terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Novo Dicionário da Imprensa Brasileira (2a ed.)


Blogs – São sujos.

Censura – Refere-se a toda e qualquer regulação que afete o sagrado direito da imprensa de difamar, mentir e agir como partido político.

Checagem de informação – Hábito dispendioso e supérfluo. Pode perfeitamente ser substituído pela publicação da seguinte nota: “Não foi possível confirmar a informação, tampouco desmenti-la”.

Conjunções adversativas – Devem ser utilizadas sempre que for inevitável divulgar algum fato positivo referente ao governo ao qual a imprensa corporativa se opõe. Por exemplo: “Desemprego no Brasil é o menor da história, MAS quilo da banha aumenta 0,34%”.

Diploma de Jornalista – Papel pintado e sem valor. Deveria ser vendido em papelarias.

Direito à informação - Direito assegurado ao público de receber as versões dos fatos tais como auferidas, editadas e formatadas pela imprensa de modo a moldá-las aos interesses desta.

Direito de Resposta – Extinto pelo venerando Gilmar Mendes após o fim da famigerada “Lei de Imprensa”, foi substituído pelo direito da mídia de continuar reiteradamente produzindo acusações, mesmo sem provas (ver verbete Presunção de Culpa).

Ditador – Modo obrigatório de se referir a mandatários, eleitos ou não, que não se aliam aos EUA e, portanto, contrariam a visão de mundo da imprensa. Já ditadores de fato, mesmo se há 30 anos no poder (como, por exemplo, o presidente do Egito, Hosni Mubarak), sendo aliados dos EUA, devem ser tratados como “Presidente”.

Expert – Como a etimologia do termo sugere, aquele que se destaca por ser especialista em sua área. Ou seja, especialista em justificar ou defender, em linguajar a um tempo acessível (para se fazer entender) e pseudo-técnico (para simular conhecimentos superiores, inacessíveis aos demais mortais) políticas econômicas, administrativas e fiscais que interessem à corporação midiática para a qual trabalha.

Feminismo – Tema exótico, a ser tratado, com leveza e feminilidade, nas seções de variedades dedicadas às mulheres.

Hipótese – O mesmo que fato.

Imparcialidade – Diz-se da capacidade de um órgão de imprensa (e, em decorrência, de seus jornalistas) de apoiar determinado candidato ou partido político sem assumir publicamente tal apoio.

Investimento público – Despesa abominável e desnecessária, pois o Estado deve deixar que o mercado regule a economia. As únicas exceções são a verba publicitária do governo, o investimento em infra-estrutura de comunicação e o dinheiro doado a fundações dos grandes grupos de mídia.

Jornalista profissional – Serviçal mal remunerado, cuja função é repercutir os interesses da empresa em que trabalha. Servilismo, capacidade de bajulação, pouca bagagem cultural e ausência de espírito crítico são suas principais qualidades. A falta de caráter é altamente desejável.

Liberdade de expressão – Diz-se do direito da imprensa de publicar o que quiser e como quiser, de acordo ou não com parâmetros éticos e deontológicos consagrados. Inclui o direito de omitir, reduzir a trecho(s) ou editar de forma manipulatória - inclusive para produzir sentido contrário ao que foi dito ou constatado - relato de atos, fatos, discursos e falas de terceiros.

Liberdade de imprensa – Segundo tese defendida publicamente pelo ministro do STF Carlos Ayres Britto, sumarizada em artigo de Eugênio Bucci, “A liberdade de imprensa deve ser entendida como um direito não limitado por outros direitos. Ela é um direito absoluto.” Estando acima da lei, a imprensa está, portanto, livre para publicar o que lhe der na telha, mesmo se mentiroso, difamante, criminoso ou racista. Não deve satisfações a ninguém.

Manchete – Enunciado que deve divulgar, de forma sucinta e em letras garrafais (para ser lido até por quem não vai comprar jornais, só espiá-los nas bancas), fatos reais ou inventados contra as forças políticas às quais a empresa jornalística se opõe. Não é necessário que o texto ao qual a manchete se refere a corrobore.

Militante – Diz-se daquele que, nas caixas de comentário, defende ideias contrárias às da imprensa.

Nacionalismo – Quase sempre deve ser denunciado como uma aberração inominável, coisa de um povo jeca e inculto. A exceção é quando serve para denegrir as forças políticas às quais o jornal se opõe (por exemplo, criticando a presidente Dilma Rousseff por participar de evento com as Mães da Praça de Maio, na Argentina, sem que ela tenha se reunido antes com os movimentos brasileiros de recuperação da memória da ditadura).

Pesquisa eleitoral – Se feita por instituto correlato à empresa de comunicação, trata-se de evidência inquestionável do que acontecerá nas eleições. Se efetuado por terceiros, trata-se de uma simulação não confiável e tendenciosa, que deve ser posta sob suspeita e questionada judicialmente.

Populista - Designação de qualquer governante que priorizar o bem geral do povo em detrimento das demandas do mercado.

Presunção de Culpa – Inovação cívica trazida pela mídia ao anacrônico modelo jurídico do país. Ao invés de seguir o artigo 5º., inciso VLII da Constituição (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”), a imprensa, como Primeiro Poder que é, se dá ao direito de exigir que o acusado prove que não é culpado. Foi identificada pelo professor da UnB e crítico de mídia Venício A. de Lima.

Racismo – Não somos um país racista, portanto a imprensa não pode tratar de um não-assunto.

Radical – Modo como deve ser designado qualquer agente político que não defenda o neoliberalismo.

Tendências – Quesito particularmente importante na área econômica e em pesquisas eleitorais, deve ser auferido através da consulta a fontes, porta-vozes do mercado e eleitores em potencial que tenham em comum o fato de vocalizarem as tendências que o órgão de imprensa quer ver divulgadas em prol de seu próprio interesse.

Tragédia – Se ocorrer em estados administrados pelas forças políticas apoiadas pela imprensa, deve-se responsabilizar a fúria da natureza, os pobres e o governo federal; se ocorrer em estados a cargo das forças que a imprensa combate deve-se culpar o prefeito, o governador, os pobres e o governo federal. De qualquer modo, a cobertura deve sempre explorar ao máximo, sem nenhum pudor, a dor das vítimas e o sentimento sadomasoquista do espectador.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

flavia disse...

está corretíssimo, Maurício!

abreijos!

Maurício Caleiro disse...

Há qto tempo, Flavia! Welcome back!