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quinta-feira, 28 de abril de 2016

O pós-impeachment e as narrativas de falseamento

A polêmica quanto ao impeachment ser ou não um golpe transformou-se em um não-debate, posto que choque de convicções. Cada um dos lados em confronto possui tanto argumentos irrefutáveis quanto um arsenal de truques retóricos e óbvias falácias. Para além de quem tem razão em tal impasse, preocupam-me duas de suas consequências diretas.

A primeira, já apontada por diversas vozes, é que, seja qual for a resposta a tal polêmica, ela devolverá ao PT o estigma do vitimismo, cujo culto, açulado pelos truques do marketing político tão eficiente quanto aético, já lhe foi muito útil nas urnas e pode vir a ser decisivo para reanimar a candidatura Lula em 2018.

A segunda, a meu ver ainda mais artificial do que a anterior, diz respeito ao modo como o legado petista tende a perdurar e a ser tratado pela militância, por simpatizantes e pelo pessoal do "voto crítico" - aquela turma que passa dois anos descendo a lenha no PT, acusando-o de fazer o jogo da direita e de, portanto, não representar a esquerda, mas, na hora do voto, volta a ser linha-auxiliar do petismo. Difícil afirmar se se trata de mera miopia política ou grave masoquismo, mas o fato é que já vimos esse filme em 2010, 2014 e na votação do impeachment, e não há razão para acreditar que não se repita em 2018, com Lula, a despeito de seu legado, que inclui o desastre Dilma Rousseff.

E é justamente a operação de maquiagem e falseamento de tal legado, já em curso, o que me interessa tratar aqui. Pois parece-me claro que a tendência narrativa petista será opor as medidas anticíclicas que Temer certamente tomará - ajuste fiscal, tunga nos aposentados ("reforma" da Previdência", em linguagem marqueteira), corte de direitos trabalhistas - não a medidas extremamente similares que Dilma tomou ou estava prestes a tomar (como aexpansão das "concessões" e a própria "reforma da Previdência", item prioritário em sua agenda pré-impreachment), mas ao ápice do governo Lula, com a expansão do crédito, das vagas na universidade, dos concursos públicos, dos lucros em geral.

Ou seja, será comparado um presente recessivo e em crise (em grande parte graças a artes petistas) com um passado atípico e já idealizado em seu momento mesmo de consagração (porque,entre outras aspectos, foram desprezadas suas consequências para a economia futura do país).

Tal tendência já é possível de ser observada atualmente, em forma embrionária: a administração Temer, segundo tal narrativa, representará o fim da ascensão de muitos à universidade (como se o FIES já não estivesse falido com DIlma), atentados a direitos trabalhistas (como se os dois governos petistas não tivessem mudado as regras de aposentadoria, seguro-desemprego, seguro-defenso e pensões), o término do período em que pobres viajavam de avião (como se a redução das rotas interioranas, do número de voos e de sua taxa de ocupação não fosse uma realidade presente), e por aí vai.

Ou seja, contra o então presente recessivo de Temer será contraposto um passado idílico e socialmente justo do petismo - como se este não se desdobrasse naquele, e como se o legado de Dilma (presente ou futuro) não fosse a pior crise econômica dos últimos 34 anos.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Brasil depois de domingo

Neste momento em que, com o desembarque do PP (e do PSD do "aliado" Kassab), o impeachment torna-se uma possibilidade iminente, a linha de defesa do governismo tem se concentrado em duas frentes: uma, a tradicional tática de martelar mentiras, freneticamente reproduzidas nas redes sociais por militantes e simpatizantes, cujo maior exemplo - até agora - é um desenho com uma contagem alterada dos deputados corruptos da Comissão de Ética que teriam votado pró e contra o impeachment (apontando, respectivamente, 35x2. quando o placar verdadeiro é 19x16).

A outra é a aposta na tática do medo, carro-chefe eleitoral do petismo e a principal responsável pela vitória de Pirro em 2014. Em sua versão pré-impeachment, ela apregoa que o governo Temer será o inferno neoliberal na terra, com privatizações a granel - inclusive de universidades -, "entrega" do jamais leiloado Pré-Sal, sacrifício dos (ora privilegiados) trabalhadores e aposentados, repressão a manifestações e movimentos sociais (2013, Copa do Mundo, alô?), além de um "mega" ajuste fiscal (o adjetivo anteposto é para diferenciá-lo daquele praticado por Dilma, digo, por Levy).

Contra tanta maldade, a enésima reavivação da promessa de que Dilma promoverá a tal guinada à esquerda (acredite... se quiser).


Questões em aberto
Ironias à parte, duas questões tomam corpo: 1) Quais as chances de isso realmente acontecer? 2) Na hipótese de Dilma sobreviver à primeira tentativa de impeachment, quão diferentes dessas seriam suas pollíticas?

Em um eventual governo Temer, como a situação econômica torna óbvio constatar - e seu discurso "que vazou" confirma -, deve ocorrer um aperto fiscal, o cenário recessivo tende a agravar o desemprego; um aumento significativo das privatizações está em pauta. Trata-se de uma perspectiva sombria, sem dúvida.


Tempo exíguo
Porém, a campanha para as eleições de 2018 está, na prática, há menos de um ano de começar (em março do ano que vem). Se o governo Temer fizer um terço das malvadezas recessivas que ora lhe atribui a militância governista, lidar com o rótulo de golpista e com a ruidosa oposição dos simpatizantes do PT será o menor dos seus problemas.

Pois, na prática, ele não disporá de tempo hábil para colher nada além dos efeitos ruinosos dos ajustes, tendo de fazer campanha eleitoral em cima de promessas de melhoras enquanto agrava-se a recessão e o desemprego. Ou seja, um cenário de sonho para o retorno do messianismo lulista, bradando o desempenho econômico do país durante a sua presidência.


