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sábado, 14 de novembro de 2015

Eleições argentinas: entre o medo e o humor

Quando eu era criança, nos anos 80, havia um comercial de vodca em que a qualidade do produto era ressaltada por alegadamente não causar ressaca: - “Eu sou você amanhã”, explicava um bem-disposto sósia de um sujeito sentado à mesa de um bar, antes de pedir ao garçom que substituísse o pedido que este acabara de fazer por uma dose da marca anunciada [assista aqui].

O slogan pegou e foi apropriado pelo jornalismo político em forma de um conceito (“efeito Orloff”) que se tornou corrente para fazer prognósticos e traçar analogias entre o Brasil e a Argentina: hiperinflação, escândalos de corrupção, a gangorra do dólar, planos econômicos mirabolantes – ao menos até a importação do receituário neoliberal, com Collor aqui e Menem lá, no início dos anos 90, ora um, ora outro, o que primeiro acontecia em um país acabava, de alguma maneira e guardadas as devidas proporções, por se reproduzir no outro.



Reversão de expectativas
A lembrança dessa anedota avivou-se por conta da repercussão, na imprensa argentina, do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, entre o até então favorito Daniel Scioli, da “Frente para a vitória”, apoiada pelo governo de Cristina Kirchner, e Mauricio Macri, herdeiro do menemismo e até há pouco prefeito de Buenos Aires, da aliança conservadora “Mudemos”.

Até as proximidades das eleições, a expectativa era de que Scioli seria eleito já no primeiro turno ou, na pior das hipóteses, iria com folga para o segundo. Após um atraso de horas na divulgação do resultado (não justificável apenas pela votação ainda ser feita na base de papel e caneta), que intrigou parte da mídia mundial e gerou boatos na internet, anunciou-se a vitória apertada do candidato governista: 36,86% versus 34,33% de Macri. Sendo que as pesquisas agora colocam o candidato da “Mudemos” como favorito.

Além da reviravolta na eleição presidencial, o peronismo perdeu dois de seus mais tradicionais feudos: as províncias (o equivalente a estados) de Jujuy e, pela primeira vez em 32 anos, de Buenos Aires, a mais industrializada e povoada do país, até recentemente governada por Scioli.

O jornalismo político falhou em antecipar o tamanho do prejuízo para o kirchneirismo.



Em busca de explicações
Passada a surpresa e, como de praxe, sem redimir-se de sua pontaria, os analistas começaram a produzir explicações para o fenômeno. No cada vez mais governista Página 12, em um artigo significativamente intitulado “A vingança dos portenhos”, o colunista Luis Bruschtein formulou uma tese que se tornaria corrente entre os partidários de Scioli:

Uma força política de portenhos de classe alta se impôs ao peronismo de trabalhadores e classe média baixa na província de Buenos Aires e conseguiu uma marca invejável em nível nacional. (...)

Houve nesta eleição um voto conservador que proveio de setores populares que ganharam em qualidade de vida durante esses anos, [voto] que também saiu de minorias sexuais ou de gênero que foram beneficiados por este governo, um voto que seduziu a grande quantidade de comerciantes e empresários que prosperaram de forma considerável nestes doze anos. Camadas médias que foram resgatadas da extinção por esse governo se voltaram para esse discurso que esconde as velhas politicas que as levaram à beira do precipício. Há um gesto de autoflagelação nesses setores seduzidos por um flautista de Hamelin que disse na campanha que estava de acordo com todas as medidas que votou contra.”

Como Bruschtein não explica por que razões a classe trabalhadora e as camadas médias se deixariam conduzir pela elite portenha, fica, além da concepção destas como politicamente acéfalas, incapazes de pensar e decidir por si próprias - e, portanto, à mercê do cabresto dos poderosos -, a impressão de que a explicação não passa de wishful thinking do jornalista. Agrava tal sensação a atenção nula que ele presta à hipótese, mais provável e passível de ser comprovada em dados oficiais, de que o agravamento da crise econômica durante o segundo governo de Cristina Kirchner teria afetado sobremaneira tais estratos sociais, corroendo, ao menos em parte, as melhorias que o próprio kirchnerismo anteriormente lhes proporcionara.



