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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Obra-prima deliciosa: "Up - Altas Aventuras"

Designação que só deve ser aplicada em casos muito raros, a qualificação de Up como obra-prima no título do post não é vã: um dos melhores filmes norte-americanos dos últimos tempos é um desenho animado que conta a história improvável de um velho de 78 anos, derrotado e à espera da morte chegar após perder a esposa, e de um garoto pentelho, gorducho e que fala como uma matraca, cujo sonho de escoteiro é ser nomeado "grande explorador".

Porém, como veremos a seguir, dessa premissa minúscula resulta um grande filme, que traz não apenas um contundente subtexto político-social mas um roteiro que dosa com primor desenvolvimento narrativo, significação e emoção em doses superlativas [o post contém spoilers; se não quer saber o que acontece no filme, não o leia].


Cinema e imaginário social
As relações entre imaginário cinematográfico e sociedade nos EUA são mais complexas e profundas do que à primeira vista sugerem. No turbilhão de emoções que a excelente animação Up – Altas Aventuras oferece, talvez tenha passado despercebido à grande parte dos espectadores as implicações sociais últimas de um dos clímaxes dramáticos do filme: quando, perto do final, o protagonista – o velho rabugento Carl Fredricksen - perde de vez sua casa e é consolado pelo garotinho Russell mais ou menos no seguintes termos: “sua casa se foi, mas sua vida continua”. Num momento em que milhares de americanos perdem seus lares graças à crise deflagrada pelo rombo das hipotecas, o cinema cumpre seu papel de trazer ilusão e esperança.

É a história se repetindo como farsa: o filme produzido pela Disney e dirigido por Pete Docter (o mesmo de Monstros S.A.) traz ecos não apenas dos filmes “colonialistas” de aventura dos anos 30 – cujo personagem-símbolo é Tarzan – mas, notadamente, paga um tributo às comédias de Frank Capra, com seu elogio ao “homem comum” e sua mensagem otimista que encantou milhões de norte-americanos em meio à Depressão dos anos 30. Não que haja semelhanças à primeira vista aparentes entre Fredricksen e os inesquecíveis personagens vividos por James Stewart: na verdade, o passar dos anos e a dor pela perda da mulher criaram uma couraça no protagonista de Up, ocultando o personagem capriano, que só virá à tona como tal ao final do filme.

À outra importante referência do passado são dadas conotações políticas: piloto aventureiro e ídolo de infância de Fredricksen, o personagem Charles F. Muntz é claramente inspirado em Charles Augustus Lindbergh, primeiro homem a cruzar o Atlântico em vôo solitário, em 1927 e, como tal, herói popular nos EUA. As semelhanças não se limitam ao nome: o avião de Lindbergh chamava-se “The Spirit of St Louis” e, como o bigodinho e as maneiras de Muntz sugerem, o primeiro foi acusado de apoiar o nazismo. Assim, a transformação de Muntz em vilão na segunda parte do filme parece embutir uma dupla mensagem política: a recusa a ideologias totalitárias e a heróis individualistas e aristocratas. O subtexto anti-elite e pró-"homem comum" se evidencia, ainda, tanto no conflito entre Fredrickson e Muntz quanto no embate entre o cão Dug e o arrogante líder dos cachorros que falam.

Uma das razões para que a maior parte de tais significações histórico-sociais da trama tendam a passar desapercebidas pela maior parte das platéias é a grande capacidade de envolvimento emocional do filme, que oferece doses embriagantes de aventura, comédia, suspense e drama, capazes de agradar uma ampla gama de espectadores – de garotinhos que mal sabem ler a idosos que mal podem andar – como o inusitado par central retratado na tela -, passando por jovens de todas as idades.


Gargalhadas e lágrimas
Perdão pelo clichê, mas, nesse caso mais do que em qualquer outro, ele se justifica: a história do ranzinza Fredricksen, que após perder a mulher - e com ela as esperanças de realizar os sonhos de aventura que sempre alimentaram juntos -, vê sua rotina de velho à espera da morte alterada pela ambição imobiliária ao redor e pela chegada do tal pirralho hiperativo - lançando-se, em desespero, a uma viagem que o trará novos dilemas e desafios inesperados -, é um pungente chamado à juventude, a erguer-se após os nocautes da vida, a buscar o último sopro de vida mesmo que esta, após quase oitenta anos, esteja para se extinguir. Ou seja, desafios que, mais cedo ou mais tarde, uma ou múltiplas vezes, todos nós tendemos a confrontar. Eis a grandeza do filme: travestido de divertimento infantil, ele é uma pungente reflexão sobre a vida, que não negligencia a tragédia, mas preserva o humor.