Impeachment ou imobilismo
E como seria com Dilma, na hipótese cada vez mais improvável de não sair derrotada no domingo? Embora a memória seletiva da militância (e de alguns inocentes úteis) finja esquecer, a pauta da presidente, antes de parar de governar o país para se defender, leiloando cargos, tinha dois itens prioritários: a "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados) e a aceleração da privatização da infraestrutura ("concessão", na novilíngua petista; "vender o Brasil", quando quem privatiza são os tucanos). O desemprego disparara, a inflação projetara-se acima da meta, a atividade econômica e até a renda mensal caíram. Nada minimamente ao gosto da esquerda, nem mesmo da autodenominada "esquerda" governista (aquela que apoia Belo Monte e Força Nacional).

Nos próximos meses, com a economia em frangalhos - incluindo queda vertiginosa na arrecadação de impostos, devido à recessão -, uma base política esquálida e Dilma se equilibrando na corda bamba enquanto a oposição, majoritária, lhe atira bananas, de onde ela tiraria recursos e apoio político para, mesmo se quisesse, adotar políticas anticíclicas?


Platonismo político
Tais questões, embora mais do que relevantes, necessárias, tendem a ser, na verdade (se o impeachment não vier a significar um choque capaz de produzir autocrítica e rearranjos partidários profundos), meramente retóricas. Pois o petismo militante há tempos não está mais interessado na materialidade das políticas levadas a cabo por seus governantes e em seus desdobramentos. Prefere as substituir por uma visão platônica de esquerda, em que, por um lado, as ações de seu governo são, à revelia de efeitos nocivos e aspectos retrógrados, avaliadas pelo que poderiam ser ou representar; enquanto, por outro lado, a oposição é, invariavelmente, uma alteridade maléfica e conservadora, a nêmesis neoliberal (ainda que o neoliberalismo jamais tenha deixado de ser um elemento orientador de políticas oficiais durante os governos Lula e Dilma).

Tudo somado, em um caso ou em outro, as perspectivas, a curto prazo, são, sem trocadilho, temerárias.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Cunha e a moral cínica

Se confirmada, será um acinte a anunciada decisão de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) de começar a votação pelos deputados do Sul, como forma de "criar um clima pelo impeachment" e pressionar parlamentares do Nordeste (alegadamente mais propensos a votar em Dilma).

Mesmo na sessão do impeachment de Collor, em 1992, que contava com uma quase-unanimidade a favor (a qual não se verifica no processo atual), a votação foi em ordem alfabética, justamente para evitar acusações de favoritismo ou distorções no processo.

Não tenho dúvidas de que quanto mais evidentes as manipulações de Cunha, mais alimentarão o discurso do "golpe" e o ressentimento de parcelas dos eleitores, o que pode resultar tanto em irrupções de violência pública no curto prazo quanto, para 2018, num refortalecimento do lulismo.

É verdadeiro o argumento de que Cunha foi cobra criada pela aliança entre PT e PMDB no Rio, só tendo sido alçado à posição de poder que ocupa graças ao misto de irrealismo, incapacidade de articulação política e megalomania delirante de Mercadante e Dilma, cuja decisão desastrada de "desidratar o PMDB", principal partido da aliança, está na gênese da crise. Constatar tal retrospecto, no entanto, não me parece minimamente suficiente para justificar que sejamos complacentes com as tramoias de um político que age com total desfaçatez e à revelia da ética. A menos que o ódio ao petismo se sobreponha ao apego pelos ritos básicos da democracia.

Com todo respeito aos que pensam de outra forma, alegar que o petismo, no poder, tampouco tem respeito pela democracia, não obstante tratar-se de uma verdade cristalina - como se vê nas sucessivas violações aos direitos trabalhistas e previdenciários, no uso da Força Nacional para reprimir manifestantes pacíficos, no genocídio indígena, nos inúmeros casos de corrupção -, não me parece um argumento convincente de que, então, as violações democráticas contra o PT tenham de ser toleradas.

Pois tal retrospecto não significa, automaticamente, a concessão de um salvo conduto para que os críticos do petismo nos calemos ante as flagrantes violações diretas ou indiretamente ligadas ao processo de impeachment em curso - pelo contrário: a coerência, para mim, consiste em condenar todas e quaisquer violações ao Estado de Direito, mesmo quando elas se voltam contra aqueles aos quais póliticamente nos opomos. A mesma indignação contra as violações de direitos que fez com que me opusesse e as denunciasse, na era Dilma, faz com que as denuncie agora, ainda que contra aquela que julgo a pior presidente do período pós-ditadura.

O contrário disso me parece a adoção de um duplo padrão ético - ou, em outras palavras, a adesão a uma lógica de moral cínica.



(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Especialistas de estimação

Um dos efeitos mais bizarros da difusão das redes sociais é que tem especialistas, profissionais reconhecidos e gente com reputação de séria para respaldar virtualmente qualquer opinião, em qualquer disciplina.

Se aquela ideia do Swift de matar crianças de rua para fazer salsicha com a carne delas e acabar com a fome no mundo for lançada no Facebook ou no Twitter, aposto que vão aparecer nutricionistas e sociólogos com projeção nacional para respaldá-la.

E, na dinâmica atual das redes, em que - como várias pesquisas mostram - as pessoas tendem a se juntar em grupos com interesses e ideologias afins, o resultado é que praticamente qualquer posição, por mais esdrúxula e insustentável que seja, acaba corroborada por opiniões de peso.

Em última análise,o efeito é que muitos tornam-se convictos de sua posição - e da legitimidade desta, a despeito de critérios objetivos de validação.

Durante os anos 90, antes da web 2.0, disseminou-se o prognóstico de que a internet diminuiria significadamente o prestígio e a função social dos especialistas. Talvez esteja acontecendo o oposto: eles se tornaram onipresentes, independente de posicionarem-se com a maioria ou com grupelhos.

Desnecessário apontar que, em um cenário político de polarização extrema, tal processo atinge o paroxismo - e com resultados os mais nefastos.



(Imagem retirada  daqui)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chico, a Geni da vez



Vou falar de uma coisa que está me incomodando demais.
Acredito que Chico Buarque tenha o direito de defender suas posições políticas sem passar pelo verdadeiro linchamento moral e pelos ataques desqualificadores em sequência que passou a sofrer desde que assumiu uma postura contra o impeachment e de defesa do governo Dilma Rousseff.

