quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Dilma II: uma tragédia anunciada

A eleição de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados marca a expansão, para o campo político, da profunda crise que vem caracterizando o início do segundo mandato de Dilma Rousseff. Vem somar-se à queda generalizada dos índices econômicos, ao retorno da crise energética e ao estopim da sensação de corrupção, deflagrado pelas denúncias do Petrolão.

Desta feita, porém, não se pode usar o subterfúgio de aludir a uma suposta crise econômica mundial – que na vida real atingiu seu ápice em 2008, e foi considerada por Lula “uma marolinha” - para disfarçar o malogro da estratégia do grupo palaciano liderado por Aloizio Mercadante. Em seu intento de conquistar a presidência da Câmara alijando o “aliado” PMDB, o trio formado por Mercadante, Pepe Vargas e Miguel Rossetto não só foi derrotado por Cunha, como deixou o PT, pela primeira vez desde 2002, sem nenhuma das 11 cadeiras da direção da Casa – o que fez até mesmo o jornalista petista Ricardo Kotscho perder a paciência e, em um artigo intitulado "E agora, Dilma? Tudo ou nada leva à solidão política", falar em "humilhanrte derrota" e condenar o amadorismo político da “tropa de choque dos trapalhões”.



Futuro incerto
São imprevisíveis, para o futuro do governo Dilma, as consequências da eleição de Cunha, um arrivista sem freios, representante do conservadorismo religioso e inimigo de longa data da mandatária, a quem chegou a ameaçar explicitamente durante a campanha pela presidência da Câmara. Empossado, terá, na prática, o poder de determinar o que será ou não votado, e em que ordem.

Com isso, na melhor das hipóteses, Dilma terá de ceder ainda mais aos setores mais fisiológicos do PMDB e do baixo clero da Câmara; na pior, e a depender do desenrolar do Petrolão, a aceitação de um pedido de impeachment contra a presidente dependerá de decisão do desafeto. (Por outro lado, paradoxalmente, o envolvimento do próprio Cunha no escândalo da Petrobras seria a melhor chance, no curto prazo, de o Planalto desidratá-lo politicamente.)



Robin Wood às avessas
Já quanto aos efeitos das medidas tomadas por Dilma para tentar colocar a economia nos eixos não há imprevisibilidade: nenhuma delas sequer roça o bolso de latifundiários, banqueiros, herdeiros ou donos de grandes fortunas. Pelo contrário, elas tornam ainda mais precária a existência de desempregados – dificultando o acesso ao seguro-desemprego – e de viúvas(os), com alterações no regime beneficiário que violam de forma flagrante direitos adquiridos – pois incidem retroativamente, um escândalo jurídico que o Brasil acostumou-se a aceitar bovinamente.

Ao diminuir o tempo de recebimento de aposentadorias para várias faixas etárias, as medidas tomadas por Dilma acabarão, no médio prazo, por agravar o fenômeno da velhice desamparada previsto para as próximas décadas, já que muitos deixarão de receber o benefício quando já tiverem idade avançada, num flagrante e cruel contrasenso. Nem FHC ousou meter a mão na aposentadoria da patuleia de forma tão descarada.



Projeções e negações
Ante esse tenebroso início de segundo mandato, incompatível com um governo que se diz de centro-esquerda (ou mesmo de centro), tornam-se cada vez mais frequentes as manifestações de arrepedimento de quem votou em Dilma, e o sumiço da outrora entusiasmada militância petista nas redes sociais já virou motivo de chacota. Ainda assim, há os que continuam defendendo o voto na candidata que agora, pela segunda vez, age de forma contrária à que apregoara na campanha eleitoral (já o fizera no primeiro mandato em relação à privatizaçáo do Pré-Sal). Dentre estes, uma justificativa recorrente é a alegação de que com Aécio seria pior.

Trata-se de de um exercício vão de futurismo, com tal impossível de ser empiricamente verificado. No segundo turno, Aécio firmara acordos com Marina Silva e com o PV de Eduardo Jorge, entre outros partidos menores. Se os cumprisse, sua gestão seria bem melhor que a de Dilma no que se refere a desenvolvimento sustentável, meio ambiente, mobilidade urbana e políticas de gênero. Mas, é claro, há a possibilidade de que ele agisse como Dilma e cometesse estelionato eleitoral (como ela o faz, entre vários e estrepitosos exemplos, ao se comprometer, na campanha, a priorizar a Educação e fazer do Brasil a “Pátria Educadora” para, empossada, cortar R$7,1 bi do orçamento da pasta, porporcionalmente a área mais afetada por suas medidas de contenção de despesas).

