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domingo, 3 de agosto de 2014

O "pessimismo" e os bodes expiatórios

Depois de dois anos marcados por escasso diálogo com a imprensa, a presidente Dilma Rousseff agora se digna a dar entrevistas, graças à proximidade crescente das eleições – e à possibilidade de perdê-las. Usou uma das mais recentes para acusar a mídia de "negativismo". Pouco depois, em um palanque, rotulou genericamente a oposição de "mercadores do pessimismo".

Foi a senha para que seus simpatizantes e militantes espalhassem aos quatro ventos a boa nova: a inflação está baixa, apesar de acima do teto estabelecido; a economia vai de vento em popa, não obstante as previsões agora apontarem para um PIB abaixo de 1%, um dos piores de toda a América Latina; a Educação é prioridade, apesar de, após 12 anos de PT, continuar na rabeira dos rankings internacionais, ao lado de potências como Granada e Serra Leoa.

Ou seja, o país vai muito bem, obrigado, e quem diz o contrário e desmente a excelência da gestão Dilma é a mídia malvada, ainda que esta muitas vezes se baseie em dados governamentais e em análises consolidadas entre analistas das mais variadas tendências.



Desculpa multiuso
Mas nem sempre a mídia brasileira serviu ao petismo como bode expiatório e cortina de fumaça para tirar a visibilidade das mazelas e dos problemas de suas administrações. Houve um tempo em que os reais e gravíssimos problemas de nossa mídia – oligopolização, elitismo, tendenciosismo, conservadorismo, entre outros ismos tão ou mais nocivos – faziam com que a reforma da mídia ocupasse a prioridade na agenda dos partidos não conservadores – inclusive do PT, que naquela época ainda convencia os incautos de que era uma força política de esquerda.

A presidência Lula foi perpassada pela urgência em regulamentar a mídia. Alegava-se, porém, ausência de clima político para mexer nesse vespeiro, mesmo no segundo mandato. Mas pareciam favas contadas que, se a candidatura Dilma vencesse, uma nova Lei de Mídia seria aprovada – e para tal Franklin Martins, secretário da Comunicação do governo Lula, deixara à candidata um projeto debatido, reelaborado e praticamente pronto.

Porém, e por livre e espontânea vontade, Dilma Rousseff perdeu, logo no início de seu mandato, uma grande oportunidade de promover a regulamentação da mídia, uma pauta até então dita prioritária pelo próprio governo. Ela tinha na ocasião mais apoio parlamentar do que Lula conseguira em seus dois termos e gozava ainda do período de tolerância com que, segundo os cientistas políticos, os brasileiros costumam brindar os presidentes recém-empossados.



Adiamentos sucessivos
Ao invés de avançar, Dilma surpreenderia a muitos com uma política de aproximação com a mídia, com direito a noite de gala na sede da Folha de S. Paulo - que durante a campanha divulgara uma ficha policia falsa da candidata - e a uma aula de como fritar omeletes, ao lado de Ana Maria Braga e seu papagaio global.

A partir daquele momento, e no decorrer dos meses seguintes, ficaria claro que a regulamentação da mídia fora adiada ad infinitum, dando lugar a uma estratégia de tentativa de cooptação de setores conservadores. Estes incluíam inimigos históricos do petismo, então contentes com o desempenho econômico sem sobressaltos e com um modelo de redistribuição de renda baseado na ampliação do mercado e do consumo, e não em uma reestruturação efetiva e protoigualitária de toda a pirâmide social, a qual reduzisse seus ganhos e status social.



Vitória de Pirro
A estratégia presidencial deu frutos, em um primeiro momento: seus índices de aprovação bateram recordes históricos, com picos inéditos em setores antes refratários a mandatários petistas.

Já quando tal tendência apenas começava a se delinear, apontamos, neste blog, para a fragilidade de tal estratégia e para o que representava de ameaçador em termos politico-ideológicos e eleitorais - por deslocar o pêndulo petista para uma pauta ainda mais conservadora, diminuindo a já rareante plataforma de esquerda e gerando perda de votos entre integrantes da seara canhota.

Alertamos, sobretudo, para o caráter fugaz de tal estratégia: tão logo o conservadorismo apresentasse o seu candidato, tais votos tenderiam a para ele refluir, e aí talvez fosse tarde para recuperar o voto dos esquerdistas que debandaram.




A história revelaria que, infelizmente, tais premissas estavam corretas. Das Jornadas de junho em diante, a aprovação a Dilma e suas intenções de voto como candidata presidencial despencaram e, apesar de oscilações para cima e para baixo, sem jamais atingir os patamares anteriores. Mais importante: como mostram as pesquisas, os votos que se foram e não voltaram são exatamente os referentes, por um lado, aos setores mais conservadores do Sudeste e, por outro, a categorias profissionais e estratos socioeconômicos historicamente ligados ao petismo em seu formato original, ideologizado e crítico às alianças de interesse e ao convencionalismo econômico.