Fantasmas do passado
Na batalha entre as duas campanhas, ora intensa, chama a atenção, na estratégia do candidato do governo, o misto de artificialismo da polarização e ausência de relativização temporal: por um lado, fazendo uso de um “esquecimento do presente”, procura-se abstrair tanto a crise do país sob o kirchenirsmo, eternizado como benéfico e provedor, quanto o perfil intelectualmente deficitário e consideravelmente conservador de Scioli (candidato que, como reconhece o mais midiático dos historiadores argentinos, o kirchnerista Felipe Pigna, “está mais para a centro-direita dentro do peronismo”).

Por outro, a estratégia que vem sendo aplicada para criticar o candidato conservador não deixa de mostrar-se problemática: “Macri é a cara remoçada do menemismo”, define a crítica literária Adriana Persico, aludindo à combinação de insensibilidade social neoliberal e corrupção desmedida que caracterizou o período em que Carlos Saúl Menem habitou a Casa Rosada (1989-1999). “Cada cidadão tem a obrigação e a enorme responsabilidade de colocar sua memória a funcionar e decidir se quer voltar a esses terríveis velhos tempos”, prossegue ela.

Não obstante a justeza do alerta, a evocação dos fantasmas do passado, numa campanha conflagrada ao extremo, tem com frequência caracterizado Macri como uma retomada ipsis litteris do menemismo, Menem redivivo. Nesse sentido, Pigna é taxativo: para ele, o candidato representa “uma volta aos anos 90”, ideia que vem sendo martelada à exaustão pela campanha governista, sem qualquer ponderação ou relativização. Soa, assim, como se tal força política se tivesse mantido intacta por 16 anos, sem modificações ou nuances; a Argentina e o mundo dos anos 90 fossem idênticos aos de hoje, e a eleição do candidato da “Mudemos” significasse tão somente um resgate das políticas que Menem adotou durante seus dois mandatos, legando aos argentinos anos de caos econômico e debacle social.



Profetas do caos
Configura-se, desse modo, um cenário radicalizado, que o jornalista Juan Pablo Csipka, após elencar graves problemas tanto da administração Macri quanto do governo Scioli, declarar voto em branco e criticar a “demonização total e absoluta” contra Macri, assim resume:

Por um lado, a extrema idealização, se não de Scioli, ao menos do kirchnerismo. Por outro, uma vertente, vamos chamá-la de nacional e popular, de certo gosto amargo característico dos anos de fúria do menemismo (por exemplo, a campanha de 1995): “Somos nós ou o caos”. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra: nem Scioli nem o kirchnerismo são, a esta altura, alternativas antagônicas ao que pode fazer Macri [no poder]."
Ao final trata-se, em um e outro caso, de “Disseminar medo massivo porque oh, existe a possibilidade de alternância de poder”, ironiza, no Facebook, a escritora argentina Pola Olixarac, autora do celebrado “As teorias selvagens” (Benvirá, 2011).



Déja vu
Nós, brasileiros, já vimos esse filme. A referida tentativa de tornar indistinguíveis Macri e Menem, por exemplo, guarda evidente similaridade com os esforços do marketing governista para tornar indistintos Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, como se, 20 anos depois, o primeiro fosse reeditar o mesmíssimo governo do segundo – e com a mesma tragédia social resultante. A candidatura Dilma, por sua vez, à semelhança do que hoje a campanha de Scioli faz em relação ao kirchnerismo, dissimulou a crise que os economistas já então diagnosticavam encarnando uma versão idealizada do petismo no poder - reforçada por comerciais que vendiam um país paradisíaco, de comercial de margarina -, valendo-se assim, como no caso argentino, de um discurso do tipo “nós ou o caos”. Tática que serviu tanto para reverter a ascensão de Marina Silva e – ao bradar que ela tiraria comida da mesa do trabalhador para aumentar os lucros do Itaú - tirá-la do primeiro turno, quanto para fixar a ideia de que o candidato tucano promoveria um ajuste fiscal de inspiração neoliberal.

