quinta-feira, 21 de junho de 2012

A esquerda e os ataques autoinfligidos

O debate em torno da renúncia de Luiza Erundina à candidatura à vice-prefeitura de São Paulo, para além das questões políticas concretas às quais se liga – como a aliança do PT com o PP de Maluf ou a escolha de um novo candidato a vice - evidenciou importantes aspectos acerca dos debates e dilemas políticos da esquerda - e de sua relação com o conservadorismo - em um contexto no qual as redes sociais assomam à posição de fórum comunicacional dos mais relevantes, por vezes determinante.

Esse cenário traz em seu bojo uma série de benefícios imediatos e de possibilidades de comunicação, interação e, em algum nível, de participação política – as quais, aprofundadas e institucionalizadas à medida que a tecnologia e a inclusão digital avancem, tendem, a médio prazo, a revolucionar o próprio modo de inserção político-eleitoral dos cidadãos no âmbito de uma ciberdemocracia.


Movimento de manada
Por outro lado, essas transformações operadas na confluência da tecnologia, da comunicação e da política, embora eminentemente positivas, não estão desprovidas de armadilhas, de riscos de manipulação e de possibilidades temerosas várias, os quais acabarão por demandar autocrítica, ajustes e precauções por parte dos próprios agentes comunicacionais e políticos.

Assistimos neste momento, no Brasil, à disseminação de uma das mais potencialmente danosas dessas práticas, cuja diifusão tem sido extremamente facilitada pelas chamadas novas tecnologias: o ataque pessoal desqualificador em massa. Ele constitui, de qualquer maneira, uma prática a se lamentar, mas mais ainda porque ora se dá no interior da própria esquerda, em um processo autofágico de agressões mútuas. Isso já vinha ocorrendo, pontualmente e em escala menor, há algum tempo, mas atinge uma especie de ápice através do processo de agressiva difamação contra Erundina que teve lugar nas redes sociais já na noite de terça-feira (19/06) e se manteve intenso durante todo o dia de ontem e de hoje.


De santa à vilã
Uma sucessão de pseudo-denúncias, do tipo “Veja a foto do pacto de Erundina com Quércia”, “Você sabia que partido de Erundina é ninho de ex-malufistas?” ou “Deputados estaduais do PSDB fizeram uma vaquinha para ajudar Erundina? [por que e em quais circunstâncias, é claro, não dizem]”, além da indefectível ressurreição do caso do Tribunal de Contas proliferaram ontem na internet, não raras vezes reproduzidas pelos mesmos perfis que três dias atrás vibravam com sua indicação a vice.

Ora, há toneladas de fotos de praticamente todos os políticos da geração de Quércia com ele, inclusive de Lula, e o PMDB quercista – do qual chegou a tomar parte o vice-presidente Michel Temer – foi e - evidentemente não mais com essa denominação - continua a ser, parcialmente, integrante do maior partido aliado no PT em âmbito federal. E o próprio Nassif, que ontem condenou o gesto de Erundina, sustenta que ela "foi alvo de uma tentativa de golpe por parte do Tribunal de Contas do Município (TCM)", caso cujos desdobramentos finais acabariam por mobilizar gente de todos os partidos em solidariedade à respeitável figura política que ela é (pois, ao contrário do que algumas mentes tacanhas pensam, opositores não são necessariamente inimigos figadais e mesmo entre políticos profissionais pode, eventualmente, haver solidariedade).


Veja faz escola
De qualquer modo, não é o debate sobre a procedência ou não de tais acusações o que interessa aqui, e sim chamar a atenção e alertar preventivamente para um fenômeno mais ou menos recente nas redes sociais e que, se devidamente manipulado pelos setores conservadores, pode gerar ainda mais divisões e conflitos de monta no interior das forças que lhes fazem oposição.

