quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Violência nas manifestações e o show de oportunismo


Há de se lamentar a morte de um ser humano, ainda mais se pacificamente exercendo o seu ofício, e em condições perigosas. Manifestar solidariedade com a interrupção abrupta de uma vida aos 49 anos, e com a dor dos familiares e amigos de Santiago Andrade, é, portanto, prioritário neste momento. Mas a solidariedade e o respeito ao luto são uma coisa; o sensacionalismo e a exploração da dor alheia para fins políticos, outra.

Talvez a maior parte das pessoas que leem este texto nunca tenha ido a uma manifestação pública do tipo das que vêm acontecendo no Brasil desde junho do ano passado. São eventos tensos, perpassados pela possibilidade iminente de violência, onde o risco à integridade física é real e imprevisível. Por isso mesmo, os profissionais de imprensa que os cobrem fazem uso de um equipamento de segurança que inclui capacete e colete à prova de balas. Infelizmente – e por mais desagradável, neste momento, que seja apontar essa lacuna –, Santiago não gozava de tais proteções, alegadamente porque a emissora não as forneceu. Porém, com uma ou outra exceção, na cobertura midiática e nos tantos artigos plenos de corporativismo que os analistas têm produzido após a morte do cinegrafista, tal omissão criminosa tem recebido pouquíssima atenção, talvez por esta estar quase exclusivamente direcionada ao revanchismo contra os manifestantes apontados como responsáveis pela tragédia.



Violência disseminada
O caráter violento das manifestações, derivado em grande parte do despreparo e abuso das forças policiais e de estas serem instruídas por seus superiores a reprimir - e não meramente a acompanhar - tal exercício constitucional do direito ao protesto, não se evidenciou a partir da morte de Santiago Andrade. Muito pelo contrário: há dezenas de jovens feridos com gravidade – inclusive casos de cegueira por bala de borracha - e flagrantes filmados de violência policial que incluem espancamentos diversos, uso abusivo de bombas, spray e gases, além do atropelamento intencional de uma jovem recém-torturada. Mais revelador: no mesmo dia em que o cinegrafista da Band foi atingido, outra morte ocorreu em decorrência dos protestos, mas como não se tratava de um profissional de uma grande corporação midiática - e sim de um velho jornaleiro, de nome Tasman Amaral Accioly -, a mídia não se ocupou em lastimá-la.

Essa indignação seletiva eivada de corporativismo acabou por reunir um arco inusitado de vozes do espectro politico-midiático, de Mário Magalhães a Reinaldo Azevedo, passando pelos mais fanáticos blogueiros governistas e pelos mais famosos apresentadores de telejornais, numa catarse que mais evidencia do que disfarça o intuito de criminalizar as manifestações populares, cuja independência e imprevisibilidade incomoda tanto setores da velha esquerda – desde órfãos do "partidão" a renitentes petistas - quanto o conservadorismo, além de atentar contra o "complexo de Tirébias" e o cerrado corporativismo dos jornalistas, cuja reação histérica ante a morte de "um dos seus" contrasta com a passividade resignada com que aceitam as milhares de mortes de jovens negros e pobres que a repressão periférica institucionalizada - esta sim, autenticamente fascista – promove com regularidade diária.



Pesos e medidas
A comparação com o pouco caso para com tanta violência pregressa - e até para com outra morte em contexto de manifestações populares - evidencia que a reação midiática, inflamada a partir do anúncio do óbito do cinegrafista, jamais foi a expressão de uma genuína indignação, cívica ou moral, mas o aproveitamento oportunista de uma tragédia que, ao contrário das várias anteriores, reúne quatro características únicas: permite culpabilizar os manifestantes (e não as forças policiais); está documentada, em registros videográficos diversos, do início ao fim (não possibilitando justificar-se como emprego necessário da força, como de ordinário as forças policiais o fazem); devido ao fato de registrar um profissional de mídia no exercício de suas atividades, facilita tanto a mobilização corporativista – de ordinário enorme entre jornalistas - quanto, de modo geral, a identificação do homem comum com o falecido (não por acaso, editoriais e colunas deram repetida ênfase à descrição "trabalhador morto no cumprimento do dever").

Deflagrado o show midiático, o que seria uma justificada comoção pela morte de um valoroso ser humano começou a dar lugar a um show de oportunismo e manipulação da boa fé da audiência. A aparente comoção dos apresentadores de telejornal foi tão somente a face mais visível de uma batalha pela opinião pública, com os atores políticos disputando um pedaço do cadáver para fazer avançar a própria agenda política, pois logo ficou claro que aquela era a oportunidade esperada tanto pelo governismo quanto pela mídia para criminalizar os protestos, simular a urgência da instauração de uma legislação antiterrorismo e impor o vigilantismo na internet via aprovação do projeto do Marco Civil. Já no dia seguinte, o governo Dilma comandava, a toque de caixa, tais votações. [Graças aos partidos de esquerda e a um rasgo de sensatez de parte da bancada petista, a votação do projeto foi adiada em duas semanas, mas continua na pauta de votações do Senado.]



O mundo ao avesso
Referindo-se a esse atual conluio fúnebre entre mídia e "blogueiros e comentadores de 'esquerda'", Bruno Cava vai ao ponto nodal da operação discursiva posta em prática:

"Invertendo a relação de causa e efeito, atribuem a responsabilidade sobre a violência para o lado dos manifestantes (é exceção e raridade machucarem alguém), e não na polícia (é regra e modus operandi machucarem muitos, sob ordens superiores). Nesse raciocínio invertido, os não-violentos deveriam cessar a violência para que os violentos de sempre não possam ter mais um pretexto para ser violentos."
Corroborando a descrição de Cava, a violência aparece nos relatos indignados que hoje infestam páginas e bites como uma tática voluntariosa e gratuita dos manifestantes, e não como o que de fato tem sido: uma medida reativa à violência desproporcionalmente maior, institucional e ilegal - pois violadora do direito constitucional à manifestação pública – sofrida.



