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domingo, 14 de agosto de 2011

Haddad e as eleições paulistanas

As eleições para a Prefeitura de São Paulo, que ocorrerão no ano que vem, têm uma importância especial, que transcende o poder de comandar a maior cidade e o sexto maior orçamento do país: estará em jogo não só a manutenção ou a quebra da hegemonia demotucana no estado – prestes a completar duas décadas -, mas a movimentação de peças decisivas no xadrez eleitoral presidencial.


Demotucanos em guerra
O campo governista mostra-se, ainda e uma vez mais, preso da rivalidade entre o governador Alckmin e José Serra, este insistente em sua obsessão pelo caminho mais curto à Presidência, escoltado por seu pupilo Kassab (agora a bordo do PSD, partido que nem o mais experimentado dos analistas políticos tem sido capaz de dizer a que realmente veio).

As últimas sondagens internas indicam que Serra, pesquisas à mão, teria desistido de sair candidato, mas não se pode descartar de pronto sua candidatura, nem a inacreditável possibilidade de os paulistanos voltarem elegê-lo, mesmo após ter largado a Prefeitura para candidatar-se a governador, e o governo para concorrer à Presidência – e de estar claramente disposto a fazer o mesmo percurso de novo.

Por outro lado, com Serra lame duck, fragilizado por duas derrotas eleitorais, e com os índices de aprovação do atual prefeito Kassab em queda livre, o petismo enxerga nas eleições municipais uma grande oportunidade de ampliar ainda mais o raio de seu poder e de penetrar no bastião demotucano, conquistando uma posição privilegiada para influir nas eleições ao governo estadual e à Presidência em 2014.


Petismo entre a inovação e a experiência
O dilema central do PT concentra-se em apostar no novo ou insistir com candidatos mais experientes, conhecidos dos paulistanos, mas com histórico de derrotas em eleições majoritárias. É este o caso tanto de Aloizio Mercadante, 57 anos, atual ministro da Ciência e Tecnologia e um dos quadros mais preparados do partido, com sólida formação em Economia, quanto da senadora Marta Suplicy, 66 anos, que governou a cidade entre 2001 e 2005, com avanços nas áreas sociais, inédita atenção às periferias, caos nos transportes urbanos por conta de quedas-de-braço com empresários do setor e uma perseguição implacável por parte da mídia corporativa paulista. Ao tentar a reeleição, mesmo recebendo 2,7 milhões de votos, foi derrotada por José Serra no segundo turno; quatro anos depois, perderia para Kassab. Já Mercadante, não obstante a expressiva votação conquistada, perdeu as duas últimas corridas ao Palácio dos Bandeirantes.

A nova face do petismo em São Paulo, por sua vez, vem representada pelo ministro da Educação Fernando Haddad. Mais acostumado a contribuir com o partido com a produção de análises conjunturais do que através do exercício da política partidária, esse intelectual multidisciplinar (é graduado em direito, mestre em economia e doutor em filosofia, tendo publicado vários livros) destacou-se como uma quase-unanimidade positiva no governo Lula e manteve-se em alta na atual administração. Articulado, com pinta de bom moço, goza ainda do privilégio de ser o candidato preferido do ex-presidente. Aos 48 anos, mesmo que não venha a vencer as eleições, ganharia projeção e cacife para futuros pleitos.


Aposta e risco
Não é, no entanto, desprovida de riscos a candidatura Haddad. De início, é claro, aquelas relativas à sua estreia em eleições: a necessidade de criar empatia, o traquejo para fechar acordos, o estabelecimento de uma química de confiança com o eleitorado. Na semana passada começaram as rondas por bairros periféricos da capital e o candidato teria demonstrado não conhecer as lideranças locais, as quais é praxe chamar pelo nome. Enfim, nada que dedicação, intuição e uma boa equipe de marketing político não possam resolver.

