quarta-feira, 18 de março de 2015

Guia Militonto para Desqualificar Protestos

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas protestando contra o governo que você venera?


Não se aflija, aqui damos todas as dicas para você reagir do modo mais democrático: desqualificando os protestos e os manifestantes:


1) Culpe a mídia.


2) Diga que só teve classe média coxinha e demais não-cidadãos.


3) Escolha os cartazes mais absurdos, classistas, retrógrados e sem noção e associe toda a multidão à ideologia que apregoam.


4) Use um critério racial diferenciado: quem não for retinto, é branco. E rico.


5) Lembre-se: um bom Photoshop vale mais que mil palavras: faça desaparecer os cartazes sensatos, dê uma embranqueçada geral nas pessoas, coloque drinks com guarda-chuvinha na mão delas; desenhe bigodes de Hitler nos rapazes e polvilhe uns símbolos proibidos aqui e ali.


6) Culpe a mídia (mas não mencione a Secom, porque alguém pode divulgar a fortuna que o governo repassa às empresas de comunicação e pegar mal).


7) Minta sobre o tamanho da Paulista. Se alguém falar em 2,8 Km solte um “QUE ISSO!?” indignado e, de bate-pronto: “Nem a metade disso!”, emendando com um marketing básico: “E a parte central tá toda em obras: o Haddad vai implementar as ciclovias. Coisa de primeiro mundo!"


8) Cite o menor público possível, mesmo se o único instituto que o afiancie seja ligado àquele jornal da ditabranda e tenha, sempre, chutado pra baixo o número de participantes dos movimentos da esquerda.


9) Faça um vídeo: entreviste só a Opus Dei, populares com aparência de psicopata, defensores do golpe militar, gente que leva o Aécio a sério. Edite de modo a dar impressão que os outros 99,8% dos participantes são assim. Ah, e coloque ao fundo uns efeitos sonoros de comício nazista.


10) Faça como o grande lider deputado Sabá: atribue tudo a armação da CIA: IANQUES, GO HOME!


11) Classifique os protestantes com rótulos pregnantes: “Coxinha”, “Bebedor de Black Label”, “Patricinha com faixinha”, “Playboy indignado”, “Frequentador de sanduicheria”, "Sommelier de ceviche", “Ruralista escravocrata” (não, pera...).


12) Denuncie todo o tempo o GOLPE iminente, dizendo coisas como “isso sempre acontece quando o povo está no poder”.


13) Minta que você fez uma pesquisa entre os manifestantes e deu: Melhor Artista: Lobão; Melhor grupo: Engenheiros do Hawaii; Melhor cantor: Agnaldo Timóteo; Menção honrosa: Dom e Ravel.


14) Indigne-se com a indignação coletiva contra o Petrolão, bradando: “E sobre a água, nada?”, “Me engana que são todos honestos...”, “Quando vão protestar contra os trens do Alckmin?”


15) Culpe a mídia (mas não dê um pio sobre sua regulamentação, porque alguém pode lembrar que o PT dá no poder há mais de 12 anos e nunca mexeu uma palha nesse sentido). 

16) Tenha semprem em mente a lição do marqueteiro oficial: debate civilizado é para os fracos; o negócio, na democracia, é desqualificar. 

P.S. "A pedidos", incluo mais um item: Frisar que SÓ NESSES PROTESTOS se vê socialites com peitos turbinados de fora, coisa raríssima no Brasil.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 15 de março de 2015

Porque sou contra o impeachment de Dilma


 Uma das maneiras mais justas e eficazes de se avaliar um governo é comparar o país que recebeu de seu antecessor com o país que entregou a seu sucessor.

Por esse critério, o primeiro governo Dilma foi péssimo: recebeu, segundo a própria historiografia petista, um país eufórico, um player ascendente no cenário global, com uma economia pungente, que superara a quase-falência dos anos FHC e para a qual a crise mundial não passara alegadamente de “uma marolinha”. Uma nação onde toda uma classe social composta de dezenas de milhões de pessoas acabara de ascender; um exemplo mundial de integração da pobreza e de combate à miséria.

Entregou, quatro anos depois, o que aí está: um país economicamente estagnado, que mais uma vez, como fizera durante os ano 80 e 90, sacrifica os direitos dos cidadãos em prol do pagamento de juros bancários, com a condução da economia de novo entregue à sanha ortodoxa dos neoliberais, aos quais o PT fora eleito para se contrapor (mas que Dilma prefere acomodar na Fazenda).

