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quarta-feira, 3 de junho de 2015

Os frutos do conservadorismo

A aprovação do governo Dilma cai ao seu menor nível, atingindo 13% no Datafolha, 12% no Ibope e, segundo informações confirmadas por fontes palacianas, menos de um dígito em pesquisa interna do governo - conforme relata, entre outros, o colunista Gerson Camarotti.

Um índice tão ínfimo indica que não se trata mais, apenas, de reações gerais ao desempenho do governo em tópicos como economia, ética ou Educação. Tamanho recuo vem sendo acompanhado de um processo de desencanto até de petistas e simpatizantes para com o petismo, perceptível tanto entre [ex]petistas históricos quanto em eleitores mais recentes, que deram em 2014 seu voto a Dilma.

Parece que finalmente a ficha caiu quanto à irreversibilidade da guinada conservadora empreendida pelo petismo e quanto à consumação do estelionato eleitoral tornado efetivo na escolha deliberada de Kátia Abreu e de Levy no ministério e na adoção de um choque anticíclico tipicamente neoliberal - por meio do qual o povo, com seus empregos e carestias, arca com ônus da crise, enquanto a elite continua a se locupletar, sem que sequer as grandes fortunas sejam taxadas.

Mais do que de uma radiografia do momento, talvez estejamos diante de um fenômeno cada vez mais recorrente e abrangente: a constatação (tardia mas generalizada) de que o alegado esquerdismo que o PT um dia simbolizou acabou por transmutar-se, após mais de doze anos no poder, em uma hegemonia conservadora inédita em períodos não ditatoriais. E que, ao contrário do que se poderia supor, a esquerda se encontra hoje imobilizada, presa a um vácuo de poder.

Não se trata, de forma alguma, de uma novidade para os que há mais de uma década vêm acompanhando política brasileira sem a vista distorcida pelo veneno do fanatismo político-partidário. Porém, para os que se deixaram inebriar pelo ufanismo mitômano reinante no periodo, açulado noite e dia por arrobas militantes, pagas ou não, a volta à realidade pode se mostrar brutal. Mais alto o coqueiro, maior é o tombo, diz o samba.

Com efeito, o que alguns analistas teimam em nomear como uma guinada súbita à direita tem sido, clara e tão somente, o agravamento, o ápice de um processo inerente à história da relação entre o petismo e o poder.

A bem da verdade, a “guinada à direita” começou lá atrás, nos pactos entre José Dirceu e o mercado financeiro e na transformação do Lula agressivo e desgrenhado no Lulinha Paz e Amor, criatura que o marketing de Duda Mendonça tornou palatável a setores da classe média.

A esses estratagemas iniciais – que muitos julgaram tratar-se de meros truques para tomar o poder para, aí sim, impulsionar uma agenda de esquerda, seguiram-se muitos outros, que acabaram por sepultar qualquer ímpeto reformista e solidificar o poder dos setores que o petismo afirmava querer combater. Entre tais estratagemas, destacam-se:

      1. A rendição preliminar ao mercado financeiro simbolizada na Carta ao Povo Brasileiro (publicado pela candidatura Lula em 2002);
      1. O elasticismo aético de sucessivas alianças ditadas por uma realpolitik forte em pragmatismo, mas rasa em compatibilidade ideológico-programática;
      1. A opção pela inclusão social via aumento do consumo (e, como bem assinalou Frei Betto, de consumo individualista de bens materiais, não no aumento qualitativo do capital social em Saúde e Educação);
      1. O genocídio dos povos indígenas, vítimas diretas de tal modelo de desenvolvimento;
      1. A repressão brutal, via Força Nacional - e o endosso à ação violenta, através da concessão de armamentos e know-how militar aos estados - contra cidadãos e cidadãs que ousaram exercer seu direito constitucional ao protesto público. O resutado: presos políticos em (alegada) plena democracia;

      2. A substituição, no interior do PT, da democracia partidária pelo dedazo e do debate e construção social de um projeto de país pela adesão ao marketing político tão milionário e pragmático quanto falso e inescrupuloso;
      1. O sacrifíco de qualquer compromisso, de qualquer ideologia, de qualquer escrúpulo, da própria política, em nome do poder a qualquer custo;
      1. A renúncia sucessiva a bandeiras históricas da esquerda e do próprio PT, tais como reforma agrária, regulamentação da mídia, questionamento da dívida externa, recusa ao neoliberalismo e combate à privatização.
Cabe ressaltar que essa lista é apenas um apanhado geral, a título de exemplo, de práticas políticas claramente caracterizadas como retrógradas e incompatíveis com um ideário de esquerda. Não foi incluída uma vírgula sobre temas de suma importância eem relação aos quais há graves problemas, como a corrupção ou a situação do combate à miséria e à fome, a grande bandeira petista que ora vivencia um retrocesso, pois a inflação e adiminuição da atividade econômica têm feito com que milhares de famílias estejam voltando a ocupar os estratos mais desfavorecidos da pirâmide social brasileira – um fenômeno que tende a se agravar muito com os efeitos do corte no Orçamento.