Não há nenhuma acusação de desvio de dinheiro público contra ele, ele não está no rol de investigados da Lava-Jato. Só defende - a meu ver equivocadamente - o governo de um partido com o qual ele e sua família têm ligações de décadas. Não há benefício direto nenhum advindo desse apoio.

O assassinato de reputações dos que discordam assomou ao primeiro plano com o jornalismo neocon da Fox News, foi importado tanto por Veja quanto por blogueiros progressistas e tornou-se regra com a disseminação das redes sociais.

Mas ainda penso ser possível discordar de quem defenda o que para nós pareça indefensável sem desqualificar completamente a pessoa, anulando-a como interlocutor e como ser pensante.

Chico Buarque não é apenas um compositor e escritor reconhecidamente talentoso - é alguém que, na maior parte das décadas em que viveu até agora, manteve um compromisso com os rumos sociais e políticos do país. Neste momento as escolhas dele não coincidem com a da maioria de nós, mas quem está sendo autoritário e antidemocrático ao, por isso, descartá-lo, esculachando-o?

(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Temer e a realpolitik petista


A iminente possibilidade de Temer assumir a Presidência, não obstante execrada pela militância pró-governo, seria o ato final da realpolitik petista, este eufemismo "elegante" que o marketing político adotou para tentar legitimar uma política de alianças que está - mesmo no ãmbito latino-americano - entre as mais imorais e antirrepublicanas já praticadas por um partido nascido e ainda tido (por alguns desavisados) como de esquerda.

O surto de ulrapragmatismo acomete o PT após as três derrotas presidenciais de Lula e inclui, por um lado, a transformação do outrora ameaçador e desgrenhado líder petista no "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça, com fala mansa e conciliadora, ternos bem-cortados e barba aparada. De outro, o expurgo das mais combativas correntes internas do partido, em um processo cujo maior símbolo foi a expulsão de Heloísa Helena, em 2003, em decorrência de sua posição ante a reforma da Previdência (a primeira de uma série de tungas contra os aposentados promovidas pelos governos petistas).


Sem limites
Daí em diante, foi um verdadeiro vale-tudo: em um elasticismo desprovido de afinidades programáticas ou limites éticos, a tal da realpolitik - saudada e defendida com unhas, dentes e sarcasmo pela mesma militãncia que hoje urra contra o PMDB - aliou o petismo a Sarney, Collor, Maluf, Kassab, Delcídio, Kátia Abreu, "bispos" diversos, além de uma miríade de figuras do baixo clero. 

Dentre elas, um tal de Eduardo Cunha, desde sempre um escroque de baixo escalão, cuja ascensão no Rio foi patrocinada pelo mesmo consórcio PTMDB que elegeu Paes e Cabral e bancou - com aplausos entusiasmados mesmo em setores que se diziam de esquerda - o Estado policial simbolizado pelas UPPs, responsável, em 2013 e durante a Copa do Mundo, pela maior repressão a manifestações públicas das três décadas de democracia pós-ditadura.
 
Em tal cenário, só a ignorância plena, a má-fé ou o fanatismo induzem à conclusão de que, nos governos Lula e Dilma, o "Mensalão", "o Petrolão" e a corrupção disseminada são exceções, esquemas pontuais e secretos sobre os quais os governantes possam alegar desconhecimento - e não a consequência óbvia e direta de tal política de alianças.


Choque de realidade
Ainda assim, açulada por um governismo cego e fanático que durante anos foi predominante na blogosfera e nas redes sociais, uma "guinada à esquerda" foi desde o início anunciada em relação aos governos petistas, tendo cumprido um papel relevante (ou mesmo decisivo) nas últimas eleições - como parte fundamental do estelionato eleitoral no qual incorreu a candidata vencedora. 
 
Enquanto isso, no mundo real, o governo que ora agoniza "exibe os piores índices de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas da história, corta verbas da Educação, extingue direitos trabalhistas e sucateia o SUS", como aponta a psicóloga e psicanalista Vera Rodrigues, em sua corajosa carta-resposta a um desses manifestos ditos pró-democracia que proliferam nos últimos dias, recheados de signatários que se omitiram covardemente nas diversas vezes em que o massacre aos índios, aos jovens (e não tão jovens) manifestantes e à população não branca ou periférica manchou e relativizou a democracia brasileira em anos recentes, sob chancela governamental.



Cortina de fumaça
Claro está que, com o arco de alianças forjado pela realpolitik petista, qualquer "guinada à esquerda" jamais passou de miragem. Ele serviu, no entanto - e muito bem - ao modelo predatório e arcaico de desenvolvimento instalado no país, o qual, por sua vez, foi decisivo na instrumentalização das grandes negociatas que, mesclando dinheiro público a interesses privados, serviram ao enriquecimento de uns e à(s) eleição(ões) de outros, como as evidências judiciais colhidas no bojo da Lava-Jato - mesmo com os recentes desvios de conduta que macularam pontualmente a operação - atestam (a tal respeito, defende Vera Rodrigues: "Os excessos da Operação Lava Jato, ou do juiz de primeira instância que a conduz, devem ser combatidos nas esferas jurídicas e políticas que dizem respeito ao Judiciário como um todo, e ao Estado Policial, fomentado por esse governo sempre que lhe interessou").


Liquidação geral
Agora, com o PMDB fora do governo e Dilma fazendo, literalmente, qualquer negócio para chegar aos - tente não rir - 171 votos, o balcão de negócios do Planalto desce ainda mais baixo (se é que isso é possível), se voltando a políticos cujo grau de mercenarismo os leva a evitar os holofotes e a partidos como o PP (de Maluf, que deve levar nada menos do que o ministério da Saúde), o PR (do Capitão Wagner e de Tiririca), o inacreditável PEN (Partido Ecológico Nacional, que nunca defendeu sequer uma árvore) e o PSD kassabista (provável novo velho lar da ruralista escravocrata Kátia Abreu, darling de Dilma, a esquerdista). 
 
