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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Repensando a universidade brasileira - 2a Parte

Neste segundo dos quatro posts sobre a universidade brasileira, abordamos as vicissitudes teóricas que têm marcado a academia brasileira na última década e seus efeitos na formação de novas gerações de estudantes e na dinâmica do relacionamento extra-muros com a sociedade como um todo.


A questão do cânone
Um primeiro ponto a debater diz respeito à eleição por demais limitada de determinadas tendências e autores como cânones acadêmicos e à substituição da formação do senso crítico do aluno - e do estímulo à sua manifestação - pelo culto a um grupo restrito de pensadores [refiro-me às Humanidades de forma geral; sugiro ao leitor de outras áreas que correlacione exemplos utilizados aos de sua seara, se tal prática lá se der].

Ressalte-se que, como aponta Harold Bloom em um texto célebre, cultivar um cânone pode ser, no mais das vezes, um procedimento acadêmico salutar. Para ficar num exemplo simples, pensemos, pois, no absurdo de um departamento de Literatura Brasileira que não incluísse entre suas referências bibliográficas primárias a obra de um Machado de Assis ou de um Guimarães Rosa.

O primeiro perigo a ser contornado, no entanto, é o engessamento desse cânone e, ainda mais, a recusa em abordá-lo a partir de novas abordagens e perspectivas – refere-se justamente a tais procedimentos a acepção pejorativa que impregna o termo academicismo.

Porém, algo ainda mais perverso do que cultivar um mesmo cânone teórico e filtrá-lo por uma sempre mesma abordagem é coibir seu questionamento e as críticas a ele dirigidas, entronizando-o, na prática, como objeto de culto acadêmico. É precisamente o que ocorre hoje na universidade com o cânone pós-estruturalista.


Culto no lugar da crítica
Trata-se, na verdade, de um problema que não se restringe à academia brasileira, mas encontra-se disseminado internacionalmente. O, com o perdão do pleonasmo, culto acrítico ao cânone – e, no caso, a mais ou menos o mesmo cânone pós-estruturalista ora em voga no Brasil - seria, sem dúvida, uma das características mais negativas que eu apontaria em minha experiência como pós-graduando nos Estados Unidos; recentemente, no Rio de Janeiro, ao ciceronear dois acadêmicos franceses (Paris III Sorbonne e Paris X Nanterre), seus relatos confirmaram o que breve contato anterior com a academia francesa sugerira: o culto a Foucault, Deleuze e os pós-estruturalistas os tornou quase intocáveis na própria França. (A propósito, os que enxergam tanta contestação e espírito crítico nesses pensadores deveriam atentar para o paradoxo de que eles se tornaram a tradição que não se deixa contestar.)

Tomemos Foucault como objeto de análise representativo do pós-estruturalismo. Não restam dúvidas de que ele (e Deleuze, e Derrida, e Barthes, entre outros) é um intelectual de alto gabarito, que alia a visões originais, agudas e às vezes prefiguradoras de processos sociais um talento para a escrita que talvez só encontre paralelo em Freud. Daí a colocá-lo na condição de demiurgo da sociedade contemporânea (isso há um quarto de século), cultuando-o como a um deus e ajustando os fatos às análises para, ainda hoje, atribuir-lhe faculdades clarividentes (é precisamente o caso do que eu chamo de “visão vulgar da biopolítica”, largamente disseminada), vai uma distância que, na academia, é inaceitável que seja percorrida.

A menção a Freud não é vã. Ao contrário de Foucault, ele se afirmou como referência intelectual incontestável – a um ponto tal que o século XX é às vezes referido como “o século de Freud” – após ter seu trabalho agressivamente contestado por décadas a fio. Ele passou no teste histórico. Foucault, que emergiu em pleno linguistic turn e seguiu a onda, permanecendo em sua crista num momento em que, no pós-68, a academia (notadamente a norte-americana, cuja capacidade de imperialismo cultural não deve ser menosprezada) precisava desesperadamente de novos cânones teóricos - , não foi sequer a ele submetido. Em plena crise econômica mundial e num momento de extrema concentração de riqueza em âmbito mundial, passa da hora de analisar de forma realista os efeitos da práxis (micro)política de Foucault, cujas teorias negligenciam de forma patente o papel das análises econômicas.