Se a grande tradição da comédia americana passa, há décadas, por uma grave crise cujos acertos eventuais – Uma Linda Mulher, Legalmente Loira – soam como exceções que confirmam a regra, a animação tem dado provas – com títulos como Wall-E, A Era do Gelo e A Noiva Cadáver – de ter herdado tanto o espírito ousado que caracterizou o auge da referida tradição quanto a capacidade de entreter e de divertir que é sua razão de existir – com a vantagem, no caso dos desenhos, de promover num mesmo filme, com ganho, um mix com outros gêneros cinematográficos.

Não que, do ponto de vista puramente técnico, Up (que pode ser visto em 3-D em alguns cinemas) alcance a excelência state of the art da modalidade animação: algumas cenas com os personagens no exterior de naves em movimento apresentam problemas de angulação e de continuidade – nada que comprometa a fruição do espetáculo, mas produzem alguma estranheza. Isso poderia ser posto na conta do delírio criativo predomiannte, não fosse o fato de a trama, embora totalmente inverossímil e fantasiosa, jamais deixar de se situar nos limites do realismo formal.


Cico Anysio brilha como Fredricksen
Sempre prefiro assistir a versões legendadas dos filmes. No caso de Up, porém, recomendaria enfaticamente a versão dublada, na qual Chico Anysio tem uma excepcional performance como Fredricksen. Ele não apenas utiliza de forma precisa a voz - amoldada à perfeição ao personagem - para sugerir uma gama de emoções que vão da rabugice à terna emoção, passando pela urgência e pela tristeza reprimida, mas faz uso de recursos extra-vocálicos como sons guturais, de respiração, de suspiros e gemidos para compor um retrato vívido do velho rabugento. Na adolescência, eu tive um grande amigo, chamado Pê e com o qual infelizmente perdi contato, que costumava dizer que mesmo que a Macondo de García Márquez não existisse tal e qual no romance, ela existia em alguma dimensão, como projeção mental/espiritual de todos as pessoas que leram Cem Anos de Solidão. O Fredricksen de Chico Anysio soa como se tivesse a mesma qualidade: aparentemente uma criatura de desenho animado, ele é tão crível que parece exister, não necessariamente com as mesmas feições físicas, em alguma dimensão, tamanha a dose de humanidade que lhe empresta seu magnífico dublador.

Embora se trata essencialmente de um divertimento familiar, Up tem o mérito de jamais infantilizar o público, ao contrário do que é usual em Hollywood. Trata de temas difíceis, como a morte, a velhice, a perda da inocência, mas o faz com humor e sensibilidade, sem cair na pieguice. É um filme que faz rir, vibrar, chorar. Um dos maiores acertos do cinema norteamericano nos últimos tempos.

6 comentários:

iaiá disse...

depois de chorar no filme vc me fez chorar de novo...acho que alguém viu o mesmo filme que eu vi.
tão lírico...

Maurício Caleiro disse...

Eu achei maravilhoso tudo o que se refere à relação dele com a Ellie,e a morte dela a coisa mais triste do mundo. Mas o final do filme me surpreendeu (aliás, há muito, muito tempo não acontecia de eu esquecer da vida e mergulhar num filme como em Up)...

Um beijo,
Maurício.

Markantonio disse...

O que mais me espanta é o grau de excelência aliado à produtividade da Pixar. Sempre que deparamos com uma obramagistral pensamos que a próxima não a superará.

Maurício Caleiro disse...

Markantonio,

Realmente, eles estão cada vez mais assumindo a linha defrente do cinema norte-americano, com uma sequência impressionante de filmes de alta qualidade num curto espalo de tempo.

Parabéns pelo seu blog, que não conhecia. Gostei especialmente do post sobre "Uma Linda Mulher".

Mariê disse...

Fui assistir UP (fila imeensa e tudo) principalmente ou unicamente para levar minha filha de 9 anos. Foi uma surpresa pra mim. Fiquei apaixonada pela história dos dois (menina louquinha e garoto meio bobo) e senti muito que a participação dela tenha sido tão pequena. Chorei horrores mesmo com a história e ri bastante também.
Adorei ler aqui sobre o filme.

Maurício Caleiro disse...

Mariê,

Acho que a falta que você sentiu de uma maior participação da menina indica que a estratégia de identificação entre personagens e público desenhada pelos roteiristas funcionou: sentir falta da menina ajuda a se identificar com as saudades que Fredricksen sente da Ellie, não?