sábado, 30 de outubro de 2010

Ataques a mulheres evidenciam importância das questões de gênero

No Brasil, o debate sobre as questões de gênero continua enfrentando resistência silenciosa mas efetiva, ainda que sua urgência se torne cada vez mais evidente. Só nesta semana foram noticiados – mas não suficientemente debatidos - três graves casos de abuso e discriminação contra mulheres.


Chauvinismo eleitoral
Os dois primeiros vêm, como não poderia deixar de ser, da imunda campanha eleitoral de José Serra. Ao incauto cidadão que atendesse às chamadas do telemarketing tucano - decretado ilegal um tanto tardiamente pelo TSE - era feita a seguinte indagação:

"- Será que a Dilma sem o Lula dá conta?"
Difícil responder, não é mesmo? Afinal, a ditadura não tocou a mão na adolescente Dilma, que desfrutou de um exílio “caviar e champanhe” no exterior, antes de vir ao Brasil e desfalecer ante uma bolinha de papel. Já o bravo guerreiro Serra, com a têmpera dos "machos adultos brancos sempre no comando", não apenas lutou contra o regime de exceção, sendo preso e barbaramente torturado como, em anos recentes, mostrou toda sua fibra máscula ao enfrentar e superar, sem se deixar abater, um câncer linfático.

Como observou Rodrigo Vianna, autor do melhor post sobre o caso, não coincidentemente, na noite da morte de Nestor Kirchner, o Jornal da Globo se dirigiu a seus telespectadores, perguntando:

"- Será que Cristina dá conta de governar, sem o marido?".
O notável, do ponto de vista das questões de gênero, é que a ninguém ocorreu perguntar ao eleitor, em 2002, se Serra conseguiria governar sem FHC... Ou seja, a premissa da campanha serrista – reverberada, amiúde, pela mídia - é de uma incapacidade comparativa da mulher em relação ao homem - a diferença em forma de lacuna.


A mulher como isca
Tal atribuição de valores e competências hierarquizados segundo (des)critérios de gênero foi corroborada pelo tucano ao final da campanha – quando, com a sociedade estupefata com a falta de escrúpulos apresentada por Serra em sua luta pelo poder, ele, após elegiar a beleza das mineiras, literalmente implorou às “menininhas” para que pedissem “a seus “pretendentes para que nele votassem.

Essa inauguração de uma nova modalidade de campanha eleitoral, baseada no sexismo e numa visão das relações entre os jovens que só é novecentista em sua aparência, já que sua essência é caudatária de uma visão mercadológica das relações sexuais. Não à toa, o tucano paulista, prestes a ser varrido para a lata de lixo da história política brasileira, foi “homenageado” no twitter com a tag #serracafetao.


Nova elite machista

Porém, dos três eventos que poblematizaram, recentemente, as questões de gênero, o que mais choca tem ocupado um lugar secundário nas manchetes: trata-se do chamado “rodeio de gordas”, promovido por estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, interior de São Paulo.

Concebido e praticado como “esporte” por estudantes dessa universidade pública que abriga os filhos das elites paulistas, o "rodeio" consistia em abordar uma mulher acima do peso e, ao seu descuido, montar-lhe em cima, procurando manter-se o maior tempo possível sobre a "montaria", enquanto a esta eram gritadoss impropérios.

Como se tal humilhação não fosse suficiente, os “estudantes”, via de regra, esmeravam-se em apresentar-se de início atenciosos, simulando deixarem-se seduzir pelas mulheres antes de, literalmente, montá-las, fazendo irromper o urro ignorante da satisfação sadista grupal.

O grau de sadismo psicológico a que são submetidas às vítimas de tal ato, agravado pelo fato de os alunos alegarem tratar-se de mera “brincadeira”, suscita uma dupla reflexão: em primeiro lugar, no sentido de como agir para evitar que tamanha bestialidade, violadora de direitos humanos básicos, volte a ter lugar no ambiente universitário brasleiro.

Em segundo, lugar, não é preciso ser nenhum expert em psicanálise para se aperceber de que o “rodeio das gordas” traz em seu bojo a evidência de uma grave patologia social de grupo - assim como, de maneira análoga, os massacres do tipo Columbine em colégios norte-americanos muito nos dizem a respeito das relações entre constituição psicológica do sujeito, repressão e axiologia da sociedade em que vive. E, acima de tupo, que no bojo de ambos os casos, apresentam-se, latentes, os contra-efeitos de uma economia das pulsões da libido desvirtuada de uma vivência propriamente sexual.