Uma nação trespassada pela corrupção, com sua maior empresa, estatal de capital aberto, no pivô de um dos grandes escândalos da história mundial, com consequências graves e diretas para a própria dinâmica da economia industrial do país.

Um território onde o misto de arcaismo e populismo na administração dos recursos energéticos, somado ao absoluto desprezo pelas questões ambientais leva, ao mesno tempo, a secas de efeitos catastróficos e a inundações devastadoras.

Uma pátria moralista, que enquanto o mundo debate a descriminalização da maconha e a plena integração dos cidadãos e cidadãs à revelia de sua sexualidade, vê crescer o preconceito religioso e a perigosa união entre poder político e poder religioso, sob patrocinio governamental.

Uma terra de ninguém, onde direitos humanos só valem para certos estratos socioeconômicos, enquanto os pobres são diariamente aniquilados pela repressão periférica que orienta a ação das polícias e os últimos índios vêm sendo exterminados de forma incólume.

Mas, para o bem ou para o mal – e a não ser que se prove de forma documentada um envolvimento direto de Dilma no escândalo da Petrobras – ser uma péssima governante, incoerente com o que passou a vida defendendo e negligente até mesmo na área em que é especialista não justificam o impeachment. O remédio contra tudo isso são as eleições, escolhendo melhor em quem votar.




Mentiras a granel
Os argumentos contra Dilma, porém, não se restringem à sua inaptidão administrativa: listam comportamentos impróprios a candidatos e ocupantes da Presidência. Trata-se, por exemplo, de uma figura pública que mente constantemente e sem sequer enrubescer: em sua primeira campanha eleitoral, prometeu de forma reiterada (há gravações em vídeo) não privatizar o Pré-Sal, mas, uma vez no poder, o privatizou, e com marcos regulatórios fernandistas.

Na segunda campanha, prometeu que não faria aquilo que afirmava que os adversários fariam: atacar direitos dos trabalhadores. Empossada, já no primeiro mês anunciou um brutal arrocho sobre direitos previdênciários e trabalhistas, afetando justamente os mais pobres com medidas referentes ao seguro-desemprego, ao seguro de pescadores e a pensão por morte.

Desde o primeiro mandato, afirma, a cada discurso, priorizar a Educação, mas qualquer pessoa da área sabe não passar de truque retórico, dela e de seus marqueteiros, cientes de que o povo valoriza o investimento em tal atividade.

A realidade é bem outra: os professores universitários vêm sendo mantidos a páo e água, sem um aumento sequer, desde que ousaram recorrer ao direito de greve para protestar; as “novas” universidades servem de ilustração contemporânea ao dito de Lévi-Strauss (“aqui tudo parece que é ainda construção, mas já é ruína”), com suas salas inacabadas, laboratórios improvisados em contêineres, goteiras, ausência de climatização em regiões tórridas, número abusivo de professores substitutos e absoluto desleixo com o acervo das bibliotecas.

O Ciência Sem Fronteiras, truque de marketing em que, sem a mínima justificação pedagógica, graduandos iam fazer “turismo educacional” no exterior, e o FIES, programa questionável já em sua concepção, ao transferir vultosos recursos públicos a universidades particulares - muitas de qualidade pra lá de duvidável -, sofrem agora cortes abruptos e repentinos, frustrando dezenas de milhares de estudantes aos quais fora garantido expectativa de acesso.

Apesar desse cenário de caos, Dilma não hesita em fazer divulgar o slogan “Pátria Educadora”, num momento em que o arrocho determinado por Levy faz com que, nas federais, falte água, papel higiênico e até verba para as contas de energia elétrica e os serviços terceirizados de limpeza e segurança.

Mas, uma vez mais, é preciso reconhecer: para o bem ou para o mal, ser uma mentirosa contumaz, entregar o nosso petróleo e promover uma manipulação cosmética da Educação não são motivos para impeachment.


Impunidade eleitoral
Talvez já passe da hora de se rever a respectiva legislação e de a Justiça Eleitoral assumir uma atitude mais pró-ativa nos pleitos, coibindo as desqualificações agressivas e mentirosas que vimos nas últimas eleições e adotando medidas para impedir que um candidato se comprometa a não fazer o que alega que seus concorrentes fariam e, no poder, um mês depois, vir a fazer exatamente isto, sem que o cenário tenha drasticamente mudado.

Alguns qualificam tal atitude como estelionato eleitoral. Mas, por enquanto, as leis e a justiça eleitorais não punem tais trasngressões, o que dizer com impeachment. Portanto, contra tais males, o remédio segue sendo o voto.