As críticas ocultas
Não que não existam críticas. O difícil é, em meio às igrejinhas acadêmicas e à atmosfera de turba que discutiremos na próxima seção deste post, fazer circulá-las. Por exemplo, historiadores em penca questionam (e às vezes ridicularizam) o conhecimento histórico de Foucault - elemento essencial de obras como Vigiar e Punir e Naissance de la clinique - e nunca é demais lembrar que ele foi capaz de escrever uma história da sexualidade que negligencia Sappho e dá pouca atenção ao homossexualismo feminino. No Brasil, além do que resta da crítica neomarxista de alto nível, são raras as obras que conbinam contundência e equilíbrio na abordagem do legado de Foucault – como é o caso de Cinismo e Falência da Critica, de Wladimir Saflate (cuja excelente resenha assinada por Alex Nodari, seguida de um bom debate, pode ser lida aqui).

A propósito, considero falsa a alegação, que vem de longa data e da pena de diversos autores, que a universidade brasileira se dividiria entre pós-estruturalistas e “uspianos marxistas”. Primeiro porque, se a última categoria se restringe a apenas uma universidade (ou, vá lá, a apenas uma tradição acadêmica específica) não é suficiente para “dividir” a universidade brasileira; segundo, porque tenho acompanhado de perto o processo de renovação de docentes das universidades federais e posso assegurar que, nelas, o predomínio dos pós-estruturalistas (a maioria muito mais fanática pela tendência do que seus mestres) é maciço.

Essa nova geração de professores, carente dos conhecimentos históricos e etimológicos abrangentes proporcionados pela filologia alemã e com domínio rudimentar em Economia da Cultura, encontrou no economicismo e historicismo rasos transformados em jogos mentais brilhantes de Foucault et caterva o bilhete de ingresso à docência universitária. São justamente os responsáveis pela repetição, no Brasil, da atmosfera de culto aos pós-estruturalistas predominante em muitas das universidades dos EUA - em detrimento do aperfeiçoamento da capacidade crítica de seus pupilos, que só o contato com diferentes correntes de pensamento proporciona. Como consequência, cheguei a constatar, em um congresso de cinema, que 1/3 das comunicações fazia referência a Foucault e/ou a Deleuze - a maior parte delas utilizando de forma vulgar e meramente classificatória os conceitos de "sociedade disciplinar" e "sociedade de controle" (que, como verifica-se em boa parte da produção dos principais autores do pós-estruturalsimo, são conceitos ricos em significação e possibilidades; minha crítica é à vulgarização de seu uso).

Soa simplesmente inacreditável que jovens professores de pós-graduação – que supostamente deveriam renovar os ares da academia – continuem não apenas impingindo a seus alunos uma dieta básica do mesmo pós-estruturalismo francês velho de guerra, mas o façam sem oferecer contraponto crítico e numa atmosfera de preito e de reverência quase religiosa às palavras de seus principais autores, como tenho podido, estupefato, observar com meus próprios olhos.

Cultos são inaceitáveis na academia. A universidade não é igreja.


Estrutura incentiva formação de “igrejinhas”
Colaboram sobremaneira para essa formação de igrejinhas acadêmicas onde São Foucault, São Deleuze e outras divindades pós-estruturalistas são cultuadas – num processo que inclui tribalização de vocabulário, vestuário e concepções de mundo – três fatores, agravantes dos efeitos dessa veneração que substitui o que deveria ser uma abordagem crítica.

O primeiro é o prazo extremamente reduzido de dois anos para completar o mestrado, determinado pelas diretivas que estruturam o ensino superior no país (que serão analisadas no quarto e último post da série). Além de não permiter ao mestrando aprofundar pesquisas e criar para si um leque variado de opções teóricas, ele faz com que importe, cada vez menos, a obtenção, por parte do aluno, da Urteilskraft kantiana, da capacidade de julgar que, na comunicação “Contra o minimalismo no mestrado”, publicada em 1999, no momento imediatamente anterior à implementação das mudanças ora vigentes nas pós-graduações, o psicanalista Renato Mezan ressaltava como o principal bem a ser adquirido durante tal etapa da formação acadêmica.

O segundo fator, já abordado no post anterior desta série, deriva do jogo de interesses e bajulações estimulado para a ascensão acadêmica – no qual, “naturalmente”, a tendência é que o orientando assimile e reproduza as preferências teóricas do orientador como forma de prestigiá-lo.

