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domingo, 25 de outubro de 2015

Mídia golpista? O mito do PIG em questão


No decorrer da era petista, o modo recorrente como o jornalismo midiático desviou-se de suas funções, incorrendo em demarcado partidarismo, consolidou, em setores do público, a imagem de uma pronunciada oposição entre mídia e governo.



Além de corroborada pela presidente da Associação Nacional de jornais, Maria Judith Brito –para quem os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país” -, tal oposição foi ratificada, entre tantos outros feitos notáveis da mídia brasileira, pela transformação editorial da revista Veja em porta-voz do neoconservadorismo a la Fox News; pela adoção, pelos principais órgãos escritos e televisivos, de um mesmo e restrito time de comentaristas políticos raivosamente antipetistas; pela repetida transgressão de princípios basilares da ética jornalistica, culminando com a publicação, na capa de uma edição dominical da Folha de S. Paulo, da ficha policial falsa da então candidata Dilma Rousseff.



A animosidade de grande parte da mídia para com o petismo é, portanto, sobejamente conhecida (mas isso não impediu que o PT elegesse quatro presidentes em seguida e, de quebra, o prefeito da maior cidade do país, o que muito nos diz sobre o real poder da mídia).







Reação irônica

Tal comportamento, inserido em um quadro geral no qual o setor de comunicação reflete as assimetrias socioeconômicas do país, excessivamente concentrado numa plutocracia familiar e eivado de vícios clientelistas, acirrou ainda mais os ânimos. Por sua vez, os meios petistas de comunicação, concentrados na internet, reagiram elegendo a mídia corporativa como inimigo preferencial, a ela referindo-se com o uso de uma sigla tão sarcástica quanto pregnante: "PIG" [Partido da Imprensa Golpista].



A principio uma reação bem-humorada e denunciadora dos desvios de função do jornalismo midiático, tal estratégia, entretanto, ao tornar-se a norma repetida ad eternum, foi perdendo o seu poder de choque e, ao fornecer um sempre mesmo diagnóstico negativo a priori, anteposto ao exame analítico do objeto caso a caso, acabou relativizando ou mesmo anulando a própria crítica que intenta perfazer.







Omissão e apoio

Ainda mais porque o exame cotidiano e criterioso da mídia nacional, sobretudo a partir da ascensão de Dilma Rousseff ao poder, tende a revelar padrões não binários e muito menos maniqueístas do que a generalização peremptória que o rótulo “PIG” implica.



Se não vejamos: visto a partir da esquerda, um dos maiores erros estratégicos do petismo foi não construir sua própria narrativa, deixando-se aprisionar por um sistema de valores ditado justamente pela mídia e pelo mercado. Enquanto a economia "ia bem" (segundo tal quadro valorativo) funcionou, e os militantes e entusiastas petistas vibravam como torcidas de futebol a cada divulgação de índice econômico, a cada afago de porta-vozes do mercado, a fossem estes agências de classificação de riscos, colunistas da imprensa ou a The Economist - entes hoje execrados.



E como se comportou, de maneira geral, a mídia ante as sucessivas privatizações - “concessões”, na novilíngua petista – de aeroportos, rodovias e do Pré-Sal levadas a cabo pelo atual governo? Qual abordagem predominou ante o recente corte de direitos trabalhistas e previdenciários efetuados por um governo que, na campanha eleitoral, comprometeu-se a não alterar tais direitos “nem que a vaca tussa”? Por quantas vezes noticiou e expressou sua desaprovação ao genocídio indígena e à inação do governo? Como tem reagido ao fato de que os índices de reforma agrária do governo Dilma são menores do que os de FHC? Com que frequência e destaque tem retratado o processo de sucateamento do Ensino Superior ora em curso, que se expande quantitativamente mas sem a correspondente evolução qualitativa em relação a salários, plano de carreira e condições de trabalho de professores e de funcionários, além de laboratórios, salas de aula e bibliotecas insuficientes e por vezes improvisadas?





Por novos modelos

A resposta a estas questões denota, de forma clara, que a ação midiática não se dá exclusivamente nos moldes da reatividade negativa, como quer o governismo. Quando lhe convém, adota posturas que variam da omissão cúmplice ao endosso de medidas governamentais, mesmo quando elas tendem ser prejudiciais ao interesse da maioria do povo. Evidencia-se, assim, a impropriedade de se utilizar um mote totalitário e generalista para carimbá-la de antemão como instituição golpista. Mais sentido faria um modelo analítico que fosse além do binarismo mídia-governo e atentasse para as relações entre a notícia e os interesses classistas, econômicos e ideológicos da mídia.