O fato de a traição eleitoral de Dilma ser um fato – ao atacar direitos trabalhistas, na Educação, no descaso continuado com a homofobia, entre outros temas – e a de Aécio uma mera possibilidade é uma diferença que sequer tem sido aventada pelos cada vez menos entusiasmados e quantitativamente descrecentes apoiadores da petista.



Oposição enfraquecida
Há, porém, uma diferença entre o estado de coisas do segundo governo Dilma e o que aconteceria numa eventual eleição de Aécio que supera a mera projeção. Pode-se afirmar, sem espaço para a hesitação, que se Aécio tomasse as mesmíssimas medidas que Dilma II tomou até agora, as redes sociais estariam fervendo de fúria oposicionista, e esta possivelmente logo transbordaria para as ruas. Uma forte oposição se adensaria em um período relativamente curto.

Com Dilma, ao contrário: persiste um silêncio conivente enquanto ela viola direitos previdenciários dos pobres, mente e precariza a Educação. Temperada aqui e ali pelo fanatismo dos chamados “blogueiros progressistas” - cada vez mais despidos de espírito crítico e atuando como mera linha auxiliar do petismo -, tal atitude evidencia o quão maléfica é, para o país, a transformação do petismo em uma espécie de seita, despida de autocrítica e que seus adeptos veem como infalível, cujos interesses têm sido, na prática, colocados acima dos interesses do povo e do país.



O preço do dogmatismo
A própria releição de Dilma, num momento em que o quadro de deteriorização geral ora vigente já se delineara com nitidez para os que não se recusaram a encarar a realidade, deriva, em parte, desse cadinho de cultura onde o petismo se apresenta como uma opção dogmática, para além (ou aquém) dos fatos – como o que Dilma recebeu um de Lula um país em muito melhores condições do que este recebera de FHC, mas o entregara bem pior.

As duras medidas econômicas e a crise energética, não obstante sua gravidade, são apenas duas das provas a corroborar tal afirmativa, entre outros tantos alarmes negligenciados durante o primeiro mandato, como o aumento exponencial na frequência do suicídio de índios, os recordes de desmatamento, as denúncias sobre o processo de sucateamento das universidades federais, na contramão do discurso triunfalista de democratização do acesso à universidade (como se isso, sem o correspondente investimento em professores, salas, laboratórios, bibliotecas e livros bastasse).




Ação restrita
O resultado desse dogmatismo, hoje, cobra um preço caro. Uma presidente lame duck, como dizem nos EUA quando querem se referir a um político de poder apenas aparente, alvejado, fadado ao fracasso. Até onde a vista alcança, esta é a situação de Dilma.

Não quer necessariamente dizer que ela não possa revertê-la – ao menos para a única coisa que realmente importa para o petismo já há um bom tempo, as vitórias eleitorais. Mas parece quase impossível que, com o modelo de desenvolvimento e as práticas políticas e econômicas adotadas, somadas ao grau de percepção que grande parte da população tem da relação entre petismo e corrupção, e completadas com a banalização das traições eleitorais e a insensibilidade social recente, Dilma logre reerguer nacionalmente o PT como uma força política coerente, programática, e em direta comunicação com a população.



Destino dos sem-povo
FHC tratou de enterrar, por décadas, as chances presidenciais do PSDB, levando consigo qualquer perfil social-democrata que o partido tenha um dia encarnado. É bem provável que até a hegemonia regional do partido em São Paulo chegue ao fim após o inacreditável show de hipocrisia, oportunismo eleitoral, desleixo administrativo e insensibilidade social proporcionado por Geraldo Alckmin na gestão da crise hídrica.

PSDB e PT vêm sendo, de um tempo pra cá, termos intercambiáveis, num Fla-Flu em que se equivalem e se anulam em suas cada vez menos perceptíveis diferenças. E a não ser que algo de absolutamente extraordinário aconteça, caberá a Dilma, com seu autoritarismo, sua absoluta ausência de autocrítica, seu pragmatismo despido de considerações ideológicas, o papel de coveira do petismo.


Amanhã
Seria, hoje, motivo auspicioso, de comemoração, não fosse o fato que, imerecidamente, os erros do petismo respingaram e serão, por um longo tempo, atribuídos à esquerda. Mesmo que uma verdadeira esquerda, no Brasil atual, ainda esteja pra nascer.



(Imagem retirada daqui)

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