Fatos negligenciados
Além disso, a atmosfera de turba, em que à justificada revolta por uma morte em tais circunstâncias somam-se sentimentos corporativos, interesses políticos inconfessos e o desejo de maior liberdade de repressão por parte do Poder, parece ter impedido que se atentasse para dois fatos de suma importância:

O primeiro é que não se tratou, a rigor, de uma tentativa intencional de assassinato, mas de uma fatalidade. Certamente foi uma imprudência deixar o rojão aceso no chão – e quem o fez deve arcar com as consequências legais – mas daí a se falar em homicídio doloso ou a comparar a irresponsabilidade do ato com o sadismo dos que deliberadamente prenderam um rapaz nu a um poste - como fez uma comentadora a quem muito respeito mas de quem neste caso discordo frontalmente - vai uma distância considerável, que passa pelo contexto violento inerente ao protesto em questão, pela imprevisibilidade da trajetória do rojão, pelo caráter aleatório da ação e, sobretudo, pela ausência de intencionalidade assassina.

O segundo fato que tem sido negligenciado é que se tratou, alegadamente, da ação isolada de dois indivíduos – cujo direito à presunção de inocência tem sido amplamente negligenciado, como observa o professor Pablo Ortellado. Portanto, sua tipificação como uma ação criminosa dos Black Blocs não passa de uma generalização, uma projeção injustificada que, num misto de wishful thinking e oportunismo, se quer impor aos fatos, à revelia destes. Achar que os manifestantes vão deixar de reagir violentamente à violência que sofrem tão somente por exercerem seu direito ao protesto é ingenuidade, assim como atribuir toda e qualquer reação a Black Blocs é generalização improcedente.



Bode expiatório
Mesmo assim, como seria despropositado culpar, de forma genérica, os manifestantes pela morte do cinegrafista, a mídia e o governismo na internet aproveitam a oportunidade para atribuí-la, embora sem prova alguma, aos Black Blocs, aos quais devotam um ódio figadal tanto por terem infundido coragem e determinação a muitos manifestantes quanto pelo caráter errático e agressivamente anticapitalista de sua ação. Muito se tem escrito sobre esse fenômeno, infelizmente por gente que não os conhece, não os entende, nunca os estudou e sequer sabe que denominam tanto um coletivo eventual de manifestantes quanto uma tática urbana.

Essa ignorância pode vir a provocar mais violência futura, pois os Black Blocs são o sintoma e não a doença, a reação do organismo a uma violência periférica cotidiana, a um brutalismo que transcende o âmbito da fisicalidade e impregna o inconsciente coletivo. Daí a identificação que desfrutam em amplos setores da juventude e o ódio que despertam em quem tem banzo por protestos bem comportados, como o Poder determina. Não é com a desqualificação a priori , com o incremento da já inaceitável violência policial ou com a eventual adoção de eventuais leis de exceção que se vai detê-los. Afinal, presume-se que estamos numa democracia.


Mudanças essenciais
A não ser que se aposte em um banho de sangue, a diminuição da violência nos protestos populares não virá nem através de leis draconianas nem com a criminalização dos manifestantes, sejam os dois bodes expiatórios da vez, um punhado de Black Blocs ou milhares de protestantes. Pois ela passa, em primeiro lugar, pelo diálogo aberto entre população e governos, item básico das democracias contemporâneas, mas que tem sido amplamente negligenciado no Brasil. Demanda, obrigatoriamente, a extinção da polícia militar e sua substituição por uma força policial profissional treinada, bem remunerada e orientada a respeitar a Constituição, inclusive no que tange ao direito à manifestação pública. Por fim, passa pela equação dos pornográficos índices de violência brasileiros, cuja reverberação nas passeatas é um pálido reflexo, mas cuja presença cotidiana na vida da juventude tende a ser introjetada e reproduzida. Paz sem voz é medo.





3 comentários:

Itárcio Claudicando Ferreira disse...

Cara, acho demais os seus artigos. Nota 10 para todos os que li até hoje, mas, não entendi quando você fala que "como fez uma comentadora a quem muito respeito mas de quem neste caso discordo frontalmente".
Com todo o respeito e consideração que as suas opiniões merecem, não entendo o porquê do seu respeito a tal apresentadora, ela é simplesmente uma fascista, preconceituosa, que prega ódio a tudo que cheira a povo.
Grande abraço!

Maurício Caleiro disse...

Itárcio, meu caro,

Agradeço seus comentários, sinceramente.

Quanto à "apresentadora", está havendo uma confusão. Não é a Rachel Sheherazade, não!!! No way! (note que eu escrevi "analista".)

E sim uma amiga querida, de esquerda, mas que escreveu um artigo igualando os torturadores do menino e os que acenderam o rojão. Eu preferi não identificar para evitar melindres. Mas vc não tinha mesmo como saber. Desculpe nossa falha...


Um abraço,
Mauricio.

Itárcio Claudicando Ferreira disse...

Maurício,

Eu que peço desculpas pelo meu engano.

Parabéns mais uma vez pelos seus excelentes artigos.

Grande abraço,

Itárcio.