O rótulo “PIG”vem há tempos servindo como desculpa multiuso e cortina de fumaça a justificar e impedir a análise dos erros das administrações petistas, o que acabou gerando um alto custo ao pais, por impedir ou retardar a perpcepção da crise em gestação e de sua gravidade. Em última análise – e ao contrário do que o petismo apregoa – se, durante a campanha elitoral, a mídia tivesse cumprido o seu papel com um mínimo de rigor, denunciando a real situação da economia brasileira país, Dilma Rousseff jamais teria se reelegido. A mídia que o governismo denuncia como golpista foi, nas verdade, gravemente omissa – e para benefício do próprio petismo.







O caso das agências de rating

Mas, para além do atípico período de campanha eleitoral, poucos episódios políticos recentes têm ilustrado com tanta propriedade a falsidade da dicotomia mídia versus governo do que a cobertura que vem sendo dispensada ao ajuste fiscal. A atuação midiática, que já se mostrava há tempos longe do estereótipo projetado pelo governismo, passou a deste distoar ainda mais com o anúncio do rebaixamento da nota do Brasil, primeiro pela agência de risco Standard & Poor's, depois pela Moody's, com a decorrente perda do grau de investimento.



O que se assistiu no noticiário, de forma geral, não foi, de modo algum, a algo que se assemelhasse a uma reação revanchista, de criticismo desmedido ou raivosa – pelo contrário, grande parte da imprensa e da mídia televisiva do país pareceu desde então engajada em uma espécie de “campanha cívica” pelo ajuste fiscal. A qual dá mostras de incluir um esforço extra para popularizar e “tornar simpático” o reservado Joaquim Levy e para transformar o aumento de impostos em um leve esforço individual pelo bem do país. Que ”PIG” bonzinho...







Levy na Globo

O deslanche de tal campanha se deu na mesma quarta-feira em que a nota do Brasil fora rebaixada pela primeira vez, com uma entrevista ao vivo do ministro ao Jornal da Globo, logo após o futebol. Precedida por uma daquelas simplificações que envergonham o jornalismo econômico – com os apresentadores afirmando que o rebaixamento da nota do país corresponderia, para o cidadão, a ficar com o “nome sujo” na praça – a entrevista serviu, sobretudo, para o ministro vender o seu peixe.



Aludiu à dificuldade de fazer cortes na Saúde e na Educação, omitindo que este ano já os fizera, e de forma significativa (são as duas áreas mais recortadas por sua famosa tesoura) e chegou a cometer platitudes como “a baixa popularidade nos dá uma oportunidade para aumentá-la”, sem ser questionado pelos entrevistadores.



Uma comparação da entrevista de Levy com aquelas feitas com candidatos à Presidência a cada eleição pelo mesmo Jornal da Globo dá a ideia precisa do comportamento de um atipicamente cordato e pouco incisivo Waack e de uma protocolar Christiane Pelajo como inquisidores: nenhuma interrupção, nenhuma insistência, nenhuma contestação às afirmações e supostos dados apresentados - apenas um repertório de perguntas para que o entrevistado dissertasse à vontade. Contraposto, por exemplo, ao bombardeio verbal de Ana Paula Padrão e Franklin Martins contra Anthony Garotinho, foi um passeio no parque.







Campanha “cívica”

No dia seguinte ficou claro que não se tratava de um ato isolado: excetuada a maioria dos colunistas de opinião, o que se leu e viu, na imprensa e no restante da mídia, foi uma verdadeira operação de marketing governista. E com Levy onipresente, com sua fala mansa e pontuada de diminutivos repetida nas manchetes e programas, como um mantra de convencimento coletivo, expressando a “certeza de que todo mundo está disposto” a pagar “um pouquinho mais de imposto para o Brasil ser reconhecido como um país forte”.



Não é este o espaço apropriado para o debate acerca da atual questão dos impostos no Brasil [já o esbocei em outra ocasião], tampouco de desenvolver análises sobre a irônica contradição de um economista formado na Escola de Chicago e tido como neoliberal ortodoxo tornar-se publicamente conhecido por defender aumento de impostos. No âmbito deste artigo, importa, em primeiro lugar, assinalar que tais dados denotam o quanto, no caso em questão, o comportamento da mídia em relação a Levy - e ao governo que ele representa - contradiz frontalmente a oposição binária e automática entre este e aquela que as hordas governistas vivem a bradar e o emprego generalizado do termo “PIG” presume.







