quarta-feira, 30 de abril de 2014

E agora, PT?

A crise do governo Dilma, a qual temos comentado há tempos, é hoje um fato, atestado não só pelo enorme declínio na avaliação positiva da presidente e nas intenções de voto na candidata, mas pela ascensão da pior direita representada por Aécio Neves.

O jornalista Ricardo Kotscho, historicamente ligado ao PT, alude, em coluna recente, à "enxurrada de problemas enfrentados pelo governo Dilma, tanto no campo político, com rachaduras na aliança, como no econômico, em que os índices negativos se multiplicam". Trata-se de uma rara demonstração de lucidez e de capacidade de reconhecer problemas.

Enquanto isso, o grosso da militância continua a praticar o que se tornou uma espécie de hobby do petismo: culpar a mídia - vulgo PIG - e a Justiça por todos os problemas e resultados insatisfatórios obtidos pelos governos capitaneados pelo partido. Trata-se de uma reação não apenas sem eficácia, mas contraditória.

Pois o maior erro do governo Dilma, em termos estratégicos, foi não construir sua própria narrativa, deixando-se aprisionar por um sistema de valores ditado justamente pela mídia e pelo mercado. Enquanto a economia "ia bem" (segundo tal quadro valorativo) funcionou, e os militantes e entusiastas petistas vibravam como torcidas de futebol a cada divulgação de índice econômico e a cada afago de porta-vozes do mercado, fossem estes agências de classificação de riscos, colunistas da imprensa ou a The Economist - entes hoje execrados.

A partir do momento em que alguns dos fundamentos de tal sistema passaram a falhar ou a apresentar resultados fora do estabelecido pelas planilhas, disseminou-se uma sensação de que algo ia errado na área econômica, evoluindo, à medida que tal quadro se agravava, para uma percepção generalizada de crise. A responsabilidade por tal feito não é da mídia, como a militância quer fazer crer, mas do próprio governo Dilma, que endossou o quadro valorativo financista como régua para medir seu próprio desempenho, não sendo capaz – como Lula, em ampla medida, fora – de a ele contrapor uma axiologia de conquistas sociais (talvez porque estas estejam, hoje, longe do prometido).

Ante tal resultado, os mesmos entusiastas do desempenho econômico de valores mercadistas, ao invés de fazerem uma autocrítica, reconhecendo que Dilma fora ingênua e, ao sacrificar os compromissos antineoliberais da campanha em prol da ampliação da hegemonia política, caíra na armadilha da direita, passam a acusar a mídia e os oráculos do mercado financeiro, antes para eles tão confiáveis, de "fabricar" uma crise.

Ora, o debate político demanda seriedade e coerência. A transformação da mídia no bode expiatório para todo e qualquer problema da administração petista é não apenas um engodo, desmentido pelos fatos, mas uma forma covarde de deixar de assumir responsabilidades. E por três motivos:

      1. A influência da mídia é superestimada - A animosidade de grande parte da mídia para com o petismo é sobejamente conhecida, vai desde pequenas distorções editoriais à agressividade aberta dos buldogues da Veja, mas isso não impediu que o PT elegesse três presidentes em seguida e, de quebra, o prefeito da maior cidade do país. Justamente por isso, achar que a sensação de alta da inflação é "fabricada", e não uma constatação diária da população, é superestimar o poder de influência midiático e, mais grave, subestimar o grau de discernimento dos cidadãos;

      1. PT se recusa a regulamentar a mídia - Sob Dilma Rousseff, o PT acovardou-se e não levou adiante o projeto de regulamentação da atividade midiática que Franklin Martins lhe entregara. Trata-se de uma medida essencial ao aprimoramento da democracia brasileira, já que uma pequena mas conservadora plutocracia domina os meios de comunicação, a propriedade cruzada não é coibida e não há legislação específica que puna crimes midiáticos. Ao invés de implementá-la já no inicio do governo, quando tinha amplo apoio popular e base de apoio recém reestruturada, Dilma preferiu afagar os barões da mídia em seus rega-bofes e através de verbas da Secom. Quem, como este blogueiro, ousou chiar, quase foi execrado. Deu no que deu;

      1. Reclamar, sem agir, é desperdiçar poder de pressão - O tempo e a a energia que os petistas e apoiadores do governo gastam atacando a mídia poderia ser utilizado, com muito mais proveito, para pressionar e fortalecer o governo Dilma no sentido de que este saia da zona de conforto e tome (ou retome) medidas benéficas ao povo, medidas estas que exigem coragem, determinação e enfrentamento, priorizando, de fato, a agenda social em detrimento da agenda ditada pelo mercado financeiro.

Em editorial em que defende justamente a necessidade de priorizar de fato a democracia social ante as forças de mercado ("oligarquia argentária", em suas palavras), o colunista Saul Leblon assinala que "A prostração política e ideológica nas fileiras progressistas é talvez o mais grave desafio à reeleição da Presidenta Dilma".

Acostumados ao culto ao líder, a saudar acriticamente toda e qualquer medida tomada por Lula ou Dilma, e a jogar a culpa dos revezes na mídia (ou na Justiça), os petistas, em sua maioria, amoldaram-se em uma passividade que destoa da altivez aguerrida que hoje talvez seja a única forma de o partido reagir à crise em que ora está submerso.

Não irá, certamente, reconquistar eleitores para os quais o governo Dilma tornou-se um caso perdido ao trair sua promessa de campanha e privatizar, ao aderir ao economicismo de mercado, ao recusar o diálogo e reprimir grevistas, ao desprezar os Direitos Humanos dos indígenas e as questões de gênero, ao jogar o exército contra o povo, ao optar por um modelo de desenvolvimento arcaico e insustentável.

Mas nada fazer ou insistir na atual estratégia de avestruz significa jogar o jogo de acordo com regras ditadas pelo mercado – condição na qual mesmo a eventualidade da reeleição acabaria sendo uma vitória de Pirro.


(Foto clicada por Ueslei Marcelino retirada daqui)

Um comentário:

GilsonSampaio disse...

Tal qual os paulistas reféns da tucanalhada, os petistas se tornaram reféns de um simbolismo perdido.