Para além do aqui-agora
A ausência de projetos de médio e longo prazos, preteridos em prol de um improviso constante, frutoso quando a economia ajuda, socialmente cruel em períodos de vacas magras, como o atual, tampouco são motivos para impeachment. Se tais projetos não passarem a compor a pauta governamental, e logo, dificilmente o Brasil poderá voltar a sonhar, no curto prazo, em ser uma nação bem-sucedida, ou seja, com menos desigualdade interna, com Educação e Saúde de qualidade, com soluções urbanas e níveis de violência que permitam às pessoas – homens, mulheres e transgêneros - caminhar pelas ruas a qualquer hora do dia e da noite, como é comum nos paíes verdadeiramente civilizados do globo.

O governo Dilma quase nada tem contribuído para a melhoria de tal quadro – ao contrário, com a crise e a insegurança que provoca, tem retrocedido. Sò que  isso também não é motivo para impeachment. De novo: a solução está no voto.


Impeachment: não à banalização
Porém, os motivos que me fazem ser contra o impeachment de Dilma, embora repute como muito ruim o seu governo, incluem e transcendem a constatação de que a ação da presidente não apresenta condutas que justifiquem, do ponto de vista legal, a invocação de impeachment.

O principal desses motivos é a convicção de que, como apregoa a Constituição, o impeachment é medida de extrema exceção, um ato ao qual só se deve recorrer em situações de indubitável excepecionalidade, como atitude comprovadamente criminosa do presidente no exercício do cargo ou algo de similar gravidade.

O recurso ao impeachment em qualquer outro contexto abre precedentes perigosos e tende a enfraquecer ainda mais a democracia brasileira, ainda tão precária em termos eleitorais, participativos e institucionais.

O próprio impeachment de Collor deu início a um jogo de derruba-presidentes do qual nenhum de seus antecessores se livrou (praticado inclusive pelo PT, na campanha “Fora FHC"). Foi péssimo para o país, pois, erigido em meio a guerras de dossiês, tomou o lugar do que deveria ser um debate de projetos e propostas.

Pouco mais de 20 anos depois, reeditar esse rito sumário seria enfraquecer ainda mais a democracia e o voto, açulando, nos anos seguintes, uma guerra política em torno não de agendas programáticas, mas de constrangimentos e armadilhas voltados a pressionar, chantagear e, no limite, decretar o impeachment dos presidentes vindouros. Um filme já visto, em eterno looping.


Cría Cuervos
Por fim, há uma razão propriamente partidária, menor, que me faz ser contra o impeachment de Dilma: o petismo, sobretudo após o “mensalão”, passou a difundir, como parte da estratégia desqualificadora que emprestou do neoconservadorismo e aplica a adversários, um discurso vitimizante, chamando de “golpista” a mídia, o Judiciário ou quem quer que critique, contrarie ou se oponha ao partido. A cada reação negativa que medidas de Lula ou Dilma provocam, os militantes veem um golpe de Estado.

Um eventual impeachment de Dilma iria tranformar em realidade a paranoia petista, perpetuando fantasmagorias e criando um mártir eterno para o partido e, a despeito da orientação social liberal dos governos petistas, também para certos setores que se dizem de esquerda. Há razões de sobra para supor que essa espécie de peronização da politica brasileira seria altamente nefasta, ao perpetuar mitos e, ainda que falsa, a mística da salvadora injustiçada.

Dilma é apenas uma presidente ruim em um péssimo momento, o qual até o jornalista e ex-porta-voz petista Ricardo Kotscho reconhece: “desde a sua posse para o segundo mandato, isolada e autossuficiente, a presidente tem conseguido errar 100%.” Não merece, portanto, ser brindada com um impeachment para que vire mártir. 

Não votei em Dilma e lamento pelos que o fizeram, mas há de se reconhecer que ela é a presidente legalmente eleita, em pleito internacionalmente reconhecido como honesto. 

Quem não está satisfeito pense melhor na próxima vez em que for votar.


(Imagem retirada daqui


segunda-feira, 9 de março de 2015

Petrolão e a crise do modelo bipolar

Um dos principais problemas de se viver em uma sociedade em que a política é polarizada, marcadamente dominada por duas forças partidárias – como ocorre no Brasil – é a ausência de nuances, ponderação e precisão.