Razões do alinhamento

Em segundo lugar, faz-se necessário examinar as as razões pelas quais a a mídia, neste caso, contraria uma alegada ojeriza ao governo Dilma e se torna sua parceira em uma espécie de movimento em prol da colaboração de todos para o ajuste fiscal. Uma hipótese provável é que, ao endossar o aumento generalizado de impostos preconizado por Levy, os grupos de mídia estariam expressando, uma vez mais, a posição dos setores da elite que repelem medidas como a taxação efetiva de fortunas ou de transações que afetem o rentismo.



Desta forma, o jornalismo, que historicamente alardeia para si o dever iluminista de informar ao povo, prefere cometer um grave desvio de função e associa-se ao governo petista numa operação cuja própria natureza classista é dissimulada e que visa promover a transferência do ônus da crise para os cidadãos. Assim se explica o quase unânime endosso midiático ao pragmatismo de Levy, cujo discurso coletivista aparentemente simples oculta uma engenhosa fórmula para manter os lucros do mercado financeiro e das classes mais abastadas ao abrigo da crise, ao passo que faz a população arcar não só com o ônus cotidiano desta, mas com o cumprimento das metas que o mercado impôs para superá-la.







Questões em aberto

Tudo somado, resta a pergunta: como acusar de golpista uma mídia empenhada em uma operação para convencer a população a se sacrificar ainda mais, pagando impostos ainda maiores, para que o governo Dilma Rousseff - o qual alegadamente odeia – tente cobrir o rombo de R$50 bilhões que, pela própria incompetência, legou ao país?



Ou, posto de outra forma: quando será que aqueles que acreditam no mito do “PIG” vão demorar para se aperceber de que não há porque a mídia ser golpista contra um governo que, em plena crise, pune trabalhadores e aposentados enquanto preserva o mercado financeiro e as grandes fortunas?






Segunda versão de artigo publicado originalmente no Observatório daImprensa.

(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

De greves e golpismos

O direito à greve é uma conquista dos trabalhadores que levou séculos para ser obtido e que demandou muitos embates ideológicos e físicos, muito sangue derramado, para se concretizar, no início exclusivamente – porém de modo não universal – em setores em que as relações de produção dependiam muito de mão-de-obra, notadamente o industrial.

Ainda assim, nessa trajetória marcada por variadas táticas de persuasão e pressão, de lado a lado, entre trabalho e capital, e por calorosos debates – como o que opôs Marx e o anarquista Bakunin, defensor da greve geral -, é só na segunda metade do século XX, no bojo da instauração dos Direitos Humanos universais, que o direito à greve se consolida e se difunde para além do mundo ocidental desenvolvido.

Tal histórico ajuda a entender tanto porque o poder de pressão das greves quanto o protagonismo público dos sindicatos – uma força política central, em boa parte do mundo, durante a maior parte do século XX – entram, de maneira geral, em crise a partir do final dos anos 80, quando coincidem a instauração do neoliberalismo e o salto qualitativo da revolução da tecnologia digital e da robótica, fazendo com que, respectivamente, os universos financeiros e midiáticos passassem a dominar a arena pública e centenas de milhões de empregos fossem substituídos pela automação.


Sindicalismo, Estado e Política
No Brasil, houve, desde as primeiras greves do início do século XX, comandadas por imigrantes italianos anarquistas, uma forte confluência entre sindicalismo e política, exemplificada particularmente por dois momentos históricos distintos: o primeiro no hiato 1931-1964, em que, após tomar corpo sob auspícios estatais (sindicatos oficiais, criação do imposto sindical) na era getulista, enfrenta altos e baixos, se amplia, diversifica e intensifica sua ação nas décadas seguintes, até ser brutalmente reprimida pela ditadura – que, já em 1964, teve os líderes sindicais entre seus primeiros alvos.

Já a insurgência dos metalúrgicos de São Bernardo dos Campos nos anos 1970 vai demarcar justamente a confluência entre a luta trabalhista e o combate à ditadura. Seguida pela greve na Companhia Siderúrgica Nacional, na década seguinte, viria a exercer profunda influência na vida política do país, estando na raiz tanto da fundação do PT – partido que surge da aliança entre classe trabalhadora e intelectualidade, como o demonstram o fato de que sua primeira ficha de inscrição foi assinada pelo crítico de arte Mário Pedrosa  e que contava com o apoio de luminares uspianos, como Antonio Cândido – quanto do surgimento de Luiz Inácio Lula da Silva como figura nacional, que logo se tornaria emblemática da “nova esquerda” (dentro de uma perspectiva que compreende uma figura como Leonel Brizola como pertencente à “velha esquerda” que fora derrotada pela ditadura).