Mesmo antes do recrudescimento do impeachment, a pauta priorizada por Dilma II, após ter atacado direitos trabalhistas - ao alterar regras do seguro-desemprego, de pensões por invalidez e do seguro-defenso - era aumento de impostos via volta da CPMF e (mais uma) "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados, com violação de direitos adquiridos). Calcula agora, com o Planalto transformado em balcão público de negócios e alguns dos partidos mais retrógrados do país com amplo poder de chantagem sobre a presidente!


Estado de farsa
Em tal cenário e após tantos anos, continuar a propagar (e a acreditar em) qualquer laivo de esquerdismo ou progressismo ou o nome que se queira dar a políticas que priorizem o social, o desenvolvimento sustentado e os Direitos Humanos por parte desse governo é não apenas irreal - é deliberada e escandalosamente mentiroso.


(Imagem editada retirada daqui)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Folha e o colunismo moleque

Por uma dessas estranhas coincidências da vida, comecei a ler o livro que reúne o melhor das colunas de Otto Lara Resende para a Folha de S. PauloBom dia para nascer (Companhia das Letras, 1994) - no mesmo dia em que o diário paulista anunciava Kim Kataguri como seu novo colunista.

Difícil imaginar um contraste mais pronunciado, que melhor explicite a epifania de decadência e perda de rumo por parte de um órgão de imprensa que, nos anos 80 e 90, fez muitos nutrirem esperanças de um salto de qualidade no jornalismo brasileiro.

A prosa de Otto é fluente, enxuta, perpassada por uma ironia tão sutil quanto inteligente, mineiríssima, e por um criticismo político que denota critério, evitando tanto generalizações quanto um certo niilismo negativista que há tempos se tornou corrente. Informada sem soar pedante, pontuada por referências e comparações históricas, sugere uma mente arejada, que surpreende o leitor ao abordar o noticiário com ângulos e associações inusitadas. Leveza, cultura, inteligência.



Abandono da ética
Desnecessário afirmar que nada remotamente similar a isso é oferecido pelo novo contratado da Barão de Limeira – um garoto com Ensino Médio que, já em sua coluna de estreia, maltrata a língua portuguesa e a verdade ao chamar de terroristas cidadãos que, exercendo um direito constitucional. protestaram contra o aumento do preço das passagens de ônibus, sendo por isso massacrados pela PM paulista.

O uso de força excessiva e gratuita por parte das forças policiais, bem como o recurso a uma tática repressiva internacionalmente reputada como desumana – o “caldeirão de Hamburgo”, em que os manifestantes são cercados de todos os lados, sem possibilidade de fuga, enquanto bombas lhes são atiradas –, se, com exceções como o brilhante artigo de Eliane Brum no El País, passou quase em branco na mídia nacional, chocou colunistas internacionais e vem repercutindo muito mal no exterior. Não será surpresa se, num futuro próximo, vier a gerar sanções contra o Brasil, como ocorreu com o tratamento que o governo Dilma dispensa à questão indígena.

Porém, o jornal dos Frias, que sempre se auto-outorgou o título de bastião avançado da ética e dos Direitos Humanos, confirma, com a contratação do agitador semiletrado, que hoje restringe tais temas à cosmética do marketing.

Trata-se, no caso, de uma escolha deliberada, que é mercadológica (mirando o leitorado jovem e o nicho do jornalismo neocon, fenômeno nos EUA, que no Brasil tem a Veja como combalido carro-chefe), mas sobretudo política (a aposta na retomada da mobilização popular pró-impeachment).



Binarismo e desvio de função
A contrapartida, além do agravamento da debandada dos assinantes antigos, é que fornece mais munição para a eterna choradeira do petismo contra a imprensa em geral e contra a Folha em particular – um lacrimário que é hoje o principal bode expiatório a desviar as atenções (e impedir a autocrítica) das responsabilidades dos governos petistas, após mais de 13 anos no poder, pelo deplorável estado de coisas no Brasil de hoje. E que se baseia em uma quimera, pois finge ignorar tanto a colaboração frequente de mandarins do neopetismo - como André Singer, Breser Pereira e Jessé de Souza – quanto a atuação de colunistas como Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e de Janio de Freitas em seu outono chapa-branca.

De uma forma ou de outra, o jornal, em vez de aperfeiçoar sua atuação como divulgador de notícias e de análises que informem o leitor e melhor o capacitem para a formação de sua própria visão crítica, prefere investir no acirramento de uma luta político-ideológica binária, maniqueísta, em preto-e-branco sem contrastes, que já se desmontrou reiteradas vezes incapaz de fazer o país avançar.

Para além da intensificação de tal distorção da função da imprensa e da aposta em um beligerantismo ideológico primário, a nova contratação reduz, para além do suportável, o nível cultural, intelectual e de articulação de ideias que se espera do colunismo político.



Diagnóstico preciso
Trata-se de uma estratégia que, atendo-se às consequências propriamente jornalísticas, a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn disseca com propriedade e contundência em carta à ombudskvinna em que comunica o cancelamento da assinatura do jornal:

“Várias vezes, antes desta, estive para tomar essa atitude. No momento em que se cunhou a expressão "ditabranda". No caso da ficha falsa da Dilma: não só pelo fato, mas pelos seus desdobramentos, a incapacidade de reconhecer o erro, a canhestra justificativa de que não se poderia afirmar que a ficha era verdadeira nem que era falsa (brilhante jornal que, na dúvida, publica...). Na decisão de contratar o Reinaldo Azevedo.

Mas tudo tem limite.

Não se trata, obviamente, da minha rejeição a posições de direita. Eu sempre achei que um jornal deve buscar a pluralidade. Mas é preciso buscar também a substância. Como disse uma colega, também professora e jornalista, colunista não é o sujeito que simplesmente vai lá e dá uma opinião: é alguém que traz informação original e qualificada. Definitivamente, não é o caso desse rapaz, que não tem condições de estar em nenhum jornal que se leve a sério.

Todo jornal faz suas escolhas. Ao acolher certos colaboradores, escolhe também o público que quer preservar e, consequentemente, o que pode dispensar.”


(Foto de Otto Lara Resende retirada daqui)

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Grazie mille, Ettore!