Pois tais práticas, por si, já demonstram o quanto setores da esquerda na internet têm seguido e mimetizado os métodos cafajestes que tomaram conta da imprensa brasileira ma última década, a partir da atuação militante da revista Veja – notadamente do autoexilado Diogo Mainardi e de dois de seus “blogueiros” de aluguel - na verdade, um par de jornalistas com alguma expertise e habilidades retóricas de seminaristas aplicados, que as utilizam para distorcer e desvirtuar feitos e projetos da centro-esquerda e, sobretudo, para difamação e desqualificações pessoais.


Gasolina na fogueira
Os “novos” métodos que agora infelizmente maculam a atuação de setores da esquerda pouco diferem, na prática, dos que há pouco eram virtualmente exclusivos do esgoto jornalístico o qual alegam deplorar, valendo tudo para a agressão e a desqualificação pessoal. Incluem até mesmo um personagem que se oculta por detrás de um pseudônimo – Stanley Burburinho – que passa boa parte do dia desencavando e difundindo material que, repercutido nas redes sociais, possa ser usado para desqualificação de quem quer que se oponha ao projeto político petista, na linha de partido. Vem desse ser covardemente protegido pelo anonimato boa parte das “acusações” contra Erundina.

Que um número considerável de perfis - inclusive os de pessoas reais de que gosto e respeito (ou respeitava) – reproduza, com intenção vingativa e difamatória, “acusações” como as parágrafos acima reproduzidas não passaria de algo a se lamentar, como evidência de baixeza e de imaturidade política, não fosse o fato de que tal estratagema não apenas interdita o debate, necessário ao avanço democrático e à solução dos eventuais impasses – ainda mais em um momento como o atual -, mas açula ódios e discórdias já à flor da pele em decorrência da aliança com Maluf e da renúncia de Erundina.


Táticas mistificadoras
O arco de tais ações comporta tanto agressões as mais abjetas, como procedimentos claramente mistificadores ou falseadores - como escandalizar-se com uma reprodução de uma declaração totalmente descontextualizada de Erundina, ou as tentativas de tentar caracterizar como artificial a revolta causada pela aliança com Maluf devido ao fato de o PP já ser um aliado nacional do PT. Ora, o PP nacional é invisível para a maioria da população e Lula nunca se prestou a ir beijar a mão de Maluf na mansão deste no Jardim América para selar a aliança, fornecendo imagens para a mídia se refastelar - o que, somado ao carnaval que os petistas entusiastas de tal aliança fizeram, comprova, por si, a especificidade de sua importância.

Já em São Paulo, no âmbito de uma eleição municipal, a força das lideranças locais é imensuravelmente maior e Paulo Maluf é um cacique, enfraquecido, mas ainda capaz de se eleger seguidas vezes deputado, o que o ajuda a manter à distância a letárgica e elitista Justiça brasileira. Em seu reduto, ele continua sendo o  símbolo máximo da corrupção (como criminoso internacionalmente procurado pela Interpol) e do desrespeito aos Direitos Humanos (fiador da Rota em seu pior momento e da repressão periférica em bases classistas e raciais). Além disso, é o mais destacado dos políticos paulistas ainda na ativa surgidos sob os auspícios da ditadura militar - ou seja, o retrato acabado da pior direita patrimonialista, um antagonista histórico e, este sim, figadal do PT, um estranho no ninho petista.


O melhor dos iguais?
Isso nos leva a um segundo aspecto preocupante da questão: o modo como setores da esquerda defenderam a aliança com uma figura política com tamanha folha corrida impressionou (e continua a impressionar) não apenas pela desfaçatez e ausência de escrúpulos, com a adoção de um pragmatismo exacerbado que desconsidera qualquer aspecto ético, mas pela agressividade com que reagiram contra os que ousaram criticar ou se opor a tal aliança - não só recusando, no mais das vezes, qualquer debate em bases civilizadas, mas procurando culpá-los pelas derrotas passadas e desqualificá-los como ingênuos, preos a um moralismo tacanho, "acusando-os" de "puros" (ver ótimo texto do jornalista Leandro Fortes a respeito).