Essa confluência entre luta antiditadorial e movimentos grevistas talvez ajude a explicar porque consolidou-se, nos meios progressistas, uma certa tolerância ao recurso à greve mesmo por categorias profissionais que a Constituição vigente considera impedidas de exercê-lo, como é o caso dos policiais militares.


Greve sim, banditismo não

O movimento protagonizado pela PM baiana nos últimos dias, no entanto, extrapola os limites do tolerável por caracterizar-se não como uma paralisação legítima, mas por atentar contra o próprio instituto da greve, extrapolando-o a favor um verdadeiro banditismo praticado com fardas e armas oficiais, “tocando o terror” contra os cidadãos. Parafraseando Chico Buarque, “chama o ladrão, chama o ladrão”.

Agrava ainda a mais o problema a comprovação de que as suspeitas sobre a orquestração politiqueira do movimento são reais e têm graves implicações políticas – como se pôde constatar em reportagem vinculada ontem, no Jornal Nacional, cujo inaudito vigor jornalístico não disfarça o esforço de livrar a cara dos partidos conservadores, responsabilizando a oposição à esquerda.

Claro está que a documentada orquestração vai além de uma em si questionável estratégia interestadual para deflagração de greves em outros estados, como forma de pressionar o Congresso pela votação da PEC 300 (que estabelecerá o piso nacional da categoria); seu objetivo precípuo – e inconfessável, pois situado fora dos limites legais da democracia representativa - é, na verdade,minar politicamente a presidência de Dilma Rousseff , responsabilizando o governo estadual por um “crescente” caos na segurança pública provocado pela propagação de greves da PM em vários estados da federação.

Antes de analisar esses graves fatos, é preciso examinar responsabilidades e erros estratégicos dos governos estadual e federal na condução do caso, não só porque, como observa o professor e blogueiro Chico Bicudo, não cheira bem a “tentativa de blindar e de santificar o governador Jaques Wagner, só porque ele é do PT” e devido ao fato de que ocultá-los não é saudável para a democracia e a verdade histórica, mas para que não venham a se repetir. .


Reação morosa
“Velho amigo de Wagner desde a primeira campanha presidencial de Lula, em 1989”, o neste caso insuspeito Ricardo Kotscho aponta que o governador baiano foi imprudente em, estando certamente informado da possibilidade de greve, não só não ter agido a contento, mas ter abandonado o estado para incorporar-se à comitiva da viagem oficial de Dilma a Cuba – uma falha que se agrava quando se leva em conta que, como lembra Kotscho, a própria origem de Wagner é o sindicalismo. Além disso, mesmo quando de volta à capital, seu tempo de reação foi claramente inferior àquele demandado pela urgência da situação.

Assim, “a sensação que fica é de uma mistura de soberba com descaso e desdém, algo como 'vamos empurrar com a barriga, não vai dar em nada, deixa estar para ver como é que fica'”, assinala Bicudo. Agrava tal impressão a amnésia seletiva em relação à greve da PM promovida pelo partido em 2001, quando era oposição, e a insistência em jogar na conta do carlismo a conta dos revezes na segurança pública. A esse respeito, em artigo significativamente intitulado "ACM já morreu",  pergunta a jornalista Cynara Menezes:

“Que a polícia baiana é truculenta, todo mundo sabe. O problema é fazer pouco ou nada para mudar isso. Até quando os petistas, no poder no Estado há cinco anos, irão dizer que qualquer questão envolvendo a Polícia Militar é resultado dos desmandos de Antonio Carlos Magalhães? Chega de governar olhando o retrovisor.”
Convém ainda frisar que, ao contrário do que a militância chapa-branca nas redes sociais quer fazer crer, a comprovação da manipulação politiqueira e de má-fé da greve da PM não anula as falhas de Wagner na administração do processo.  Parafraseando e wxpandindo o provocativo convite à reflexão com o qual Chico Bicudo encerra seu referido post, já imaginaram se a a PM paulista entrasse em greve e Geraldo Alckmin reagisse do modo errático como Jaques Wagner reagiu, o que estaríamos escrevendo nos blogs e redes sociais?