 
 Morreu hoje, em Roma, Ettore Scola, um dos mais longevos e ecléticos cineastas italianos. Tinha 84 anos, 61 dos quais dedicados ao cinema.

Deixa-nos belos filmes, como “O Baile” (1983), em que conta a história do século XX sem diálogos, só com música e dança; “Um dia muito especial” (1977), então ousada incursão na temática dos gêneros sexuais, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, este no papel de um gay, no dia da visita de Hitler a Roma; além do maravilhoso "Nós que nos amávamos tanto” (1974), sua obra-prima, retrato de uma Itália – e de uma esquerda – que desapareceu no tempo.

Muito versátil, deixa sua marca em comédias ("Ciúme à italiana”, o corrosivo “Feios, sujos e Malvados”), documentários (“Cartas da Palestina”, “O adeus a Enrico Berlinguer”), dramas (“A família”, “Splendor”), filmes de época (“Casanova e a Revolução”, “A viagem do Capitão Tornado”). 

Mas sua marca registrada talvez seja o equilíbrio entre o dramático e o cômico, de um modo tal que este não se mostr ainoportuno ou se choca com aquele, antes instensificando-lhe os efeitos.

Em seu tempo, o reconhecimento de seu talento foi um tanto obscurecido por uma questão geracional, precedido que foi pelos revolucionários do Neorrealismo Italiano e pelo gênio histriônico de Fellini, a quem homenageia em seu último filme (“Que estranho chamar-se Federico”, realizado em 2013 em conjunto com suas filhas Paola e Silvia).

Mas a revisão de seus filmes revela – ou confirma – um realizador com grande sensibilidade e esmero, um notável diretor de atores e um roteirista perspicaz e ideologicamente coeso – caractrerística esta que, nesta era de crise de ideologias, torna a revisão de sua obra particularmente atraente.

Ao contrário de seus contemporâneos na crítica, a história há de reconhecê-lo como um grande entre os grandes do então grande cinema italiano.


(Fotos retiradas, respectivamente, dali, de lá e dacolá)

domingo, 13 de dezembro de 2015

Lançamento: Coleção Cinema Brasileiro

 A história do cinema brasileiro, feita de “mortes súbitas e renascimentos precários”, como define Roberto Moura,  ainda apresenta zonas obscuras, períodos e tendências pouco conhecidos fora dos escaninhos da academia ou da cinefilia militante. 

A produção concentrada entre o final dos anos 20 e dos anos 40, em que a ousadia estético-narrativa de Limite convive com as primeiras tentativas de industrialismo, talvez seja um dos exemplos mais eloquentes.

É exatamente sobre tal período que se concentram os três volumes da Coleção Cinema Brasileiro – Clássico ▪ Industrial, organizada pela professora e pesquisadora Daniela Gillone. 

Lançado esta semana, o primeiro volume tem como tema o cinema de Humberto Mauro (foto abaixo), prospectando  o veio temático que Paulo Emílio Salles Gomes pesquisara com alento e primor há mais de 40 anos, no livro clássico Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte (São Paulo: Perspectiva, 1974).
 

Olhares diversos
Prioriza-se a análise de sua produção nos anos 30 e 40 ( quando protagoniza a aventura industrial da Cinédia), mas sem deixar de levar em conta o ciclo de Cataguases (1925-29) e sua atuação como "cineasta-educador" no INCE (Instituto Nacional de Cinema Educativo), uma trajetória em "que se destaca pelos compromissos estéticos, políticos e sociais", como assinala a organizadora. 
 
Sheila Schwarzman, que há uma década renovou os estudos sobre o cineasta, perfaz um corte transverso na produção mauriana, com maior foco na fase do INCE (onde Mauro atuou de 1936 a 1964), período que também é privilegiado na análise de Caio Lamas. Joelma Ferreira dos Santos inventaria representações de brasilidade na fase sonora da produção mauriana, enquanto a minha contribuição ao volume examina a relação entre narratividade e representação no filme Lábios Sem Beijos (1930, foto abaixo). Já Marcelo Miranda interroga as linhas gerais da volumosa produção crítica sobre Mauro assinada por Ronaldo Werneck, cujo texto sobre cartazes dos filmes encerra o tomo.


 Acessibilidade
Com um projeto gráfico a um tempo sóbrio e refinado, o primeiro volme, com a versão integral dos textos em PDF, pode ser baixado gratuitamente no site da coleção. 

 O trabalho tem o mérito adicional de não se prender ao convencionalismo acadêmico: escritos por pesquisadores e críticos de cinema, os ensaios são mais curtos que o padrão burocrático que se tornou norma para papers, e refletem sobre os aspectos históricos, políticos e estéticos do cinema mauriano sem verborragia ou artificialismo teórico.  
  
Graças ao trabalho da Fundação Dorina Nowill para Cegos, o primeiro tomo está disponível para deficientes visuais e pessoas com  baixa visão através da tecnoogia DDReader, e a coleção será lançada também em DVD, que pode ser encomendado por bibliotecas e associações. 

Os demais volumes serão dedicados, respectivamente, ao citado  Limite, obra seminal do cinema autoral dirigida em 1929 por Mario Peixoto, e à era dos estúdios. Vale a pena esperar.



(Imagens retiradas daqui, dali, de lá e dacolá, respectivamente)


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A imprensa e a questão indígena na era Dilma

A denúncia contra o Estado brasileiro na Comissão de Direitos Humanos da OEA por tratamento cruel e desumano dispensado às populações indígenas passou virtualmente em branco na imprensa nacional.

Para além do comportamento da imprensa em relação ao caso em questão, o que nos interessa aqui examinar é como ela tem tratado – ou deixado de tratar - as razões que sustentam a denúncia na OEA. Que vêm de longa data e vão desde a violação impune das terras indígenas, passam pela violência recorrente que não distingue homens, mulheres e crianças, atingem a dramaticidade da mortandade infantil e dos recordes de suicídio e culminam com o que não poucos especialistas do tema qualificam como genocídio.



Informações escondidas
A maioria dessas denúncias sequer chega a ser noticiada pelas publicações de alcance nacional, só vindo à tona graças à atividade jornalística de sites como o do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), e à ação, na internet, de coletivos e cidadãos interessados na causa indígena, os quais têm no trabalho do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro uma de suas referências centrais.

