução? Hein? ...Elas não o eliminam, meus caros!

Pensemos: a “grande imprensa” se sustenta em bases materiais – ou seja, precisa de (muito) dinheiro para sobreviver. Quem provém o vil metal para essa súcia de mercadores de notícias? As pessoas suficientemente idiotas – e abonadas – para, em plena era da internet, comprar papel pintado e encadernado. Quem são esses seres bizarros? A classe média (clique aqui para ser apresentado a esse bando de energúmenos e ao texto que inspirou este post), sobretudo uma sub-espécie da canalha que comentadores irresponsáveis, suspeitos de ligação com o terrorismo basco, chamam de #classemerdiawanabe.

Portanto, doravante, deixemos a “grande mídia” para lá. A tarefa que se nos impõe, como panacéia, é eliminar a classe média – e, inspirados em Swift, ainda lucrarmos com isso, vendendo seus cabelos para o Helianda Hair Coffure (!) e seus restos para adubar a terra onde a “grande mídia” será sepultada. Dois coelhos com uma cajadada só!


(Imagem retirada daqui)

6 comentários:

Lívio Nakano M.D. disse...

Excelente observação Maurício - mas existem aí, dois braços que alimentam a "grande imprensa marrom" (ou amarela, conforme o país).

Um deles, voce já explicitou, que são os consumidores.

E a outra (que também se alimenta desses mesmos consumidores, que nesse passo são chamados de "público-alvo") que são os anunciantes.
Estes segundos, muito mais importantes até do que os primeiros, pelo volume de dinheiro aplicado, estão profundamente emaranhados com seus próprios veículos de comunicação, não só em relação aos anúncios formais, como também em press-releases e todo o tipo de material organizado pelos assessores de imprensa, e eventualmente adicionados no conteúdo sem se explicitar como anúncio, embora igualmente pagos.

Enquanto o setor publicitário estiver alimentando os grandes veículos (e também - ora só, sendo alimentados por eles - surpresa?), essa "tal revolução", não acontece.

Na minha opinião, a pior coisa que o Maluf fez, mais do que desvios de verba ou práticas de concussão e corrupção, foi a de ter "malufado" as campanhas políticas com o uso de marqueteiros profissionais.
Tudo bem que lá nos states a coisa já é assim, e que o horário político era (pasmem) ainda mais chato do que é hoje.

Mas assistir a condução de temas políticos e cidadania sendo discutida com todo o viés do marqueteiro conduzido pelos objetivos dos diferentes grupos políticos predominantes, foi muito pior.
Até por que, recém democratizados e desabituados com a participação política, os eleitores foram completamente fulanizados, e achatados bovinamente.

Que seria do nosso país, sem a máquina dos marqueteiros para o processo eleitoral, e sem a indústria dos advogadeiros contra o judiciário...

Maurício Caleiro disse...

É verdade, Lívio,

Ainda tem os anunciantes... se bem que, desaparecendo o público, a tendência seria que eles desaparecessem também - afinal, anunciar pra ninguém não faz sentido, a não ser para "lavar dinheiro" (prática que não é usual neste país, como sabemos...).

E além disso que você falou a respeito da marketagem (que é um horror mesmo, mas eu acho meio inevitável, pois incorporou-se às práticas políticas nos países capitalistas) tem o fato de que muitos políticos são, também, donos de rádios, jornais e de retransmissoras de TV. Somando-se isso tudo, estamos fritos.

Um abraço,
Maurício.

iaiá disse...

esse tipo de fórmula, mata, prende, bate, etc é o que a classe média realmente gosta de repetir. vou bater na mesma tecla, mas faltou estudar História, do mundo e do país para compreender de verdade o contexto em que estamos inseridos. mais fácil se assustar com comunistas que comem criancinhas do que perceber que na verdade o medo é disputar emprego e conviver nas ruas com os negros e mulatos do país.
e assim se perpetua o voto em pseudo-salvadores da pátria revoltadinhos,Aecinhos, Seras e Arrudas, mas que nada farão por um país, porque uma país melhor só existirá com redistribuição de renda, e isso o bolsa família faz sim. tb só existe com cotas nas universidades, é uma mudança lenta, mas real é só perguntar à sua empregada ou faxineira que com certeza tem família nos rincões do país. Eleitoreiro? em parte, mas em algum outro governo alguém viu mesmo algo mudar pra essas pessoas?
O que a classe média quer é ficar onde está, só não percebe que não é achatada pela classe D e E, mas pela classe AA, que ela nunca vai chegara ser. Gosto muito de vir aqui aprender com você.

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Nós temos uma visão muito parecida não só dos efeitos do bolsa-família e das políticas sociais do governo atual mas da relação de ódio e de inveja que setores da classe média têm com essas mudanças.

Eles não as aceitam porque se sentem ameaçados de perderem seu status e os privilégios advindos de sua posição social, ainda que esta seja intermediária.

Gostei muito de "pseudo-salvadores da pátria revoltadinhos" (ka,ka,ka..)

Lívio Nakano M.D. disse...

Maurício,

O pior legado do Jose Sarney foi o loteamento das concessões de rádio e TV para - mais UM ANO de mandato!

Mais do que ares conspiratórios, o que eu acredito é na mais pura incompetência mesmo.
Vivemos o momento em que os mais antigos (e históricos) jornalistas já se aposentaram ou sairam de cena, e as redações são chefiadas por filhos da geração Yuppie, liderando bandos de focas da geração "Y".

A melhor saída que imagino, mais do que mídias estatais, seria a entrada em cena de novas corporações nesse ramo, como as poderosas empresas de telefonia, acaso se interessassem no vasto espaço existente às margens do público alvo da atual imprensa, caso eles se importassem em capitalizar para si, a imensa popularidade do atual presidente (ou seja, alguma mídia que tivesse CORAGEM de falar bem do Lula).

Mas sempre existe o receio da emenda sair pior que o soneto (Vide a Fox News e a rede do Berlusconi)

Maurício Caleiro disse...

Lívio,

Eu concordo inteiramente com a sua análise, tanto no que concerne ao jornalismo yuppie (tema, aliás, de um dos posts anteriores) quanto, sobretudo, da necessidade da entrada em cena de grandes grupos privados que tivessem interesse - e, como você diz, coragem - não digo nem de defender o governo Lula, mas de praticar jornalismo de verdade, e não a mais baixa política partidária, como ocorre há 7 anos.

Minha única reticência diz respeito à possibilidade de isso se dar através das "poderosas empresas de telefonia", dominadas por orelhudos diversos.

E, claro, há o receio do "fator Fox News...)

De qualquer modo, como está não dá, mesmo porque o próximo presidente, se vier a ser de esquerda, não é Lula, com tudo o que essa afirmação implica em termos de carisma, identificação e popularidade