Ligado à questões materiais do ensino superior brasileiro - tema do próximo post da série -, o terceiro fator é a própria oferta reduzida de livros e demais fontes disponíveis nas bibliotecas universitárias e as dificuldades dos professores para manterem-se atualizados. Incorre em erro quem julga que as facilidades para importação de livros trazidas pela globalização e o fato de a maioria da clientela das pós-graduações ser da classe média para cima sejam fatores suficientes para contornar o problema (mesmo porque, a princípio, é a universidade quem deve oferecer condições apropriadas para pesquisa, incluindo disponibilização de fontes atualizadas).


Universidade e sociedade
Outra vertente central da questão diz respeito à conformação do conhecimento produzido no interior da universidade, sob os auspícios do culto a tal cânone, e sua influência nas relações entre academia e sociedade. Se, historicamente, a massa crítica que aquela produz só muito rara e pontualmente assoma ao debate público - para o qual seria das instâncias mais capacitadas a aprimorá-lo – o predomínio do pós-estruturalismo, com suas categorias verbais pouco consistentes e a opacidade aparentemente proposital de alguns de seus autores (não é o caso de Foucault nem de Deleuze) representa um emprecilho a mais para o desenvolvimento de tal relação.

Não estou com isso querendo dizer, com o perdão da simplificação, que a universidade deva rebaixar seus alegados padrões de excelência para dialogar com a sociedade, mas defendendo uma maior abertura a outras linhagens intelectuais e abordagens não tão repetitivas e menos desinteressantes ao debate cultural do que as vigentes sob o domínio proto-religioso do pós-estruturalismo. Pois é certo que há temas à mancheia com potencial de atrair parcelas da sociedade sendo desenvolvidos no interior da academia - e é evidente também que há maneiras diversas e interessantes de abordá-los com excelência acadêmica e estimulando tal diálogo. Porém, no viciado esoterismo pós-moderno que ora vige, a conjunção dos dois fatores tem sido extremamente rara.

Para além dessa questão especificamente teórica, há, ainda, para a universidade pública, o dilema entre interagir com a sociedade (que a sustenta) sem deixar-se cooptar pelo mercado – particular e justificadamente delicado no campo das chamadas “ciências humanas”. As dificuldades naturalmente impostas por tal dilema não justificam, no entanto, o hermetismo e o isolamento deliberado a que se assiste, e que não derivam exclusivamente dos efeitos da presente estruturação do ensino superior impingida pela burocracia acadêmica, mas também de seus usos e costumes internos. Assim, no minueto acadêmico, sobram salameleques e pompas; faltam incisão, pungência e, sobretudo, diálogo crítico com a sociedade.


Futuro incerto
O cenário que se desenha para o futuro parece intensificar o hermetismo e o isolamento (ou o reverso deste: a cooptação acrítica): as pós-graduações em Humanidades, por exemplo, vivenciam, há mais de uma década, um processo viciado de esvaziamento intelectual e onanismo teoricista. Capacidade analítica, cultura geral e bagagem literária pouco importam nesse cenário. Conta escolher, nesta ordem, uma “base teórica” que impressione (de preferência com a vanguarda francesa pós-pós-estruturalista de moda) e achar um tema up-to-date que nela se encaixe (quanto mais abstrato e apartado da realidade, melhor: com um projeto que analise os templates dos sites ucranianos de times de futebol de botão você tem uma chance enorme de entrar no mestrado; com outro que examine as referências sócio-econômicas nas letras de músicas produzidas pela nova geração do samba carioca suas chances se aproximam de zero).

Esvaziado os pendores críticos, sob o império do tecnicismo, das metas e prazos cada vez mais reduzidos, do teoricismo como um valor em si, “o sistema como um todo está montado para eliminar toda toda originalidade, qualquer coisa que inflame minimamente, qualquer coisa excitante, qualquer coisa extravagante”, como observa Camille Paglia, falando de um contexto estrangeiro mas que,descontados os fatores materiais, é cada vez mais o nosso (a propósito, eu sugeriria a qualquer pessoa interessada no tema que lesse a “Carta aberta aos estudantes de Harvard”, que a autora fez publicar em 1994. É um retrato acabado da universidade brasileira hoje). Seria o retorno, uma vez mais, de nossa incapacidade crítica de copiar de que falava Paulo Emílio Salles Gomes, em versão acadêmica e em pleno século XXI?