Tal omissão midiática, que confirma um histórico de desatenção para com a questão indígena, vai na contramão do reconhecimento que, nas duas últimas décadas, esta tem recebido internacionalmente, no bojo da ascensão das reemergência das pautas ecológicas, da ascensão da biopolítica e do advento dos Direitos Humanos de quarta geração.



Mortes e torturas
Tal omissão jornalística é particularmente grave por se dar em um momento de acirramento de tensões e conflitos. Pois, bem antes da denúncia à OEA, os dois governos Dilma já vinham sendo sistematicamente acusados de negligência e de violência contra os índios.

Em dezembro de 2012, a Polícia Federal invadiu uma aldeia em Alta Floresta (MT) e matou Adenílson Krixi Munduruku, ferindo gravemente outros dois índios e sendo acusada, conforme noticiado pela imprensa alternativa, de emprego excessivo e gratuito de violência.

Um ano e meio depois, em Belo Monte, epicentro dos conflitos na Amazônia e obra-símbolo do modelo desenvolvimentista arcaico, estilo “Brasil Grande” da era petista, a Força Nacional foi acusada de atirar bombas e balas de borracha contra os índios que protestavam, suscitando investigação do Ministério Público Federal.



Choque assimétrico
No bojo e para além de tais graves eventos, um conflito latente marca a relação dos governos Dilma com a questão indígena, advindo da contraposição entre a visão tecnocrata e antiecológica que vinha caracterizando o modelo desenvolvimentista brasileiro pré-crise econômica - baseado no consumismo e em megaobras energéticas -, e o perspectivismoameríndio que informa a concepção de mundo indígena, para quem a preservação de suas terras e da fauna e flora circundantes afiguram-se não só essenciais à própria sobrevivência (mesmo se esta se der em diferentes graus de relação com o capitalismo vigente), mas à sobrevivência do próprio mundo.

Uma versão seminal de tal conflito estava, de certa forma, configurada já no embate pré-presidencial petista que, em 2006, opôs a “gerentona” Dilma e a “ecológica” Marina Silva. A escolha de Dilma como candidata representou, em si, a vitória de tal visão ultrapragmática e infesa a reivindicações de cunho ecológico (as quais são vistas como meros empecilhos).

O desastre ambiental que é Belo Monte e a pior política indigenista desde o período militar derivam de tal processo, que vem se alastrando ao longo dos dois mandatos da atual presidente e atingem o escárnio com a nomeação para o ministério da Agricultura - na cota pessoal de Dilma, e não por imposição da aliança - da ruralista Kátia Abreu (PMDB/TO), apelidada de “Miss Motosserra” e contra quem pesam acusações de trabalho escravo, crime ambiental e grilhagem de terras. Não por acaso, tal nomeação foi interpreta por setores indigenistas como uma senha ao ruralismo para a violação impune das terras demarcadas.



Questão indígena, eterna coadjuvante
Seria, no entanto, inexato afirmar que a imprensa negligencia por completo a violência relacionada aos povos indígenas. Ainda que com raridade, ela até aparece, aqui e acolá, nas páginas das publicações nacionais: com viés policial na cobertura dos conflitos de terra; nas projeções econômicas sobre os fatores delimitantes para a expansão do agronegócio; ou, por conta do alto índice de mortandade infantil e de suicídios, como nota de rodapé de reportagens sobre saúde.

O problema, que deriva diretamente da aliança cada vez mais forte entre as corporações de mídia e o grande capital, é a ausência de cobertura sistemática, a omissão ante a gravidade do drama humano e da violação de direitos, e a manutenção da questão indígena em um terceiro plano em termos de escala de valores editoriais - sobrepujada, em primeiro lugar, pela prioridade aos desígnios do mercado financeiro; e, em segundo, pelos ditames da supremacia econômica expansionista do agronegócio.

Uma imprensa que efetivamente cumprisse suas funções públicas haveria de fornecer a seus leitores informações e análises que, cotejadas, permitissem um melhor entendimento do necessário equilíbrio entre as demandas comerciais e mercantis do agronegócio, a obrigatoriedade de respeito aos direitos indígenas em sua plenitude, e a importância de que o governo exerça com imparcialidade e determinação o seu papel de mediador e de responsável pela obediência aos preceitos constitucionais.



Respostas insuficientes
Evidentemente, não é o que ocorre – muito pelo contrário – nem na imprensa, nem no governo, como ficou patente, uma vez mais, no comportamento do representante do governo brasileiro ante as graves acusações feitas à OEA, as quais limitou-se a rebater com respostas protocolares e lacunares, além de vagas promessas.

Em relação ao jornalismo televisivo, a situação é ainda pior. Pois além do misto de omissão e brevidade que também se verifica na cobertura impressa, há casos de sistemática perseguição e tentativa de criminalização dos povos indígenas, cujo exemplo maior – e mais repugnante – é o telejornalismo da TV Bandeirantes, que oferece uma cobertura desonesta e distorcida à incredulidade, tratando sempre os índios como invasores e sanguinários e os grandes latifundiários como vítimas. Execrável.



Hora decisiva
Se mantidos, os interesses e omissões que regem o tratamento da questão indígena – e sua cobertura pela imprensa - podem vir a ser decisivos em um futuro muito próximo.

Pois estamos em um momento em que algumas das piores previsões relativas à construção da usina de Belo Monte começam a se confirmar – como a ausência de meios de subsistência para os ex-ribeirinhos deslocados à força para conjuntos habitacionais periféricos, longe do rio de onde tiravam seu sustento. Com isso, cresce o receio pelo destino das três tribos que sobrevivem às margens dos 100 quilômetros de rio que deixarão de ser navegáveis e terão o volume de peixes drasticamente reduzido.

