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terça-feira, 28 de abril de 2009

Passagens aéreas e falso moralismo

Idealmente, os princípios e a conduta de um homem público devem balizar-se pelos mais elevados padrões éticos da sociedade em que vive, em consonância com os ditames de sua consciência, mantendo, com correções pontuais, consistência ao longo do tempo e recusando-se a variar súbita e frequentemente de acordo com as circunstâncias e o julgamento do meio externo – do contrário, estamos diante de um canastrão, que se utiliza de um discurso ético como meio de promoção pessoal mas não se importa verdadeiramente em segui-lo.

Essa é uma das razões que fazem com que a reação "pró-ativa" do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), revelando, antes que a imprensa o descobrisse, que cedera passagens de sua cota congressual para parentes viajarem ao exterior, para então ter a desfaçatez de, após ter avisado a mídia, repisar o discurso ético que o consagrou nos últimos anos, seja muito mais hipócrita - e desmistificadora de sua pantomina pública - do que a de outros parlamentares, até mesmo do cambiante Michel Temer.

Famoso pela hábito de apontar o dedo inquisidor contra seus pares e por uma trajetória caracterizada por mudanças extremas – da guerrilha ao desbunde, do discurso libertário ao moralismo tacanho, da esquerda petista à direita peessedebista, da beatitude dos puros à burla dos malandros -, Gabeira não é nenhum ingênuo e é muito bem preparado intelectualmente. Quem é há tempos familiarizado com seus escritos sabe que ele é capaz de analisar em profundidade as implicações éticas de uma situação e tem uma visão extremamente crítica da mídia. Se se deixou ser alçado por uma certa imprensa ao posto de Moralista-Geral da República foi porque o quis; se prefere manter o circo em movimento, fazendo questão de agendar com antecedência mais um número de moralismo na Câmara, logo após seu ato imoral tornar-se público, é porque quer extrair dividendos políticos do picadeiro. Como diz o belo samba de Nelson Sargento, não passa de um falso moralista.

Imprensa leviana não torna escândalo menos sério
Discordo dos que, como Luís Nassif, consideram a festa com as passagens aéreas um pecadilho menor, “festival de irrelevâncias”. O fato de o escândalo ser incomparavelmente menos danoso aos cofres públicos e ao bom funcionamento da democracia do que os megaesquemas de corrupção e “o lobby descarado no meio parlamentar” não o torna inócuo. Tampouco a circunstância de estar sendo explorado pela “grande imprensa” o transforma em irrelevante, como quer fazer crer Nassif, no que interpreto como efeito colateral de sua heróica porém desgastante batalha com a Veja.

Instrumentalizados para fins escusos, os clamores éticos deixam de sê-lo e em seu contrário se transformam. Esse truísmo pede que se filtre com olho crítico toda e qualquer acusação de corrupção – particularmente aquelas que têm como origem as corporações de mídia, pois comprometidas com o grande capital. Isso posto, é preciso ter claro que a idéia de que, por conta de distorções e exageros no comportamento da imprensa, devamos ser tolerantes com desvio sistemático e mal uso de dinheiro público é um pressuposto sem sentido e uma distorção axiológica inaceitável, que vão contra o aprimoramento da democracia no país.

É fato que setores da “grande imprensa” tornaram-se useiros e vezeiros em explorar a mais improvável suspeita de corrupção, não raro de forma leviana e quase sempre com um moralismo simplista, neoudenista, que cala nos estratos médios mais suscetíveis à mídia corporativa; é fato também que esta tem se mostrado francamente tendenciosa, com grande interesse pelo governo Lula e pouquíssimo ou nenhum pelas administrações peessedebistas do Sul/Sudeste (Serra, nessas reportagens, só como sinônimo de montanha).

Desse cadinho de mau jornalismo, escândalo fácil e interesses corporativos tomou forma a onda de neomoralismo da qual Gabeira, em nova versão de si mesmo, despontou como estrela. Apagou o baseado, vestiu um terno por cima da famosa tanga e, remodelado segundo o figurino peessedebista, trocou Ipanema por Irajá. No caminho, enquanto fingia não ver o valerioduto e os desmandos do governador paulista, ia bradando impropérios contra a corrupção no governo federal. O sucesso foi tanto que, após enfrentar Severino Cavalcanti, veio a glória: tornou-se capa da Veja, que o alçou ao posto de grilo falante da moralidade nacional (clique aqui para ler a carta aberta deste blogueiro a Gabeira e aproveite para espiar a medonha capa citada).