Dilma vitoriosa, o resultado, é forçoso notar, é que o tal ajuste ortodoxo, agora a cargo de Levy, tem imposto cortes profundos no Orçamento do país, com graves consequências para Educação e Saúde; e que o Itaú (assim como o Bradesco do conselheiro Trabuco) tem anunciado recordes sucessivos de lucro enquanto o desemprego atinge mais de um milhão de trabalhadores desde o início do ano. Pesquisas indicam que essa distância entre o prometido e o cumprido – que alguns chamam de estelionato eleitoral - está no cerne da perda de confiança popular no governo Dilma, expressada nos 70% que, segundo o Ibope, hoje consideram seu governo ruim ou péssimo. Se o efeito Orloff ainda vigora, fica o alerta aos candidatos argentinos.


Tática do espantalho
Tudo somado, tanto o desencanto popular com o governo Dilma quanto a reviravolta nas eleições argentinas parecem apontar para “a falência de um modelo de campanha eleitoral, extensamente usado pelo governismo brasileiro também: a política do "boogeyman" , do "cuco", como dizemos em espanhol ou, em bom português, a política do espantalho”, aponta Idelber Avelar, professor do Stone Center for Latin American Studies da Tulane University (EUA). “É a política limitada à demonização do adversário”, critica, arriscando um prognóstico: “Deu certo por pouco, muito pouco no Brasil 2014, graças à campanha mais suja da História. Não deu certo no primeiro turno argentino de 2015 e, pelo jeito, não dará certo no segundo. Não dará certo no Brasil-2018”.
 
Um grande diferencial em relação às tensas eleições brasileiras de 2014 está sendo o uso inovador do humor, através da "Campaña Bú - Con miedo votas mejor". Nela, a candidatura de oposição se reapropria do discurso kirchnerista que apregoa o caos se Macri vier a vencer, exagerando-o: ""Se Macri ganha, a mãe de McFly se casa com Biff"; "Se Macri ganha, Roberto Carlos não vai querer ter um milhão de amigos".



Vazio programático
Seja como for - e ressalvadas as notórias diferenças entre os governos Dilma Rousseff e Cristina Kirchner, muito menos contemporizador -, não apenas salta aos olhos a similaridade entre as práticas político-eleitorais nos dois países, mas entre a atitude, a estratégia e a argumentação dos setores midiáticos governistas brasileiros e argentinos em relação às respectivas eleições. A leitura, por exemplo, da cobertura que o outrora modelar Página 12 faz do pleito – escamoteando os graves defeitos do atual governo enquanto supervaloriza o tendenciosismo e a força da mídia e demoniza a classe média – parece demais, a um tempo, um déja vu e uma antecipação, respectivamente, dos diagnósticos e desculpas que os blogs e publicações petistas vêm fabulando sobre a presente crise do governo Dilma, e do tipo de argumentação a que certamente viriam a recorrer numa eventual derrota da candidatura Lula em 2018.

Trinta anos depois daquele icônico comercial de vodca, Argentina e Brasil bisam a dinâmica do “Eu sou você amanhã” através da substituição da autocrítica, do debate franco e da apresentação de programas e propostas de ação, em prol do marketing político mais cosmético e da mera desqualificação do opositor, transformado em inimigo – e os eleitores deste em acéfalos e ingratos. Evidência de que, se os dois países evoluíram ao superar o jugo ditatorial, ainda estão muito aquém do nível de práticas, propostas e comprometimento que a verdadeira evolução democrática demanda.


Versão ampliada de texto originalmente publicado no Observatório da Imprensa.
(Imagem retirada daqui)

domingo, 24 de junho de 2012

O golpe asséptico e suas ameaças

O golpe de Estado contra o presidente eleito do Paraguai, para além dos graves danos que causa à evolução da incipiente democracia do país – que até 1989 esteve sob a ditadura de Stroessner e desde então só elegera mandatários do partido de centro-direita Colorado, com exceção de Lugo -, abre um precedente perigoso e potencialmente ameaçador à normalidade democrática na América do Sul.

