quarta-feira, 17 de julho de 2013

O colunista Lula e os protestos populares



A estreia de Luiz Inácio Lula da Silva como colunista do The New York Times, para além de sua pontual contribuição à arena internacional, reinsere, de fora para dentro, a participação midiática do ex-presidente no debate público brasileiro, de onde tem sido sistematicamente alijada, numa operação deliberada de boicote e desqualificação comandada pela mídia corporativa.



Em seu primeiro artigo mensal, intitulado "Novas vozes no Brasil" e que repercutiu fortemente nas redes sociais, o ex-presidente se dedica a examinar o fenômeno dos protestos de ruas que irromperam em países árabes, se alastraram por democracias europeias em crise e, nos últimos dois meses, tomaram as ruas do Brasil. O "pulo de gato" do texto – e sua parte mais destacada pela imprensa – está contida neste período:

"Muitos analistas atribuem os protestos recentes a uma rejeição da política. Eu acho que é precisamente o oposto: apontam no sentido de ampliar o alcance da democracia e incentivar as pessoas a dela tomarem parte mais plenamente".

O jogo de palavras, embora não deixe de revelar perspicácia, baseia-se numa omissão: Lula finge desconhecer que, em meio a um movimento que tem como característica distintiva a diversidade de reivindicações, uma das mais identificáveis é a de que a politica contra a qual os jovens protestam é a institucional, partidária, especificamente aquela ora vigente no Brasil e da qual o ex-presidente foi um dos principais artífices, política esta que prioriza a hegemonia a qualquer custo em detrimento das identificações programáticas, dando pouca ou nenhuma atenção às implicações éticas – como a aliança entre Haddad e Maluf, apadrinhada pelo próprio Lula, exemplifica de forma icônica.



No papel de colunista estreante, ele revela estupefação pelo fato de os protestos populares não se limitarem a países não democráticos nem em aguda crise econômica – e aproveita para publicizar dados auspiciosos sobre desemprego e "expansão sem paralelo dos direitos econômico e sociais" no Brasil. Mas pouco se detém na análise dos porquês de, em um cenário tão alegadamente fabuloso em nosso belo país tropical, terem irrompido protestos em cadeia em grandes, médias e pequenas cidades brasileiras.



Negligencia, por exemplo, o quanto possa ter contribuído para tal explosão reivindicatória o caráter essencialmente antidialógico do governo Dilma Rousseff, caracterizado, em seus dois ano e meio iniciais, pelo isolamento palaciano, pela recusa sistemática ao diálogo com sindicatos, órgãos de classes, associações populares, ONGs e agências representantes de minorias; pela reação truculenta a greves e protestos, pela tendência a impor autoritariamente suas decisões - como a decretação unilateral e sem conversações prévias da MP 621, instituindo o Programa Mais Médicos, ilustra com propriedade, enfatizada pela subsequente desqualificação agressiva da classe médica, co-patrocinada pela militância petista.



A única explicação de Lula para a escalada das manifestações populares, emprestada de uma certa sociologia petista muito chegada a rotulações mas pouco a pesquisas empíricas que as corroborem, é, resumidamente, a de que justamente por ascenderem socialmente (em seu governo e no de Dilma), os jovens que vieram das classes D e E estariam mais exigentes em relação aos serviços públicos e à própria política.



Trata-se de uma explicação altamente questionável. Não fosse por outro motivo, porque supõe uma supremacia de um estrato socioeconômico muito específico nos protestos, o que não se verifica nas pesquisas sobre os eventos e contraria os diagnósticos da própria blogosfera governista, a qual cansou de martelar que as manifestações seriam eventos essencialmente burgueses, desprovidos de trabalhadores e do povão - o que seria, ainda segundo tais governistas, corroborado pela baixíssima presença de negros nos protestos.



Agora, que a análise levada a cabo por seu grande líder contraria os falsos diagnósticos que visavam servir à desqualificação dos protestos, os blogueiros mais bovinos já desdizem o que antes seguidas vezes afirmavam, saudando o petismo por mais este feito notável, o de colocar o povo nas ruas, marchando por seus direitos. Um pouco de coerência, senhores!



Lula, naturalmente, passa longe de tais picuinhas. Ainda que, no rescaldo dos protestos, não perca uma oportunidade de promover a seu governo e a de tentar retratar a reação de Dilma à melhor luz possível, procura posicionar-se, no texto, como um estadista que vê a situação de olímpica distância, alertando para o perigo da repressão violenta e das "soluções não democráticas" e procurando cooptar os jovens a quem se dirige diretamente: "quando você estiver irritado com a situação da sua cidade, do seu estado, do seu país, desanimado de tudo e de todos, não negue a política. Ao contrário, participe! Porque o político que você deseja, se não estiver nos outros, pode estar dentro de você."



Independentemente das críticas específicas que se possa pontualmente fazer às ideias e posições que Lula defende no artigo, a repercussão por este obtida mostra que a colaboração do ex-presidente com o diário novaiorquino merece ser saudada como uma novidade alvissareira, que amplia e recoloca no centro do debate a voz de um sujeito político dos mais relevantes, voz esta injustamente perseguida por uma mídia corporativa que, a despeito de suas falcatruas jornalísticas ou fiscais, segue sendo beneficiária de vultosas verbas públicas gerenciadas pela Secom – num permanente atentado à democracia brasileira que os governos petistas, por covardia ou interesses inconfessos, não lograram desarticular.



(Foto retirada daqui)

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