Afinal, para ficar em uma simples e única constatação, jovens minimamente sadios buscam satisfazer seus impulsos através de uma sexualidade afirmativa, gozosa, tendo no horizonte a satisfação mútua dos(as) parceiro(as). Já sair por aí “caçando” gente para cavalgar publicamente, montando em suas costas de supetão e a contragosto, é coisa de recalcados, de marginais e de violadores do acordo social - enfim, de desclassificados que não merecem frequentar uma universidade sustentada pelos impostos da coletividade através de impostos.


Os três episódios acima descritos evidenciam que, mesmo calada, recalcada, mantida às sombras, sob o manto enganador do alegado liberalismo comportamental brasileiro, a questão de gêneros tende sempre, entre nós, à irrupção pública, plena de evidente urgência, como o oprimido de que nos fala Freud.


("Passeio", de Debret, retirado daqui)

domingo, 24 de outubro de 2010

Eleições: campanha do ódio ameaça democracia

Nos últimos dias o Brasil voltou a ser manchete na imprensa internacional. Porém, o motivo do interesse por nosso país tem sido bem diverso, agora, do demonstrado meses atrás, quando publicações como El País, The New York Times e Le Monde estampavam, em capa, reconhecimento a um presidente advindo do operariado e promotor de políticas sociais que reestruturaram uma das mais desiguais sociedades do planeta - tirando mais de 30 milhões da pobreza -, além de coordenador do realinhamento estratégico, para além da órbita norte-americana, de um país até então periférico na ordem mundial.

Os olhos da imprensa mundial para o Brasil agora, como de ordinário faziam antes do governo Lula, refletem uma visão negativa do país, expressando ora preocupação com o despudor com que a religião foi e continua sendo explorada eleitoralmente ante temas como aborto e homossexualidade; ora noticiando, de forma jocosa (não poderia ser diferente) o escarcéu que José Serra e Rede Globo armaram em torno de uma bolinha de papel atirada contra o candidato tucano.


O candidato sem programa
Enquanto isso, Serra vai caindo nas pesquisas, mas ainda se mantém em patamares, a meu ver, surpreendentemente altos para um candidato que sequer se preocupou em apresentar um programa de governo, quanto mais condizente e factível, limitando-se a promessas pontuais que até os economistas midiático-tucanos consideram irrealistas.

Não que tal lacuna chegue a surpreender: dos vários eleitores de Serra que conheço – na universidade, nas ruas, ou entre amigos e parentes – nenhum se declara como tal por conta de propostas para o país ou por uma razão ideológica strictu sensu.

No máximo, apresentam uma racionalização – no sentido freudiano do termo, ou seja, uma explicação lógica coerente mas que encobre seus verdadeiros motivos -, ainda assim reativa, acusando o petismo de corrupto ou de promover o “aparelhamento” do Estado. Mas ora, para ficar só no exemplo mais gritante, quem tem em suas hostes Paulo Preto – um sujeito que, segundo a Isto É, não só é acusado de nepotismo e de, segundo os próprios tucanos, ter desviado R$4 milhões, mas que foi preso EM FLAGRANTE como receptor de jóia roubada – não tem moral para falar de corrupção. E, com a filha do receptador tendo sido empregada pelo próprio erra, muito menos de aparelhamento. Portanto, alegar tais motivos como justificativa de voto é incoerente e não cola mais, deixando evidente que a razão de fundo de tal escolha eleitoral não significa adesão a determinada proposta política, mas uma reação ditada pelo ódio de classe contra o lulismo e o seu legado.

Assim, a campanha de Serra é a campanha do ódio porque sua candidatura encarna o sentimento contra Lula e o que ele representa, contra esse novo Brasil em que jovens da periferia vão à universidade, empregadas domésticas andam de carro e a classe D viaja de avião. Presas desse irracionalismo reativo, pouco importa, para as elites e os setores wanna be elite que a sustentam, que a candidatura tucana não seja propositiva. Em outras palavras : o ódio é tamanho que, ante a possibilidade de continuação da inclusão social da Era Lula, preferem passar um cheque em branco a um político sem propostas e que nunca terminou um mandato sequer.


Desrespeito à democracia
Afigura-se extremamente negativo para a democracia tal processo, pois abre mão do contrato social implícito entre eleitor e candidato, consubstanciado em um acordo por meio do qual aquele vota neste em troca do cumprimento, anda que inescapavelmente parcial, de um determinado conteúdo programático pré-estabelecido.

