sexta-feira, 21 de junho de 2013

O fantasma do golpe

As cenas de violência e intolerância por parte de manifestantes, que tiveram lugar nas manifestações de ontem, de forma simultânea e em diversos pontos do Brasil, evidenciam a necessidade de uma intervenção mais efetiva da sociedade civil organizada – OAB, ABI, CNBB, ONGs e entidades de Direitos Humanos -, de forma a criar canais de interlocução com os organizadores dos protestos e impedir que neles se instituam práticas antidemocráticas, como impedir a livre manifestação de pessoas com vinculação partidária ou sindical identificadas como tais.



É necessário, ainda, que a sociedade e os órgãos responsáveis – Ministério Público à frente – reflitam e investiguem sobre a natureza suspeita dos eventos de ontem: o caráter simultâneo da violência e os relatos coincidentes sobre grupos grandes com homens muito fortes e encapuzados apontam para uma ação coordenada em âmbito nacional por quem tem capacidade e meios para tal - e disso se beneficiaria. Se levarmos em conta que não é do interesse do movimento a disseminação da violência - e que esta até agora, quando não partiu da PM, vinha sendo mantida em níveis mínimos, resultando em passeatas pacíficas -, é forçoso reconhecer que ela interessa sobretudo a duas esferas: a de grupos radicais paramilitares ávidos por desestabilizar a democracia e a dos poderes estaduais e federal – que poderiam fazer uso de serviço policial reservado -, de forma a criminalizar, tornar perigosos e esvaziar os protestos.



A eclosão da violência suspeita de ontem serviu à disseminação, nas redes sociais, do alerta de que haveria perigo iminente de golpe militar – e que a mídia, rede Globo à frente, o estaria insuflando. Na ponta de lança de tais alarmes, blogueiros governistas - como Paulo Henrique Amorim e Eduardo Guimarães - que desde o início do movimento procuraram desqualificá-lo, com argumentos idênticos aos inicialmente empregados por ninguém menos que Arnaldo Jabor. Assustados com a evidência inconteste, nas ruas de todo o país, de que a presidente Dilma está longe de ter a aprovação popular que supunham e que 2014 não vai ser as favas contadas que imaginavam, agem como um "PIG do B", insuflando o temor e o clima de suposta instabilidade institucional. De concreto, só uma tática diversionista de quem não se conforma pelo PT ter perdido o monopólio da mobilização popular que acreditavam ter.



Mas não é só na relação entre política e popularidade que os fatos teimam em contrariar tais blogueiros: na cobertura dos protestos, a Globo repetiu várias de suas vicissitudes – construindo uma narrativa maniqueísta protagonizada por manifestantes bonzinhos e vândalos malvados; deixando de oferecer uma reflexão crítica minimamente aprofundada sobre as razões do protesto e da violência; reforçando as demandas populares que se referem ao governo Dilma e minimizando as que afetam governadores tucanos. Mas se mostrou longe, muito longe, neste momento, de praticar um jornalismo alarmista visando pavimentar o terreno para o golpe, como alardeiam com estridência e mentirosamente muitos governistas nas redes sociais.



Pois se há um mérito indiscutível nas manifestações é que desvelaram ao Brasil e ao mundo um alto grau de insatisfação popular por parte de jovens, os quais passaram a maior parte da vida em um país governado pelo PT – o que, justa ou injustamente e não obstante os avanços alcançados, evidencia que o país está longe de ter se transformado na maravilha que o petismo alardeia.