Não é com satisfação que constatamos o acerto em nossas previsões. É, antes, com um sentimento de frustração e de impotência que vemos um partido dito trabalhista desperdiçar uma chance histórica de apresentar uma alternativa ao neoliberalismo, preferindo dar sobrevida a práticas políticas e, sobretudo, a ideologias orientadoras de políticas econômicas as quais teve a oportunidade de soterrar sob camadas de cal. Preferiu o inverso, chegando ao cúmulo de reviver até práticas privatistas, culminando com a concessão do Pré-Sal, medida que rompeu compromisso assumido em campanha.



Tietismo acrítico
E tudo isso se deu, em grande medida, por conta de uma turba de apoiadores e militantes que se comportam como fãs histéricos ante o ídolo - e não como cidadãos críticos e racionais, capazes de discernir e apontar erros e acertos mesmo se estes estiverem sendo praticados pela força política com a qual simpatizam. Mantêm uma relação de crença quase religiosa na clarividência petista - e não raro agridem e buscam desqualificar quem com eles não compartilha essa fé baseada no dogma, e não em fatos. Em última análise, isso leva a uma negação dos fatos e à condenação automática e invariável da mídia por eventualmente reportá-los.

Açularam tremendamente essa tendência as novas tecnologias de comunicação, destacadamente as redes sociais e demais recursos interativos trazidos pela web 2.0, os quais, pesquisas confirmam, tendem a estimular o movimento de manada e a isolar as vozes críticas.

Enquanto o petismo militante apoiava a guinada conservadora do governo, ocupava-se destilando seu ódio a Joaquim Barbosa e elegia a mídia como o bode expiatório para todo e qualquer problema, no mundo real os problemas derivados da má gestão pública se avolumavam: os relatos do genocídio indígena evidenciam a volta de um modelo de desenvolvimento arcaico e antiecológico, em descompasso com o momento civilizatório; agora, a volta da inflação faz estragos nos orçamentos domésticos, ao mesmo tempo em que o volume de endividamento das famílias – sobre o qual se sustenta parte da economia - atinge um nível temeroso; visto de perto, o desemprego evidencia uma dinâmica bem diferente da mostrada nos índices generalistas do IBGE, com férias coletivas devido a queda da produção indústria, reposição de quadros por salários menores, e maior desemprego entre profissionais com alta qualificação.



Estratégia diversionista
Mas os militantes, em seu fanatismo intransigente, continuam a atribuir tudo isso à mídia, que estaria insuflando um suposto "pessimismo negativista". Repetem, bovinamente, as críticas contra a mídia explicitadas pela própria Dilma, fingindo não se dar conta de que foi a própria presidente quem se acovardou ante a necessidade de regulamentar a mídia – pauta que, em obediência à agenda conservadora que abraçou e veio pra ficar, já foi devidamente retirada do programa de governo da candidata.

Afinal, a despeito e para além da urgência da regulamentação da mídia, é preciso dar aos militantes um bode expiatório para que ataquem, enquanto, no mundo real, o governo petista se rende cada vez mais ao conservadorismo, sob a complacência canina da militância.


(Imagem de autoria de Gordo Nerd, retirada daqui e editada)

3 comentários:

AF Sturt Silva disse...

Acho que se o PT for derrotado, seja em 2014 ou em 2018, essa turma vai culpar o seu 'radicalismo de esquerda' pela derrota. E é bem capaz que em vez de fazer uma autocrítica vão guiar mais à direita, se é que possível isso.

Essa questão da web 2.0 e suas tendências contra o pesamento crítico, você tem algum link que fale a respeito disso?

Maurício Caleiro disse...

Obrigado pelo comentário, Sturt.

Dê uma olhada neste artigo jornalístico sobre formação de opinião nos dias de hoje:[http://www.nytimes.com/2009/03/19/opinion/19kristof.html?_r=2&]; neste estudo acadêmico sobre redes sociais e eleições que se tornou referencial: [http://24.166.108.44/TAU/Campaigns%20and%20Elections/Baumgarten.pdf]; e neste paper especificamente sobre a relação entre blogosfera e engajamento político na era da web 2.0: [http://www.dr-chill.webspace.virginmedia.com/publications/2008_Critiques_Web_Two_Zero.pdf].

Divirta-se!


Um abraço,
Mauricio

Calerom disse...

Bom dia, Maurício:

Este tom triunfalista que oscila entre a pura arrogância e o desespero, a ausência de autocrítica, o culto doentio a personalidade - como se o "Supremo Líder" fosse infalível, quando não a pura e simples desonestidade intelectual da blogosfera "progressista" já está passando dos limites.
E o pior é que a maioria dos autores vive simplesmente repercutindo uns aos outros, no melhor estilo do Pravda soviético. Façam as apostas de quantos destes blogs e portais irão se manter caso um dia o PT perder o poder...