É a essa lógica contratual que seguiu a campanha de Lula em 2002 – prometendo criar 10 milhões de empregos e, ao final, gerando mais de 14 milhões – e, agora, a de Dilma Rousseff. Senão, vejamos: enquanto Serra utiliza o horário eleitoral gratuito não para apresentar projetos, mas para sustentar o ridículo atroz do #bolinhagate, como parte de uma pantomima não menos patética e que vai na contramão dos fatos – vide os comunicados do partido e da candidata nos últimos dias -, segundo a qual “o PT estimula a violência”, Dilma tem, dia após dia, apresentado os itens programáticos de seu projeto de governo: meio ambiente, indústria naval, inclusão digital, entre outros temas específicos.

Por sua vez, após chafurdar na boataria religiosa, ser autuada distribuindo comida em troca de votos e protagonizar o #bolinhagate, a campanha de Serra volta a viver de ataques contra a adversária, municiados pela mídia amiga -esta, descompromissada de uma mínima ética jornalística e ciosa da impunidade, aja como agir. Mandando às favas os escrúpulos – como em um certo dezembro – e sem demonstrar o mínimo apreço pela incipiente democracia brasileira, a qual humilha com o despudor de seus métodos truculentos, o tucano aposta na negatividade para ganhar as eleições. No momento, só não enxerga quem não quer ver que está armando o clima para um confronto físico e público, o qual, seja protagonizado por quem for (mesmo que por um provocador tucano inserido na multidão), a culpa recairá sobre os petistas.


O novo astral da campanha de Dilma
Enquanto Serra, sob o patrocínio da Rede Globo, Veja e congêneres, trava o seu combate nas trevas, parecendo "acreditar que o povo, em toda a parte, é uma entidade incapaz e como tal deve ser tratado" - como afirmou Gilson Caroni Filho em um artigo imperdível -, o país vai de vento em popa: o desemprego é o menor já medido e, enquanto boa parte do mundo vive as agruras da crise, com pesados contra-efeitos sociais, estamos em vias de consolidar, em questão de meses, o maior crescimento econômico em 30 anos - só que, desta vez, com inclusão social. É insano imaginar que o povo de um país possa abrir mão de tal cenário em prol de um aventureiro sem nada a oferecer exceto sua obsessão em se tornar presidente.

Talvez por estarem os eleitores tomando ciência de tal disparate, a campanha petista, após ser levada às cordas no início do segundo turno, passou a reagir ao bombardeio pleno de acusações mas vazio de propostas. Isso se deu de forma mais efetiva a partir do momento em que Dilma, sem abrir mão do viés propositivo, trouxe à baila o caso Paulo Preto, no debate da Band. A partir daí, com um momento culminante no evento com artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande (RJ) – que, iconizada na imagem emocionada de Chico Buarque, artista prenhe de significações anti-autoritarismo, lhe conferiu uma respeitabilidade com que Serra não pode nem sonhar - , sua candidatura, vitaminada ainda pelo apoio de personalidades e intelectuais do Brasil e do exterior, tomou prumo.

E se em 2002 a esperança derrotou o medo; agora a verdade vencerá o ódio.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e daqui.)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Serra no Jornal Nacional

A entrevista do Jornal Nacional com José Serra, ontem, embora menos leniente do que a realizada no primeiro turno, tornou evidente, uma vez mais, algumas das deficiências técnicas do jornalismo brasileiro.

Pois se há, em graus variados - e ora em profusão -, manipulações e práticas inaceitáveis no jornalismo nacional decorrentes dos interesses das corporações midiáticas, não deixa também de haver outras que derivam de vícios profissionais e de defasagem técnica - se comparadas aos padrões do jornalismo de ponta internacional.

É exemplar nesse sentido o suadouro que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou em programas de entrevista anglo-americanos, notadamente no Hard Talk: desacostumado às perguntas frontais e em ser corrigido pelo repórter – este de posse de dados atualizados -, o ex-presidente, habituado a ser tratado como um príncipe pelos jornalistas durante seus dois mandatos, mostrava-se estupefato.

Em entrevistas, duas das habilidades que mais faltam ao jornalismo nativo são:
1) o recurso a dados e fatos como forma de contradizer conteúdos comprovadamente inverídicos da fala do entrevistado;

2)A capacidade de intervir – de forma polida, mas efetiva – na fala do entrevistado de modo a evitar que ele introduza novos temas e descarte o assunto polêmico.