Note-se que também não foi sequer citada a relação de negligência sistemática entre o PT no poder e as pautas da biopolítica – relação esta sempre mediada, nos últimos 12 anos e meio, pelos interesses da bancada religiosa da aliança governista.

É mister, ainda, constatar que um olhar mais detalhado em torno de temas como Educação e Saúde haveria de constatar a prioridade ao lucro privado em detrimento do bem público, além da eterna supremacia do improviso sobre o planejamento estratégico, característica marcante da ação política no Brasil, da qual o PT não conseguiu distinguir-se, muito pelo contrário.

Tudo somado, a necessidade de se repensar criticamente o legado petista, sem os subterfúgios do fanatismo autêntico ou patrocinado, se impõe como necessária tanto para a retomada da capacidade de ação do poder público enquanto ente de transformação social quanto para a recosntrução programática das esquerdas.

domingo, 9 de junho de 2013

A queda de Dilma

Os índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff caíram pela primeira vez desde a posse, assegura o Instituto Datafolha, cujo passado demanda cautela. Não obstante o ineditismo, foi uma queda expressiva: dos 65 pontos em março, Dilma despencou oito e agora 57% dos entrevistados avaliam seu governo como "ótimo" ou "bom" – um tombo percentual de 12,3%, ou seja, em três meses perdeu quase um oitavo dos antigos apoiadores.

O resultado, que deveria acender a luz de alerta no QG governista, foi recebido nas redes sociais com o misto de transferência de culpa (acusando o "PIG" ou a Secom que o sustenta) e tentativas diversionistas (como destacar que "Aécio só cresceu 4%") que já se tornou rotina entre a militância virtual. Trata-se de um tipo de reação que cria um círculo vicioso o qual superdimensiona o poder da mídia, bloqueia a autocrítica e, assim, tende a retardar ou dificultar que o governo detecte e quiçá corrija seus erros - em um processo que pode vir a ser particularmente danoso em uma batalha eleitoral intensa como a que o país está prestes a assistir.



Reversão de expectativas
Ainda segundo o Datafolha, no centro dos motivos para a queda de Dilma estão as expectativas quanto à economia – notadamente inflação e desemprego -, as quais refletem que parcelas do eleitorado tornaram-se menos otimistas ou mesmo receosas.

A resposta-padrão para tal questão provavelmente será que não há razões para pessimismo, já que tanto o desemprego quanto a inflação se encontram dentro das metas estabelecidas pelo governo. Ainda que eventualmente correta, não é, como demonstra a pesquisa, uma resposta que satisfaça a todos. Em relação ao desemprego isso se dá - entre outros fatores que abordarei em um post futuro sobre o tema - pelo fato de que há uma enorme discrepância entre o "pleno emprego" que a atual taxa de 5,7% sugere e o número real de pessoas desempregadas no Brasil, distorção esta causada por uma fórmula de cálculo oficial que privilegia a relação entre a população economicamente ativa e a população em idade ativa e, assim, acaba por negligenciar uma série de fatores educacionais, sazonais, etários e mercadológicos que, se devidamente computados, aumentariam exponencialmente a porcentagem real de desempregados do país.

Ignorante ou indiferente à frieza otimista dos números, mas sentindo de perto e ao redor os humores do mercado de trabalho, parte do eleitorado já percebeu - no aumento expressivo de pontos comerciais fechados porque os alugueis subiram a um ponto intolerável, na quantidade de conhecidos desempregados ou subempregados, no aumento de notícias sobre desemprego em sincronia com a diminuição dos anúncios de novas vagas - que os ventos do mercado de trabalho já não sopram como antes ou como apregoam os meteorologistas governamentais.



Feels like...
Quanto à inflação, é preciso ter claro que, para além de fenômeno econômico strictu sensu, ela não se limita ao que dizem os índices oficiais – antes se constituindo através de uma percepção social algo difusa. Assim, por mais bem-sucedido que o governo Dilma esteja sendo em seu esforço pra reduzir os índices oficiais de inflação - através de estratégias como isenção ou desoneração fiscal de itens que influenciam o cálculo do índice – e que estes sejam os números que serão brandidos na campanha eleitoral, a percepção de muitos brasileiros quanto ao aumento dos preços, neste momento, não corresponde à estabilidade fria das estatísticas.