Tal constatação é corroborada por três fatores principais: o primeiro é a natureza cosmética da deposição de Lugo, um golpe de Estado travestido de impeachment, não obstante tratar-se de mera pantomima jurídica, com o raio de ação e o tempo disponível à defesa do acusado drasticamente limitados e armado com acusações baseadas em platitudes sem definição legal ou critérios objetivos de averiguação, tais como “mau exercício do governo”.


Guess who's coming to dinner?
A velocidade recorde com que os Estados Unidos, confirmando sua autoatribuída vocação de país defensor da democracia, reconheceram o novo governo de um golpista que atende pela sugestiva alcunha de Franco é um segundo elemento a caracterizar a quartelada civil paraguaia como ameaçadora à soberania sul-americana. O reativamento da Quarta Frota, as evocações cada vez mais frequentes à Doutrina Monroe e a tentativa recente - e malsucedida – de fincar uma base militar no Equador são representativas da atenção e das intenções do país mais bélico do mundo para com a região (leia texto de Azenha sobre interesses dos EUA no golpe).

Tanto mais pelo crescimento que ora se verifica, no subcontinente, no número de regimes, democraticamente eleitos, alinhados à centro-esquerda ou à esquerda bolivariana, ambos patrocinadores, em maior ou menor grau, de projetos políticos que implicam tanto na recusa à ALCA quanto ao fim do alinhamento automático e preferencial com os EUA. 

A tal configuração, que forma o último item de nossa lista tríplice, a quartelada que depôs Lugo (foto) se contrapõe como sugestão às forças conservadoras sul-americanas ora na oposição – e a seus parceiros transnacionais – de uma promissora novidade: a armação de cenários golpistas aparentemente assépticos, sem tanques na rua, a partir do conluio entre oligarquia, parlamentares e mídia.


Reações
Ante tal quadro, duas medidas se impõem como mais do que urgentes, necessárias: a reação ao golpe paraguaio, como forma de revertê-lo, restituindo a ordem constitucional; e a tomada das devidas precauções para impedir que conspirações similares tenham lugar nos demais países da América Latina.

Quanto à reação, é forçoso constatar que a janela de reversão imediata do golpe estreita-se à medida que o tempo passa, sobretudo se se leva em conta a rapidez com que ditas potências imperialistas do hemisfério norte vêm reconhecendo o novo regime. Mesmo com a reação enfática de Argentina, Venezuela e Equador – e com nota oficial firme e ponderada do governo brasileiro – a possibilidade de ver Lugo reempossado já nos próximos dias depende agora de uma combinação extraordinária de sucessos.

De qualquer forma, hoje ou em um futuro próximo, a reversão do quadro dependerá de uma ação coordenada entre os países com governos progressistas na região e as forças legalistas paraguaias visando, a um tempo, esvaziar a autoridade dos golpistas e construir meios de recondução e bases institucionais de sustentação a Lugo. Além do enfrentamento com os próprios golpistas e com a elite paraguaia, tal operação implica numa batalha surda com os EUA e em deparar-se com delicadas e potencialmente explosivas questões - inclusive algumas diretamente relativas ao Brasil, como no caso dos brasiguaios e dos “sacoleiros” - derivadas da permeabilidade das fronteiras paraguaias e do protagonismo da questão agrária no país, tema este analisado por Chico Bicudo.


Medidas preventivas 
Já em relação a medidas preventivas contra esse tipo de golpe low profile, afiguram-se urgentes ações em três frentes: no âmbito sul-americano, numa interação coordenada entre os governos progressistas da região no sentido de, com ações de inteligência, antecipá-las e as neutralizar e de, se mesmo assim efetivadas, agir pronta e conjuntamente para esvaziá-las e as reverter.

Já em termos nacionais, a mais efetiva medida contra anomalias golpistas é o reforço das instituições democráticas, notadamente assegurar-se de dar à Justiça, ao Legislativo e ao Executivo não apenas as melhores condições para o exercício de suas funções – e isso inclui a adoção dos métodos mais democráticos para eleição ou seleção dos cidadãos e cidadãs melhor capacitados a desempenhar tais funções -, mas a preservação do equilíbrio de relações o mais harmoniosas entre os três poderes.

