quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crianças, adultos e uma imagem

O blog da deputada Manuela D’Ávila está de cara nova. Mas continuam os mesmos o endereço e os nomes – que são dois, ao gosto da freguesia: “Há uma menina...” (assim, com os três pontinhos ao final) ou “Bola de Meia, Bola de Gude”. Este último em referência à música de Milton Nascimento e Fernando Brandt cuja estrofe inicial diz:


"Há um menino, há um moleque,

morando sempre no meu coração,

toda vez que o adulto balança

ele vem pra me dar a mão".


Esses versos sempre me fazem lembrar da bela - e para mim tocante - dedicatória com que meu pai me presenteou, quando eu tinha 7 anos, o livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain:


“Ao meu filho Maurício,

Para que a criança de hoje

não se perca no adulto de amanhã”.


Às vezes, como nos últimos dias, tem sido muito difícil achar essa criança dentro de mim. E as forças para “firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”, de que nos fala Mario Faustino, se dissipam em meio a mesquinharias minhas e alheias, um cansaço generalizado do mundo e trips egóticas fora de lugar. Hay dias que no se lo que me pasa.

Mas este não é um texto de lamentações pessoais: as mudanças do blog de Manuela – alguém que aliás, parece conduzir muito bem o tal “nobre pacto” -, embora para melhor, retiraram da diagramação visual um item central, que sempre capturava minha atenção por alguns instantes: a foto que encima este post.

Não sei quem é o fotógrafo por ela responsável, mas posso afirmar, sem dúvida, que é uma das minhas fotos preferidas.

O que salta à vista, em primeiro lugar, é a questão racial: a louríssima e branca Manuela em alegre e desibinida interação com uma criança negra, com a anuência entusiasmada da responsável por esta. Talvez isso não seja big deal em terras brasileiras, mas tenho certeza de que seria um exemplo maravilhoso em diversas partes do mundo.

Os contrastes no interior da imagem vão além da cor da pele: o nariz reto e um tanto pronunciado de Manuela - característica que eu acho muito atraente em algumas mulheres, talvez porque lhes confira mais personalidade -, sua altura consideravelmente maior do que a de seus interlocutores, e as posições por demais flexionadas e angulosas que assume - mais observáveis no braço e na boca bem aberta - fazem com que componha uma figura apolínea, em oposição ao jorro de felicidade relaxada e autenticamente dionisíaca que se depreende de mãe e filho, particularmente dos olhos da criança, que funciona como uma especie de centro irradiador de energia.

As roupas também nos dizem algo: enquanto o bebê, bem-penteado, ereto e vestido com uma camisa de gola, segura um papel na mão esquerda, Manuela, levemente encurvada e despojada, veste uma camisa de flanela em tom pastel - tão simbólica das gerações de jovens pós-68 -, com uma flor bordada como um adereço extra a dar-lhe, talvez, um toque meio hippie. Para os padrões convencionais, produz-se uma curiosa inversão: é como se o menino fosse o deputado e a jovem loira quem o assedia.

O nunca banal Roland Barthes, em A Câmara Clara – talvez o mais poético dos livros acadêmicos já escritos, no qual discorre sobre fotografia a partir dos poucos registros visuais de que dispõe supostamente relativos à sua mãe recém-falecida – sugere um sistema classificatório, no qual o punctum seria um dos principais elementos. Se bem me lembro, este designaria um detalhe, um ponto não central da imagem mas que, de acordo com um critério pessoal, desempenharia uma função denotativa relevante na foto.

Na minha opinião, o punctum da foto acima não está nem em Manuela nem no bebê, mas na mãe deste, mais exatamente no modo como esta france o cenho, embevecida pelo sorriso do que presumimos ser seu filho (o sorriso, aliás, é um ponto de identificação entre ela e Manuela, ambas com dentes bem brancos e alinhados, enquanto mal despontam no bebê seus primeiros dentes-de-leite frontais inferiores). É, em última análise, a reação da suposta mãe que confere autenticidade, corrobora e multiplica os sentidos epifânicos atribuíveis ao ato de interação social pela cãmera flagrado.

O resultado é uma foto tão boa que nos faz esquecer que se trata, afinal, de uma situação recorrente, e que, por botar, literalmente, o candidato bem na foto, tornou-se banalizada nos eventos políticos públicos: o afago em bebês alheios. Entretanto, a interação genuína ente Manuela e a criança, a espontaneidade alegre desta e o júbilo de sua presumível mãe nos faz relevar ou mesmo não se aperceber do clichê.

Deputada Manuela, o link pra o seu blog vai continuar ali embaixo, à direita, destacado no blogroll do Cinema&OutrasArtes. Mas não sem a certeza de que cada vez que acessá-lo sentirei falta de uma das imagens mais fascinantes e “do bem” da blogosfera. O que nos leva a constatar que certas mudanças são perfeitamente evitáveis, ao contrário do tornar-se adulto.

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