Há ainda um paradoxo que perpassa a candidatura do ministro a prefeito e ao qual não se está dando a mínima atenção: a cidade de São Paulo, que conta com a USP e com a maior e melhor rede de ensino pago do país, é não só onde menos se vê os frutos da gestão Haddad, como um dos principais endereços da classe média conservadora e radicalmente neoliberal. Se se precisa conquistar parcelas desse eleitorado para vencer o pleito, como as projeções sugerem, um candidato que representa - ou durante um bom tempo representou - o investimento estatal maciço em educação talvez não seja a melhor opção petista.

Mesmo a medida populista, mal-explicada e desprestigiosa para a universidade brasileira de mandar, em conluio com a iniciativa privada, 75.000 estudantes bolsistas para frequentar sabe-se-lá-quais instituições internacionais não parece ter potencial de impressionar o jovem reacionarismo paulistano.


Os efeitos do fiscalismo
Mais grave, não se está prestando a devida atenção à possibilidade de que questões potencialmente bem mais danosas à candidatura possam advir do único legado que Haddad tem para sustentar seu projeto político: sua gestão no MEC.

Há desde questões pontuais, aparentemente comezinhas - como o veto ao ensino de História da África nas escolas de segundo grau, capaz de gerar a animosidade dos movimentos negros e de setores do professorado - até problemas potencialmente desastrosos, sendo quase certo, por exemplo, que as confusões que envolveram o ENEM, com vazamento de dados sigilosos e com provas apresentando problemas, sejam explorados à exaustão e ponham em questão a capacidade gerencial de Haddad. Mas esta é uma reação esperada, um risco calculado.

Porém, aquilo que pode se voltar com mais força contra a candidatura é justamente o que poderia ser considerado um dos maiores legados do ministro: a extraordinária expansão da universidade brasileira durante a última década. Pois acontece que o que deveria ser motivo de júbilo e prestígio eleitoral - ainda mais por se dar após o governo FHC, que tentou destruir a universidade brasileira – encontra-se, neste momento, por conta do rigoroso aperto fiscal adotado pelo governo Dilma Rousseff, sob risco de sucateamento (“aqui tudo parece que é ainda construção, mas já é ruína”, diz a canção).


Prato cheio para a oposição
É difícil acreditar que a oposição perderá a oportunidade de demonstrar ao eleitorado que, ao invés de contratar professores doutores e mestres, como é padrão internacional seguido pelas federais, tais unidades, assim como boa parte do PROUNI, vão ser tocadas por professores temporários – uma categoria ainda mais aviltada que a de professor substituto, com regime trabalhista precário e salário vergonhoso; que ao aumento exponencial das vagas para alunos não corresponde o aumento da contratação de docentes; que a terceirização e o déficit de funcionários grassam.

Do mesmo modo, os entraves para a compra de equipamentos e constituição de bibliotecas tende a ser explorado, assim como a insatisfação dos funcionários – que, aliás, neste momento se encontram em mais uma daquelas greves que a mídia não noticia (no que tem sido seguida pelos blogs chapa-branca).


Prioridade à educação?
Resta pouco mais de um ano até as eleições de 2012. Haddad pode vir a ser um candidato forte, com um potencial eleitoral que talvez nem Marta nem Mercadante possam, neste momento, aspirar – além de contar com a preferência de Lula, reconhecidamente um ás na arte da política, e que parece disposto a lutar por seu pupilo.

Mas é preciso que, até lá, as superlativas potencialidades evocadas pelas gestões de Haddad deixem de ser quimeras no papel e se concretizem na forma de um salto efetivo de qualidade e quantidade de oferta do ensino no Brasil. Para isso, é preciso superar o fiscalismo tacanho, neoliberal e mais realista que o rei que tem caracterizado a presidência de Dilma Rousseff e fazer com que a prioridade à educação anunciada na campanha e corroborada no discurso de posse dê o ar de sua graça e torne-se um fato.


(Foto retirada daqui)

2 comentários:

Carlos d'Andréa disse...

Belo post, Maurício! Tem um Minc no lugar de MEC, cheque lá depois. abs

Maurício Caleiro disse...

Ah-ra, eu sempre confundo os dois... corrigido.

Valeu, Carlos!