Ausência de malícia
Embora a rigor correta e bem-intencionada, é preciso também tecer algumas considerações acerca da conduta do governo federal no caso, já que ela acabou por colocá-lo em uma posição vulnerável, a mercê de golpes abaixo da linha da cintura (ou seja, que jogam às favas qualquer republicanismo) das oposições e da maior parte da mídia e, em decorrência, presa de um jogo de manipulação da opinião pública.

Pois a ânsia do governo Dilma em evitar reveses eleitorais para o aliado acabou por chamar para si parte considerável da responsabilidade pela resolução do conflito. É louvável que tenha agido com presteza no cumprimento do dever de fornecer segurança a uma população momentaneamente sujeita não somente à inação das forças policiais estaduais, mas a atitudes criminosas por estas protagonizadas.

Faltou, no entanto, tato político para impedir  que o envolvimento de tropas federais se transformasse, aos olhos do público, em obrigação de assumir o ônus da situação – e de todos os erros, desmandos, hesitações e retrocessos a ela inerentes.  

Trata-se de duas coisas distintas, já que, constitucionalmente, o comando das polícias militares e civis pertence à esfera estadual. No entanto, o crônico problema de comunicação do governo federal, o excesso de declarações - incluindo, como observou Walter Maierovitch, "um ministro da Justiça que diz obviedades ('não serão admitidos crimes e violências') (...) e um penduricalho denominado Secretaria Nacional de Segurança Pública" -, somados à manipulação dos fatos por uma mídia corporativa que, no mais das vezes, age como partido de oposição, facilitou tremendamente a tarefa partidário-midiática de jogar a bomba no colo de Dilma Rousseff.

Tal operação colocou o governo em uma posição potencialmente frágil, a partir da qual a geração de crises de segurança pública em âmbito – e, teoricamente, sob responsabilidade – estadual pode vir a atingi-lo pesadamente. É precisamente essa vereda que os partidos de oposição à direita  - auxiliados por um partido que se diz de esquerda mas atua como linha-auxiliar da pior direita - dão mostras de querer explorar, apostando numa escalada de movimentos grevistas das PMs estaduais e confiantes na falta de conhecimento popular sobre o pacto federativo.


O fator militar
O incitamento ao terrorismo de forças policiais militares contra a população e contra alianças políticas eleitas é incompatível com a democracia. É em nome do Estado Democrático de Direito – e não do mandato do partido X ou do partido Y – que é urgente que o governo Dilma Rousseff lance mão, com determinação, dos recursos legais e executivos cabíveis para por fim não apenas ao ato de banditismo ocorrido na Bahia, mas da conspiração golpista de âmbito nacional que, instrumentalizando a peculiar posição institucional da PM, se delineia a partir da ação – fora dos limites da democracia representativa - tanto da direita quanto da esquerda que a direita adora.

Se greve e política são indissociáveis, no caso do movimento dos PMs baianos - bem como da corrente ameaça de paralisação de seus colegas fluminenses - ao fator greve (de um serviço público essencial) vem a se somar o potencialmente explosivo fator militar – o que evidencia, uma vez mais, a necessidade de desmilitarização da polícia, como defendi em post recente).

Convém, ainda, nunca esquecer que, no Brasil, o fator sindical e a sublevação militar estiveram no cerne das motivações que depuseram o último presidente a ousar medidas progressistas, antes de ser deposto pelo golpe de estado que deu início a uma longuíssima e tenebrosa noite política.

Eram, certamente, outros tempos. Mas, particularmente neste caso, é prudente levar em conta a experiência histórica, pois a apropriação, pelas forças oposicionistas, do às duras penas conquistado direito de greve como meio de concretizar desejos golpistas contra um governo democraticamente eleito demonstra, de forma cabal, que é preciso agir com determinação para que aos erros pregressos não seja dada a oportunidade, ainda que farsesca, de repetição.


(Foto da primeira greve geral no Brasil, em 1917, retirada daqui)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O golpismo em plena gestação

Recebo de um querido amigo, que sempre me pareceu apolítico e a quem, para minha grande alegria, reencontrei depois de anos, a mensagem-corrente que reproduzo a seguir. Intitulada "ONDE ESTÃO "AS MENINAS DO JÔ"? NÃO DEIXE DE LER".

Ela explicita o grau a que chegou o desespero eleitoral e a falta de escrúpulos da oposição. O texto está entre aspas e meu comentários em amarelo.

"LEIA, REFLITA E ENCAMINHE ESTE DEPOIMENTO A TODOS OS SEUS CONTATOS, POR AMOR AO BRASIL.