São habilidades que exigem uma equipe profissional e treinada – o que o JN certamente tem – e jornalistas com destreza e genuíno interesse investigativo – o que não é exatamente o caso do casal Bonner ou do jornalismo global de modo geral, manietado que é por uma política editorial tendenciosa.

Apesar de tais limites, a entrevista com o candidato José Serra ontem poderia ter sido um evento jornalístico de alto nível se não acontecessem alguns disparates, tais como deixar de refutar, com dados e fatos, a resposta em que Serra se desvencilha da acusação de ter trazido a questão do aborto à campanha, afirmando que quem o fez foi Dilma (como se esta tivesse algum interesse em levantar o tema).

Quando, em entrevista a um candidato à Presidência, o jornalista se cala ante uma resposta que contraria um fato notório, facilmente atestável pela consulta aos arquivos da emissora, mostra-se leniente, deixando de cumprir sua função precípua de informar a população.

Pois, em tal momento da entrevista, o que um jornalista profissional de alto nível faria seria interromper a fala leviana de Serra e objetar, exibindo nas mãos as fontes da informação: “Mas candidato, nós temos aqui a prova que o senhor foi o primeiro a abordar o tema no dia X, no lugar tal, como o comprovam N registros”.

Mas nem a técnica defasada, nem os interesses corporativos do jornalismo nacional nos permitem desfrutar de um tal profissionalismo.

Resta-nos o padrão Globo de qualidade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A campanha nas ruas e na mídia

Durante cada uma das primeiras eleições presidenciais após o fim da ditadura, o país era tomado por uma onda vermelha – em bandeiras, cartazes e faixas, bandeiras; nas praças, nos comícios, nos dias dos debates televisivos, até mesmo, durante a semana, nas ruas centrais das grandes cidades, onde sempre havia uma barraquinha do PT.

Três derrotas seguidas ensinaram ao partido que o entusiasmo aguerrido de sua militância não bastava: era preciso costurar acordos entre os setores de proa da sociedade, investir na conquista da hegemonia no interior dos estratos empresariais, industriais e financeiros. Como se tal projeto implicasse no esvaziamento da mobilização militante popular, já na vitória de Lula em 2002 - não obstante a grande festa popular que a celebrou -, não houve, nos comícios e nos momentos pré-eleições, aquela maré vermelha contagiante.



Círculo vicioso
Embora, nestas eleições, o PT continue produzindo, episodicamente, a cada comício, uma festa espontânea de entusiasmo popular com o qual o candidato tucano - a despeito de seus suspeitíssimos votos que, no mundo real, ninguém sabe de onde vêm -, não pode nem sonhar, criou-se, ainda antes da campanha, uma grande expectativa quanto à mobilização na internet – que foi e é expressiva, mas que claramente evidenciou os seus limites, com a ocorrência de um segundo turno em grande parte devido a ações de sabotagem e boataria nas periferias das grandes cidades.

E a ausência de uma mobilização que se antecipasse e reagisse ante tal fenômeno foi o primeiro grande vacilo da esquerda nestas eleições – mas não o único. Não obstante sua expressiva vitória nos estados e no Legislativo, ela voltou, nestas eleições, a cometer erros históricos.

O mais grave deles, evidentemente, é a sua divisão interna, com Marina Silva - movida por rancores e pelo ego ferido -, se deixando utilizar como massa de manobra pelo conservadorismo, apenas para levar as eleições ao segundo turno, para ser então descartada pela direita como se de um empecilho inútil, um subalterno servil, se tratasse, enquanto o PV de Sirkis e do derrotado Gabeira adere a Serra.


Mídia pauta esquerda
O segundo grande erro da esquerda – que acaba por também resultar em divisão – dá-se na forma de reações, invariavelmente negativas, aos enfoques idem que a - com o perdão do pleonasmo - mídia serrista dedica a Dilma. O caso da boataria anti-religiosa é ilustrativo: a mídia vinha carregando nas tintas na caracterização de Dilma como uma defensora feroz do aborto e do "casamento gay". Tal caracterização visava, obviamente, incendiar as já minadas pontes entre a candidata petista e o voto religioso (seja de setores evangélicos ou do catolicismo mais conservador).

