quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A dupla tortura de Miriam Leitão

Uma jovem de 19 anos, grávida, é presa por militares a paisana e atirada em uma perua. Após ser humilhada, surrada, ameaçada de estupro coletivo e de morte, é mantida durante horas em um quarto escuro, nua, na companhia de uma enorme jiboia.

A jovem era a jornalista e escritora Míriam Leitão e o relato acerca do que sofrera é, por seu ineditismo e dramaticidade, o fecho de ouro da matéria "A repórter pergunta, o ministro gagueja", publicada no Observatório da Imprensa e da autoria de Luiz Cláudio Cunha, jornalista especializado no período da ditadura. O trabalho pode ser considerado uma das melhores reportagens publicadas este ano, dada a combinação de embasamento, contundência e sensibilidade com que o autor analisa o papel do Estado democrático, da Comissão da Verdade e da imprensa em relação ao passado de tortura e ao presente de negação das Forças Armadas.


Reações extremadas
É certo que muitos, como este blogueiro, se indignaram e se emocionaram, em alguns casos profundamente, com o que a reportagem relata. Mas outros tantos, talvez mais ruidosos, reagiram mal à confissão de Miriam. Chama a atenção que tantos setores governistas quanto o jornalismo neocon de Veja e similares tenham concentrado os mais ferozes ataques à jornalista, como a evidenciar as afinidades entre extremos que se repelem mutuamente.

Quanto às reações dos conservadores, foram diversas e se concentraram em atacar Miriam por ter se aliado à esquerda na luta contra a ditadura. Aquele papo acéfalo de sempre. Um exemplo é significativo o suficiente: Rodrigo Constantino, um subletrado blogueiro de Veja, publicou um texto tão virulento (até para os padrões da revista) que o patrão ordenou que fosse retirado do blog, sendo prontamente obedecido. Quanta coerência!

Mas talvez ainda mais grave tenham sido as reações da autointitulada esquerda petista: na seção de comentários do blog do Nassif, reduto de governistas fanáticos, Miriam Leitão foi execrada e atacada impiedosamente pela turba. Deram vazão tanto ao ódio contra os prognósticos da jornalista em relação ao governo Dilma (que levaram seu ex-colega de Rede Globo, Paulo Henrique Amorim, em um flagrante ato de falta de ética jornalística, a pespegar-lhe apelidos jocosos), quanto ao fato, agora para eles irreconciliável, de ela trabalhar na citada emissora, representante-mór da mídia que odeiam e que acusam de perseguir o petismo, mas contra quem o próprio governo por eles apoiado não moveu uma palha, em 12 anos, no sentido de regulamentar – muito pelo contrário: continua a abastecê-la regularmente, via Secom, com vultosas verbas públicas.



Mercado e mídia
Não compartilho dessa visão a meu ver maniqueísta, de um esquematismo raso e indisfarçavelmente machista acerca de Miriam Leitão. O problema, para mim, não é que ela trabalhe na Globo: considero não só perfeitamente possível trabalhar na emissora e manter a dignidade, como tantos fazem ou, enquanto vivos, fizeram - de Fernanda Montenegro a Franklin Martins, de Gianfrancesco Guarnieri a Caco Barcellos -, como admiro o esforço (e as conquistas efetivas) que figuras claramente ligadas à esquerda - como Vianinha, Dias Gomes ou Eduardo Coutinho– empreenderam para, através da emissora, adentrar o "sistema" e, recuando aqui, avançando ali, modificá-lo por dentro. Clássicos da representação política na TV, como O Bem-Amado, Roque Santeiro, ou as series do Globo Repórter dos anos 70/80 não teriam jamais sido produzidos sem essa ligação empregatícia de tais profissionais com a emissora.