Ainda mais ansiedade desperta a possibilidade de que a PEC 215, que transfere da União para o Legislativo a prerrogativa de demarcar terras indígenas – e que já foi aprovada, por 27 a zero, pela Comissão Especial de Demarcação de Terras Indígenas -, venha a ser em breve referendada pelo Congresso. Dado o conservadorismo do atual parlamento, repleto de deputados e senadores ruralistas ou com laços com o agronegócio, afigura-se iminente tal propabilidade, que para lideranças indígenas e especialistas equivaleria, na prática, à legalização de um extermínio.



(Segunda versão de texto publicado originalmente no Observatório da Imprensa)


quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Delcídio e a derrocada moral do PT

"Na história recente da nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós, brasileiros, acreditou no mote segundo o qual uma esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a Ação Penal 470 e descobrimos que o cinismo tinha vencido aquela esperança. Agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. O crime não vencerá a Justiça. Aviso aos navegantes dessas águas turvas de corrupção e das iniquidades: criminosos não passarão a navalha da desfaçatez e da confusão entre imunidade, impunidade e corrupção. Não passarão sobre os juízes e as juízas do Brasil. Não passarão sobre novas esperanças do povo brasileiro, porque a decepção não pode estancar a vontade de acertar no espaço público. Não passarão sobre a Constituição do Brasil”
 No trecho acima reproduzido do voto que proferiu sobre o caso da prisão do deputado Delcídio Amaral (PT/MS), a ministra Carmem Lúcia coloca alguns pingos fundamentais nos is.


Primeiro, ela alude à enorme diferença entre o que o PT prometeu que faria, no poder, e o que realmente fez, que já era insatisfatório e se encontra cada vez mais diminuído por uma das piores crises econômicas da história do país – crise esta que deriva diretamente das opções econômicas e morais go governo petista. Na economia, representadas por uma política clientelista e descriteriosa de concessões de vultosos empréstimos a corporações próximas do poder e de isenções fiscais como forma de estimular o consumismo individual (em detrimento do incremento dos serviços para a coletividade); no aspecto moral, pela tolerância ou envolvimento direto com o maior caso de corrupção da história brasileira, o Petrolão.


Segundo, a ministra explicita o quanto um discurso de moralismo na política – uma das características distintivas daquele PT aguerrido pré-2002 - foi, seguida e repetidamente, não apenas abandonado, mas desmentido por escândalos sucessivos de corrupção envolvendo o partido e vários de seus membros – por duas vezes de maneira sistêmica, tal como reconhecido pela Justiça (por um STF cuja ampla maioria dos ministros fora nomeada por presidentes petistas, convém registrar).


O PT vive uma derrocada moral. Primeiro, o “Mensalão”; depois, o escândalo da Petrobras. Anteontem, numa página incrivelmente vergonhosa de sua história, o apoio a Eduardo Cunha, uma das mais nocivas figuras a ocupar uma posição de protagonismo na política institucional brasileira, em larga medida graças ao próprio PT, que, em aliança amoral e arrivista com a matilha do PMDB fluminense, o apoiou quando era um entre tantos malandros em busca de um mandato no Rio, e agora evita sua queda, receoso de que ela venha a significar o impeachment de Dilma.


Agora, ante um senador e líder de governo preso por ordem judicial, o petismo dá vazão a uma reação duplamente covarde: ora, num espetáculo de corporativismo e flacidez moral, tentando anular sua prisão no Senado; ora tentando ligá-lo ao PSDB e a Serra, embora ele tenha sido eleito pelo partido de Lula, do qual era lider no Senado, ao qual está filiado desde 2002 e pelo qual concorreu a senador e a governador do Mato Grosso do Sul.


Tanta conivência com a corrupção e tamanha e repetida traição ao que fora aos eleitores prometido já é de conhecimento do povo, a quem nas últimas eleições a candidata petista jurou defender e, em um caso explícito de estelionato eleitoral, traiu com um ajuste fiscal que ora os desemprega e pauperiza.


E a reação certamente virá, a volta do chicote no lombo de quem mandou dar, e há de se manifestar em breve, talvez já no próximo outubro. Então não haverá discurso de "golpismo" capaz de enganar os traídos.


domingo, 22 de novembro de 2015

A imprensa e a catástrofe ambiental da Samarco

A cobertura que os três grandes jornais do país dedicaram ao crime ambiental da Samarco, cuja devastação teve início em um distrito de Mariana e alastrou-se por centenas de quilômetros de Minas e do Espírito Santo, assassinando o Rio Doce, marca um dos pontos mais baixos da história da imprensa brasileira.

A performance dos diários, de início meramente protocolar, com informações insuficientes, em larga medida obtidas de fontes governamentais ou privadas com interesse direto na minimação do ecocídio e em sua não-caracterização como crime ambiental, só a partir do terceiro ou quarto dia passou a ser menos relapsa (mas ainda longe do aceitável).



Nome aos bois
Além disso, prolongou-se, na imprensa em geral, a insistência em denominar o caso referindo-se a Mariana, cidade histórica onde o rompimento da barragem se deu, e não a Samarco, a empresa mineradora cujo misto de negligência, incompetência e ganância o provocou, distorção de evidentes consequências ideológicas que só recentemente o Estadão abandonou.

A TV Globo protagonizou o mais explícito caso de violação da ética jornalística na cobertura do caso, ao ter um de seus cinegrafistas flagrado desligando a câmera quando um morador de Mariana passava a elencar dados sobre a culpabilidade da Samarco. Além disso, a revista Época, publicada pelo grupo Globo, trocou no último momento a capa que daria sobre o caso da Samarco por outra sobre os atentados em Paris – decisão que suscita polêmica, mas que sem dúvida revela ser falsa a alegação das principais revistas semanais de que, na semana anterior, não destacaram em capa a devastação ambiental que assolava Minas porque não teria havido tempo hábil entre sua deflagração e o tempo necessário à produção de capas.



Protagonismo das redes
Paradoxalmente, o jornal O Globo foi o menos pior dos grandes “jornalões”, capaz de ao menos levantar alguns aspectos relevantes em relação ao evento, enquanto o Estadão e, mais ainda, a Folha de S. Paulo praticaram um antijornalismo, que mal disfarçava o interesse em esconder o tamanho dos danos e a culpabilidade da empresa, temas que desde os primeiros momentos eram dimensionados e repercutidos com intensidade nas redes sociais.