Pode-se arguir que parte dessa percepção popular de que os preços estariam aumentando muito advém, justamente, de uma intensa campanha midiática no sentido de propagar a volta da inflação, campanha esta simbolizada no tomate – que atingiu picos de preço antes de regredir a um valor mais baixo. Penso que em alguma medida a campanha midiática possa estar surtindo efeitos, mas resisto a atribuir-lhe o ônus pela queda de Dilma, e por três motivos: o primeiro é que, como as três últimas eleições presidenciais demonstraram, o povo não parece estar dando muita bola para as campanhas da mídia, sejam estas factoides ou não. O segundo é que a mídia não criou do nada uma campanha negativa, e sim baseou-se em um fato: a ocorrência de uma percepção generalizada de aumento de preços (eu mesmo cheguei a ver o quilo do tomate sendo vendido a R$10,00 numa feira livre em São Paulo), a qual certamente procurou amplificar.



A gente não quer só comida
Mas é o terceiro fato que, feitas as reservas de praxe, reforça a possível acurácia da pesquisa Datafolha: a percepção, pessoal e de praticamente todas as pessoas com quem convivo em diversos ambientes, socioeconomicamente heterogêneos - colegas, amigos, familiares -, de que houve uma brutal escalada de preços entre o fim do ano passado e o momento atual. Alguém pode argumentar que esta percepção, além de intrinsecamente subjetiva, não é corroborada pelos índices oficiais, o que é verdade. Mas isto se dá porque, por um lado, como já explicado, houve manipulação dos impostos referentes aos produtos de maior "peso" no cálculo do índice, de modo a reduzi-lo; e, por outro lado, porque foi o preço de uma série de produtos supérfluos que pouco ou nada influenciam na constituição do índice o que subiu consideravelmente.

Os exemplos são vários e vão de chocolates a iogurtes, de cerveja a refrigerantes e sucos, de comida congelada a biscoitos, de diárias de hotéis a menus de bares e restaurantes. Em relação a tais produtos, os preços muitas vezes dispararam nos últimos meses – e a grande maioria das pessoas que sustenta uma casa pode facilmente constatar isso. Eu não estranharia se, em acordo com a atual moda de malhar a classe média - particularmente ativa entre a brigada governista -, alguém argumentasse que são todos produtos supérfluos e não gêneros de primeira necessidade. De fato. Mas uma das mais alardeadas conquistas da Era Lula/Dilma tem sido justamente a ascensão da classe D, inúmeras vezes representada pela alusão ao fato de que agora estavam, pela primeira vez, consumindo iogurte e refrigerantes, fazendo viagens aéreas e turismo, indo a restaurantes.

Negligenciar o sentimento difuso de que as classes médias, hoje, sentem-se premidas a apertar o cinto e temem perder acesso a esse admirável (ainda que modesto) mundo novo do consumo, temor este refletido na queda de popularidade de Dilma, e trocá-lo pela frieza dos números arranjados ou pela atribuição de culpa ao tal de "PIG", corresponderia a submergir numa bruma de autoilusão que pode ser danosa às pretensões eleitorais da aliança petista.



Cenário eleitoral
Na projeção que o Datafolha faz para as eleições, Dilma Rousseff teria hoje 51% dos votos (há três meses tinha 57), contra 16% de Marina Silva (estável desde março) e 14% de Aécio Neves (que cresceu quatro pontos no período, durante o qual gozou de destaque na mídia). Tais índices, como se vê, asseguram uma liderança folgada a Dilma, mas é importante observar que a erosão, em apenas três meses, de quase 1/8 de seus eleitores ante uma crise econômica que sequer entrou nos radares oficiais, situando-se por enquanto no âmbito da percepção popular, deixa claro o quanto tal eleitorado é volúvel em relação à economia, na qual o governo Dilma fez todas as suas apostas, aderindo às privatizações que tanto criticou no período eleitoral e apostando em um modelo de desenvolvimento a qualquer custo, opções que têm afugentado setores da esquerda antes simpatizantes do governo petista

A pesquisa delineia a hipótese,  que vem sendo há tempos aventada por este blog, de que uma eventual piora na saúde da economia possa afugentar o eleitorado dilmista de ocasião (conquistado nos últimos dois anos), em um cenário em que parcelas da esquerda que  apoiaram a aliança petista que elegeu Lula e Dilma já se encontrassem descontentes pela truculência, vazio ideológico e economicismo "de Brasil-Grande" que caracterizam a administração Dilma. Haverá tempo e disposição autocrítica para um rearranjo? Parece improvável.



(Foto de autoria de Beto Barata retirada daqui)