domingo, 26 de janeiro de 2014

Adulteração de fotos e a ética dos "progressistas"

A publicação, nas redes sociais, de uma foto dos protestos populares adulterada digitalmente, com a suástica nazista substituindo o que na imagem original era uma bandeira negra sem estampa, é, ate agora, a mais grave – mas de forma alguma a única – das evidências de que a campanha pré-eleitoral deste ano será muito suja, e de que o mal chamado "campo progressista", a despeito de sua postura de eterna vítima da mídia, não terá escrúpulos para valer-se de métodos por esta consagrados e promover a lambança.

O divulgador da foto – um dos principais "blogueiros progressistas" – alega ter copiado a imagem de uma campanha no Facebook (como se isso o isentasse de verificar sua autenticidade), mas, no mesmo dia, divulgou um registro fotográfico dos protestos dos camelôs cariocas como se das manifestações de ontem em São Paulo se tratasse - nos dois casos, com o objetivo de criminalizar o movimento popular paulista. Para piorar, tais armações, mesmo depois de desmascaradas, continuam sendo divulgadas à exaustão nas redes sociais, num processo que depõe contra a ética e a própria democracia, e que tem a clara intenção de desqualificar manifestações populares em prol da repressão oficial.



Da genealogia do esgoto
Ao menos desde os anos 90 foi se formando uma espécie de consenso, em setores do centro à esquerda do arco político, de que a mídia corporativa e os partidos com os quais ela se identifica seriam os responsáveis pelo baixo nível das campanhas eleitorais. A própria constituição da chamada blogosfera progressista e da atividade política individual na internet se deu, em ampla medida, como reação a tal estado de coisas, que chegou ao paroxismo nas eleições disputadas por José Serra, frequentemente acusado de se valer de dossiês e textos apócrifos. Caberá à história rever criteriosamente tais eventos e avaliar responsabilidades.

Mas em 2014 o fato é que José Serra não está mais em campanha e já temos ao menos um texto apócrifo (contra Eduardo Campos e Marina Silva) muito divulgado a partir de site oficial do PT e mentiras e armações como as citadas sendo repetidas à exaustão nas redes sociais – só que agora, em ambos os casos, o beneficiário de tais métodos inaceitáveis em uma democracia é o petismo no poder. 

Agrava a situação a inexistência de informações oficiais que permitam distinguir entre os blogueiros e ativistas digitais que exercem sua atividade por identificação com a causa e os que o fazem como compromisso profissional. Tal comportamento só faz alimentar os rumores – neste momento, intensos - sobre quem estaria na folha de pagamentos petista, lançando ainda mais suspeições sobre a blogosfera "progressista" e seus satélites nas redes sociais. Como apontou com propriedade o professor e ex-blogueiro Idelber Avelar, seria mais ético e proveitoso para todos que os remunerados assumissem publicamente sua condição.

Chama a atenção, no caso, o quanto um movimento político da internet que teve na crítica e no combate aos desmandos da mídia corporativa a sua razão de existência mostra-se disposto, cada vez mais, a mimetizar, por um lado, as transgressões éticas, estratégias desqualificadoras e baixa fidelidade aos fatos que caracterizam a atividade midiática no país e, por outro, os truques empregatícios historicamente associados à pior direita. Em relação aos primeiros quesitos, isso inclui desde a tática, muito usada por blogueiros com grande audiência, de postar um ou dois textos medianamente críticos ao governo em meio a uma enxurrada de artigos chapa-branca (algo que, em sentido inverso, a Folha de S. Paulo sempre foi acusada de fazer), passa pelo uso generalizado aos ataques pessoais agressivos (a marca registrada do jornalismo neocon de Veja) e chega à desfaçatez com que evidências são fabricadas (como não notar, no citado caso das fotos adulteradas, as semelhanças com a publicação, pela Folha, da ficha policial falsa de Dilma? Até as desculpas dadas em um e no outro caso se parecem).



À semelhança da mídia
Essas mudanças no modus operandi de blogs e perfis governistas fazem com que, na internet, o debate sobre as questões político-sociais mais urgentes ceda cada vez mais lugar a ataques desqualificadores contra os críticos do governo, os manifestantes nas ruas, os candidatos oposicionistas de 2014 (alguns dos quais eram ícones ou aliados do petismo até anteontem) e, de forma intensa, a Joaquim Barbosa, que desde o processo do "mensalão" passou a dividir com a mídia corporativa o papel de principal alvo do ódio chapa-branca.

Nas críticas a Barbosa, não raro com tinturas de racismo,  merece destaque a constatação de que mal disfarçam as motivações revanchistas e partidárias e concentram-se quase sempre em picuinhas e denúncias artificialmente infladas, que raramente se inserem em uma crítica sistêmica aos problemas estruturais da Justiça brasileira – mesmo porque isso demandaria, necessariamente, examinar a relação do governo que há mais de 11 anos comanda o país com o Judiciário (da qual, convém não esquecer, decorre a própria nomeação ao STF de Barbosa - e de outros sete juízes que atuaram no julgamento do "mensalão").

Convém frisar que não se trata, aqui neste texto, de defender a mídia ou Barbosa. Muito pelo contrário: o ministro do STF já deu varias demonstrações públicas de que seu comportamento irascível, pontuado de grosserias contra repórteres, destoa do que se espera de um homem público em sua posição num regime democrático. E a mídia corporativa, dada sua extrema concentração como oligopólio e o fato estar aliada, na raiz, aos interesses do grande capital, prossegue como um dos mais graves obstáculos para a conquista da democracia plena no país – para o que, na contramão do discurso histórico do PT, muito tem contribuído não só a recusa do governo Dilma em debater um projeto de democratização das comunicações, mas as vultosas verbas que a SECOM pontualmente repassa a empresas em situação pré-falimentar, nos âmbitos econômico e ético. Trata-se, isso sim, de apontar contradições essenciais e parâmetros axiológicos viciados que distorcem e tornam tendenciosas, a favor das forças ora no poder, as análises produzidas pelos "progressistas".



Medos e urgências
Parece razoável supor que, para além da questão da militância virtual remunerada, parte dessas distorções explique-se por paixões partidárias, identificação com o governo Dilma, tensão pré-eleitoral, atmosfera de turba e mesmo a existência de uma linha editorial invisível mas efetiva a permear, por osmose ou identificação de grupo, as análises advindas dos chamados "blogs progressivos".

Porém minha opinião é que o acirramento de tal comportamento nos últimos meses se deve, em ampla medida, aos esforços para renegar e sublimar as evidências, cada vez mais claras, de que há graves e reais ameaças à continuidade do projeto de poder da aliança governista e que o "paraíso petista" forjado justamente por tais blogueiros não passa de uma quimera. Pois ações temerárias - como as adulterações de imagens levadas a cabo neste final de semana - indicam desespero, e desespero denota medo. E as manifestações nas ruas são tão temidas pelos governistas não apenas por sua imprevisibilidade ou por um seu caráter alegadamente "golpista", mas por se constituírem no sintoma que denuncia o grau de enfermidade do país e a urgência das mudanças.

2 comentários:

Professor Eduardo Lima disse...

Como sempre arrebentando, deveria ter conhecido esse seu blog a alguns tempos atrás. Assim, teria sabido quem realmente é o #Umbiguim e sua bloguesfera peleguista.

Maurício Caleiro disse...

Antes tarde do que nunca, Eduardo!

Obrigado pelo comentário, abraço.