sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Mais Médicos: o governo recua

O governo Dilma anuncia, enfim, que recuou da decisão de obrigar os futuros alunos de medicina a dois anos a mais de curso, servidos no sistema público de saúde – o que, a despeito das negativas oficiais, configuraria serviço civil obrigatório. Ao invés disso, a residência hospitalar, de igual duração, passará a ser obrigatória, com o governo se comprometendo a assegurar condições para que ela seja cumprida no SUS.

Trata-se de um lapso de sensatez em uma questão marcada, por um lado, pelo autoritarismo e falta de diálogo; e, por outro, por um corporativismo caricato com tinturas de elitismo. No anúncio do Programa Mais Médicos, o governo Dilma Rousseff, ante o impacto das manifestações que tomavam as ruas do país, agiu de uma forma que vem se tornando usual: afoita, recendendo a improvisação, autoritária – pois sem nenhum debate prévio com a sociedade, os profissionais e setores envolvidos. No momento traumático da eclosão dos protestos nas ruas, tratava-se de criar um factoide que denotasse ação.

Os médicos, evidentemente, reagiram. Não estaríamos em uma democracia se não o fizessem, ante a truculência do anúncio e o disparate de parte do conteúdo do programa. No entanto, tal reação não se restringiu ao protesto fundamentado ou mesmo a uma reação corporativa questionável mas compreensível: incluiu ataques pessoais grosseiros contra a atual e o ex-presidente da República e gritos de guerra moralmente maniqueístas e comicamente elitistas, como "Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos".

Para completar, enquanto o país assistia a esse triste espetáculo, foram vindo à tona reportagens documentando que médicos do setor público, nos diversos níveis federativos e em várias localidades do país, assinam o ponto mas não trabalham – em um atentado contra o erário e contra a saúde da população, o qual desautoriza a empáfia corporativista dos manifestantes de jaleco que só veem a corrupção alheia.

Ante a reação dos médicos, o governo, ao invés de acalmar os ânimos e buscar uma solução negociada para o problema – como se espera em uma democracia, ainda mais se comandada por quem se autointitula de centro-esquerda -, não teve escrúpulos em incitar a população contra os médicos: a exemplo do que fizera com os professores universitários na greve de 2012, lançou uma agressiva campanha de marketing visando desqualificar os doutores, explorando a imagem pública desgastada de parte da categoria, para o que contou com a colaboração intensa da matilha de blogueiros e simpatizantes na rede, particularmente hidrófobos após o despencar da presidente nas pesquisas.



O fator eleições
Dilma preferiu, assim, com a birra costumeira, alimentar por semanas um desgaste político perfeitamente evitável, envolvendo uma área essencial para o desenvolvimento social do país e profissionais cuja formação requer muita dedicação, para um mercado profissional que está longe de ser o mar de rosas caricaturalmente descrito pela campanha desqualificadora petista. Mas, ao final, como prevíamos, veio o recuo, com sua admissão implícita de improvisação e equívoco, a suscitar a pergunta: justifica-se, uma vez mais, por parte do governo, essa falta de planejamento e esse excesso de malabarismo ?

Afinal, é forçoso observar que a aliança comandada pelo PT não é uma novata no poder federal, pelo contrário: está a cargo do país há mais de 10 anos e meio – tempo mais do que suficiente para elaborar um diagnóstico detalhado dos problemas de uma área social que, como as pesquisas mostram, a própria população considera prioritária. E para debater com os médicos, os pacientes, a universidade, os administradores públicos e privados, os especialistas e, aí sim, elaborar e instituir democraticamente um plano alicerçado para a questão da Saúde no Brasil.

Pois não é com alegadas panaceias de última hora, que mal disfarçam seu caráter eleitoreiro e, eivadas de autoritarismo, jogam a população contra os médicos e estes contra o governo, que se irá encaminhar soluções para a gravíssima questão da Saúde em nosso país.

Não se trata de ser contra ou favor do PT ou de qualquer outro partido que venha a estar no poder. O que o presente caso evidencia transcende o jogo eleitoral e as paixões partidárias: chama a atenção para a necessidade de se aprimorar os mecanismos democráticos do país para que os candidatos a cargos executivos sejam instados a apresentar um programa efetivo, detalhado em termos de objetivos, prioridades, fontes de recursos e cronograma, para áreas essenciais como Saúde e Educação – e, após a posse, assegurar que os cidadãos e a Justiça Eleitoral tenham meios de monitorar e cobrar seu cumprimento.

Do contrário, estaremos sempre sujeitados a governos que, apesar de mais de uma década no poder, só aparentam despertar para a urgência da questão da Saúde com o povo nas ruas, os índices de aprovação despencando e, com eles, a ameaça aos planos de eleger seu ministro da Saúde governador do mais rico estado do país.

A necessidade urgente de reformar a Saúde no país, para se tornar efetiva e perdurar, obrigatoriamente tem de transcender tais interesses imediatos.


(Imagem retirada daqui)

Um comentário:

Anônimo disse...

Claro e abrangente!
Parabéns!