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quarta-feira, 7 de abril de 2010

A falsa polêmica em torno de "O Segredo dos Seus Olhos"

Fui assistir ao elogiadíssimo filme argentino O Segredo dos Seus Olhos, premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Trata-se de uma produção muito bem realizada, um suspense classudo perpassado pela história de um grande amor que resiste ao tempo – à semelhança de O Amor nos Tempos do Cólera, de García Márquez -, com um pano de fundo político. Mas, pelas razões que exporei a seguir, está longe de ser uma obra-prima.


Mídia alimenta falsa polêmica
Ainda assim, paira além e acima da falsa polêmica da qual – mais por ser argentino do que por qualquer fator propriamente cinematográfico – o filme dirigido por Juan José Campanella (O Filho da Noiva) tem sido pivô no Brasil. Marcada por uma espécie de xenofobia às avessas, a celeuma se dá basicamente porque também no campo cultural nossa imprensa é manipuladora e negativista, não perdendo uma oportunidade de denegrir a cultura nacional e de alimentar, em relação a ela, o complexo de vira-latas e o deslumbre com tudo o que vem de fora que atingiu seu ápice durante o neoliberalismo tropical de FHC.

Para se ter ao menos uma ideia dos termos da polêmica convém dar uma espiada no blog de João Villaverde, que disseca e rebate um por um os argumentos elencados por Luiz Felipe Pondé em artigo na Folha de S. Paulo no qual, após uma argumentação melíflua e falsamente constrangida, recheada de distorções e omissões essenciais ao diagnóstico excessivamente negativo que faz da cinematografia nacional, afirma, de forma categórica, que “o cinema de ‘los hermanos’ é melhor do que o nosso”.

Trata-se, essencialmente, da mesma lenga-lenga de sempre: a tentativa de desvalorizar o legado do Cinema Novo – o único movimento cinematográfico sul-americano aclamado internacionalmente, fato que Pondé omite – em prol da saudação de um “cinema de qualidade internacional”. É um trololó antigo: como demonstra Paulo Emílio Salles Gomes no seminal Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte, as revistas cinematográficas da década de 20 já o repetiam como a um disco riscado; ele seria ressuscitado na década de 50 com a Vera Cruz e volta e meia ensaia um retorno: na atual versão inclui o queixume contra “a obsessão do cinema brasileiro por certos temas” – leia-se pobres e questões sociais.


Comparações baseadas em inverdades
Não que eu cultue o Cinema Novo como a um deus e despreze tais reclamações contra o nosso cinema. Pelo contrário: no momento desenvolvo uma pesquisa acadêmica de longo termo em que tanto o questionamento do legado do Cinema Novo (como um fantasma a assombrar o “Cinema da Retomada”) quanto as lacunas estético-temáticas da cinematografia nacional são pontos de destaque. O que não concordo é com a manipulação barata, a tentativa de falsear o passado do cinema brasileiro e o conservadorismo inerente a essas comparações em voga, plenas de complexo de inferioridade em relação ao cinema argentino

Ainda mais porque acho essas rivalidades do tipo Rio versus São Paulo, França x Alemanha e Argentina x Brasil o que há de mais mesquinho e deprimente. São, para mim, um notório sinal de pobreza intelectual. Ademais, não tenho problema algum em reconhecer a superioridade histórica do modelo de produção de filmes argentinos durante a era de ouro do melodrama, nem a excelência de seu cinema contemporâneo – o qual estudei apaixonada e metodicamente nos EUA.

Pode-se elencar mais de uma dezena de filmes de altíssimo nível feitos no país vizinho durante a última década, mas me limitarei a três títulos que me parecem os mais exuberantes: Nove Rainhas (Nueve Reinas, Fabián Belinsky, 2000), com sua perfeita sincronia entre tensão narrativa no âmbito do filme de gêneros e subtexto político; Bolívia (Adrian Caetano, 2001), um modesto filme em P & B que conta, com um despojamento narrativo que potencializa o impacto dramático, a história de um imigrante boliviano subexistindo na Argentina; e o lírico e nostálgico O Clube da Lua (Luna de Avallaneda), dirigido há seis anos pelo próprio Campanella.


Oscar supervaloriza filme
Comparado a esses filmes notáveis, O Segredo dos Seus Olhos se apequena - mas, infelizmente, muitos ainda levam o Oscar a sério, a despeito de tantas mancadas históricas cometidas pela premiação.