Tão necessárias ao diagnóstico de problemas e da eficácia dos programas para combatê-los, tais considerações têm sido rotineiramente substituídas, nos fóruns políticos, por pareceres definitivos e incontrastáveis, ora de irrestrita apovação, ora de desqualificação (a principal tática retórica de nossos dias, que os marqueteiros políticos importaram do jornalismo neocon, tornando ainda mais despolitizadas e agressivas as campanhas eleitorais, como acabamos de testemunhar no pleito presidencial).

Instaura-se assim uma lógica binária fortemente contrastada, ou branco ou preto, sem espaço para as demais tonalidades, o cinza que muitas vezes melhor espelha o real. Isso, por sua vez, acaba por gerar um contágio, uma vicissitude no campo político, onde os graus de positividade ou negatividade dos eventos são forte e particularmente determinados pela perspectiva adotada pelo observador: mesmo os analistas que não professam nem o credo petista nem o dogma neoliberal dos tucanos acabam tendo, com raríssimas exceções, suas análises contaminadas por esse binarismo emocional e primário.



Décadas de bipolarização
Ao longo de mais de duas décadas de polarização entre PT e PSDB, multiplicam-se os exemplos do quanto tal dinâmica tem sido prejudicial ao debate político – sobretudo àquele mais interessado no avanço do país do que no sucesso ou fracasso desta ou daquela linha política, blog ou ego.

Atualmente, repete-se uma vez mais tal processo, no bojo do debate em torno da corrupção, com os escândalos do Petrolão e do HSBC mobilizando militantes que agem como torcedores fanatizados. Não disputam quem foi mais honesto, mas quem roubou menos, como se cada coincidência entre um tucano e um petista corruptos magicamente anulasse o “malfeito”, significasse equivalência e produzisse uma redução – e não um aumento – desse câncer que corrói a vida pública brasileira, com reflexos diretos na qualidade de vida que o Estado proporciona aos cidadãos e em nossa evolução como nação.

Tal estratégia negadora, que não passa de um truque de retórica, oculta, ainda, a natureza deveras diversa entre si dos escândalos do Petrolão e do HSBC – e o encaminhamento diferenciado que cada um deles requer.



Naturezas diversas
O caso da Petrobras é um exemplo “clássico” de corrupção, com corruptores bilionários de um lado - sendo pela primeira vez devidamente flagrados e processados - e gestores corruptos de outro, aparelhados em uma empresa estatal de capital aberto por partidos ou lideranças políticas. O X da questão é justamente a acusação de que tais entes políticos se benefeciaram diretamente das negociatas, recebendo quantias exorbitantes, no que seria, pelo volume de recursos financeiros, duração e grau de sistematização, o maior escândalo de corrupção do planeta.

O caso HSBC, embora também grave, é bem diferente, por tratar-se antes de indício de fraude fiscal - e, em decorrência, de suspeita de fundos obtidos de forma ilegal - do que de um caso tentacular de corrupção, delatado por depoimentos de envolvidos e corroborado por documentação. Mesmo porque, como o rigor jornalístico exige que se registre, não há absolutamente nada de errado em manter contas numeradas na Suíça, como fazem milionários e bilionários do mundo todo. Este blogueiro, se um dia vier a ganhar sozinho na Sena, certamente vai guardar parte do dinheiro lá, como medida de proteção contra a insegurança criminal e monetária reinante em nosso país. Ocorre, porém, que, no caso dos brasileiros, o montante lá guardado tem de ser declarado à Receita Federal – do contrário, o não-declarante estará cometendo crime fiscal. Sabe-se que ao menos algumas dezenas dos nomes da lista de correntistas que vazou incorreram em tal crime. Em relação a esses, sim, será necessário traçar a origem do dinheiro e investigar se se origina ou não de corrupção - e, em caso afirmativo, fazer valer o rigor da lei.



Petrolão: um escândalo da base aliada
Não é preciso muita expertise para se aperceber que os dois casos são de natureza e estágios de investigação bem diferentes, e que não há razâo objetiva para assumir que um anula o outro – pelo contrário, eles se somam como indicio (ou, eventualmente, provas) de ilegalidades e da forma endêmica como a corrupção manifesta-se no país.

O escândalo da Petrobras já avançou bem mais nas investigações. A primeira fornada de acusados, cujos nomes foram divulgados pelo STF na sexta, mostra o envolvimento profundo dos governos Lula e Dilma: dos 47 investigados, só três não pertencem a partidos da base aliada (mas sendo que um deles, o reincidente Fernando Collor, tem rotineiramente apoiado o governo).



