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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Méanrreatan Conéquition

Nem Chiquititas, nem Otávio Mesquita, nem Ataíde Patrese e seu microfone de ouro: o programa mais jeca da história da TV brasileira é o Méanrreatan Conéquition.

Além de jeca, é anacrônico, tendo em vista que sua razão de existir é a exaltação do modo de vida – perdão, uêi ófi láife – de um país que se encontra em plena decadência econômica, cultural e imperial.

Pois longe se vai o tempo em que se acreditava na “América” como a terra prometida. O sonho americano transformou-se num pesadelo real, que inclui, além dos preconceitos étnicos de praxe, um sistema de saúde excludente e desumano, a criminalização da pobreza e da negritude, e uma economia que respira por aparelhos.

No, literalmente, front externo, a política americana, mesmo comandada por um presidente laureado com o Nobel da Paz, consiste numa trama belicista aberta (como no Iraque e no Afeganistão) ou dissimulada (como na Colômbia, na reativação da 4ª Frota e nos golpes de estado fomentados aqui e acolá) cujo fim é alimentar a indústria de armamentos – que segue de vento em popa em plena crise - e cujo principal efeito colateral é a morte, a granel, de jovens inocentes. Nada de novo sob o sol.

Mais os quatro patetas embasbacados continuam lá, na bancada do Méanrreatan, com aquela postura de súdito colonizado falando sobre a sede do império e aquela empáfia deslumbrada de jeca tatu em noviorque (ou, o que é ainda pior, em Nova Jersey, no caso do inacreditável Caio Blinder - aquele que ficou triste porque as Olímpiadas não vão ser em Chicago, mas no Rio).

Muda o sentido do fluxo de imigração – agora os brasileiros retornam em massa, fugindo da crise norteamericana -, muda o pêndulo da economia mundial em direção à China (que detém milhões da dívida norteamericana), diminui o peso imperial dos EUA com a ascensão dos países emergentes – Brasil, inclusive.

Mas toda semana tem Méanrreatan Conéquition teimando em nos informar sobre Wall Street e o falido mercado financeiro, Broadway e o chatérrimo teatro mainstream americano, além daqueles artistas plásticos exóticos de noviorque cujo único mérito indiscutível é a cara-de-pau para afirmar que o que fazem é arte.

Os apresentadores, sempre empenhados em gritar ao mesmo tempo e o mais alto possível, são escolhidos a dedo. Para chefiar a trupe de deslumbrados, Lucas Mendes. Fosse eu um Houaiss ou, melhor, um Aurélio, e a mim coubesse escrever um dicionário, o primeiro sinônimo de “insosso” seria “Lucas Mendes”. O homem é mais serviçal do que um mordomo zumbizado.

Há Caio Blinder, que tem a personalidade de uma mosca e a quem um ex-colega de bancada, Paulo Francis, chamava de inseto e tapava os ouvidos com os dedos enquanto ele falava (diga-se o que dizer de Francis, era um reacionário dos piores, mas ao menos tinha cultura, personalidade e humor, quesitos em falta na bancada do Méanrreatan Conéquition).

Ah, tem também aquele economista com cara de moleque, que acha as demandas do mercado mais importantes do que as das pessoas, e o indefectível dioguinho. Mas sobre este me recuso a falar, afinal este é um blog familiar e temos de manter um certo nível. A única pergunta que não resisto a fazer é: se ele gosta tanto de noviorque, porque não fica por lá mesmo, escrevendo no Times? Não precisa responder...

Méanrréatan Conéquition é um programa chato, com uma pauta desinteressante, apresentadores sem apelo ou wit, e que insiste em cultuar uma relação de deslumbre com a cultura e a sociedade norteamericanas, perpetuando a exaltação a "coisas do Primeiro Mundo!". Ele fazia sentido durante os anos de hegemonia neoliberal, em que os políticos no poder e boa parte do país estavam convencidos que o destino do Brasil era seguir a reboque dos EUA, e em posição subalterna.

