domingo, 16 de agosto de 2015

As manifestações e as tentativas de desqualificação

Em uma democracia incipiente como a brasileira, em que a participação popular praticamente se restringe ao voto (obrigatório) e cujas campanhas são antes uma disputa pelo melhor marketing do que um tête-à-tête com as demandas da população, as manifestações públicas talvez devessem ser saudadas como fenômenos intrinsecamente positivos.

Isso não tem ocorrido – pelo contrário. Neste momento mesmo, o país está na iminência de duas mobilizações populares nacionais, de objetivos antagônicos entre si e, antes sequer que ocorram, ambas têm sido repetidamente atacadas, em um duplo esforço de desqualificação permeado de intolerância e limitador da própria ação política.


Atos em pauta
Marcados para hoje (16/08) em 270 cidades, os protestos contra a corrupção e o governo petista e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff vêm sendo articulados há meses, na internet e fora dela, e recentemente passaram a contar com o apoio oficial do PSDB. Tal apoio, ainda que a posteriori, conferiu, no meu modo de ver, um caráter de disputa partidária e de revanchismo que afetou negativamente a mobilização. Um problema agravado pela a decisão, por parte dos organizadores, de poupar Eduardo Cunha (PMDB/RJ), deputado e presidente da Câmara, embora este seja um dos politicos mais em evidência entre os acusados de corrupção pela Lava-Jato.

Já a reação está marcada para a próxima quinta-feira (20/06), com manifestações de apoio à permanência de Dilma no cargo e a denúncia do golpismo que, segundo os organizadores, permearia os protestos pró-impeachment. Sindicatos e movimentos sociais que orbitam em torno da administração petista garantem presença, gerando um duplo receio: que as manobras de cooptação de tais entidades, por parte do governo, se intensifiquem ainda mais; e que dinheiro público banque sua partiticipação no protesto. Tal suspeita foi agravada, na última semana, por uma série de eventos oficiais que não tiveram outra função do que manifestar apoio a Dilma, culminando com um inacreditável desfile em pleno Palácio do Planalto. Tempo, espaço e, portanto, dinheiro público servindo não à governança do país, em profunda crise, mas à autopromoção e blindagem pessoal da presidente.



Preconceitos a granel
Para além desses receios justificados, as criticas e tentativas de desqualificação dos protestos têm abusado do recurso a estratégias do tipo “a parte pelo todo”, ou seja, que identificam características negativas ou questionáveis de um participante ou grupo de participantes e as atribui automaticamente à totalidade dos manifestantes, sem a mínima base de sustentação para tal.

Para os que se utilizam de tal estratagema, é como se, nos protestos de hoje, uma faixa a favor da diminuição da maioridade penal, um cartaz esdrúxulo defendendo intervenção militar ou três ou quatro abilolados apregoando a volta à monarquia transformasse dezenas de milhares de manifestantes em carrascos de crianças e em monarquistas saudosos da ditadura. Ou, nas manifestações da próxima quinta, bandeiras vermelhas, o símbolo da foice e martelo ou uma camiseta de Hugo Chávez significasse que o governo Dilma é comunista ou bolivariano. Nos dois casos, isso se chama desonestidade intelectual.

O ponto máximo dessa estratégia foi, até agora, a divulgação, nas redes sociais, da foto de um carro, com um cartaz no vidro caseiro convocando para a manifestação, estacionado em uma vaga para deficiente físico – e uma legenda no estilo “é esse tipo de gente que vai na manifestação do dia 16”. Como se as dezenas ou centenas de milhares de pessoas que irão às manifestações praticassem ou mesmo concordassem com tal atitude (e como se não houvesse, entre os que marcharão no dia 20, eventuais violadores da lei e das regras sociais). É um truque tão barato de propaganda difamatória que causa espécie constatar que ainda cause efeito em pleno 2015. E, mais grave, que açule generalizações discursivas totalitárias



Extremos que se igualam
Pois, em um monento de crise extrema no pais, com 100 mil pessoas perdendo seus empregos a cada mês e o governo batendo recordes de desaprovação, achar que um público tão grande quanto heterogêno é formado exclusivamente por “coxinhas e reaças”, como quer o petismo, oscila entre a ingenuidade extrema e a má-fé evidente.

De forma inversamente similar, denota as mesmas vicissitudes a associação ao comunismo ou ao bolivariansimo de um governo cuja política econômica, comandada por Joaquim Levy, é marcadamente neoliberal.