Ademais -e ainda no âmbito das medidas institucionais anti-golpismo - a implementação do que Norberto Bobbio denominou Direitos Humanos de quarta geração acaba por implicar, além de numa vacina anti-golpismo (não fosse este, por definição, um ato múltiplo de violação de DHs), na necessidade de efetivação do esforço de superação positiva dos meios de participação popular na democracia representativa convencional, com o recurso a uma interação maior, mais frequente e mais efetiva dos cidadãos com os poderes constituídos, para além do momento de eleição.

Por fim, a terceira frente de ação preventiva diz respeito à mídia – talvez o mais urgente e danoso dos elementos potencialmente golpistas do cenário brasileiro, hoje.


O fator mídia
O comportamento da mídia brasileira quanto ao golpe em Assunção, em sua quase totalidade, veio a corroborar sua posição de defensora dos interesses das forças conservadoras, obedientes às regras democráticas ou não. As falas de personagens como Arnaldo Jabor ou Merval Pereira no sentido de, mais do que legitimar, enaltecer o golpe acabam, por sua falta de coerência e excesso de parcialidade, a deixar ainda mais evidente que eles – como tantos de seus colegas com assento na mídia corporativa - não passam de ventríloquos travestidos de jornalistas, a vocalizar um texto ditado pelo mercado e pela corporação que lhes paga o salário. E, assim, o apreço que tais corporações nutrem pela democracia se torna evidente.

Por outro lado, como demonstrado com o brilho costumeiro e de forma cabal por Dênis de Moraes no último encontro nacional de blogueiros, o Brasil encontra-se em um estágio consideravelmente mais atrasado do que vizinhos como Venezuela, Equador e Argentina no que concerne à regulamentação e à decorrente diversificação político-ideológica da mídia [em breve farei um post específico sobre sua apresentação no evento.] É preciso muita indulgência para não reconhecer que os governos Lula, com sua resistência passiva, e Dilma, com seus esforços de cooptação, se esforçaram pouco e avançaram menos ainda na democratização e na defesa da regulamentação da mídia.

Portanto, a questão midiática certamente se mostraria problemática na eventualidade agourenta de um dia sofrermos uma tentativa de golpe aos moldes em questão – dados o grau de penetrabilidade capilar interna de parte mídia brasileira e sua conformação como corporação transnacional, com um peso e um potencial danoso exponencialmente maiores do que ora se verifica no golpe no Paraguai. Desnecessário assinalar que este forma mais uma entre tantas razões a evidenciar a urgência e a centralidade da questão midiática no Brasil, e o quanto esta demanda uma imediata e condizente atenção.



Diferença de escala
Embora seja prudente tomar todas as medidas preventivas contra a disseminação de tal espécie de golpe, é preciso ter claro, no que nos tange diretamente enquanto nação, que o Brasil não é o Paraguai.

Pois uma análise sem preconceitos mas também sem ilusões mostra-nos, de forma clara, que, comparativamente, a situação institucional é bem mais frágil no país vizinho, devido a fatores diversos - em algum grau passíveis de serem atribuídas a uma herança histórica para a qual o próprio Brasil contribuiu, quase exterminando, com sangue escravo e a soldo da Inglaterra, a população masculina adulta paraguaia, num genocídio que muito deveria nos envergonhar (e que, por isso mesmo, alguns revisionistas tentam a todo custo desmentir). 

De qualquer maneira, o fato é que a fragilidade comparativa do país vizinho é hoje gritante no tamanho da economia e na decorrente volubilidade econômica; na cultura política construída num contexto de redemocratização tardia e precária, virtualmente monopolizada pela centro-direita e marcada por episódios golpistas mais ou menos recentes - além, sobretudo, da pobreza e da miséria brutais as quais está submetida, sem colchões assistenciais efetivos, a grande maioria da população paraguaia. 


 Tais constatações, não obstante lamentáveis, se contrapostas às mostras de resilência da democracia brasileira nas últimas décadas permitem, mesmo reconhecendo que esta está longe de poder ser considerada avançada, identificar diferenças de escala entre um e outro modelo político-institucional e de estágio entre graus de evolução democrática..