O fato de os protestos terem irrompido e se alastrado durante o governo Dilma Rousseff deixa cristalinamente claro que, como parte da esquerda descontente vinha denunciando, acumulavam-se problemas de monta em sua administração, e que ganhava corpo um sentimento difuso de insatisfação popular, o qual as pesquisas de opinião ainda mal haviam captado. Mas o governismo, como sempre, preferiu ignorar, enterrar a cabeça na terra e utilizar-se de seu bode expiatório favorito, o tal de "PIG", fingindo que os alertas sobre os pesados aumentos de preços, consolidados, segundo dados do próprio governo, num índice anual de inflação no quesito alimentos de 13,94% (bem maior do que a inflação total média do período FHC, de 9,24%), era "terrorismo midiático"; que é normal um governo que se elegeu criticando privatizações como um crime de lesa-pátria trair seus eleitores e sair privatizando e lesando a pátria impunemente; que vale tudo nas alianças, seja a direita religiosa, a ruralista Kátia Abreu, o símbolo da corrupção Paulo Maluf ou o prototucano Guilherme Afif Domingos, como se ninguém estivesse vendo a ética ser jogada no lixo em nome do pragmatismo eleitoral e da ampliação da hegemonia no poder (que, como assinalou Gramsci, é diferente da hegemonia política). Os governistas fanáticos fingiram não notar tais graves transgressões éticas e achavam que o povo não as percebia, mas este, sem as amarras das paixões partidárias, a tudo observou criticamente, até que sua insatisfação transbordou.



A invocação ao golpe militar, atual obsessão de blogueiros chapa-branca e de governistas acríticos, é uma reação psicológica a esse quadro, a expressão de uma necessidade de, a um tempo, desqualificar os movimentos populares que deixaram claro que o rei está nu (e que desta vez não vai haver quadro comparativo entre os governos FHC e Lula que dê jeito) e reafirmar um suposto caráter esquerdista e popular do governo Dilma, caráter este que a eventual ação golpista, paradoxalmente, legitimaria. Ou seja, o fantasma do golpe militar é, neste momento, um misto de alusão a um último e abominável ato contra um governo democraticamente eleito e, para o governismo bovino, um wishful thinking inconsciente, inconfessável e redentor.

4 comentários:

Anônimo disse...

1- Pessoal agindo como fascista
2- Querendo qualquer doido pra "organizar o país"
3- Confusão em Brasilia

Abre o olho cara! nao que seja um Golpe de 64. Mas tem merda no ar!

Juliana Freitas disse...

Faço votos que vc esteja certo! ;) Pelo bem de todos nós, que seja só dor de cotovelo de uns, e paranóia de outros.

E quando EU penso em golpe (e olha que eu custei pra pensar em um), não é militar! Mesmo que eu esteja vendo acontecer muito do que eu estudei, diante dos meus olhos, nunca pensei na hipótese de um golpe militar!

Mas, como eu disse antes, tomara que eu esteja errada que em janeiro de 2015 a gente veja a Dilma lá na cerimônia de posse, ou tomando posse novamente, ou passando a faixa pra outro, assim como a maioria desejar! ;) E eu vou rir de mim enquanto tomo umas cervejas!

Anônimo disse...

PSDB e PT reagem, um reacendendo as brasas da ditadura bem vivas dentro estrutura policial, o outro alegando que qualquer contestação às decisões do atual poder federal é golpe - discurso muito semelhante no autoritarismo.
Fascistas sempre houve, prontos para aproveitar qualquer ocasião. E o que se pode fazer é disseminar a democracia e a educação/cultura (em lugar de pão/circo) para que não surjam oportunidades legítimas de contestação que possam servir de trampolim a esses aproveitadores.

Roberto Oliveira disse...

Prezado,

Veja atentamente o vídeo que te envio, e os leia com igual atenção os textos que envio. Não são textos de "governistas", "petistas" e "blogueiros chapa-branca". Na realidade, todo material que envio abaixo são de estrangeiros. Espero que reflita e reconsidere sua posição. Creio, que você esteja equivocado em sua análise, embora sua análise seja honesta e encontre respaldo nos fatos.

http://www.youtube.com/watch?v=nQBQzNNS9eI

http://resistir.info/varios/aznarez_ofensiva_10jun13.html

http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/07/quem-agita-o-brasil-e-por-que.html

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/104967-as-maos-dos-eua-sobre-a-regiao.shtml