Estas, aliás, tornaram-se o principal meio de informação e análise embasada sobre a catástrofe, dando de goleada na na mídia. No Facebook, sobretudo, cientistas anteciparam, com alto grau de acerto, a abrangência do desastre e seus efeitos sobre a população; advogados e procuradores desvelaram com precisão tanto a estratégia de minimação de danos dos advogados da empresa quanto o teor e o timing da ação do Ministério Público; ambientalistas predisseram o processo de “cimentação” do leito do Rio Doce e a mortandade de sua biosfera; biólogos marinhos forneceram projeções baseadas em modelos científicos acerca dos danos que a lama tóxica deverá causar ao chegar ao mar (afetando por décadas nutrientes da cadeia alimentar de 10.00km2 do Atlântico Sul e de três unidades de conservação marinha).



Tentativa de controle da informação
Também a inacreditável defesa prévia que o governador Fernando Pimentel (PT/MG) fez da mineradora Samarco e o fato de se dirigir à população do interior das instalações da empresa - onde funcionou, longe das vistas de moradores e da mídia, o Centro de Operações e Buscas responsável pelo socorro - tiveram a gravidade de sua significação analisadas com rigor, verve e com uma contundência que a imprensa ficou devendo ao leitor.

Ainda mais importante, merece ser destacado que, nas redes sociais, o drama da destruição de vidas humanas, animais e ecossistemas foi retratado direto da fonte, com expressão de subjetividade, protesto e indignação (e não com a dramaticidade direcionada e lacrimosa da cobertura à la TV Globo, em que o sofrimento das vítimas serve ao sentimentalismo piedoso, e não ao questionamento de culpados e modos de compensação).



Para além da crise
É evidente que, em meio a tal produção, difundiu-se muita boataria – e algumas bolas foras - mas, por um lado, nas redes sociais, há de se adotar critérios para selecionar perfis de especialistas e pessoas criteriosas (reconhecê-las é mais fácil do que se pensa); e, por outro, de se utilizar os meios que a própria internet oferece para checar suas informações. O saldo, no caso em questão, foi amplamente positivo.

Há de se reconhecer, porém, que a imprensa não tem – nem deve ter - a mesma velocidade ou o mesmo direito à proporção de erros das redes sociais. Por outro lado, isso não pode servir de desculpa para uma cobertura preguiçosa, omissa e não raro tendenciosa como a que, com raríssimas exceções – como a coluna de Míriam Leitão, um oásis de informação especializada –, fez do maior desastre ambiental da história do país.



Sem desculpas
Sobretudo porque, mesmo com as redações reduzidas e em plena crise do setor - e respeitado o tempo de produção do jornalismo diário - os jornais ainda têm recursos materiais, tecnológicos e humanos para produzir matérias e análises informadas e diversificadas - inclusive com o auxílio das novas tecnologias -, ainda mais sobre um evento que acontece na própria região Sudeste.

Ao falhar de forma flagrante em fornecer aos leitores um retrato condizente de um crime ambiental de grandes proporções, que afeta diretamente dois estados e centenas de milhares de pessoas, o jornalismo não deixa apenas de corresponder, uma vez mais, ao dístico de inspiração iluminista que clama para si, mas deixa a impressão – justa ou não - de que sua dependência comercial do grande capital, representado no caso pela joint venture internacional Vale/BHP Billion, fala mais alto do que o compromisso cívico que, com seu estímulo, alguns teimam em lhe atribuir.



Fatores principais
Por seu lado, embora a internet seja frequentemente acusada de ser um meio permeado pelo radicalismo e pelo acirrado maniqueísmo político, as redes sociais conseguiram – de uma maneira que a imprensa foi incapaz - estabelecer, além da culpabilidade da Samarco,  alguns aspectos importantes e contraditórios que ensejaram e tiveram papel determinante para a tragédia da Samarco. Tais como:

      1. As ligações da Vale e da Samarco com políticos de quase todos os partidos, para cujas campanhas deram volumosas contribuições, e o grau de indistinção entre público e privado que marca uma série de empreendimentos envolvendo as empresas, nos âmbitos estadual e federal;
      1. Os efeitos deletérios que a afoita privatização da Vale, em um cenário de desmonte do Estado e de ineficiência regulatória, legou ao processo, debitados na conta da presidência de Fernando Henrique Cardoso (PSDB/SP);
      1. O agravamento de tais deficiências em um modelo que, sem abrir mão da privatização, a combina contraditoriamente a uma política arcaica de desenvolvimento, em que as licenças ambientais não passam de empecilhos a ser “desenrolados” com a maior rapidez possível, características distintivas da administração petista que há 13 longos governa o Brasil – período mais do que suficiente para atenuar, ou mesmo reverter, o que rotula como “herança maldita” do governo anterior;
      1. A leniência na concessão de licenças ambientais e nas atividades de fiscalização e controle em âmbito estadual, irresponsabilidades divididas entre o tucano Aécio Neves (PSDB/MG) e o citado Pimentel.
A tudo isso soma-se a atuação deplorável da presidente Dilma Russeff (PT/RS) ante a tragédia, seu discurso titubeante, sua omissão no envio de ajuda material e humana, sua inacreditavelmente desrespeitosa demora de uma semana em visitar a região atingida, conduta que foi retratada e analisada nas redes sociais com a devida indignação – a qual a mídia, embora frequentemente acusada de “golpista”, preferiu atenuar ou mesmo ignorar.



Arcaísmos
O sofrível desempenho da imprensa na cobertura da tragédia de Mariana preocupa e constrange, mas não surpreende. Assim como acontece com editorias como Saúde ou Ciência, o tratamento da temática ambiental tem sido marcado, há tempos, por deficiência e omissão.

Trata-se de uma lacuna e um anacronismo cuja gravidade cresce em proporção à importância que o ambientalismo recebe – ou deveria receber – nas sociedades contemporâneas, numa dinâmica que determina se será dificultada ou facilitada a ocorrência de tragédias ambientais perfeitamente evitáveis - como a perpetrada pela Samarco.



(Imagem retirada daqui)