quinta-feira, 6 de março de 2014

Greve de garis expõe embates de classe

As reações à greve dos garis cariocas têm fornecido um retrato em cores vivas dos preconceitos de classes no Brasil, tanto por parte da ideologia que se depreende da ação do poder oficial quanto, em particular, da insensibilidade social que marca a visão de uma certa autodenominada elite.

Enquanto pilhas de lixo se acumulavam nas ruas e a mídia corporativa insistia em divulgar a versão oficial de que se tratava de uma greve "de grupos de garis", estes eram humilhados e agredidos por seus patrões, nas ruas, nas redes sociais, além de espancados pela polícia por ousarem valer-se do direito constitucional à manifestação pública - num tipo de reação oficial que se torna perigosamente rotineira no país.



Coesão e humilhação
Profissionais responsáveis por uma atividade cansativa, insalubre e exercida em condições estafantes, os garis entraram em greve em protesto pelo salário de fome que recebem (em torno de R$800), pleiteando um aumento para R$1.277. A Prefeitura ofereceu humilhantes R$77 de aumento, propagandeando, de forma malandra, que com o adicional de salubridade seriam alcançados R$1.200.

Foi o suficiente para que um jornalista com salário de cinco dígitos e gosto pela provocação barata declarasse, nas redes sociais, considerar um valor alto, no que foi apoiado por uma manada disposta a agredir os garis, humilhando-os por sua posição social e atividade, comparando-os a animais e tripudiando sobre seu alegado analfabetismo (não obstante a exigência de ensino médio para o cargo).

Para completar o espetáculo dantesco, com o fim da greve anunciado unilateralmente, escoltas acompanharam hoje os garis que quiseram voltar ao trabalho – para garantir-lhes proteção contra piquetes ou, pergunta a professora Ivana Bentes (UFRJ), para coagi-los a trabalhar (mais)?




Dê um rolê
A reação à greve dos garis é o terceiro de uma série de eventos ocorridos no país nas últimas semanas, sem aparente conexão entre si, a provocar comoção pública e evidenciar antagonismos e ódios classistas que põem em xeque o amálgama da nação una e pacífica, esse mito que a realidade seguidamente desmente mas que tantos ainda teimam em cultuar.

O primeiro deles foi a reação histérica de setores da sociedade aos chamados rolezinhos, a qual evidenciou que, à revelia da Constituição de 1988, vigora no país um verdadeiro apartheid, concretizado na recusa da alta classe média e dos mais endinheirados em sequer conviver, no mesmo espaço de lazer, com cidadãos pertencentes aos estratos sociais menos afortunados economicamente.




Ordenamento classista
A recusa deriva de um ordenamento social classista, impregnado de racismo, o mesmo que determina a distinção entre elevador social e de serviço ou que a família jante na copa e a criadagem coma as sobras na cozinha. Segundo essa lógica, patrões e serviçais diferem na origem e na essência – ontologicamente, portanto -, devendo, em decorrência, ser submetidos a critérios axiológicos distintos. Autoritarismo e subalternidade são os elementos definidores de tal relação, inclusive e para além de seus limites trabalhistas, os quais quanto mais opacos e indistintos mais agravam – ao mesmo tempo que menos evidenciam - a assimetria inerente a tal relação.

O rolezinho borrou tais limites. E, por isso mesmo, gerou uma histérica reação por parte de certos setores médios que emulam o ideário valorativo da elite capitalista (mesmo que esta, por sua vez, os submeta e explore). Com os porretes do Estado uma vez mais a serviço de interesses privados, e a mesma novilíngua que concebe manifestantes como vândalos transformando rolezinhos em arrastões, seus protagonistas foram expulsos dos templos do consumo – e com eles os demais jovens de aparência pobre e pele escura, agora assumidamente persona non grata nos shopping centers paulistas.