Reações não se limitam à hipocrisia
Atitude mais digna do que Gabeira & os Falsos Moralistas teve a senadora Luciana Genro (PSOL-RS), que, arguida quanto às passagens de sua cota cedidas ao delegado Protógenes Queiroz – que fora protagonizar um debate numa universidade do Sul -, defendeu o que fez, argumentando que o uso da cota para fins políticos estava previsto no regimento. Confesso que, na hora, me decepcionei com sua resposta, pois considerei (e ainda considero) que traduz uma profunda incompreensão do sentimento popular em relação às benesses usufruídas pelos membros do Congresso, comparadas à dureza da vida cotidiana da grande maioria dos brasileiros. Mas, ante o festival de hipocrisia e falta de caráter que se seguiu, vejo-me obrigado a reconhecer que declaração de Genro é um oásis de coerência.

A senadora gaúcha se diferencia de Gabeira, em relação a esse episódio, em dois aspectos: primeiro, porque, ao invés de desrespeitar o regimento e simplemente surrupiar suas cotas para o turismo familiar, utilizou-as de acordo com as normas internas, alegando que se não fizesse uso das passagens que têm direito para fins políticos e os outros senadores não fizessem o mesmo estaria criada uma assimetria prejudicial ao seu partido; segundo e mais importante, porque, ao contrário de Gabeira, recusou-se a adotar uma ética dupla, que passa a considerar o uso das passagens errado somente a partir do momento em que a mídia o descobre (ou está claramente na iminência de fazê-lo).

Caso é ultrajante e pede soluções
O que é ultrajante nesse caso das passagens aéreas é que elas são claramente um supérfluo, um mimo percebido pela opinião pública como algo desnecessário, dado o fato de que os parlamentares a distribuem, a rodo e sem respeitar os preceitos regimentais, a terceiros (e ora confirmam-se as suspeitas de que vários parlamentares as comercializam com agências de viagens).

Considero Eliane Cantanhêde uma das mais tendenciosas e frequentemente equivocadas colunistas em atividade. No entanto, em relação a esse caso, concordo com a jornalista da Folha de São Paulo: é preferível discutir o aumento de salários dos congressistas (que, pelo princípio da isonomia entre os três poderes, equiparia seus vencimentos aos dos ministros do STF), desde que sejam cortados TODOS os demais benefícios. Mas é claro que a maioria dos parlamentares, cientes da leniência na fiscalização, descarta o desgaste que tal discussão provocaria e prefere continuar chafurdando no pântano do mau uso do erário, encobertos pelo cipoal de verbas diversas.

De Ética e de Política
“Política não se limita à Ética, mas também não prescinde dela”. Foi meditando sobre essa frase, que eu lera horas antes no blog O Descurvo, que me dispus a escrever este artigo. O sentido que ela tem no texto de Hugo Albuquerque, ao menos como eu a compreendi, prioriza a interpetação de que há aspectos da política que transcendem a ética, mas que esta não deve jamais ser negligenciada.

No entanto, Gabeira, com seu moralismo espalhafatoso e interesseiro, permite ler a frase de outro modo: que fazer política não se restringe a explorar a ética (como um cafetão explora uma prostituta), pois, inerente à Política, a verdadeira Ética, como o oprimido de que nos fala Freud, retorna para deixar o hipócrita nu em praça pública.

(Originalmente publicado no Observatório da Imprensa em 23/04/2009. Fiz ligeiras modificações).

2 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Mauricio,

Sinto-me mui honrado pela citação e pelo fato de ter dado a minha contribuição para esse seu excelente artigo. E, sim, é isso mesmo, a sua leitura sobre o que eu escrevi está certa.

Ademais, confesso que escrevi isso no post sobre a vergonhosa cassação de Jackson Lago não apenas fazendo uma crítica á realpolitik lulista, mas também me ocorreu a figura de Gabeira e o seu imoral moralismo.

Aliás, confesso que não acharia comparação melhor para a forma que Gabeira usa Ética do que "como um cafetão explora uma prostituta".

Maurício Caleiro disse...

Fico duplamente feliz que você tenha gostado do artigo e de ter sido citado. Tenho alguns dilemas de consciência com esse artigo, pois não quero dar a impressão de estar sendo intransigente e intolerante com Gabeira. Um dos comentários no Observatório me acusou de querer "denegrir" a imagem dele "de forma persecutória", mas não se trata disso, de modo algum. Não estou "fulanizando" a discussão, mas criticando um padrão de comportamento que me parece hipócrita.