A elevação de Lázaro Ramos ao posto de galã da principal telenovela global tem gerado controvérsias. Pulula nos blogs e redes sociais um burburinho: alguns questionam a beleza física do ator (que não satisfaria os padrões vigentes), outros apontam inverosimilhança; muitos simplesmente dão vazão a seu abjeto ódio racial.Graças a estes últimos, não restam dúvidas de que há um forte componente racista em muitos dos questionamentos feitos ao galã negro. Isso é inegável. Mas seria essa a única ou mesmo a principal razão para a polêmica?
Sem que permita qualquer relativização do racismo de muitas das manifestações – e do quanto este é abominável -, a possibilidade de que a má recepção inicial ao conquistador personificado por Lázaro se deva a razões objetivas, não concernentes à cor da pele, traz à tona e evidencia ambivalências e paradoxos recorrentes e aparentemente insolúveis que perpassam muitas das discussões sobre temáticas raciais.
ProtagonismoLázaro Ramos é um grande ator. Ao lado do conterrâneo e companheiro de geração Wagner Moura – com o qual contracenou em alto estilo no shakesperiano Cidade Baixa – tem se mostrado, muito provavelmente, o maior talento dramático masculino surgido nos últimos 15 anos.
Mas seria realmente um homem muito bonito, que chama a atenção, como se espera que um galã de novela o faça? Trata-se de uma pergunta desagradável e fútil, mas inescapável.
Mais: no formato estafante de gravações imposto pelas telenovelas atuais e numa trama tão rocambolesca que, logo no início, um casal flerta enquanto um avião cai (!), conseguiria Lázaro manter um alto padrão de atuação ou resvalaria para a canastrice?
Conflito de imagem
Outra questão, talvez mais importante, diz respeito à imagem que o ator projetou de si mesmo na televisão. Embora tenha participado, em papéis dramáticos, de filmes nacionais altamente elaborados - com destaque para Madame Satã, de Karim Ainouz (foto acima) - na telinha sua figura está muito associada a tipos cômicos, graças a novelas e à série Ó, Pai, Ó.

Uma amiga do blog resume os efeitos dos fatores acima na má recepção do galã de Insensato Coração:
“O biotipo dele cola como galã engraçado, entende? Não para galã lindo tipo Denzel Washington... falta pegada”... "E me parece que ele ainda não achou o tom do personagem”.
É apenas uma opinião pessoal, mas com fundamentação argumentativa. Pode-se concordar ou não com ela, mas não simplesmente descartá-la como racista, sob o risco de incorrer em injustiça e truculência, tal como fazem os que atacam Lázaro movidos pelo ódio racial.
Perfil discreto
Uma terceira questão diz respeito ao modo como Lázaro administra sua figura pública. Ao contrário do protagonista de Tropa de Elite, falastrão e de uma ingenuidade política a toda prova, Lázaro faz questão de manter um certo low profile.
E talvez até aí seu modo franco de ser trabalhe contra seu personagem Don Juan. Sobre este, que vive cercado de ao menos duas loiras, ele afirmou recentemente, com modéstia peculiar: “Uma mulher já dá muito trabalho. Imagine duas?”. Convenhamos, na era das façanhas sexuais publicizadas, não é o que se costuma ouvir da boca de um galã global...
Racismo impregnado
Como já dito, não restam dúvidas de que há muito de racismo nas reações – algumas extremamente agressivas – contra o conquistador personificado por Lázaro. Mas são manifestações que certamente aconteceriam se o personagem estivesse na pele de outro ator negro, pois o objeto de sua ira é a possibilidade de um galã com tal perfil étnico-racial.
Muito provavelmente há, nessas reações, um forte componente reativo contra a ameaça suscitada pelo mito do homem negro sexualmente insaciável e bem-dotado - não obstante o fato que, como o demonstram os estudos raciais, essa própria caracterização acaba por constituir-se em mais um fator de racismo, ao circunscrever os negros a um determinado estereótipo sexual fetichizado.
É possível, por outro lado, que muitos dos que rejeitam, com argumentação coerente, a performance de Lázaro Ramos como galã estejam sob influência inconsciente de um racismo pervasivo.
Ainda assim, a hipótese de que Lázaro não esteja mesmo bem no papel não pode ser descartada – até porque recusar, devido exclusivamente à cor de sua pele, a possibilidade de que um ator esteja atuando mal seria incorrer no mais contumaz racismo.