Pelourinho reloaded
O segundo evento a provocar comoção e mal-estar, mesmo quando ainda não se sabia tratar do início de uma série, foi o registro de um adolescente, nu e com o corpo repleto de hematomas, atado a um poste através de uma trava de bicicleta presa a seu pescoço. Ele furtara algo para comer, despertando a fúria de homens de passado certamente ilibado e índole pacífica, cuja ação redentora aligeirou os vagarosos trâmites de nossa Justiça. Ah, a cordialidade dos brasileiros!

Entretanto, o mal-estar causado pela imagem não foi de todo atribuído à sua própria simbologia social presente, mas, como vários analistas assinalaram, ao fato de remeter à iconografia da escravidão: mais especificamente, à terrível alusão a um negro em um tronco. Outros observadores enxergaram na brutal desumanidade física e psicológica imposta ao rapaz um reflexo do tratamento dispensado pelos nazistas a suas vitimas.



Aqui e agora
Sem diminuir a efetividade de tais paralelismos, parece-me essencial assinalar que, se por um lado ela intensifica o mal-estar ao associar a imagem a um regime de racismo institucionalizado do qual o Brasil foi, vergonhosamente, o ultimo país do mundo a se livrar; por outro, ao qualificá-la como elemento de permanência do passado, seja o oitocentismo escravocrata ou os conturbados anos 30 na Europa, ela circunscreve a violência retratada ao âmbito do anacronismo, o que não deixa de, numa estratégia psicológica escapista, ser uma forma de projetá-la para fora do violentíssimo contexto presente em que foi produzida e, assim, ainda que involuntariamente, matizá-la.

Pois ainda que o paralelo com a escravidão e o nazismo possa se mostrar procedente, o sentido profundo da tragédia do rapaz preso ao poste é que ela não pertence, a rigor, nem ao nosso passado escravocrata nem ao holocausto nazista – ainda que carregue os genes de um e talvez reverbere o outro -, mas à mais atual e presente realidade contemporânea.

Uma análise condizente do fenômeno não pode se furtar a examinar esse dado essencial: com o agravante de ter sido praticado reiteradas vezes desde então, o ato ignominioso de espancar e atar pequenos infratores a postes ocorre em nosso tempo, aqui e agora, como uma explosão de raiva coletiva de cidadãos do terceiro milênio, quase sete décadas após a Declaração de Universal de Direitos Humanos e em um país governado por forças de origem trabalhista que ainda se dizem de centro-esquerda. Gostemos ou não, esses são os fatos.



Cala-a-boca já morreu
Há de se atentar para o paradoxo de que tamanha violência simbólica – ou nem tanto - contra os que ocupam as franjas do sistema econômico se dê após mais de uma década que as estatísticas recomendariam caracterizar como de inclusão social massiva, inclusão esta que teria beneficiado justamente os que agora querem reivindicar e são brutalmente calados. Na outra ponta, seria omissão deixar de assinalar que tal furor repressivo se dá em um momento no qual o país está prestes a votar uma legislação draconiana contra toda e qualquer forma de manifestação pública, no que seria um retrocesso imensurável para nossa ainda incipiente democracia.

A reação à greve dos garis, o mal-estar ante os rolezinhos e a prática de linchar, despir e dependurar pequenos infratores são, cada um, atos plenos de simbologia, altamente reveladores das relações sociais no Brasil neste momento. Juntos e ocorridos em sequência, trazem à tona ódios classistas que camadas de patrimonialismo e repressão periférica trataram, por décadas, de manter suprimidos, enquanto moldavam em sangue a máscara de aberto sorriso da cordialidade brasileira, essa esfinge.


(Foto de autoria de Djalma Oliveira retirada daqui)

2 comentários:

Itárcio Claudicando Ferreira disse...

Mestre Maurício, análise corretíssima da nossa realidade social e política.

Abraços!

Maurício Caleiro disse...

Obrigado pelo comentário, Itárcio, abs.