A COISA ESTÁ FICANDO PRETA. PATRULHAMENTO GERAL

O primeiro jornalista a sofrer cerceamento do direito de bem informar, em consequência dos seus verdadeiros, contundentes e procedentes comentários contra os desmandos do atual governo, foi o Boris Casoy. De acordo com o noticiário da época, ele foi demitido a pedido do próprio Lula."

De início achei que se tratasse do episódio dos garis - em que foi Bóris, após dar provas e seu apreço pelos menos favorecidos, quem pediu para sair -, mas não: refere-se à demissão da Record, em abril de 2006. Segundo a extremamente confiável opinião do próprio Casoy, ela teria ocorrido a mando de José Dirceu. Provas, indícios? Nadica de nada.
Agora, me explica uma coisa: se o governo conseguiu que Casoy fosse demitido da Record, porque deixaria que ele fosse contratado em seguida pela Band, empresa muito menor e mais fácil de pressionar?

"Entretanto aos olhos dos menos atentos, a coisa vem se agravando de maneira avassaladora e perigosa, senão vejamos: O Programa do Jô tirou do ar (sem dar qualquer satisfação ao público)o quadro "As Meninas do Jô" que era apresentado às quartas feiras onde as jornalistas Lilian Witifibe [sic], Ana Maria Tahan, Cristiana Lobo, Lúcia Hippólito e, por vezes, outras mais, traziam à público [sic] e debatiam todas as falcatruas perpetradas por essa corja de corruptos que se apossou do país."

Deixa eu ver se entendi: o fato de Jô Soares, notório entusiasta da administração petista, não ter dado satisfação ao público por retirar do ar um debate tão profundo e isento é sinal de autoritarismo de Lula? Ô, Jô, deixa de ser comunista, rapaz.

"As entrevistas sobre temas políticos não têm sido mais levadas a efeito atualmente.
Virou um programa de amenidades e sem qualquer brilhantismo".

Não sei a que canais o brilhante redator assiste, mas desconfio que ele se refere ao programa do Serra.

"O jornalista Arnaldo Jabor, considerado desafeto pelo governo atual, vem sofrendo, de forma velada e sistemática, todo tipo retaliação. Já foi processado, condenado, amordaçado e por aí vai".

Amordaçaram o Jabor? Têm certeza de que não foi algum fetiche mais intenso do rapaz? E quer dizer que o cara foi processado, condenado e... AMORDAÇADO - por quem mesmo? - mas a retaliação é "velada"? Imagino o que aconteceria com o coitado se a retaliação fosse explícita.

"Sua participação diária, às 07:10 na Rádio CBN tem se limitado a assuntos sem a relevância que tinha, haja vista que está impedido de falar sobre assuntos que envolvam a política nacional e o atual governo".

Impedido por quem? (deixa eu tentar adivinhar: pelo Lula, que manda também na Globo?) Por que só ele teria se calado e os outros continuam descendo a ripa? Será que não foi a iminência de uma surra vexaminoa da oposição que o teria feito perder a voz? (Até Arnaldo Bloch, "coleguinha" de O Globo escreveu uma coluna desabfando que não aguenta mais o pessmismo do ex-maior cineasta do Brasil (ele tem mais de 1,90m...)).

"A jornalista Lúcia Hippólito, que tinha uma participação diária, às 07:55 hs na Rádio CBN, não está mais ocupando o microfone da emissora como fazia e nenhum comunicado foi feito pelo âncora do horário, o jornalista Heródoto Barbeiro. Sorrateiramente, colocaram-na como âncora em outro horário, onde enfoca matérias mais amenas e sem a habitual, verdadeira e procedente contundência".

Enfim o Émile Zola de Belfort Roxo deu uma dentro: "puseram" a Lúcia na geladeira, como retaliação à reação dela contra o blogueiro da Veja. E quem é o patrão do blogueiro da Veja mesmo?

A tempo: e sobre a derrubada do Herótodo da bancada do Roda Viva, nem uma palavrinha?

"Diogo Mainard [sic], da Revista Veja, além de processado, vem sofrendo várias ameaças de morte por parte do jornal do MR-8 (que faz parte da base aliada ao Lula) e de integrantes dos chamados "Movimentos Sociais".

Processado? Mas que absurdo! Onde está o Estado Democrático de Direito? Como pode um jornalista, por expor de forma equilibrada e bem-fundamentada suas opiniões, sem JAMAIS incorrer em ataques pessoais, ser PROCESSADO? Mesmo que ele eventualmente se exaltasse (afinal, ninguém é de ferro) não poderia ser processado, pois a imprensa está acima a lei, não é mesmo?