Fora do mundo
Ainda assim, a militância virtual petista, cada vez mais desconectada da realidade, prefere martelar nas redes sociais o nome de Aécio Neves, cujas investigações foram arquivadas pela Procuradoria-Geral da República por falta de provas. Afinal, uma mentira, deveras repetida, em verdade se transforma, já disse um “filósofo” alemão. Por outro lado, e sem exceção, “passou desapercebido” a tal militância que a mesma PGR declarou, no âmbito da Operação Lava Jato, não poder investigar a presidente Dilma por "atos estranhos ao exercício de sua função", ou seja, devido a impedimento constitucional (e não a presunção de inocência); mas, no bojo da investigação sobre Antonio Palocci (PT/SP) efetivamente requisitou apuração sobre a arrecadação de recursos para a campanha presidencial de 2010. Curto e claro: o fato é que Dilma ainda está sob investigação; Aécio não.

Não obstante o envolvimento de 44 membros da base aliada no Petrolão, o petismo, assim como fizera no Mensalão, recusa qualquer autocrítica ou pedido público de desculpas por permitir (ou, na melhor das hipóteses, não se dar conta, o que denotaria grave incompetência) que vultosas quantias de dinheiro público fossem assacadas ilegalmente de uma empresa estatal de capital aberto para favorecer interesses individuais e políticos. Em vez de qualquer gesto que denote civismo, arrependimento e respeito pelo cidadão, o petismo no poder prefere adotar a estratégia apelativa e desavergonhada de tentar jogar no colo de um presidente que deixou o poder há bem mais de uma década, pois um dos depoentes afirma ter recebido propina já em sua gestão.



“Heranças malditas” e impunes
Ora, seria cômico se não fosse trágico: mais de 12 anos se passaram após FHC ter passado a faixa presidencial a Lula, o qual sempre afirmou ter recebido uma “herança maldita” mas jamais moveu uma palha para investigar a privataria tucana ou a alegada compra de votos para a eleição. Ao contrário: acovardou-se em nome da governabilidade, essa desculpa multiuso que o petismo utiliza para todo e qualquer retrocesso.

Agora, quando o esquema da Petrobras estoura e cobra-se o preço pela realpolitik por demais elástica que reabilitou Collor e prestigiou o PP de Maluf (partido líder em investigados na Lava-Jato, com 32 nomes), o governo procura descolar-se da aliança que o sustentou até aqui e fingir desconhecer o que acontecia na estatal nos últimos 12 anos, mesmo com Dilma tendo egressado da área energética e tendo presidido o conselho da estatal. Acredita quem quer.



Jogo pra plateia
Se as investigações levarem ao governo FHC é evidente que ele deve ser investigado e, se culpado, punido. Mas, como ocorre em qualquer lugar do mundo, prioriza-se a investigação do caso concreto e atual de corrupção, avançando-se retroativamente à medida que se punem os culpados, dos atuais aos mais antigos.

O jogo bipolar de troca de acusações e transferência de responsabilidades entre petistas e tucanos pode funcionar junto aos setores da militância de ambos os partidos que, espellhando seus dirigentes, abdicaram, há tempos, da fidelidade a coesão ideológica e programática e da capacidade de autocrítica, em prol de uma guerra diária onde o que conta é a capacidade de desqualificação do outro e o número de views e de curtidas obtido nos blogs e redes sociais.



Siameses
Mas, como aponta o sociológo Marcelo Castañeda, “A saída mais simples é dizer que todos os problemas começaram com o PSDB e FHC. Ao reforçar essa polarização perniciosa da representação, esvaziadora de qualquer debate e comprometedora da construção de outras vias, somos colocados cada vez mais num deserto de alternativas. (...) É hora de romper com o simplismo esquemático da polarização, que se perpetua como um moto contínuo entre dois lados que se definem pela negação belicosa do outro”

Com efeito, qualquer observador de bom senso apontaria, após duas décadas, o esgotamento tanto do modelo tucano quanto do modelo petista, mesmo porque, culminando com a volta da ortodoxia econômica via Joaquim Levy, esses dois polos se tornam, paradoxalmente, cada vez mais indistinguíveis um do outro – e não só em sua completa submissão aos desígnios do chamado “mercado financeiro”, mas no descompromisso com qualquer política de Estado concebida a partir de metas, parâmetros e diretrizes ideológicas claros, de curto, médio ou longo prazo. Exatamente do tipo que o Brasil desesperadamente precisa.