domingo, 20 de fevereiro de 2011

O retorno do neoliberalismo

Falar em retorno do neoliberalismo é uma imprecisão, pois ele nunca deixou de estar entre nós.

Havia, porém, em alguns setores, sobretudo após o segundo mandato de Lula, a esperança de que a ortodoxia econômica dos primeiros anos de governo - nos quais a única diferença entre Palocci e Malan era a barba – fosse página virada, e que o neokeyseanismo que dominou o segundo mandato, aprimorado, acabasse por constituir-se em modelo orientador da política econômica.

Entretanto, o anúncio de um vultoso corte de R$50 bilhões no orçamento federal, da suspensão de concursos e nomeação de aprovados e, sobretudo, da meta de zerar o déficit nominal, vem corroborar diagnósticos mais céticos, mesmo entre os que reconhecem os méritos sociais da administração Lula.

Entre os que acreditavam na possibilidade de aprofundamento das conquistas da Era Lula, com maior clareza e coesão político-ideológica, o retorno abrupto à ortodoxia neoliberal logo no início do governo e incluindo congelamento de contratações significa um tremendo retrocesso e instaura um profundo desencanto. Mesmo porque as implicações de tal decisão, levada em conta a atuação assumidamente partidária da mídia, podem ser, na prática, ainda mais graves.

Pois ao promover a volta da ortodoxia econômica Dilma facilita tremendamente a encenação do teatro midiático golpista.


Teatro midiático
Trata-se de uma peça em três atos: no primeiro contrapõe-se favoravelmente Dilma a Lula, não só exaltando o estilo da primeira em relação aos modos alegadamente broncos de seu antecessor, mas procurando também responsabilizá-lo, entre outras maldades, por uma herança maldita na forma de contas estouradas.

No segundo ato, como fez na temporada 2005, a peça assume tons histriônicos: a mídia superestima e publiciza ao máximo eventuais denúncias de corrupção no governo Dilma – que, dada a estrutura político-administrativa brasileira, fatalmente ocorrerão -, procurando jogar a responsabilidade para a presidenta.

No terceiro e último ato, estabelecida a excelência das políticas neoliberais e pespegado o rótulo de corrupta na administração dilmista, chega o momento de contrapor a capacidade administrativa da presidente “novata” e “corrupta” aos “experientes gestores” tucanos, isentos de qualquer denúncia grave de corrupção pela própria blindagem que a mídia lhes oferece. Será então a hora de fazer uso midiático não só da brigada demotucana (note-se, a respeito, que não obstante sua derrota eleitoral, Álvaro Dias continua com cadeira cativa no telejornalismo global) como dos políticos quinta-coluna que a mídia mantém na base aliada.


Passividade e intransigência
O que setores da esquerda, iludidos pela lua-de-mel entre a mídia e a presidenta, relutam em enxergar é que a estratégia econômica de Dilma está facilitando tremendamente a dramaturgia midiático-golpista, pois pertence à lógica elementar, inescapável, a constatação de que, se o aperto na economia é tão urgente quanto as medidas adotadas sugerem, é porque há, de fato, graves problemas de caixa na herança deixada pelo governo Lula. E isso fatalmente será utilizado contra a administração petista quando a mídia reposicionar suas peças no tabuleiro.

Em nome dos próprios ideias que defendem, é preciso que a sociedade e os setores progressistas que elegeram o novo governo reajam o quanto antes a esse retrocesso político, ideológico e administrativo, o qual, em um movimento inaceitável em uma democracia que se quer avançada, contraria frontalmente o discurso eleitoral de Dilma.

Ao invés disso, o que se vê é uma atitude que oscila entre a aceitação passiva, "vamos deixar como está para ver como é que fica" e a patrulha ideológica que procura desqualificar qualquer voz dissonante, como se criticar o governo Dilma significasse automaticamente realinhar-se com a mídia e os setores conservadores - quando, como sugerido acima, é precisamente o apoio às medidas anunciadas por Dilma o que mais interessa neste momento à mídia corporativa para compor sua estratégia de poder.


(Imagem retirada daqui)

9 comentários:

Prof. Alan disse...

Espero que "assumi" (no 7º parágrafo)tenha sido erro de digitação...

Professor Eduardo Lima disse...

Boa crítica. Espero que estas mudanças sejam apenas uma arrumação no caixa mesmo. Porque afinal, não houve cortes no PAC. Mas temos que ficar atentos.

Professor Eduardo Lima disse...

Aproveito para divulgar meu site, espero que goste:

http://www.comunistas.spruz.com

Alexandre Porto disse...

O "aprofundamento das conquistas da Era Lula" só possível graças a ortodoxia de Lula I não só com Palocci, mas com o próprio Mantega no Planejamento passando a tesoura.

Irresponsabilidade fiscal não tem nada a ver com esquerda, mas com FHC 1.0, por exemplo, de triste memória.

Maurício Caleiro disse...

Alan, corrigido, obrigado.


Eduardo,

Obrigado pelo comentário, vou conferir seu bloig assim que tiver um tempo.


Alexandre,
1) Ué, mas se não houve irresponsabilidade fiscal, por que um contigenciamento tão rigoroso? Esta é a pergunta que não quer calar.

2) Qual a diferença da ortodoxia dos dois primeiros anos de Lula I para a de FHC, você poderia explicar, por favor?

arnobio disse...

Maurício,

Excelente e relevante post, trata com seriedade questões pesadas, que ameaçam o governo, rumo ao retrocesso. Um versão mambembe do combalido neoliberalismo.

Maurício Caleiro disse...

Arnobio, Fico contente em ter provas - uma vez mais - que você não está entre os que confundem crítica construtiva, no interior e no interesse da esquerda, com ataque raivoso ao governo que se inicia. Um abraço.

Addam disse...

Onde a Dilma fugiu da política econômica da era Lula, até agora, foi onde ela TEVE q fugir. Sem uma queda nos gastos do governo, estávamos de frente pra uma dívida interna quase do tamanho da que arriscou quebrar os EUA. O Brasil só cresce "a níveis chineses" na cabeça da equipe do Lula (e possivelmente do próprio).

Mas pra mim, o mais curioso é o quanto Keynes ficou pop, nesta crise mundial, e de um jeito muito errado. Achar que a proposta de Keynes é simplesmente a interferência estatal na economia é algo de quem não leu Keynes. Ele mesmo propunha que tal só deve ocorrer em momentos como o q vivemos, mas q é preciso que o Estado tbm saiba reconhecer onde o mercado está sanado e diminua sua participação. E, sinceramente, nesse ponto a Dilma acertou em cheio!

Mas não é mais engraçado do que quem acha q Keynes era de esquerda. Rio muito disso, pq o próprio disse à exaustão que propunha soluções capitalistas para uma economia idem.

Maurício Caleiro disse...

Addam,

Há formas e formas de cortar gastos no governo, mas suspender concursos e nomeações pré-agendados nem FHC ousou.

Quanto aos que acham que Keynes é de esquerda, não me uncluo entre eles (aliás, ontem o blog do Nassif trouxe um texto de dois jeynesianos famosos justamente sobre esse tema).

Agora, que há diferenças agudas entre o receiturário neoliberal e a teoria de Keynes parece-me inegável, bem como o fato de que a última abre eventualmente espaço para políticas sociais includentes.