No pasarán
Esta é uma razão a mais para que, embora, como já dito, devamos estar atentos para evitar ao máximo a possibilidade de que algo similar ao golpe paraguaio tenha lugar aqui, o novo modelo de insurgência das elites não possa servir para a defesa de uma postura ainda mais cordata e indulgente da esquerda em relação às forças conservadoras nacionais, impulsionada por tais temores golpistas.

Seria, na democracia, o pior dos cenários: na já excessivamente contemporizadora e, no sentido buarqueano do termo, cordial política brasileira, a inoculação do medo – e, pior, do medo golpista – como forma de impor alianças mais dilatadas entre progressistas e conservadores. Tal feito significaria não apenas a sujeição ainda maior a demandas regressivas, mas, assim, a promoção espontânea de um processo de indistinção entre esquerda e direita que só tende a beneficiar esta, enquanto descaracteriza aquela. (Não é mera coincidência que o golpe no Paraguai venha sendo utilizado nas redes sócias para justificar aliança do PT de São Paulo com Paulo Maluf, o que é o cúmulo do oportunismo – e não só porque o político em questão é, ele mesmo, produto de uma ditadura militar.)


(Imagens retiradas, respectivamente: daqui, dali, de lá e dacolá)

domingo, 10 de junho de 2012

A falência da Espanha e seus disfarces

A Espanha quebrou, faliu. Este é o fato, a terrível realidade que se esconde por detrás de uma operação discursiva que lança mão de termos amenos, humanistas e solidários como “ajuda”, “resgate” e “operação de salvamento”. 

Trata-se, na verdade, de uma intervenção na economia e na soberania espanholas, para benefício do mercado financeiro e com duras consequências para a população. 


Rajoy questionado
Tendo imposto suas demandas ao governo do conservador Mariano Rajoy sob sua relutância apenas aparente, a batalha que os arautos do neoliberalismo ora travam é de ordem discursiva: em primeiro lugar, trata-se de convencer os espanhóis que é não apenas aceitável, mas para seu próprio bem desejável que paguem, com carestia, desemprego, cortes nos salários, nas aposentadorias e no acesso a saúde e educação – em suma, com o que resta do Estado de bem-estar social à europeia – as dezenas (talvez centenas) de bilhões de euros que serão utilizadas para tirar as instituições financeiras do buraco por elas mesmas cavado.

A julgar pelas reportagens na imprensa espanhola, agora está ficando claro para muitos de seus ingênuos eleitores que Rajoy - que há dez dias declarou taxativamente que não haveria resgate aos bancos - mentiu. E, a bem da verdade, continua a fazê-lo, já que é lugar-comum entre economistas que cem bilhões de euros são um mero paliativo, e que o setor financeiro, com as cartas na mão, demandará de quatro a oito vezes esse valor para cobrir seus rombos - com a imposição dos cortes sociais correspondentes.
Não foi por falta de aviso


Consequências psicológicas
“A intervenção é um golpe psicológico que constitui um marco na história de nossas relações com a Europa. Em um país onde a identidade nacional e os sentimentos de autoestima coletiva têm estado sempre tão estreitamente vinculados aos feitos alcançados no âmbito europeu, custa crer que tenhamos chegado a este ponto. Entender como e por quê e o que ocorrerá a partir de agora mostra-se imprescindível”, aquiesce uma voz favorável ao "resgate".

Desse quadro decorre um segundo movimento da citada operação discursiva, desta feita para salvaguardar o orgulho nacional, que a menção à condição de quarta economia da Europa costuma alimentar. Nela pontifica, de novo, a promoção do contorcionismo verbal à maneira do 1984, de Orwell, com a adoção de uma novilíngua em que a tragédia torna-se pacto social; a bancarrota, ajuste mercadológico; a humilhação à soberania nacional, solução negociada com os parceiros de bloco.

Nós, latino-americanos, já vimos algumas vezes esse filme, porém em versões em preto e branco, do final do século passado. Trata-se, com o perdão pela redundância, de uma chanchada de má qualidade, protagonizada por canastrões, com um roteiro que tem sérios problemas de verossimilhança e, pior, não tem final feliz: os vilões vencem.


