sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os Descendentes e o cinema neo-humanista


O grande trunfo de Os Descendentes (The Descendants, 2011) é voltar-se para o retrato de pessoas comuns, abordando seu cotidiano, dramas e contradições com acento tragicômico – mas sem jamais apelar para o sarcástico de filmes como Beleza Americana ou de diretores como Todd Solontz (Bem-vindo à Casa de Bonecas; Felicidade).

Alexander Payne – dos ótimos A Confissão de Smith, com Jack Nicholson, e Sideways, com Paul Giamatti – é um diretor de outra cepa, que assimilou como poucos de seus conterrâneos as lições do neo-realismo italiano sobre a importância da observação do cotidiano, da criação de sentidos epifânicos através do realismo, da câmera como “seguidora” do protagonista. Dotado de um talento ímpar para gerar significações valendo-se principalmente da dinâmica interna da imagem - algo bem raro hoje em dia - e de um aguçado sentido da estética e da ética contemporâneas, vem se firmando, ao lado de nomes como Iñárritu, Kiarostami e Walter Salles como um dos diretores mais representativos do neo-humanismo no cinema.

Na era da edição frenética, em que as pesquisas mostram que as novas gerações, educadas na gramática visual MTV, tendem a dispersar sua atenção se as tomadas duram mais de sete segundos, a montagem de Descendentes - concebida por Payne e realizada por Kevin Tent, indicado ao Oscar-, sem jamais soar arrastada, preserva o delicado equilíbrio entre a dinâmica interna da sequência e sua duração, de modo a potencializar a geração de sentidos.

Tais qualidades são especialmente propícias a essa produção norte-americana, cujo tema central é a crise – pessoal, familiar, de masculinidade – de um advogado sovina, representante legal de sua enorme família em um negócio de terras, que, não bastasse defrontar-se com a esposa Liza à beira da morte por conta de um acidente, descobre que ela o traía e planejava o divórcio. A dificuldade para lidar com seus sentimentos – os quais nunca explicita – e para manter-se equilibrado o suficiente para administrar tal situação, somada à conflituosa relação com suas duas filhas – uma adolescente, outra prestes a ingressar na puberdade, ambas também vivenciando dilemas emocionais -, formam o substrato dramático da narrativa.

Em termos formais, a fotografia trabalha em baixo contraste a luz intensa do Havaí, de forma que mesmo o solar e o luminoso predominantes adquirem um quê de sóbrio e, às vezes, melancólico, sendo que as nuances pontuais de iluminação tendem a privilegiar o humano (faces, sobretudo) ante o peculiar esplendor da paisagem havaiana, que no mais das vezes não é realçada.

Ainda assim, colabora para dotar o filme de um certo exotismo a escolha do arquipélago havaiano como locação, dadas a a ambiência praiana típica e a mescla da cultura local – no vestir-se, na comida, nas expressões idiomáticas e, sobretudo na música (que serve de trilha sonora) – e norte-americana – a língua, sobretudo, mas também os códigos de conduta, como a indefectível niceness da esposa do amante de Liza. É questionável, porém, até que ponto tal ambiência realmente se insere dramaturgicamente na trama – como em Lost in Translation, de Sofia Coppola - ou se não passa de um penduricalho artificial a evidenciar o esgotamento do cânone e, numa manjada estratégia cinematográfica pós-moderna, a adicionar um tempero camp à trama.

A novata Shailene Woodley, como a filha adolescente que rompera com a mãe por flagrá-la com o amante, oferece uma performance só aparentemente discreta, cujo valor está justamente nas sutilezas - e que lhe valeram, até agora, nos EUA, quatro prêmios regionais e dois nacionais, incluindo o prestigioso National Board of Review, o prêmio nacional da crítica. Indicada ao Globo de Ouro, junta-se a Tilda Swinton, protagonista de Precisamos Falar sobre o Kevin, como uma das injustiçadas do Oscar 2012.

Já George Clooney, na pele do advogado sovina Matt King, ganhou o Golden Globe e pode levar também o Oscar, mas sua atuação está longe de oferecer as nuances interpretativas de que atores como Sean Penn e Anthony Hopkins são capazes e que um personagem tão complexo, em uma situação tão instável e conflituosa, demandaria. O máximo que consegue é expressar a dificuldade em administrar a contradição entre a raiva e a frustração interiores e a necessidade de manter as aparências e o autocontrole - além de, próximo ao final, permitir o vislumbre da chama de grandeza humana que pulsa no interior desse personagem dilacerado. Talvez grande parte do impacto de sua atuação advenha da surpresa em constatar que um galã como Clooney soa convincente na pele de um homem em plena phalic failure, traído pela esposa e ao mesmo tempo condoído e impotente ante sua morte, incapaz de funcionar como pai, um ser humano aparentemente bem-sucedido, mas que olha para trás e vê que o só o que fez na vida foi trabalhar e guardar dinheiro.

E é precisamente o modo sensível – mas nunca, jamais piegas – com que Payne conduz tais dilemas, e a profunda ressonância que o drama desse homem, de suas filhas e dos que orbitam em torno dessa família encontra na vida real cotidiana que faz com que Os Descendentes, mesmo sem ser um grande filme, mereça ser visto. Difícil sair do cinema impune e esquecê-lo na primeira esquina.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e dali)




4 comentários:

Mario Jordão disse...

Belo e erudito comentário. Assisti o filme ontem antes de ler sua resenha, e tive impressões semelhantes (sem toda essa percepção estilística de especialista). Também gostei muito da atuação da jovem e bela Shailene Woodley. Apenas uma pergunta: você colocaria o Jason Reitman nessa leva neo-humanista que você citou no início da crônica?

viviane disse...

Lendo seu post, me veio uma enorme vontade de ver o filme!

Maurício Caleiro disse...

Obrigado aos dois pelos comentários.

Mario, eu certamente colocaria o Reitman nesse grupo de cineastas neo-humanistas. "Amor sem escalas", sobretudo, me parece um filme que deixa claro a primazia que ele concede ao humanismo.

Um abraço,
Maurício.

Mario Jordão disse...

É, "Amor sem Escalas" tem em comum o Clooney como protagonista, e esse cara parece ter muito critério para escolher os filmes em que trabalha. Até hoje só não gostei daquele "Batman" (não gosto de nenhum anterior ao "Begins") e do "Solaris", que me pareceu "cabeça" demais.