A questão que se coloca, no limite, é: se, para tais setores da esquerda, a ética ficou reduzida a algo arcaico e dispensável tanto no trato com os que com eles divergem (ainda que no mesmo campo político) quanto, relegado a mero empecilho contraproducente, do ponto de vista eleitoral, em que a aliança com uma das mais nefastas figuras políticas brasileiras – pior, só Bolsonaro – em troca de um minuto e meio na TV se justifica, com tudo que isso inexoravelmente traz como simbologia de conivência com a corrupção e com a violência de Estado, o que distinguiria a esquerda em termos de conduta ética e o que haveria de diferencial em seu projeto político em relação ao que os partidos de centro e de centro-direita oferecem?
- “Vira o poder pelo poder. Assim não voto mais no PT” - ouvi recentemente de uma amiga antes entusiasmada com a candidatura Haddad. [Não estou endossando que não haja diferenças entre o projeto petista e o da centro-direita – é claro que há, notadamente em termos de políticas sociais -, mas procurando demonstrar os efeitos simbólicos passíveis de se depreenderem de tal aliança.]

Caindo em armadilhas
Assim, incutir, como um cavalo de Troia, a aliança com o maior símbolo do conservadorismo populista – e, como já dito, da corrupção e do desrespeito aos Direitos Humanos - no seio de uma extremamente promissora candidatura de centro-esquerda não foi o único sucesso recente da direita, em São Paulo. A adoção das estratégias desqualificadoras típicas do jornalismo serrista é, hoje, prática corriqueira no interior da própria centro-esquerda. E quem se beneficia tanto com Maluf na chapa petista quanto com a esquerda trocando baixarias desqualificadoras entre si são apenas os opositores de Haddad, Serra notadamente. Por isso, às vezes passa-se a impressão que o PT está caindo como patinho nos ardis do conservadorismo - e o faz agredindo os que tentam alertar para o perigo, os quais poderia ao menos ouvir.

De qualquer forma, os danos da aliança com Maluf estão feitos e, mesmo que ela viesse a ser revertida – o que parece irreal -, foi dada,de livre e espontânea vontade, à mídia a foto de Lula com Maluf que ela explorará à exaustão. Tal aliança fatalmente levará a candidatura de Haddad a perder votos em setores da esquerda, mas a chance de derrotar, a um tempo, o serrismo e o PSDB em São Paulo impõe-se como elemento natural a, malgrado todas as rusgas, impelir a centroesquerda comandada pelo PT a buscar a união na cidade.


Trégua necessária
Parece, portanto, inteligente – e producente - que, como medida inicial, sejam suspensas as agressões, difamações e desqualificações no interior da esquerda. Agredir Erundina ou quem quer que seja não contribui em nada para a erradicação dos tucanos em SP, pelo contrário. Voltar a criar um clima propenso ao diálogo e parar de ver um inimigo em cada simpatizante que ousa fazer uma crítica polida à condução da candidatura Haddad soam como medidas profiláticas.

Ademais, a centro-esquerda dependerá de capacidade de articulação e de pressão para que a escolha do candidato a vice na chapa petista recaia em uma figura capaz de somar – e não apenas votos. Após meter Maluf goela abaixo da militância, é hora de ao menos procurar apaziguar a esquerda e acenar claramente contra o neoliberalismo e a favor de avanços sociais e respeito aos Direitos Humanos. Isso não cicatrizaria de imediato as feridas, mas começaria seu tratamento, ao invés de avivá-las. Neste momento, já seria um feito.


(Imagem retirada daqui)

Um comentário:

Anônimo disse...

Isso mesmo.
Não me surpreende, na verdade, porque ao contrário da sua amiga, eu tinha cogitado votar no PT POR CAUSA da Erundina, mas vou retornar à minha descrença anterior, que até foi bastante reforçada. Porque se antes já havia o tomaládacá com corruptos recentes, agora conseguiram chegar aos tempos da ditadura.
Muito bom o seu blog.
Arnaldo