Quais serão as conseqüências dessa assepsia crítica para a formação das novas gerações de pensadores? Não há razões para otimismo.

11 comentários:

Flávia Cera disse...

Oi Maurício,

gostei demais do seu post e compartilho muito da sua opinião, tanto nesse quanto no anterior.
A questão pós-estruturalista para mim também é o nó acadêmico vigente. Falando do meu departamento de pós: aqui existe essa proliferação insistente e, muitas vezes, irresponsável. Entretanto, eu percebo que essa disseminação vulgar (da biopolítica, do neutro, do homo sacer, da profanação, etc, etc, etc) e acrítica acontece justamente porque as leituras são complicadas. A apropriação da literatura e o rechaço da filosofia, em muitos casos, dos pós-estruturalistas, faz com que o rigor da leitura se perca ou, pior ainda, tem-se uma leitura superficial. Não se trata de uma legitimidade de áreas, mas de rigor, de trânsito fluente entre os campos que, claro, pode ser conquistado com um trabalho dedicado. O caso de Deleuze pra mim é o mais emblemático. Com a definição da filosofia como criação de conceitos e com termos apropriados de Artaud, por exemplo, a proposta acaba caindo em um vazio. Acha-se que tudo aquilo é um teatro, uma brincadeira. Muitos esquecem da formação de tais filósofos pós-estruturalistas, esquecem que todos eles passaram por Aristóteles, Platão, Spinoza, Kant, enfim, que o que eles dizem não sai do nada. Falta de rigor, pouco esclarecimento dos conceitos, falta de leitura sistemática, para mim, é o grande mal acadêmico. Flávio de Carvalho tinha duas acepções da pintura: operática e demoníaca. A primeira, conservadora, e a segunda pós-moderna, digamos. Mas ele ressaltava que era preciso saber com precisão da primeira para poder atingir a segunda. Ou seja, é um procedimento, é um trabalho. Tem que "sujar" as mãos nos arquivos. Tem que se tomar decisões, posições. Mas, pra que, né? Depois da indecidibilidade de Derrida, absolutamente incompreendida e levantanda como máxima da responsabilidade (o que revela, evidentemente, uma falta total de comprometimento e uma ingênua postura ética), podemos navegar no limbo acrítico e insólito que toma conta do pensamento intelectual. É preciso ter saúde para aguentar. Um beijo.

Maurício Caleiro disse...

Flávia,

Como sempre, você coloca as questões num patamar mais alto, e o faz de forma clara. Senti-me como se estivesse na sua pós...

Espero que, a despeito da impertinência proposital do texto, eu não tenha dado a impressão de menosprezar a excelência do pensamento pós-estruturalista - meu ponto é outro: seu grau de hegemonia (que me parece excessivo) e a atmosfera de culto - e não de crítica - com que é muitas vezes tratado.

Mas creio que concordamos em quase tudo o mais. Sem dúvida que "essa disseminação vulgar" acontece porque as leituras são complicadas; que "não se trata de uma legitimidade de áreas, mas de rigor"; que é preciso "sujar as mãos nos arquivos".

Porém, a partir dessas constatações, ao menos duas questões se colocam, claras, para mim:

1)Considero ridícula a carga de leituras, a falta de cobrança sobre essa carga de leituras e, sobretudo, o rigor frouxo com que os conceitos que delas afloram são de ordinário tratados na pós-graduação brasileira. Mas, sinceramente, tanto por hábitos arraigados quanto, sobretudo, pelas dificuldades materiais da universidade (que abordarei no próximo post), não vejo como reverter esse quadro no curto prazo;

2) (Reconhecendo que generalizar a partir de experiências pessoais é temeroso) estou absolutamente convencido, pela minha experiência na pós nos EUA - onde, nos dois últimos anos, li uma quantidade absurda, inimaginável de textos, e fui detalhadamente cobrado por ela - que o aumento da carga de leitura, embora proveitoso e necessário, é quase inócuo se não há plena disposição analítica e abertura para se criticar o material lido sem o constrangimento que o culto ao cânone sagrado, lá e cá, impõe.

Nutro sérias dúvidas, ainda, a respeito da capacidade de boa parte do corpo docente das Humanidades de assimilar tais eventuais críticas, um tanto por arrogância e falta de hábito, outro por despreparo.

