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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O caso Karina e a politização do sexo


O caso de Karina Bolaños, vice-ministra da Juventude e Cultura de Costa Rica demitida após um vídeo íntimo “vazar” na internet, não obstante estar sendo tratado nas redes sociais como mera anedota, suscita importantes questões sobre as relações entre poder, ética e sexualidade, em um contexto de diluição das fronteiras entre o pessoal e o público.

No vídeo caseiro, Karina adentra o quadro pela lateral, de lingerie, deita-se de bruços sobre a cama de casal, perpendicularmente à câmera e, com o rosto em primeiro plano, olhando diretamente ao espectador, faz calientes declarações de amor ao que se evidencia ser alguém com quem já se relacionara anteriormente.

Não há absolutamente nada de pornográfico e, embora a CNN, ao transmiti-lo, tenha borrado digitalmente parte da imagem (para evitar que fossem vistas as bordas das auréolas em volta dos mamilos), trata-se de material que, se parte de uma trama ficcional, poderia tranquilamente ser exibido numa telenovela brasileira.


Fora dos padrões
A ênfase cômica com que o vídeo tem sido difundido nas redes sociais é compreensível, mas empobrecedora. Sendo a circulação de fait divers de apelo humorístico uma das modalidades principais da internet, o vídeo de Karina, além de saciar o voyeurismo que caracteriza as sociedades contemporâneas e explica o sucesso de reality-shows e congêneres, parece ter se tornado atraente para os aficionados justamente por seu conteúdo desviar-se dos padrões estético-comportamentais impostos pela indústria cultural.

O que o tornaria engraçado é o fato de ser protagonizado não por uma Paris “Barbie” Hilton de corpo sarado transando para as câmeras que, como parte do esforço de autopromoção, finge desconhecer, mas por uma mulher comum, nem muito feia nem muito bonita, nos seus quarenta anos, com um corpo alguns quilos acima do que a ditadura da beleza manda, e cujos impulsos sedutores incluem gravar em vídeo derramadas promessas de êxtase a quem ama. 

Economia sexual
Pergunto: o que há, de fato, de tão engraçado no vídeo? Por que provocou tanto frenesi e estupefação? A imposição de padrões quase inalcançáveis de beleza estaria de tal modo instituída que teria tacitamente proibido aos que neles não se encaixam ousarem manifestar sua sexualidade e o fazerem sem o crivo do deboche? Ou é a própria concepção de romantismo que se mostraria de tal forma sobrepujada por uma visão programaticamente mensurada, cronometrada e atlética do universo afetivo-sexual que torna anacrônico o que recenda a romantismo e derramamento?

Creio que uma das possíveis respostas a esta pergunta é que Karina, com seu físico fora dos padrões e o tom confessional de seu romântico erotismo, é uma penetra numa festa à qual não foi convidada, numa arena virtual reservada àqueles que obedecem os preceitos ditados pelo biopoder capitalista em seu atual estágio, que propulsiona, através do culto fetichizado do corpo perfeito e da hiperestimulação de uma sexualidade definida em bases clínicas, um processo de insatisfação permanente do ego, o qual, por sua vez, retroalimenta continuadamente o consumismo.

E um dos traços distintivos de tal economia política – e uma das bases para sua manutenção - tem sido, justamente, a criação de um discurso de exclusão que quer fazer crer que o acesso a uma sexualidade prazerosa limita-se aos que se adequam a tais demandas. Ao contradizer tal mito, o caso Karina também escandaliza porque acaba por furar o bloqueio e aludir ao fato de que, por mais surpreendente que a alguns possa parecer, a grande maioria de mulheres com estrias e celulite, gordinhas, gordas ou obesas, bem, como os homens barrigudos e carecas, também têm vida afetiva e sexual, muitas vezes intensa. A sexualidade restrita aos seres de corpo perfeito é um fetiche da era da virtualização do sexo, um fenômeno com menos de 20 anos.


Injustiça e sofrimento
Desde o início, embora goste de dar risadas com coisas tolas, não consegui ver nada de engraçado no vídeo de Karina. Talvez eu tenha uma prevenção contra esse voyeurismo que se tornou corrente, manifestada numa ojeriza ao vazio intelectual e existencial de Big Brother e congêneres, mas o fato é que o que vi no vídeo foi uma mulher, um ser humano, tendo sua intimidade brutalmente devassada, contra sua vontade e em nome de uma voyeurismo humorístico gratuito. O sentimento predominante, para mim, foi a certeza de que a experiência de ser assim exposta deveria estar sendo avassaladora para ela.

De fato, a história por trás do vídeo nada tem de engraçada. Além de ter custado o emprego de sua protagonista, sua divulgação se deve, segundo relato de uma devastada Karina à CNN em espanhol, a um malfadado processo de extorsão da qual ela e seu marido - que é deputado e era o destinatário do polêmico vídeo - seriam, há meses, vítimas.

Na entrevista, que pode ser vista no vídeo abaixo, embora o seu abatimento emocional fique evidente e confirme, infelizmente, o sentimento que tive ao assistir ao vídeo, Karina tem a lucidez de reivindicar o caráter privado do vídeo, o direito de exercer sua sexualidade e de protestar contra sua demissão.


A reação patriarcal
É de fato lamentável - e significativo - que o universo da política, tão tolerante quando se trata da relativização de programas de governo, da constituição de alianças espúrias e da malversação de verbas públicas, se mostre implacável ante a sexualidade feminina, ainda que manifestada em um contexto privado cuja publicização, a rigor, em nada afetaria o desempenho profissional de sua protagonista.

Acho uma pena que o caso Karina tenha recebido tão pouca atenção das feministas brasileiras. Para ficar só em dois tópicos de evidente interesse, a demissão da vice-ministra é um exemplo didático do recurso ao moralismo como instrumento patriarcal de repressão e, como já acima sugerido, a reação ao vídeo vazado evoca uma série de questões relevantes concernentes a corpo, sexualidade e padrões de beleza impostos às mulheres. Merecia ser levado seriamente e mais debatido.


(Imagem copiada daqui)

2 comentários:

Natalie disse...

Concordo com você, tanto em relação à análise que faz do episódio quanto no que diz respeito ao silêncio das feministas.
Muito boa sua análise sobre como os padrões inalcançáveis nos impinge sofrimentos que tentamos curar com o consumismo. Não tinha pensado nisso.

Abraços

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Natalie,

Um abraço.