A trama traça, em flashbacks, um paralelo entre o amor reprimido do oficial de justiça Benjamín Exposito (Ricardo Darín) pela bem nascida Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), recém-chegada da universidade de Cornell para assumir como juíza assistente, e a obsessão dele por prender o culpado pelo estupro e assassinato de uma bela jovem, recém-casada com o bancário Ricardo Morales (Pablo Rago).

Embora bem encadeada, o tom solene de que é dotada a narrativa desde os momentos iniciais parece-me excessivo e contraproducente – em uma palavra, maneirista. Fosse a abordagem inicial mais leve, a opção por um adensamento dramático paulatino tenderia a aumentar o impacto da trama. [Atenção: contém spoilers]. Da estupenda sequência no estádio à notável performance de miss Hastings no interrogatório que leva à (breve) prisão de Isidoro Gómez (Javier Godino), o filme mantém um nível superlativo, de obra-prima, mas o interesse cai consideravelmente no desnecessariamente longo intervalo – na verdade, uma imensa barriga narrativa - entre tal sequência e o momento em que Benjamín Exposito (Ricardo Darín) descobre a verdade sobre o cárcere privado em que Isidoro é mantido pelo ex-marido da jovem morta, Ricardo Morales (Pablo Rago).


Final anticlimatico
Os efeitos causados no personagem de Darín pela descoberta parecem-me altamente problemáticos. Façamos um esforço e, em nome da “justiça poética” (sic), finjamos não notar que há um elogio à vingança pessoal e ao desrespeito aos direitos humanos no destino final de isidoro, incomunicável, imundo, em um cubículo escuro e gradeado de uma casa particular. Suponhamos – embora, a rigor, o filme não autorize fazê-lo – que há um tom alegórico nessa vingança, que como tal se justificaria por ter o preso se livrado da pena que lhe foi determinada pela Justiça para servir a regimes totalitários. Ainda assim – e mesmo se tais argumentos fossem justificáveis -, o mal-estar instaurado com as condições degradantes do claustro de Gómez é tamanho que contraria e impede a fruição da libertação de Expósito, enfim vingado e pronto para declarar seu amor a Hastings.

O anticlímax que marca tal “libertação” evidencia um problema mais grave, estrutural do filme: embora essencial à trama, é precário o paralelo entre a obsessão de Expósito pela resolução do assassinato da jovem e o quanto a não-solução deste funciona como um elemento a impedir a consumação de sua relação com a bela juíza. Ora, a rigor, o único elo entre os dois casos é terem se dado mais ou menos à mesma época. Parece-me um elo muito frágil, sobretudo no cotidiano de um profissional de justiça acostumado ao crime e à brutalidade.

A despeito da leve decepção que tive com o filme – e da irritação indignada que a falsa polêmica em mim provoca -, após assistir a El Secreto de Sus Ojos confirma-se uma suspeita redentora: Ricardo Darín é, hoje, com sua tremenda expressividade facial e seu controle perfeito da respiração e emissão da voz, o maior ator do mundo, o Marcello Mastroiani de nossa época.

(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Niara de Oliveira disse...

Também acho muito idiota essa falsa polêmica e falsa rivalidade entre Brasil e Argentina. Talvez no futebol se justifique, mas no cinema? Amo os dois, cinema argentino e cinema nacional. Ainda não vi "O Segredo de Seus Olhos" - chego a estar com urticária para assisti-lo -, mas sendo um filme do Campanella e com Darín do elenco, já sei de antemão que vale a pena. Sou fã dos dois.
Belo post. Não só adoro cinema, como adoro ler sobre cinema.
Um beijo.

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Niara.

Semana muito corrida, tive de abandonar o blog, então só deu pra responder agora.

um beijo.

Lívia Alcântara disse...

Disseram que havia um texto aqui "falando mal" do filme "o segredo dos seus olhos". Assisti e vim conferir. Achei bacana tudo que li. Mas acho que o "elo" entre os dois casos é uma libertação (mal feita poeticamente) até certo ponto. Para mim, o filme vale a pena quando Expósito descobre que seria impossível esquecer uma paixão, que a paixão por Irene era uma prisão perpétua na sua vida. Mas por isto mesmo, concordo que não é uma obra de arte.

Maurício Caleiro disse...

Lívia, muito interessante essa sua leitura! Mas aquela prisão doméstica degradante remeter, de alguma forma, ao amor é algo muito anti-poético, ao menos para minha sensibilidade.