E, por fim, tenho a impressão que, embora, como já dito, "não se trate de uma legitimidade de área", é preciso que a universidade se abra de forma mais incisiva a cânones outros além do pós-estruturalismo. Não só pela salutar diversidade que tal ato traria em seu bojo, mas porque forneceria mais elementos para uma leitura mais rigorosa dos conceitos, pós-estruturalistas ou não.

Um beijo,
Maurício.

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Como já era de se esperar, está saindo coisa boa dessa série. De fato, é incrível como boa parte desses fenômenos, em maior ou em menor grau, incidam sobre as universidades nacionais.

A questão do canône então, seria cômica se não fosse trágica. Aliás, boa parte do fenômeno da dogmatização de uma determinada teoria (ou autor) se dá pela conveniência dos jogos de poder da política discente - e em São Paulo, eu digo sem medo de errar, que há um engessamento considerável dos departamentos de humanas, onde tem gente demais querendo construir uma carreira segura ao invés de assumir sua responsabilidade intelectual e ousar.

Sobre o pós-estruturalismo, faço minhas as suas críticas - principalmente em relação à Foucault. Bacana ver a referência a Camile Paglia na lembrança de como seria bom retomarmos a filologia germânica - o que eu concordo plenamente.

Trazendo o debate para um plano mais concreto, veja só: Na Faculdade de Direito da PUC, por exemplo, ainda há um inexplicável culto ao Neopositivismo Lógico da Escola de Vienna - notadamente Kelsen -, o que é absurdo, mas poucos professores escapam desse descalabro e boa parte dos jovens pós-graduandos segue nessa assim como são poucos os professores que o debatam.

É claro, quando falamos de algum curso de letras jurídicas no Brasil, acabamos falando de problemas consideravelmente maiores do que a média das demais humanas - que bem ou mal foram construídas num momento de um ascenção de uma burguesia industrial ciosa por entender o país que a cerca, enquanto os nossos cursos de Direito já nascem com defeito de origem lá nos anos 1820, sempre buscando apenas a criação de teorias jurídicas doutrinárias suficientemente funcionais para o velho mudar tudo sem mudar nada.

Dentro da tradição, diria, pós-católica dos discentes puquianos e da conjuntura política e acadêmica paulistana, vê-se que aquele curso que nasceu como um ponto de inflexão no ensino jurídico do país - buscando pensar o direito público brasileiro com uns 80 anos de atraso em relação ao mundo -, se perde cada vez mais numa endogamia, numa prática estéril de mimése e reprodução oriunda de questões utilitaristas.

Não, claro, que seja fácil pensar em algum curso de Direito no Brasil que escape muito a essa regra, talvez apenas no Sul do Brasil que bem ou mal - e pela proximidade geográfica - acaba absorvendo algumas coisas da Argentina que está anos-luz do Brasil no ensino jurídico - e, pasme, muito mais integrada ao que há de mais moderno no mundo. Fora isso, apenas alguma coisa na federal do Ceará, um pouco em Brasília e em Minas, mas uma antítese suficientemente forte em São Paulo, cujo judiciário ultraconservador não surgiu do nada.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Obrigado pelas palavras. Você disse uma frase que meio que resume uma boa parte da minha argumentação: "tem gente demais querendo construir uma carreira segura ao invés de assumir sua responsabilidade intelectual e ousar". Esse é um fator determinante, ponto.

Gostei de tomar contato com essas informações todas concernentes ao Direito. Não sabia que a Argentina está anos-luz à nossa frente. É,de certa forma, um contra-senso, pois os desafios do Brasil, na área jurídica, são consideravelmente maiores do que os do país vizinho (que aliás já colocou-se à nossa frente ao legalizar a posse de maconha para consumo próprio).

Esse seu comentário daria um ótimo post. Pense nisso.

Um abraço,
Maurício.

Flávia Cera disse...