Num gesto político inteligente e conciliador, Dilma se reúne com lideranças religiosas e firma um acordo assegurando que tomará um posicionamento equânime em relações a tais questões polêmicas. A mídia, "naturalmente" (se se considera natural o modus operandi do setor no Brasil, evidentemente), passa a caracterizá-la então como uma traidora da esquerda e, pasmem, uma ameaça ao estado laico. Até aí, noves fora nossa imprensa parcial, é o jogo jogado. O que espanta é ver esquerdistas-pollyanna caírem nessa.


História que se repete
Mesmo porque não se trata de novidade: procedimentos similares se deram inúmeras vezes antes, notadamente em relação a Lula e a tal Carta ao Povo Brasileiro, nas eleições vitoriosas de 2002: os jornais, tietes de FHC como ora o são de Serra, pintavam Lula como a encarnação da instabilidade e o inimigo dos mercados. Ao assinar o tal documento, no qual se comprometia com a estabilidade, o controle da inflação e o rigor fiscal, o hoje presidente passou a ser caracterizado pela mídia como um “vendido”, um traidor do projeto petista – e setores da esquerda, para variar, compravam acriticamente tal caracterização, quase provocando uma cisão em uma campanha destinada à vitória. Uma das raras vozes sensatas foi a do economista José Paulo Kupfer, que, ao contrário da manada na mídia e na esquerda, analisou criteriosamente o documento, concluindo que, a rigor, nada nele havia que impedisse ou mesmo constrangesse a implementação das políticas econômicas de cunho social que o PT sempre defendeu.

Pois, vamos aos fatos: a Carta ao Povo Brasileiro representou a adesão do governo capitaneado por Lula ao neoliberalismo? Impediu que se expandisse para um nível muito além do receitado pelo Consenso de Washington os programas de distribuição de renda que revolucionaram o país, criaram uma nova classe média e tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza? É evidente que não.


O inimigo é Serra
Mutatis mutandis, é o que acontecerá com o acordo de Dilma com os religiosos: longe de ameaçar o estado laico, como berram os mais alarmistas – mesmo porque é o Legislativo e não o Executivo quem pode efetuar mudanças nessa área -, trata-se, simplesmente, de um gesto de boa vontade e de reconciliação, num momento extremamente delicado da campanha, em que, pela primeira vez na história recente do país, a manipulação religiosa - via boatos - está sendo utilizada de forma massiva, açulando o ódio e evidenciando o despudor, o desapego, aqui sim, ao princípio do estado laico, além da desmedida sede de poder de José Serra, encarnação do que de pior pode acontecer ao país.

A hora não é de sedição, mas de calma, união e de sair às ruas – mais do que ficar atrás da tela do computador - apoiando a continuação de um governo popular e de satisfação dos anseios sociais secularmente reprimidos pelo conservadorismo brasileiro, que novamente mostra suas garras, involuntariamene auxiliado por soi-disant esquerdistas.


(Foto do comício em Joinville retirada daqui)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina e o segundo turno

Em um post no qual faz balanço e prognósticos do “fator Marina”, Idelber Avelar propõe, para fins analíticos, uma divisão esquemática dos votos recebidos pela candidata verde: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico.

Essa divisão é o aspecto que mais me atrai no artigo, que de resto soa a mim quase como uma peça oficial da intelectualidade petista – se esta tivesse intelectuais públicos do quilate, da projeção e da capacidade de produção de Idelber Avelar -, que estrategicamente sobrevaloriza Marina por conta da necessidade de conquistar parte de seu espólio eleitoral.

De qualquer modo, na tal tríplice divisão, a “novidade” Marina advém dos dois últimos estratos, que, no último mês, tiraram a candidata verde dos quase 10% em que se manteve por 13 meses e levaram a eleição para o segundo turno, ressuscitando José Serra.


Voto estético
Dos três estratos marinistas, o voto “ético”-classe média me parece o mais refratário tanto a uma cooptação por parte de José Serra quanto, em maior grau, por Dilma Rousseff: é um voto estético, na acepção pobre do termo - um voto “fashion, descolado” como apontou Hildegard Angel no imediato pós-apuração; um voto Caetano Veloso, diria eu.

É, portanto e ainda, um voto reativo, anti-establishment político, de cidadãos e cidadãs particularmente suscetíveis ao discurso neoudenista, que tanto interessa à direita. Para os que o proclamam, Marina representa uma outsider, ainda não corrompida pela “sujeira” da política oficial. Nesse sentido, por paradoxal que pareça, a figura com a qual ela mais se aproxima, na história das eleições presidenciais brasileiras, é com Fernando Collor: só que o que antes era um playboy nordestino com “aquilo roxo” e à caça de marajás hoje é uma cabocla amazonense, nos trajes étnicos do multiculturalismo e cheirando a Natura.