Minhas restrições em relação a Míriam Leitão não são de ordem pessoal: o que nela crítico é valer-se da posição midiática que ocupa para difundir, naturalizar e usar como régua e norma pressupostos econômicos que guardam íntima ligação com (e são muitas vezes ditados por) interesses do mercado financeiro internacional. No entanto, seria ingênuo achar que ela ocuparia tal função sem fazê-lo. Pois Miriam faz parte do que Muniz Sodré identifica como "elite logotécnica", agentes midiáticos neste momento histórico encarregados de fornecer uma retórica de legitimação para o neoliberalismo, através de uma lógica discursiva segundo a qual “a economia de mercado é traduzida como resultado de uma natureza eterna e imutável do homem” (trecho do artigo "O globalismo como neobarbárie", do livro Por uma outra Comunicação, de Dênis de Moraes (Record, 2003)).



Direitos básicos
Tais objeções quanto à função e ao modo de operação de Miriam Leitão não significam, feitas as ressalvas correspondentes, que eu deixe de reconhecer a qualidade de seu trabalho jornalístico per se – em relação à política econômica de Dilma, por exemplo, ela tem antecipado com precisão problemas que o voluntarismo e o fanatismo em voga se recusam a reconhecer -. ou que eu nutra um ódio de natureza pessoal contra ela. E mesmo levando em conta que, sendo a teledifusão uma concessão pública, o jornalismo econômico que pratica deveria, necessariamente, refletir também parâmetros outros que não os do mercado, nada disso autoriza que eu– ou qualquer outra pessoa - desqualifique o passado militante da jornalista nem, de forma alguma, menospreze ou zombe da violenta violação de seus direitos em mãos militares.

Ao contrário: ao menos desde o Iluminismo os direitos da pessoa humana não deveriam mais guardar relação com o teor de suas ideias. A afirmação de Voltaire de que pode discordar de tudo que o interlocutor diz, mas lutará sempre pelo direito de ele se expressar implica, necessariamente, não só no abandono de uma lógica punitiva baseada em critérios ideológicos mas, em decorrência, na condenação dos que continuam a se valer de tal critério para punir, com eventual violência, ou assassinar.

As reações agressivas contra Miriam Leitão, por revelar a violência que sofreu nas mãos do Estado, são expressivas do acirramento de parâmetros pré-Iluministas também na arena política brasileira. O fato de tamanho ódio ser comum a coluistas de Veja e a comunidades blogueiras "progressistas" deixa claro, como já mencionado, que tais pretensos antagonistas, na verdade, partilham pressupostos similares e práticas marcadas por ódio, intolerância e, de lado a lado, nenhum pudor  em promover "assassinatos sistemáticos de reputação".


Passado presente
Mais do que o retrato de uma luta justa, contra aqueles que usurparam o poder através de um golpe desferido em um presidente constitucionalmente eleito, a história da prisão e tortura dos jovens que lutaram contra a ditadura – da qual a de Míriam, como ela mesma fez questão de assinalar, é apenas um caso entre outros bem piores - pode ser lida como uma narrativa da perda de inocência, como um brutal rito de passagem, das esperanças douradas de jovens militantes para a desolação e a dor dos cárceres, da torturada sistematizada e, em não poucos casos, da morte.

Nesse sentido, a reportagem de Luiz Cláudio Cunha é epifânica, pois, lida no atual contexto, acaba por não dizer respeito "apenas" ao que vivenciamos durante a ditadura, mas, indiretamente, ao momento presente, no qual, a despeito da alegada democracia institucional em que vivemos, jovens têm sido rotineiramente reprimidos com brutalidade não apenas policial, mas judicial, e com afiada articulação ente poder federal e estados.

Antes, como agora, a sociedade mostra-se alheia a essa violação sistemática de direitos, que há décadas assola periferias, morros e outros não-lugares e se tornou geral e descontrolada a partir da Copa do Mundo, afetando desde então cidadãos e cidadãs que ousam sair às ruas e lutar por um mundo melhor. O relato da tortura de Miriam, mais de quatro déadas depois, nos formula assim uma questão essencial: quantos anos teremos de esperar para despertar para a urgência de denunciar a perpetuação do militarismo fora da lei e reprimir a violência de Estado de ontem e de hoje?


(Imagem da jovem Miriam Leitão no dia de sua prisão. Retirada daqui e editada digitalmente)


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