Há toda uma gradação de posições, à esquerda, à direita e pra fora desta divisão binária, que escapa a tais esquemas simplistas e é propositadamente ignorada.

De minha parte, por exemplo, apesar das muitas e graves críticas que tenho em relação ao governo Dilma, não concordo com as demandas da manifestação de hoje, sendo neste momento contra o impeachment, por razões que já explicitei em outra ocasião. Não obstante tal discordância, parafraseando Voltaire, defendo “até a morte” o direito constitucional de meus concidadãos de se manifestarem, contra ou a favor.


Tocando o terror
Mas, infelizmente para a democracia, o petismo no poder, para deter a voz das ruas, parece disposto a mandar às favas qualquer escrúpulo. A aprovação, na semana passada, da “Lei Antiterrorismo”, enviada pela própria presidente Dilma ao Congresso, é altamente reveladora do medo do governo e do grau de violência insittucional, policial e jurídica que está disposto a usar contra as manifestações públicas.

Além disso, a medida constitui grave e evidente casuísmo, em um momento em que a mandatária conta com 71% de desaprovação e só 7% de aprovação e que, segundo a grande maioria dos analistas, os efeitos da crise e do ajuste fiscal apenas começaram a golpear os estratos menos favorecidos da população, apontando para a possibilidade de mais e maiores manifestações nos próximos meses.


Intolerância a manifestações
Confirma-se, assim, como um dos traços distintivos do neopetismo, o horror a manifestações públicas - um tremendo retrocesso em um partido que nasceu das multitudinárias greves operárias do ABC paulista. Em 2013, as Jornadas de junho foram inicialmente recebidas com desconfiança, que logo se transformou em aversão e incitação à violência oficial contra os manifestantes (seja pelo governo, através do envio da Força Nacional, seja por parte de governistas, incluindo lamentáveis casos de delação de manifestantes à PM).

E tal intolerância segue em fogo alto, como o demonstra a reação do petismo ante as manifestações de hoje e o silêncio obsequioso de seus blogueiros e ativistas virtuais ante a violência contra manifestantes pacíficos exercida pela PM/MG na semana passada, sob o comando -e o posterior endosso proptocolar - do governador Fernando Pimentel (PT/MG).

Trata-se de algo a se lamentar profundamente. Pois respeitar e ouvir atentamente as vozes das ruas a exercitarem o direito constucional de se manifestar -em vez de descartá-las a priori - é atitude essencial à democracia e transcende os indivíduos e os partidos políticos. Sem isso não há diálogo efetivo e as eventuais críticas se tornam a expressão estéril e egoista de uma posição pré-determinada.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

zejustino disse...

Prezado Maurício,

Creio que esta afirmação, "Mas, infelizmente para a democracia, o petismo no poder, para deter a voz das ruas, parece disposto a mandar às favas qualquer escrúpulo. A aprovação, na semana passada, da “Lei Antiterrorismo”, enviada pela própria presidente Dilma ao Congresso" não é compatível com as seguintes fontes: "Leis antiterrorismo preocupam movimentos sociais" - http://apublica.org/2014/03/leis-antiterrorismo-preocupam-movimentos-sociais/ ,e http://www.folhapolitica.org/2015/03/dilma-engavetou-lei-antiterrorismo-para.html. Petismo contra a democracia??? Petismo querendo deter a voz das ruas??? A Lei saiu do Senado e mesmo que tenha um senador petista entre os autores não quer dizer que o "petismo" (a Dilma, o Lula ou o PT, seus militantes e simpatizantes, concordem com isso). Aliás, o tal senador baiano que participou da elaboração da lei já está costeando o alambrado da direita. O petismo nasceu com a crítica e a contestação do chamado socialismo real. Terrorismo é o que faz um juizinho autoritário e falso moralista que prende cidadãos e os tortura psicologicamente para que delatem o que for conveniente aos patrões e capangas do togado. Terrorismo é o que o desgoverno paranaense fez com professores que se manifestavam nas ruas.

Mauricio Caleiro disse...

Caro `Zejustino,

A lei foi submetida ao Congresso pela presidente Dilma e nada menos do que 50 parlamentares petistas votaram a favor.

Quanto às tais "fontes" que cita, estão longe de constituírem parte respeitável da imprensa. Pelo contrário: só existem como resultadodos esforços governamentais para, através da Secom, manipular a percepção de realidade do cidadão/eleitor.