Espanha x Argentina
Essa autorreferência ao nosso continente nos leva ao terceiro movimento da estratégia discursiva neoliberal acima aludida, desta feita de caráter eurocêntrico e, naturalmente, pró-mercado, facilmente identificável no discurso da mídia brasileira relativo à crise espanhola: “Quando o resgate era de pais da periferia, a mídia chamava de falência, quebra. Quando é no centro: resgate, apoio, empréstimo. Ajuda”, resume o professor Emir Sader, em seu Twitter.

Convido os(as) leitores(as) a compararem o tratamento que essa mesma mídia deu ao default argentino – que se recusou a seguir as imposições do sistema financeiro internacional - e o enfoque que ora dispensa à quebra da Espanha – que segue à risca o que manda a Troika. Recomenda-se, ainda, daqui a algum tempo, quando tivermos elementos sobre os desdobramentos da obediência espanhola à banca, que também se leve em conta, nessa comparação, a situação do país ibérico e a da Argentina – que, malgrado todas as ameaças de danação eterna a que fatalmente estava condenada por ousar enfrentar a cartolagem, tem apresentado, sob um governo de centro-esquerda, um desempenho econômico superlativo em meio à crise.


Confusão conceitual
A persistência do neoliberalismo como modelo orientador das políticas econômicas da Zona do Euro - agravadas por sua prescrição como antídoto que só faz agravar sua maior crise, como se vê na Espanha - nos fornece a medida do quanto a constituição de blocos econômicos transnacionais, apregoada como imprescindível à sobrevivência na globalização, acabou por constituir-se em um fator determinante na submissão dos estados nacionais aos ditames do mercado financeiro.

No âmago de tal problema está uma confusão conceitual, intencionalmente inoculada pelos arautos do neoliberalismo quando da ascensão histórica deste, ao longo dos anos 80, sob os  os eflúvios de Thatcher e Reagan: a concepção de globalização e neoliberalismo como termos indissociáveis e, em larga medida, intercambiáveis, marcados por uma relação pela qual a primeira, por seu caráter estruturante, imporia a adoção de políticas econômicas nos moldes ditados pelo segundo, sob a ameaça de expulsão da então chamada “nova ordem mundial” e decorrente aniquilamento do país enquanto ente autônomo.

Essa confusão e essa crença são um lugar-comum na reflexão teórica sobre o período, levada a cabo inclusive por pensadores que continuam na linha de frente da crítica socioeconômica. É notável, no entanto, que tanto intelectuais brasileiros como Octávio Ianni e Milton Santos quanto uma certa tendência do pensamento franco-europeu agrupada em torno do Le Monde Diplomatique tenham desde sempre, em sua maioria, recusado a aferrar-se ao determinismo teórico do período. 


O retorno da soberania
Este, embora falho, é até certo ponto compreensível, posto que tardiamente desmentido factualmente. Pois, a rigor, a constatação de que a morte do Estado nacional era uma balela e que havia possibilidade de as nações, enquanto ente socioeconômico, sobreviverem – com crescimento, inclusão social e um Estado fortalecido, atuante e que conservasse um bom grau de independência a despeito da interdependência da economia global– só tem lugar com a ascensão e o sucesso das administrações de Lula, Chávez, Kirchner, Morales, Corea, entre outros - e, em alguns casos, de seus sucessores.

Assim, ainda que devamos ter muito claros a persistência insidiosa do poder neoliberal sobre tais administrações e os limites e eventuais equívocos e desacertos destas – como a insensibilidade do governo de Dilma Rousseff para com as demandas do funcionalismo público, que ora fornece um dentre tantos exemplos possíveis -, é preciso atentar com limpidez para as conquistas e as possibilidades propiciadas pelo realinhamento político-ideológico promovido pela democracia brasileira na última década -e lutar para efetivá-las e ampliá-las.

O povo espanhol, por sua vez, já promete voltar a tomar as ruas e a Puerta del Sol, em protesto. Suerte.


(Foto que encima o post retirada daqui ; as demais, daqui)