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domingo, 2 de outubro de 2011

Bündchen e o comercial machista

Segue causando polêmica o comercial da lingerie Hope estrelado por Gisele Bündchen, contra o qual a Secretaria de Políticas para as Mulheres de entrou com processo ético junto ao Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária).

Polêmicas desse tipo, no Brasil atual, costumam gerar debates cada vez mais intensos, por duas razões básicas: a primeira é o dado político-partidário de que a ação do governo pode ajudar os esforços oportunistas da oposição para pespegar-lhe o rótulo de censor, como forma de impedir qualquer regulamentação do setor de comunicação. Trata-se de uma falsa polêmica, já que o Conar não pode proibir nada, mas tão-somente recomendar a agência e emissoras a não-veiculação do comercial.

A segunda e bem mais importante questão é que, à medida que se avançam (ainda que timidamente) costumes, propostas e legislações referentes às questões de gênero, o embate entre seus defensores e os que as associam negativamente ao politicamente correto - o qual veem como cerceador da liberdade de expressão – torna-se mais intenso. Nesse cenário inflamável, questionar um “simples comercial” sugere e deflagra intransigências.

Mas o comercial da Hope é sim sexista e ofensivo (confira a descrição crítica do blog do Chico Bicudo) - e muito mais do que os comerciais de lingerie de ordinário o são. Logo da primeira vez que o vi fiquei perplexo de não estar havendo reação na blogosfera engajada (ela viria dias depois).

Não que eu concorde que a exposição do corpo feminino de forma sensual (ou mesmo erótica para fins comerciais) seja necessariamente exploratória e degradante. Essa visão à la Andrea Workin do que seja a exploração do corpo feminino na pornografia acabou por degringolar numa ideologia anti-sexo que vem perpassando o feminismo institucional dos EUA nas últimas décadas, gerando uma mentalidade e um código de condutas altamente repressores da sexualidade da juventude norte-americana atual, com graves consequências formativas.

Infelizmente, tais correntes têm encontrado abrigo em setores do feminismo nacional, sob os auspícios de determinadas foundations. Porém a relação da mulher brasileira com seu corpo (e com seus regimes de exibição pública) é historicamente de outra natureza, bem como as raízes do feminismo brasileiro são outras – e me parece fundamental atentar para tais diferenças na discussão das questões de gênero em nosso país.

Isso posto, o que me parece grave no comercial não é a exposição do corpo de Gisele Bündchen de forma sensual, mas a transformação de tal exibição em moeda de troca por bens não-sexuais, como forma de reforçar a velha caracterização da mulher como um ser infantilizado e desastrado – pois incapaz de administrar suas contas pessoais e de dirigir um carro –, além de intrinsecamente dependente do homem –não só como o provedor do segundo cartão cujos limites ela também “estourou” e do carro que ela colidiu, mas, como fica implícito, de um salvo-conduto para continuar agindo de forma irresponsável sem assumir as consequências. Se isso não é machismo, eu sou o papa.

Mas o que poucos têm atentado é que o comercial é também sexista na caracterização do homem para o qual a modelo se sensualiza com a lingerie Hope. Ela, não contente em estourar os limites de seu próprio cartão de crédito, torra o dinheiro dele também, além de escangalhar com seu carro – e ao invés de se desculpar e combinar um meio de ressarcimento, limita-se a botar uma lingerie melhorzinha, fazer voz de criancinha e seduzi-lo, no melhor estilo cala a boca e...(sejamos polidos) beija. Em suma, ele é um zero à esquerda, que aceita passivamente tudo, escravo de seu próprio desejo sexual e incapaz de negociar limites, segui-los e cobrá-los. É de se questionar o que um mulherão como La Bündchen faz com um banana desses.

Porém, na atual lógica do sexo associado ao consumo – a qual o comercial da Hope açula – tudo faz sentido:o meninão paga para ter a bela mulher que compra com o sexo o direito de agir como a Lindsay Lohan depois da 19ª dose. Difícil imaginar uma publicidade negativa maior, que concebe a mulher como uma prostituta, o marido como um retardado, e as relações entre os dois como um mercado de carne.


(Man & Wioman in Cage (2001), de Jessica Renee Talley, retirada daqui)

2 comentários:

arnobiorocha disse...

Caleiro,

Talvez a mais equilibrada crítica que li em toda blogsfera, perfeito, concordo com todas considerações levantadas.

Arnobio

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Arnóbio.

Bom vê-lo de volta à caixa de comentários.

Um abraço,
Maurício.