Maurício,

Você tem razão quanto as dificuldades materiais da universidade. E, claro, você não invalida o pós-estruturalismo. Como eu disse, ou melhor, o Flávio de Carvalho quem disse, é preciso entendê-lo bem para criticá-lo, para perceber os rumos nocivos que a hegemonia desse pensamento pode criar. Assim você o faz. Porque se tem alguma coisa que pode ser levada a sério e ao limite no pós-estruturalismo é o pé atrás com uma verdade, por isso o arquivo, né? O Hugo levantou a Argentina e você falava da impossibilidade de crítica do material lido aqui. Concordo absolutamente. Já participei de muitos eventos na Argentina e o "bate-boca", na melhor acepção do termo, depois de uma conferência é um espetáculo a parte. Já por essas bandas de cá, não se pode discutir, tudo é levado para o lado pessoal. Tudo. Um horror. Mas ainda há espaço, não sei se para otimismo mesmo, mas para esperança. O seu post mostra que as frestas se abrem e é aí que o pensamento deve se fazer presente, deve insistir. bj

Maurício Caleiro disse...

Flávia,

Queria muito assistir a esse tipo de debate na Argentina, deve ser muito engraçado.

Aqui, como colocado no primeiro post, reina o tratamento excessivamente formal (e hipócrita como ele só) entre pares, herdado do bacharelismo.

Nesse ponto, a USP às vezes é exceção - ao menos eu assisti, em congressos e em defesas de dissertações, debates bem aguerridos envolvendo uspianos talvez reflexo de sua formação inicial, com laivos europeus, não bacharalescos? Não sei ao certo...).

Bjos.

Hugo Albuquerque disse...

De fato, daria sim um bom post. Sobre os juristas brasileiros, digo sem medo de errar - e com um pouquinho de receio de apanhar - que há muita gente com muito mais nome e pose do que gente verdadeiramente capaz; pesa o fato de que o corporativismo no meio jurídico é consideravelmente maior do que nas demais humanidades - e também de como aquele movimento modernizador da universidade nacional trazida pelos franceses nos anos 30 apenas resvalou lateralmente nas faculdades de direito. O nosso buraco consegue ser mais embaixo ainda. Triste.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Ri muito com o "sem medo de errar - e com um pouquinho de receio de apanhar"!!!

Quanto a haver "muita gente com muito mais nome e pose do que gente verdadeiramente capaz", a frase descreve o Brasil, e não apenas o meio jurídico - se bem que, como você e todas as pessoas nele enfronhadas afirmam, lá é ainda pior...

Hugo Albuquerque disse...

Esse é o ponto, Maurício, os cursos jurídicos no Brasil refletem muito do que é o país - e foram fundamentais para a própria construção desse ethos acadêmico do nosso país -, mas o fazem de maneira piorada. Quem fez qualquer curso de humanidades, ao escutar um relato a respeito tende a achar que nada disso é novidade, no entanto, ponderando a gradação que isso atinge - e isso é terrível -, acontecem lá coisas inimagináveis em um curso de Ciências Sociais ou Filosofia, por exemplo - daí meu "medo de apanhar": mesmo os professores mais críticos possuem um certo grau de corporativismo que não existe em outras ciências humanas; procure juristas que criticam o ensino jurídico nacional e você encontrar menos gente do que em História, quando na verdade, deveria ser o contrário...

iaiá disse...

outro dia acompanhei uma discussão num blog jurídico muito bom que versava exatamente sobre a falta de pensadores nacionais legítimos de novas teses jurídicas, quando o que temos, na verdade são reprodutores de teses estrangeiras (agora notadamete alemãs), muitas vezes antigas e ultrapassadas. não digo que as teses sejam ruim, tiveram seu lugar e importância em certa época e contexto sociais, mas reproduzi-las continuamente aqui é um erro. e esse academicismo que gira em torno do próprio umbigo, que vive de um auto-ufanismo, me cansa, entendia e pra piorara, paralisa ou no mínimo faz andar bem mais devagar a renovação necessária de ideias, ao matar o debate

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Pois é, além de ficarem rodando em falso em torno de um corpo mínimo de teorias, ainda acabam por restringir o espaço para o desenvolvimento do pensamento nativo.

Quer um exemplo: o feminismo. Depois de uma fase vigorosa nos anos 70, com destaque para o trabalho de Rose Marie Muraro, o mergulho nas teorias pós-estruturalistas (francesas, em sua maioria) e no construcionismo social americano acabou por reproduzir a lógica metrópole-colõnia. Cadê os desenvolvimentos daquela rica linhagem de reflexão nativa sobre o feminismo? Quem são as herdeiras do legado de Muraro que chegaram sequer perto do nível de discussão que ela estabeleceu?

Um beijo,
Maurício.