Corroboram as impressões elencadas nos dois últimos parágrafos o fato de que todas as pessoas que conheço pessoalmente e que se encaixam nesse voto o proclamam da mesma maneira: salientando, a um tempo, a “independência” da candidata Marina e, com um tom de picardia que traz implícito a crítica à política convencional – leia-se PT versus PSDB -, a “elegância”, o “charme”, a unicidade da “figura fina” encarnada pela senadora acreana.

Esse estrato tende a dispersar-se ou diminuir tremendamente sua fidelidade a Marina à medida em que ficar evidente que o PV – de Zequinha Sarney, de empresários duvidosos radicados em Londres, e manietado por José Serra – é, para usar a linguagem que tanto os mobiliza, um partido tão corrompido como outro qualquer, a chafurdar na lama da política nacional.


A cartada religiosa
Já o voto religioso – que não é apenas em “evangélico”, haja vista a virulência com que os boatos anti-Dilma circularam e foram difundidos pela direita católica – obedece a outra dinâmica. Trata-se, essencialmente, o voto do medo, emprenhado pelas entranhas do conservadorismo brasileiro, se valendo, sem o mínimo pudor, da ignorância e da manipulação (se você assitiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, pense no personagem de Paulo Autran).

No que concerne a tal estratégia, é preciso reconhecer o drible que o serrismo deu na militância petista: enquanto esta, entrincheirada na blogosfera, aguardava uma “bala de prata” anunciada por dez entre dez “blogueiros sujos”, as igrejas e casas de culto dos subúrbios e das periferias eram literalmente tomadas por boatos - uma tática que, tanto na desfaçatez com que joga a incendiária carta da manipulação política da religião quanto na forma sorrateira de agir, sugere o modus operandi serrista, mesmo porque o PV não tem estrutura ou traquejo para empreender uma operação tão capilar.

Esses estratos religiosos são, no momento, as áreas potencialmente mais perigosas para a candidatura Dilma. Ela precisa reagir, não se deixar acuar pela histeria anti-aborto e, ao mesmo tempo em que repõe tal discussão em um âmbito institucional, não dogmático, que leve em conta posições religosas sem abrir mão do viés laico e relcionado a saúde pública, aproximar-se de forma coordenada das lideranças evangélicas e católicas, procurando ainda se dirigir, nos programas eleitorais, diretamente aos fiéis religiosos, de maneira franca e clara.

Aqui me parece necessário, uma vez mais, para evitar novas auto-lusões, salientar os malefícios do efeito-manada que o formato de militância virtual atual, açulada pelo twitter, tem provocado: ninguém, absolutamente ninguém foi capaz de detectar o enorme crescimento de Marina nos dois segmentos eleitorais que dobraram seus votos e levaram Serra – a maior ameaça pós-ditadura ao aprimoramento da democracia brasileira – ao segundo turno.


Batalha feroz
Enquanto uma Dilma surpreendida e um Serra rejuvenescido – e, como sempre, vitaminado pela mídia amiga – se digladiam, o foco se volta para Marina Silva, possível fiel da balança.

Se firmar aliança com José Serra, Marina vai valer o equivalente a uma nota de três reais no dia seguinte a sua eventual vitória: em primeiro lugar, porque Serra não cumpre acordos; em segundo, porque, cooptada pelo sistema político oficial, a candidata verde, sem o auxílio da manipulação religiosa, perde a aura de outsider.

Tal aura igualmente se desfaz se preferir se aliar a Dilma – a diferença é que a chance de que os acordos sejam cumpridos é maior.

A Marina interessa, portanto, manter-se alheia à disputa, preservando seu volúvel mas ora efetivo capital eleitoral – e, sobretudo, a aura de sua figura púbica, dividendo fundamental numa democracia tão afeita à pessoalidade e ao carisma quanto a brasileira.

O problema é que a opção por tal eqüidistância é pouco efetiva em termos partidários, já que Serra controla o PV, como, a despeito das ilusões marinistas, demonstrou de forma cabal ao levar uma eleição perdida ao segundo turno.
Agora ou a sabedoria política de Lula e a capacidade de mobilização da militância petista se manifestam ou o legado de desenvolvimento e inclusão da melhor Presidência que o país já teve pode cair no colo do neoliberalismo privatista.