O autor não dz, mas o jornalista Paulo Henrique Amorim, que processa Mainardi, certamente está agindo a mando de Lula, tá na cara, nénão?


"O jornal "Estadão" de São Paulo está sob forte censura governamental há pelo menos 300 dias. Pelo que se vê, Fidel Castro está fazendo escola na América do Sul. O primeiro a colocar em prática estes ensinamentos, aniquilando o direito de imprensa foi Hugo Chaves [sic, foi sem querer querendo], e pelo andar da carruagem o nosso PresiMENTE está trilhando pelo mesmo caminho."

Nossa, fiquei sem palavras ante tamanho autoritarismo. Manter um processo em sigilo de justiça, impedindo que se publique informações é coisa de país atrasado, como a Inglaterra e a Alemanha. E a culpa pela decisão da Justiça é, naturalmente, de Lula (aliás, PresiMENTE foi ótimo, você deveria se candidatar a redator do Casseta & Planeta).

Quanto a ANIQUILAR direito de resposta, o Gilmar Mendes, digo, o Chávez é mesmo um MONSTRO!

"Constitucionalmente:
Onde está o ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?

Onde está o
LIVRE DIREITO DE MANIFESTAÇÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE EXPRESSÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE UMA NAÇÃO?"

Aqui tinha um poema do Afonso Romano de Santanna sobre a mentira. Mas, em respeito ao poeta - que não tem nada a ver com o peixe -, o suprimi.

"ESSE TEXTO DEVE-SE TRANSFORMAR NA MAIOR CORRENTE QUE A INTERNET JÁ VIU, PARA QUE, NA ÉPOCA DAS ELEIÇÕES CONSIGAMOS FREAR A ESCALADA DO MAL!!!

ACORDA BRASIL, ENQUANTO É TEMPO, E REAJA".

Enfim - e agora falando sério - , o pseudo-sub-olavo de carvalho e eu concordamos em alguma coisa: acorda, Brasil, contra os manipuladores baratos, que não hesitam em lançar mão de calúnias e deturpações para divulgar suas convicções políticas.

Desperte, Brasil, contra os que atribuem até a autoria de atos sabidamente perpetuados por seu líder a Lula e à Dilma.

Erga-se, Brasil, contra aqueles que, numa era em que a imprensa negligencia os fatos e suas diversas interpretações e, assumidamente, faz o papel da oposição, difamando a granel e aplainando o terreno para o golpismo, tentam manchar a liberdade e a democracia vigentes.

domingo, 7 de março de 2010

Aniversário e convescote

Hoje faz um ano que este blog está no ar. Ele surgiu, como uma imposição íntima, em decorrência direta do protesto organizado por Eduardo Guimarães contra a Folha de S. Paulo e sua “ditabranda”, em um momento em que as recorrentes violações éticas da mídia ultrapassaram todos os limites.

Ele comemora seu primeiro ano de vida quando essa mesma mídia corporativa à qual a Folha pertence acaba de se juntar em um evento tão cômico quanto ameaçador. A máfia ítalo-americana costumava reunir-se em Cuba, em meio a daiquiris e praias tropicais, para tramar suas jogadas mais sujas e ousadas. A mídia brasileira, ainda mais jeca e alérgica a tudo o que seja tropical, prefere convescostes a R$500 a cabeça (não se assuste: só otários pagam, a maioria entra na faixa) em hotéis metidos a besta. Lá articula – em público, pela primeira desde 1964, como aponta o jornalista Gilberto Maringoni em artigo intitulado “O rosnar golpista do Instituto Millenium” – uma reação conjunta contra uma das candidaturas presidenciais – no caso, a de Dilma Rousseff (PT).

Isso não quer dizer, no entanto, que eles assumirão em seus veículos “jornalísticos”, de forma clara e transparente, a posição que fazem questão de ostentar através do convescote: a Folha continuará a se autodefinir como “Um jornal a serviço do Brasil”, a Veja como a principal e mais vendida publicação brasileira graças ao alegado alto nível profissional de seus colaboradores, e o/a Globo, assim como alega jamais ter deixado de cobrir as Diretas Já ou manipulado o debate entre Collor e Lula em 1989, continuará exaltando a imparcialidade inerente ao tal Padrão Globo de Qualidade. Não seria muito mais honesto se fizessem como alguns bons jornais norte-americanos e assumissem suas preferências eleitorais junto ao eleitor/telespectador? Esta é, aliás, uma das sugestões saídas do evento, mas quantos acreditam que será mesmo seguida?