Os tempos são outros, e se a TV brasileira não se antenar com os rumos contemporâneos, quem vai ficar defasada e deixar de se comunicar com seus espectadores - que já migram em massa para a internet - é ela.

O fato de o Méanrreatan Conéquition ter-se tornado objeto de humor e escárnio é apenas mais um dentre tantos indicativos de que a hegemonia neoliberal chegou ao fim e um multiculturalismo de fato - e não apenas de discurso - toma forma. Passa da hora da TV brasileira atentar para o fenômeno.


(Imagem retirada daqui)

9 comentários:

iaiá disse...

já comecei rindo do título. o "Méanrreatan Conéquition" casa tão direitinho com o lado jeca envergonhado que é aquilo! nunca consegui assistir a um bloco inteiro, pensando bem, nem meio bloco. Todos ali são inssossos, pedantes e limitados, sabem disso mas fingem não saber. Acho que até o Saia Justa é melhor, o que já diz muito sobre a ruindade o Méanrreatan.

Maurício Caleiro disse...

Que bom que vc riu, este blog andava muito sério, né?

Não posse dizer o que penso de todos os apresentadores do ménrreatan para não ser processado (rs..)

Sobre o Saia Justa - que é melhor do que o MC, sem dúvida, mas isso não quer dizer muito - vou escrever em breve.

Pedro P. Tardelli - jazz_petert disse...

Lavou a alma, hem Caleiro? O "M.C." (what?) é um porre mesmo. Chega de pseudo-intelectuais tentando mostrar como nossa vida é fútil e a deles, bem escondidinhos atrás das telas de baixa audiência, cheias de emoção (verdadeiros vira-latas em busca de estilo, que tanto lhes falta). Quanto ao Saia Justa diria que estão no mesmo nível das "meninas do JÔ". Um lixo. Com o agravante da péssima Maitê tentar fazer um humor brincando de "brasileirinha inteligente e portugueses burrinhos". É muita decadência!

Lívio Nakano M.D. disse...

Caro Mauricio,

Falando no lado politico da cultura:

Casualmente, viajando de São Paulo para o interior, sintonizei em uma emissora de Rap e Hip-hop.

Rapaz, aquilo é que é engajamento, música de protesto e um belo soco na boca do estômago da nossa vidinha de classe média.

Se tiver oportunidade e tempo, pode conferir, Racionais MC's, Rappin' Hood, entre outros - ou sintoniza alguma rádio especializada na net.

Depois me conta do que achou - em tempos de PIG, é um alento assistir a manifestações tão ácidas, e ao mesmo tempo, tão verdadeiras.

Abraço

Livio

Maurício Caleiro disse...

Caros Pedro e Lívio,

Estou aqui às voltas com uma daquelas panes no computador que acontecem a cada 4 ou 5 anos... consegui salvar um longo artigo acadêmico cuja perda ameaçaria minha reputação seriamente, mas perdi uns 60MB de músicas.... (e estou apanhando para me acostumar com o Linux). QUE RAIVA!!!

Mas dei uma passada rápida para agradecer pelos comentários e dizer que concordo com os dois: mais acidez e menos pseudo-intelectualidade!

Um abraço,
Maurício.

Lívio Nakano M.D. disse...

http://classemediawayoflife.blogspot.com/

Se puder perder um tempinho...

Abraço

rafaelfortes disse...

Rapaz, esse texto me lembrou todas as certezas e valores em voga em um governo e um governante em particular: Fernando Collor de Mello.

Lembra da ode às importações?

Maurício Caleiro disse...

Lívio: sou "fãzão" desse blog da classe média, um dos melhores atualmente. Inclusive, ele tá no meu reader aí à direita faz já um bom tempo. É vc que faz? Parabéns!


Rafael, pior que eu lembro!!

Anônimo disse...

O pior foi ser escurraçado da comunidade do Manhattan quando chamei o Caio de reacionário...