No evento, ao menos dois dos palestrantes do evento – os inacreditáveis Demétrio Magnolli e Denis Rosenfied – fizeram acusações diretas ao PT relativas a seu suposto totalitarismo. Para o primeiro, que parece ignorar a revolução silenciosa que ora ocorre na internet, na difusão das pequenas e médias publicações no interior do país e nos Pontos de Cultura espalhados de forma capilar pelo território nacional, o partido “dá marcha a ré em todos os assuntos que se referem à democracia”. Já para o filósofo gaúcho, “"O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso” – o eminente masturbador mental não se preocupa em oferecer exemplos que permitam que sua afirmação peremptória soe como algo além de mero devaneio pessoal emitido por um ator político folclorizado pelo conservadorismo anacrônico de suas posições.

Não deixa de ser irônico que, como seus dois acólitos o demonstram, um dos sucessos da mídia brasileira em seu penoso estágio atual tenha sido, em conluio com o demotucanato, atribuir ao lulopetismo pendores autoritários – aos quais costumam se referir com a acusação genérica e conceitualmente imprecisa de “stalinismo”. Mas a verdade largamente comprovada por fatos históricos é que o PT nunca foi stalinista – muito pelo contrário, surgiu sindicalista e em oposição às linhagens soviéticas em confonto no interior do PCB, evoluindo, a partir dos anos 90, para uma espécie de social-democracia de resultados.

Também desconhece-se qualquer medida efetiva de cerceamento da liberdade de expressão durante a Presidência de Luís Inácio Lula da Silva. O único momento da história mais ou menos recente do pais em que houve, de fato, de forma inegável, censura institucional e sistemática – a ponto de destruir carreiras artísticas – foi durante a ditadura militar, notadamente no pós-AI-5. E quem apoiava tal regime? A maioria dos grupos de mídia presentes ao convescote – alguns inclusive com a cessão de carros para transporte de presos para a tortura - e os mesmos políticos do DEM (então Arena, depois PDS) que hoje berram ante qualquer proposta de regulação da atividade midiática. Será que não é evidente a contradição aqui, a sustentar o truque de acusar em outrem aquilo que o próprio acusador pratica?

Um dos recorrentes prolemas com o lulopetismo, em parte devido à concentração da mídia corporativa em mãos inimigas, em parte à crônica incompetência comunicacional própria, é a baixa capacidade de reação ante acusações e campanhas difamatórias. Cola-se com extrema facilidade no PT, em Lula e em membros do governo acusações que são claramente falsas. O exemplo acima é eloquente, com uma gritaria anti-autoritarismo petista ocultando, como tão bem diagnostica Luiz Egypto, a luta por manter a mídia acima da lei, livre para praticar um "jornalismo" que não atende nem à demanda pública nem à busca pela fidelidade aos fatos, mas tão-somente à satisfação de seus próprios interesses corporativos.

Assim foi também com o factóide desta semana - provavelmente o primeiro de uma escalada - , segundo o qual Lula licenciar-se-ia por 2 meses, sendo substituído durante tal período por Sarney. Desde o primeiro momento esteve clafro, para mim, tratar-se de um absurdo total, ao qual Lula, por consciência dos danos que tal ato poderia trazer a si e à sua candidata, jamais recorreria. Mas a “notícia” espalhou-se como rastilho: da coluna de O Globo para os blogs corporativos da empresa – que, numa clara orquestração, incluiu até os que cobrem segurança pública e cultura – e daí para os tuiteiros tucanos, os simpatizantes e os indecisos, todos a difundir freneticamente o que não passava de uma especulação sem valor jornalístico algum. E na sequência, como a corroborar a ideia de uma articulação conjunta, vem à tona a manchete de anos atrás requentada por Veja – que, de novo, tem feito muita gente boa cair como patinho.

Portanto, o segundo ano do blog começa com a perspectiva de uma disputa de baixíssimo nível à frente. Mas nossa intenção é de continuar, defendendo os valores que julgamos importantes - notadamente a ética no jornalismo e a prioridade ao social na política. E, quem sabe, como era a ideia inicial, inserir mais cinema, mais música e mais literatura nos posts, para a brincadeira ficar mais gostosa. Aos seguidores e seguidoras, agradeço pelo estímulo e reitero o convite ao diálogo.


(Imagem retirada daqui)